Pit-a-Pat

35 Capítulo XXXV


Notas iniciais
Boa noite meus amores!! Como passaram o Natal? Muitos presentes? Comida Boa? Já estão exautos na véspera da véspera do Ano Novo que nem eu que não saio da cozinha? Ueheueheueue Como promessa é dívida vim trazer o último capítulo do ano como um presente de Ano Novo. Eu preciso agradecer a vocês por tudo. Esse ano para mim foi um dos piores e se pudesse eu apagava ele da linha do tempo, mas vocês estiveram comigo, me entenderam quando eu tinha minhas crises e não conseguia escrever; me mandavam frases de apoio e se ofereciam para conversar comigo. Vocês deixaram meu ano melhor, e isso não tem preço. Vocês são maravilhosos. Obrigada de coração. Espero conseguir recompensá-los em 2019. Esse capítulo esta amorzinho. Um presente mesmo pra vocês começarem o ano com o peito quentinho. Boa leitura.

Will

~Capítulo XXXV~

:: 58º dia na Itália — Semana 8 ::

[...]

Will não dormiu direito à noite.

A conversa que teve com Nico no dia anterior o atormentava. Will não era o tipo de homem orgulhoso que não confessa seus erros, muito menos culpava os outros por seus defeitos. Quando Nico deixou seu escritório, depois daquela confissão aberta e clara, deitou a cabeça na mesa em frustração pensando no que fazer e suas melhores opções.

Nico compreendia os motivos de sua relutância e também entendia quando ele cedia e quando se fechava. Não era algo que Will tinha controle, seus momentos onde se sentia confortável e outros onde se sentia ameaçado por suas emoções eram aleatórias e esporádicas. O fato de não conseguir manter uma constância estava acabando com os dois. Nico se machucava pela incerteza, e Will sofria com seus conflitos internos.

Aquilo estava se tornando uma faca de dois gumes, onde ambos saem feridos depois de um confronto.

Teve a tarde para pensar e a noite inteira matutando o que poderia fazer. Como resolver o problema deles, mas não chegou muito longe. Entretanto, uma coisa era certa: Nico poderia não voltar com vida daquela guerra.

Will estava ciente disso, e o simples pensamento o fazia gritar internamente em agonia. A simples ideia de uma corda em volta do pescoço de Nico lhe causava pesadelos dos mais profundos e severos. Não aguentaria uma coisa dessas, não suportaria ver ele se desfazer em pedaços depois de tudo pelo que passou, de todas as angústias e injustiças.

Mas ele também sabia que a vida nunca foi justa com ninguém. Nem com sua família e nem com a de Nico. Ela lhes tomou tudo que tinham, e as únicas pessoas restantes estavam há quilômetros de distância, ou mesmo mares.

As duas únicas pessoas que os amavam de verdade e que fariam tudo por eles não estavam ali, não poderiam ajudar. Quando Nico ruísse iria sem ninguém, e Will não queria que ele partisse sozinho.

Deu voltas e voltas nesse pensamento.

Quando estava amanhecendo chegou à uma meia conclusão. Incompleta, mas era um começo.

Levantou-se da cama exausto, mas disposto e desperto. Vestiu-se casualmente e saiu do quarto, a luz do sol invadindo sem piedade o Hall e o corredor no mezanino. Respirou fundo caminhando até a escada, mas parou ao ver Christiano saindo de seu quarto ajeitando suas luvas.

Rumou ao quarto de Nico no intuito de acordá-lo, mas Will se apressou segurando-o pelo ombro. O rapaz levou um susto pulando no lugar. O Doutor deu um sorriso sem graça.

— Desculpe se o assustei, mas o deixe acordar sozinho. — pediu cortês retirando sua mão. O garoto se virou para ele: — Não teve boas noites de sono nos últimos dias, melhor deixar que descanse o quanto precisar.

Christiano concordou apontando com a cabeça para a cozinha. Will sorriu:

— Não, ainda não tomei café e adoraria uma companhia. — concordou recebendo um sorriso educado do Atendente.

Ambos desceram até a cozinha. Christiano abriu as cortinas enquanto passava, deixando mais luz entrar nos ambientes. Ajeitou a mesa que ainda estava com os papéis de Nico espalhados por ela. Will o ajudou a recolhê-los, ainda que Chris insistisse em fazer sozinho.

Colocaram as coisas no Hall e quando Will voltou reparou no furo na mesa, um corte fino na superfície lisa de madeira. Passou o dedo pela fissura profunda arqueando a sobrancelha:

— Por que eu tenho a impressão de que o Nico fez isso? — suspirou incrédulo. Christiano segurou a risada entregando o Duque. Will rolou os olhos: — Deixe eu adivinhar, ele fez isso para assustar os nobres?

Chris concordou.

— Não me surpreende. — admitiu deixando que Chris ajeitasse a mesa. Sentou-se na cabeceira assim que o garoto terminou. Ele ficou de pé ao lado da mesa esperando por ordens do doutor.

Will o encarou por um tempo suavizando o olhar:

— Sente e coma comigo. — pediu Will empurrando a cadeira ao seu lado para trás, abrindo espaço para o garoto.

Chris negou com a cabeça, desconcertado.

— Eu não mordo, prometo. — zombou voltando a tomar do chá que Christiano havia preparado. O rapaz era rápido e eficiente, isso Will não iria negar.

Depois de algum tempo de relutância ele se sentou ao lado esquerdo de Will se servindo do pão na mesa. Comeram em silêncio, com a mente de Will vagando novamente para onde estava durante a madrugada. Ainda via dali o corte na madeira, e aquilo o fez lembrar da guerra, de quando Nico partiria e isso o deixou ansioso.

— Sabe me dizer quando eles partem? — perguntou incerto. Não tinha certeza se realmente queria saber.

Christiano olhou para os lados antes de se levantar e sair da cozinha. Will esperou enquanto ele retornava com papel e pena. Escreveu nela, a letra cursiva e bonita no fundo pardo.

“O General Pamparonni virá buscar a Vossa Graça em uma semana, mas só partirão para a guerra no final do mês.”

Will franziu a testa: — Por que no final do mês?

Chris voltou a escrever: “Para juntarem os exércitos pessoais em um terreno privado do Duque, onde irão repassar as ordens para o ataque. Precisam de uma semana agora e uma depois para ajeitarem tudo.”

— Entendi. — murmurou suspirando. Ele tinha só mais uma semana com o Nico então. Apertou a mão em punho, sentindo suas unhas pressionarem contra a palma dolorosamente.

O garoto lhe tocou o braço mostrando suas anotações: “Ele vai ficar bem. Tem vários Generais com ele, e Dylan vai ficar ao seu lado o tempo todo. Não se preocupe.”

Will sorriu sem emoção: — É fácil falar.

Ele mordeu o lábio antes de escrever mais. Mergulhou a pena na tinta: “Eu sei que ele é muito importante para você. Mas acredite, vai dar certo.”

Will sentiu seu coração parar momentaneamente em seu peito. Prendeu a respiração encarando Chris de soslaio, um súbito medo se espalhando por seu corpo. Algo em sua expressão deve ter o delatado, pois o garoto começou a escrever novamente, um pouco nervoso.

“Eu os vi se abraçando ontem, o quanto vocês significam um para o outro.” escreveu envergonhado. Desviou o olhar de Will encarando a folha de papel: “Acho que isso é uma coisa muito boa, ele ter alguém que possa confiar como o Senhor. Saber que ele tem esse tipo de amizade me deixa mais tranquilo. Ele parece sempre tão triste.”

Will soltou o ar um pouco mais relaxado.

Christiano pode ter os visto, mas pensou que fosse um afeto de amigos, o que fazia muito sentido se pensasse bem nisso. Não era comum as pessoas associarem um abraço entre dois homens como relacionamento romântico, ao menos tinha isso à seu favor.

Will agradeceu por essa ingenuidade popular. Sorriu para o garoto, mas a conversa o deixou ainda mais certo do que estava planejando fazer.

— Ele é um bom amigo. Se posso ser de alguma ajuda nesse tempo de dificuldades então ótimo. — confessou tomando de seu chá já frio. Chris sorriu alegre.

“Ver meu senhor feliz me deixa contente. Cuide dele, por favor.”

Will concordou.

— Ok, chega de conversa e coma. — falou voltando para o café. A manhã correu silenciosa, e Will ajudou na cozinha o máximo que Christiano permitiu.

Foi até o escritório organizar sua papelada que deixou jogada na mesa no dia anterior. Se demorou um pouco em sua sala antes de voltar para o Hall. Toda a bagunça de Nico ainda espalhada na mesa entre os sofás. Sorriu carinhoso organizando melhor os papéis empilhados, ainda que o que estivesse escrito não fosse algo que entendesse realmente.

Deixou o mapa aberto, mas criou pequenas pilhas ao redor dele com cuidado para não amassar nada. Uma mão enluvada passou por cima de seus ombros depositando os papéis na mesa novamente. Will olhou para trás, os olhos caramelo de Nico bem perto dos seus. Sentiu-se ruborizar:

— Não precisa perder seu tempo com isso, acredite. — sussurrou Nico perto de seu rosto: — Nem eu sei como arrumar esse monte de coisa que me entregaram.

Will concordou com a cabeça encarando-o profundamente nos olhos. Parecia menos cansado, mas conseguia ver a expressão preocupada em sua feição. Abriu um sorriso passando o polegar debaixo de seus olhos, sentindo Nico estremecer sob seu toque.

— As olheiras sumiram, isso é bom. — comentou baixo, acariciando-o. O pirata o encarou sem entender, a respiração ficando irregular gradualmente.

Ouviu barulho na cozinha forçando Nico a se separar de Will abrupto, visivelmente consternado. Will se levantou do chão com um sorriso:

— Vem, coma um pouco. — falou o puxando pelo braço delicadamente. Nico o seguiu sem se queixar, mas era óbvia a confusão em sua expressão.

Christiano se curvou para Nico em um cumprimento educado. O Duque sorriu para ele se sentando na mesa. Chris lhe entregou uma xícara de chá acompanhado de pão sovado e geleia de Figo. Nico torceu a boca para a fruta e Will só pode esconder a risada por trás da mão.

O tanto de figo que entupiu o Nico no começo é incontável.

Will apoiou o quadril no móvel na parede atrás de Nico observando Christiano andar de um lado para o outro organizado as coisas e Nico tomando do chá, a tensão em seus ombros visível dali.

Mordeu o lábio conflituoso, mas resolveu que estava na hora de uma boa conversa.

— Chris? — chamou ele delicadamente para não assustá-lo. O garoto parecia meio temeroso perto de Will por algum motivo. O atendente o encarou curiosamente: — Poderia ir no mercado comprar algumas ervas para mim?

O atendente concordou, um sorriso aliviado em seu rosto. Will franziu o cenho, mas logo foi distraído pelo rapaz lhe entregando a folha em branco para que anotasse o que precisava. O Doutor o fez tentando manter uma letra decente — caligrafia nunca foi muito o seu forte, mesmo com a insistência de seu avô para que melhorasse.

As vezes nem ele mesmo entendia o que estava escrito em suas anotações.

— Aqui. — disse devolvendo o papel. Christiano sorriu curvando-se e saindo da cozinha. Assim que a porta fechou Will voltou o olhar para Nico que já o encarava preocupado.

— Está tudo bem Will? — questionou, o braço apoiado no encosto da cadeira. O doutor sorriu para ele concordando.

Caminhou lentamente até Nico beijando-lhe a têmpora com afeto. Nico soltou um arfar surpreso.

— Então, como passou a noite? — perguntou curioso, sentando-se ao seu lado. O cotovelo apoiado na mesa, e seu rosto repousado em sua palma aberta.

Nico o encarou por longos segundos não compreendendo sua atitude antes de se recompor, olhos recuando confusos para o chá na mesa.

— Foi uma noite boa. Sem sonhos, sem dor. Dormi e acordei em um piscar de olhos. — admitiu, passando o indicador pela borda da xícara, pensativo. Will concordou.

— E o ferimento? — insistiu, agora mais sério. Nico sorriu reconfortante.

— Não dói mais. Consegui me vestir sem dificuldades. — respondeu meigo, puxando uma das pernas para a cadeira, relaxando gradualmente. A tensão deixando seus músculos pouco à pouco.

— Bom. Vou dar uma olhada nele, mas acho que não precisa mais de faixas. Deixe respirar um pouco. Foram três meses diretos tampando a ferida. — comentou cruzando as pernas: — Mas vamos continuar com as ervas, para evitar qualquer tipo de infecção pelo contato direto com o tecido da camisa. Pode incomodar um pouco quando começar a criar uma crosta sobre ele.

— Eu sei, vai ficar repuxando e reabrindo o machucado, mas todo mundo já foi criança um dia. Posso suportar machucados desse tipo. — respondeu convicto. Will sorriu para ele, mas não disse mais nada.

Nico afastou a xícara de si, e sequer tocou no pão com a geleia de figo. Respirou fundo fechando os olhos. O dia estava agradável. Mesmo estando do lado de dentro da casa, a brisa que entrava pela janela e a porta dos fundos abertas era reconfortante.

Will o observou por longos momentos, perdido nos detalhes de seu rosto sereno. Não se lembrava de ter parado em algum momento para somente observá-lo, mas percebeu que gostava da ideia. De poder admirá-lo mesmo acordado, lhe causava um sentimento reconfortante em seu peito, algo que aprendeu a aceitar mais rápido do que seus outros sentimentos conflitantes.

— Aconteceu alguma coisa? — insistiu Nico retirando Will de seu devaneio. O Duque ainda mantinha os olhos fechados recostado na cadeira, mas estava atento: — Consigo sentir seu olhar.

Will riu nasalado:

— Só estou te admirando, não posso? — comentou sincero. Nico abriu os olhos lentamente, virando o rosto para o doutor.

Will não conseguiu ler seu rosto, estava duro e indecifrável. A tensão nos ombros de Nico retornaram com força, deixando Will apreensivo.

Nico voltou a olhar para frente, não dizendo mais nada o sobre o assunto. Will prensou os lábios juntos, mas permaneceu no silêncio. Apertou a mão em punho, a palma transpirando de nervoso. Ia tentar fazer as coisas darem certo, mas Nico parecia tão incrédulo quanto ele.

O pirata suspirou pesado se levantando da cadeira.

Começou a recolher a sua parte na mesa, pensativo. A tez franzida como se mil ideias corressem por sua mente ao mesmo tempo. Empilhou as coisas na mão e levou para a pia. Will sentiu seu coração palpitar dolorosamente em seu peito, ansioso, mas já havia começado e não voltaria atrás.

Se levantou também caminhando até Nico. O pirata não se virou, mas estava ciente de sua presença. Will o abraçou por trás apoiando a testa em seu ombro. Conseguia sentir a rigidez de seu corpo contra o seu, nervoso e preocupado. Nico soltou o ar abraçando-o de volta como sempre fazia, nunca questionava realmente.

E Will percebeu que odiava quando Nico aceitava as coisas que fazia sem expor seus pensamentos. Apertou o braço em sua cintura.

— Pensei muito durante a noite. — confessou sincero em seu ouvido, mantendo o tom de voz baixo e inofensivo. Nico estremeceu em seus braços: — E com a conversa com o Chris essa manhã eu cheguei à uma conclusão bem surpreendente.

Abriu um sorriso pequeno e tímido, sentindo seu rosto arder gradualmente:

— Temos somente uma semana antes de você partir. E independente dos medos que eu crio na minha cabeça, e de toda minha insegurança, só temos mais uma semana e quero aproveitar dela como se fosse nossa última, pois temo que nunca mais o veja de novo. — admitiu sincero, escondendo seu rosto nos cabelos negros de Nico, sentindo-se repentinamente vulnerável.

Tinha medo que Nico nunca mais voltasse e se arrependesse de não aproveitar aquele sentimento novo que estava nascendo entre eles. Queria, nem que fosse por uma única semana, esquecer do medo que rondava sua cabeça, fingir que o que faziam não era nem errado ou pecaminoso.

Pela primeira vez na sua vida não queria desistir do que desejava por culpa de outras pessoas. Aquele calor agradável em seu peito sempre que Nico estava perto e lhe sorria sincero, aquilo ele queria manter.

Mesmo que fosse por somente sete dias.

Sentiu Nico se remexer contra seus braços, segurando-o pelo pulso afastando-o de leve. Will levantou a cabeça observando-o se virar. Os olhos arregalados e surpresos, como se nunca houvesse imaginado aquela conversa em nenhum momento de sua vida. Soltou o ar incrédulo antes de sorrir aberto. Abraçou Will pela cintura aterrando seu rosto em seu pescoço.

Will arregalou os olhos levemente, mas o abraçou forte.

— Isso é o que eu mais queria Will. — confessou apertando o abraço. O doutor sorriu beijando o topo de sua cabeça com afeto. Nico se remexeu em seus braços confortável e satisfeito, o sorriso não escapando de seus lábios tão cedo.

Se mantiveram assim por longos momentos antes de Nico o afastar de leve, levantando o rosto todo alegre.

— Eu tive uma ideia. — falou sapeca. Will arqueou a sobrancelha pra ele, mas se deixou ser puxado para fora da cozinha e em direção ao seu quarto.

Abriu o guarda roupa de Will pescando algumas roupas mais confortáveis. Will se sentou no pé da cama confuso.

— Posso saber o que está fazendo? — questionou apoiando-se para trás na cama. Nico continuou a mexer entre as várias camisas.

— Com certeza. — falou convicto se virando para ele: — Se temos uma semana para aproveitarmos vou fazer com que seja a melhor. Inesquecível. — admitiu sorrindo meigo: — E pra isso não vamos ficar dentro dessa casa.

Will franziu o cenho:

— Você quer viajar? Agora?

— Não viajar. Não posso ficar inacessível uma semana antes do ataque, Dylan ou qualquer outro a favor da minha causa precisa saber onde me achar. — explicou encarando uma camisa laranja com um olhar ofendido: — Eu realmente espero que você não use isso em nenhuma hipótese.

Will riu: — Bom, se não é uma viagem que quer, onde pretende me levar que eu precise mudar de roupa?

Nico abriu um sorriso largo, mas desta vez não respondeu. Separou um conjunto de roupa casual para Will e foi até seu quarto se trocar. Will se ajeitou lentamente se encarando no espelho por longos momentos. Não tinha o costume de usar aquele tipo de vestimenta, já que sempre estava vestido socialmente.

Era uma camisa branca simples com calça bege de suspensórios. Sapatos baixos e sem meias. Encarou a imagem no espelho conflitante. Nunca vestiu coisas assim e sentia que seu avô estava se revirando no túmulo só por essa afronta de vestuário.

Nico apareceu na porta com roupas similares, mas a camisa preta apagava os suspensórios do conjunto. Estava com o cabelo preso pela metade para trás, com a parte de baixo dele caída por seus ombros.

Will nunca o viu daquele jeito e achou realmente charmoso.

— Você ficou bem assim. — confessou sorrindo abertamente. Will deu de ombros:

— Um pouco estranho na verdade.

— Você se acostuma. — disse aproximando-se dele e dobrando suas mangas até o cotovelo: — Quando eu me tornei pirata, usar aquelas roupas cheias de tecido maltrapilho me deixou ansioso, mas percebi que eram muito mais confortáveis do que as que eu usava quando nobre.

— Não duvido. Você leva meia hora para se vestir. — comentou entregando o outro braço para Nico que repetiu o processo sem se queixar. O pirata riu:

— Porque era somente o Chris me ajudando. Normalmente eu tenho três ou quatro atendentes me aprontando. Leva menos de dez minutos. — respondeu terminando as dobras. Desceu os dedos para sua cintura abraçando-o de leve. Will imitou o gesto: — Pronto?

— Não. — respondeu sincero, mas o canto de seus lábios puxavam para cima o entregando. Nico rolou os olhos depositando um beijo em seu rosto.

— Vai se divertir, garanto. — falou puxando-o pela mão e descendo novamente. Foi só quando o viu se virar que reparou na arma em sua cintura.

Não era proibido andar armado, mas normalmente elas ficavam escondidas pelos casacos ou coletes. Ali Nico a deixava amostra, como se quisesse que as pessoas vissem. Resolveu não comentar, mas se sentiu repentinamente preocupado para onde iriam.

Chegando no Hall toparam com Christiano retornando com uma cesta cheia de ervas e Andréa o acompanhando. Nico sorriu de canto:

— Bom dia. — Nico os cumprimentou: — Sei que acabaram de chegar, mas quero pedir um favor.

Os dois se entreolharam, mas menearam com a cabeça acatando o que quer que fosse o pedido do Duque. Will só observou, mas resolveu deixar Nico guiar naquele momento.

Saíram da casa antes do meio-dia com Nico segurando uma cesta cheia de comida leve em mãos e a outra puxando Will pelo pulso. O doutor ainda não sabia para onde iam, mas pelo pedido de Nico com comidas para passarem o dia e garrafas d’água sabia que pelo menos seria uma longa caminhada.

Desceram a rua da cidade cumprimentando as pessoas que por ali passavam, o sol castigando todos em um de seus dias claros e agradáveis. As pessoas sorriam para eles e vez ou outra paravam Will para uma conversa breve sobre alguém doente ou perguntando sobre sua saúde, se estava bem depois das confusões de semanas atrás.

Respondeu a todas calmamente, mas Nico muitas vezes os cortava educadamente dizendo terem compromisso, mas que adoraria tomar um chá com ela um dia qualquer. Will não soube dizer pra quantas pessoas Nico disse isso e se teriam que realmente cumprir com aquilo.

Nico somente riu quando Will lhe questionou isso, dizendo ser algo de etiqueta, mas não era uma obrigação realmente. Era a melhor forma de cortar alguém sem parecer rude.

Saíram da cidade caminhando pela estrada de terra que contornava o Canal Candiano. Ficaram um tempo andando sob o sol até Nico ver uma carroça passando. Entrou na frente dela parando-a por breves momentos conversando com o homem antes de puxar Will pela mão.

— Consegui uma carona. — disse subindo na carroça, sentando na beirada com as pernas para fora. Will riu incrédulo, mas subiu nela igualmente e voltaram para seja lá onde Nico planejava ir.

O pirata apoiou as costas na lateral da carroça deixando a cesta mais para o centro. Uma das pernas para fora e a outra dobrada para cima apreciando a maresia. Will sorriu para ele de leve observando o céu claro totalmente relaxado. Devia fazer anos que não saia para aproveitar o dia. Somente sentar e apreciar a paisagem.

Nico o puxou pelo braço fazendo Will deitar em seu colo. O doutor arregalou os olhos pelo susto encarando os olhos caramelos de Nico que somente ria de sua reação. Seus cabelos estavam pendendo para baixo, o deixando ainda mais belo do que antes.

— Aproveite a viagem. Vamos levar uma meia hora, talvez uma hora para chegar onde quero. Descanse. — pediu acariciando seus cabelos delicadamente.

Will respirou fundo levando sua mão até o rosto de Nico passando os dedos por sua bochecha com afeto. Nico sorriu fechando os olhos e segurando a mão de Will no lugar, um sentimento quente envolvendo os dois naquele gesto tão íntimo.

O doutor suspirou e se deixou descansar por breves momentos.

Voltou a acordar somente quando chegaram beira-mar. Will não conseguia ver, mas ouvia o quebrar das ondas à distância, o cheiro de maresia bem mais forte e agradável. Nico agradeceu ao homem e seguiram caminho até a praia. Ficaram em uma parte mais isolada dela, uma extensão da floresta que ia até próximo da beira os deixando escondidos dos olhos curiosos de quem passasse à pé ou de barco.

Nico deixou a cesta na areia e esticou os braços para o alto totalmente relaxado. Seus olhos vagaram pelo mar com uma nostalgia quase palpável. Will teve que desviar o olhar antes que começasse a criar empecilhos em sua mente novamente.

Nico retornou à ele sentando de frente. Pegou a garrafa d´água bebendo um pouco dela antes de entregar ao Will. O doutor tomou um pouco percebendo somente naquele momento o tamanho de sua sede.

Nico riu dele:

— Quando foi a última vez que tomou um banho de mar? — questionou curioso. Will parou para pensar sobre o assunto.

— Eu tinha quinze anos, acho. — disse encarando o mar: — Em uma das visitas escondidas de Austin, ele me trouxe aqui com Kayla. Foi uma tarde agradável e bem divertida, mas depois disso as coisas ficaram mais corridas, nunca tive tempo para voltar para cá.

Nico concordou com a cabeça de leve. Se levantou novamente retirando os sapatos e deixando a arma junto da cesta. Puxou Will para cima o fazendo retirá-los também:

— Vem, tem um conjunto de corais aqui perto. — falou entrelaçando seus dedos e o levanto para um conjunto de pedras um pouco mais longe do que imaginou.

Subiu em uma das pedras agachando-se sobre elas. Will imitou o gesto observando o mar entrando nas aberturas das rochas. Ali tinham alguns animais isolados como estrelas do mar e caranguejos. Nico sorriu enfiando a mão até o fundo puxando uma estrela do mar.

Will a observou curiosamente. Nico lhe entregou ela e começou a explicar um pouco da anatomia delas, de como elas se regeneram com facilidade mesmo se você cortar todas as suas pernas. Comentou sobre o fato delas serem carnívoras, ainda que pareçam inofensivas.

Will ouviu atentamente intrigado. Devolveu a pequena ao mar e seguiu Nico até outro ponto. Dali dava para ver os corais no fundo. Muito distantes para tocar, mas a água cristalina os permitia ver e admirar as anêmonas e outras plantas aquáticas.

Nico se virou para Will com um sorriso sapeca. Desabotoou sua camisa jogando-a nas pedras. Antes que o doutor pudesse perguntar ele mergulhou no mar desaparecendo momentaneamente de sua vista.

Encarou as águas preocupado, mas logo o pirata reapareceu na superfície, ajeitando os cabelos todos para trás.

— Deixe eu adivinhar, você não sabe nadar. — comentou boiando nas águas cristalinas.

— Não e nem quero saber. — falou cruzando os braços, mas o sorriso longe deixar seu rosto. Nico gargalhou:

— Posso te ensinar, mas no raso. Volte por onde viemos, te encontro no raso. — falou e em seguida mergulhou de novo.

Will suspirou incrédulo, mas gostava de ver aquele lado mais espontâneo de Nico, sentia falta disso algumas vezes. Pegou a camisa dele e retornou para a areia. Deixou ela perto da cesta pendurado em uma árvore e se virou para o mar atrás do pirata que ainda não tinha retornado.

Franziu a testa começando a ficar preocupado. Sentiu braços atrás dele, gelados e molhados o fazendo pular no lugar. Nico gargalhou alto instigando Will a rir também tentando se soltar dele.

— Você está molhando, Nico! — falou entre risadas tentando se afastar dos braços fortes do pirata. Nico insistiu no aperto levando os dois para a areia.

O pirata apoiou ambas mãos na areia ao lado do rosto de Will, ainda rindo da situação deles. Desce o olhar para os lábios de Will deixando a risada morrer aos poucos. Will sabia que estava todo molhado e cheio de areia em toda as partes de sua roupa e que, provavelmente, precisaria e um banho por causa de seus cabelos, mas ali, com a luz do sol sobre a cabeça de Nico, seus cabelos molhados pendendo para baixo, e aquele sorriso de canto que o fazia estremecer só de olhar, lhe convencia de que valeria a pena.

Levou sua mão até a nuca de Nico o puxando para baixo e selando seus lábios num beijo gelado e necessitado. Will desejava aquele toque, aquele gosto, e queria que Nico sentisse a mesma coisa que ele.

O pirata sorriu entre o beijo ajeitando o ângulo e tomando o controle. Subiu as mãos até o pescoço de Will o beijando com força, passando a ponta de sua língua pelos lábios mornos do doutor aprofundando o beijo.

Will levou as mãos até os cabelos de Nico, afundando seus dedos nos fios molhados. Algumas gotas caiam sobre seu rosto escorrendo por seu pescoço lhe fazendo arrepiar inteiramente.

Soltou um suspiro arqueando o corpo atrás de mais contato. Nico separou seus lábios por um tempo acariciando seu rosto. Will abriu os olhos encarando os caramelo do Pirata que parecia sorrir satisfeito.

— Você é bem quente. — sussurrou contra seus lábios ajeitando-se em cima do doutor. Will riu descendo a mão até a cintura, tomando cuidado com o ferimento.

— Você que mergulhou no mar. — ralhou lhe dando um selinho: — E diminuiu sua temperatura.

— Hm. — Nico murmurou nem um pouco interessando beijando-o outra vez, e mais outra.

Ficaram ali um tempo, mas logo Nico começou a tremer de frio separando-se de Will atrás de sua camisa. O doutor sentou-se na areia tentando tirar um pouco dela de seus cabelos, mas parecia uma batalha perdida.

— Vamos comer, vem. — chamou sentando ao lado da cesta retirando alguns lanches que Andréa e Christiano fizeram.

Will se sentou ao seu lado indo atrás do suco primeiro. Um pouco quente, mas pelo menos agradável. Nico lhe entregou um dos lanches sentando-se entre as pernas de Will e apreciando a comida.

— Não tem nenhum outro lugar pra sentar é? — zombou rolando os olhos, mas passou os braços por sua cintura mesmo assim.

— Oh? Não gosta é? — ralhou virando o rosto para ele: — Engraçado, pensei que gostasse de ficar bem colado, já que foi difícil sair de cima de você alguns minutos atrás.

Will se sentiu ruborizar não falando mais nada. Nico riu acomodando-se melhor contra o doutor.

— Hey Will. — chamou Nico suave, a cabeça recostada em seu ombro: — Me fale um pouco da sua infância.

Will franziu o cenho: — Não tem muito o que contar.

— Sempre tem. — refutou acariciando o braço de Will com a ponta dos dedos, causando leves arrepios no doutor: — O que você gostava de fazer? Como se divertia? O que fazia no seu tempo livre? Me fale sobre você.

Will sorriu para ele pensativo. Não teve uma infância das mais animadas, na verdade teve que desistir de muitas coisas muito cedo, mas sempre tinha histórias.

— Bom, eu sempre gostei muito de dançar quando menor. — confessou resgatando uma memória sua de seus quinze anos quando fugiu com Austin para uma festa e dançou a noite toda.

Nico se virou contra ele em choque.

— Você dança? — falou incrédulo. Will riu de sua reação.

— Não as suas danças, acredite não tenho tanta coordenação assim, mas danças de bar onde você não precisa saber muita coisa, isso sim eu dançava. — explicou melhor. Nico abriu um sorriso largo.

— Eu com certeza vou querer ver isso. — falou animado: — Quero muito.

Will negou: — Não, não vai acontecer.

— Ah vai sim, me aguarde Solace. — falou roubando um beijo rápido do doutor: — Mas até lá vai ser legal imaginar a cena de você dançando todo animado num salão cheio de gente.

Will sorriu subitamente tímido: — Não sei se teria coragem de fazer isso de novo. Faz uns dez anos desde a última vez.

— Bom, vamos mudar isso então. — sussurrou voltando a beijá-lo do jeito que queria, os braços enlaçando seu pescoço, e o doutor retribuindo com tudo que tinha.

Will sabia que estavam prometendo coisas demais, que aquilo poderia nunca se concretizar e que Nico poderia não voltar, fosse da guerra ou por qualquer outra coisa que o segurasse o Ducado.

Porém, sentado naquela praia com seus lábios contra os de Nico, sozinhos e confortáveis lhe fazia crer no impossível.

Não se lembrava da última vez que se deixou abrir de verdade, nem quando se fechou para as pessoas escondendo seus pensamentos e desejos.

Ali, com Nico sussurrando seu nome contra seu ouvido, contando pequenas mentiras brancas que faziam seu coração se ascender esperançoso, Will se deixou levar por seus desejos mais íntimos.

E ter Nico em seus braços se tornou uma necessidade.

Voltaram para casa quase anoitecendo, desta vez sem nenhuma carona para pegarem tendo uma caminhada de quase duas horas de brincadeiras e corridas sem sentido pela estrada de terra. Will sentia como se tivesse rido mais naquele dia do que em sua vida inteira.

Nico não soltava sua mão o caminho todo, agindo como um adolescente alegre falando alto, o puxando para algum canto ver algo, ou beijando-o de surpresa e se afastando depois. Will só conseguia rir e entrar no ritmo, mesmo não acostumado com isso.

Puxou Nico pela cintura o beijando em sua têmpora antes de entrarem na cidade e se separarem. As ruas já estavam mais desertas, as casas acesas e a lua brilhando no céu estrelado.

Entraram na casa. Andréa não estava por ali, mas Christiano estava no Hall aguardando o retorno deles. Nico sorriu para o atendente pedindo um pouco de chá. Will o observou se afastar e encarou Nico que estava radiante.

O doutor segurou seu rosto depositando um beijo em sua bochecha:

— Estou exausto, se importa se eu for pra cama? — comentou delicado. Nico negou, o sorriso ainda enorme em seu rosto.

— Nem um pouco. Tirei você de sua zona de conforto, normal ficar exausto. — admitiu ficando na ponta dos pés e o beijando rápido nos lábios: — Descanse. Te vejo amanhã.

O doutor concordou se afastando do pirata e subindo as escadas.

E pela primeira vez em anos se sentia vivo novamente.

Notas finais
Eae? Foi fofo né? Gostaram? Tenham um bom ano novo. Comam bastante, pulem ondinhas, façam promessas que nunca vão cumprir, mas acima de tudo sorriam sempre. Vocês fizeram a vida de uma pessoa muito melhor, é vocês merecem tudo de bom. Até 2019! Beijinhos~