Pit-a-Pat
34 Capítulo XXXIV
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXIV~
:: 57º dia na Itália — Semana 8 ::
[...]
A cozinha ficou em silêncio por longos momentos.
Nico observou as feições de cada homem naquela sala mudar com a constatação do que faria. Sabia que ir sozinho contrariava a presença deles naquela cozinha, mas o Castellan não seria um inimigo fácil de confrontar e saberia de um ataque em massa pela lateral se todos seguissem caminho até a saída de emergência.
Precisava resolver aquilo sozinho, tanto por questões estratégicas quanto por burocráticas. Se quisesse colocar o Castellan como a cabeça da revolução que estavam causando, precisaria enfrentá-lo justamente, e isso incluía uma luta de um-contra-um.
— Sozinho? — repetiu Matteo severo: — Você conseguiu muita coisa sozinho da última vez, não é? — comentou sarcástico. Nico estreitou os olhos:
— Sozinho e com uma criança de oito anos para proteger, o máximo que pude fazer foi fugir com vida. — relembrou não gostando do abuso do Conde: — Enfrentar sozinho o Castellan não é um problema que deva se importar, afinal de contas terá um exército para comandar.
— Mesmo assim, acha que ele estará sozinho? Realmente? — reforçou Pietro cruzando os braços: — Não acredito que ele vá fugir de um ataque.
Nico abriu um sorriso:
— Ah, mas ele irá. Iremos arrancá-lo de sua toca a força se for preciso. — afirmou esticando a mão para o lado onde lhe foi entregue uma taça de vinho por Chris. O Duque tomou um gole moderado depositando-o na mesa: — Matteo, você sabe melhor do que ninguém como planejar ataques, pense comigo um pouco.
— Vamos criar um ataque frontal que ultrapassa a quantidade de soldados que o Castellan possui, mas claro que vai se sentir poderoso o bastante para acreditar numa vitória e enviará toda sua tropa. — explicou sucinto, o dedo indicador passando delicado na borda da taça, desinteressado: — Nessa, metade de seus homens estarão aos meus serviços contando com Dylan que estará de volta à mansão antes de meu ataque. Ter somente metade de soldados lutando contra nós e perceber que nesta metade possui atraidores reduzindo seu número exponencialmente o deixará ansioso. Perceberá então que não pode confiar em mais ninguém dentro daquela mansão além de si mesmo.
— Orgulhoso como é, insistirá em acreditar que pode vencer de alguma forma, e esse tempo é que nos será dado a vantagem de entrarmos pela lateral sem sermos percebidos. — continuou respirando fundo: — O momento que ele decidir correr com o rabo entre as pernas será quando todos os seus soldados forem massacrados pelos generais.
— Usará a passagem secreta sem contar a nenhum de seus homens para onde está indo, nem mesmo minha irmã estará ciente de sua fuga. — complementou Nico encarando Matteo nos olhos: — Ele estará sozinho quando eu o pegá-lo, por causa de seu orgulho grande demais para carregar.
O Conde concordou com a cabeça:
— Você o conhece melhor que todos nós, então pode dar certo, mas ainda não entendo o propósito de ir sozinho se ele estará sem ninguém para protegê-lo. — refutou Matteo.
— Pelo fato de existirem outras saídas de emergência na mansão. — relembrou o Duque: — A saída mais rápida e prática é pelo salão de treino, mas tem uma perto da saída leste que dá direto para a floresta e a cidade logo depois. Se ele decidir ir por ela vamos perdê-lo de vista, e toda a revolução só será adiada por alguns dias antes de voltar com força e ser lançada contra nós.
— Certo, é um bom ponto. — Concluiu Pietro pensativo: — Levar o Dylan pelo menos para apoio seria o ideal.
— Concordo. — Matteo reforçou, apoiando as mãos na mesa: — Pelo menos é uma garantia para nós que você estará bem independente do que aconteça.
Nico lhe deu um sorriso amarelo.
Seu bem estar de nada importava pra eles, mas sim para a causa. Afinal de contas quem levaria a culpa por tudo diante do Imperador, aos olhos dos três na mesa, seria Nico. Suas terras dependiam da sobrevivência dele contra o Castellan.
Sabendo disso olhou para Dylan de relance. O velho amigo estava de braços cruzados calado ao lado esquerdo de Nico. A tez franzida pelo nervoso.
O soldado nunca foi seu guarda-costas, então não sabe a dificuldade que é trabalhar para Nico diretamente. Não é de agora que tem ideias traiçoeiras pra conseguir o que quer.
Expor seu pai foi uma delas.
Dylan não estava acostumado, então talvez usá-lo para outra coisa enquanto mascara suas ações fosse proveitoso. Ainda tinha uma carta faltando no baralho, e Nico esperava estar certo sobre suas suposições.
Soltou o ar aceitando o acordo:
— Pois bem, Dylan irá me acompanhar. Ninguém mais. — disse por fim respirando fundo.
Enrico sorriu mais aliviado.
— O resto são estratégias mais delicadas, precisaremos dos Generais. — relembrou o Marquês animado: — Se tudo der certo podemos começar os preparativos ainda hoje.
Os outros dois concordaram. Nico aquiesceu:
— Pois bem.
A porta da frente foi aberta e a voz de Andréa reverberou pelo hall. Nico sorriu de lado:
— Alguém com fome?
☠
Os generais chegaram logo depois que Andréa e Christiano aprontaram a mesa para o almoço. Sentaram-se e a conversa continuou voltada para o ataque. Nico ouvia seu plano ser recontado por Matteo aos generais enquanto prestava atenção na porta de entrada.
Já passava de uma da tarde e nada do Will retornar, estava ficando preocupado.
Franziu o cenho para isso, mas não externou seus pensamentos. Enrico lhe tocou no antebraço de leve fazendo Nico remover o braço instintivamente. Dylan fuzilou Enrico com os olhos, mas o Marquês não se importou perguntando sobre a forma que conseguiriam entrar com um exército sem serem notados ao longe.
Nico explicou que eles seriam notados, e era para serem. Para toda a atenção do Castellan se virar para o exército imenso na porta de entrada e não prestar atenção nas entradas laterais desprotegidas.
O Marquês concordou mantendo a curta distância entre eles. Nico crispou os lábios. Enrico estava acostumado com a amizade deles mais íntima, com toques e brincadeiras. Mas não passavam tempo juntos desde antes de seu sequestro no Argos II, era compreensível que o amigo não conseguisse ver sua aversão à toque, mas afastou-se para o lado jogando um olhar para Dylan.
O soldado aquiesceu com a cabeça colocando uma mão no ombro de Enrico:
— Marquês, se afaste por favor. — pediu o soldado. O rapaz o encarou chocado: — Por segurança, não fique tão próximo.
O Marquês não gostou daquilo, era óbvio pela sua feição, mas acatou ao pedido de Dylan inclinando-se para o lado oposto de Nico que soltou o ar levemente, o qual nem sabia que segurava.
Apertou suas mãos sobre suas pernas debaixo da mesa, trêmulas pelo toque repentino. Odiava esse pequeno detalhe da sua vida, mas nada podia fazer para apagar um trauma antigo, mesmo que não tivesse tanto problema quanto mais novo.
Pelo menos os toques de Will não causavam nada além de conforto, e isso lhe bastava.
Ouviu a porta no fundo olhando de relance Andréa indo até ela e voltar logo na sequência para preparar uma bandeja com o almoço. Mordeu o lábio de leve se levantando da mesa:
— Vou me retirar momentaneamente, senhores. Tenho alguns assuntos a tratar com o dono da casa. — informou recebendo acenos dos nobres e generais que conversavam sobre as estratégias de mais cedo.
Chris fez menção de segui-lo, mas Nico negou que o acompanhasse e saiu até o escritório. Andou calmamente até sua porta fechada. Girou a maçaneta entrando sem avisar. Will estava sentado na cadeira com os braços cruzados no peito e os olhos fechados. Tinha a feição preocupada, a tez franzida e os lábios comprimidos.
Nico o analisou antes de fechar a porta. Will abriu os olhos encarando o pirata encostado na soleira.
— Não deveria estar na cozinha?
— Não deveria ter anunciado sua chegada? — retrucou cético. Will rolou os olhos.
— Não na minha própria casa, creio eu.
— Aconteceu alguma coisa? — questionou preocupado. O doutor negou com a cabeça:
— A mulher a quem visitei teve uma convulsão no tempo que fiquei lá. Tive que colocá-la em quarentena. — admitiu cansado: — Mas nada realmente preocupante, é dependente alcoólica. Abstinência causa esse tipo de reação.
— E no que a quarentena ajuda? — perguntou aproximando-se da mesa sentando nela com uma perna em cima e a outra no chão. Will arqueou a sobrancelha, mas nada disse à respeito:
— Ajuda a manter os curiosos distantes. Qualquer pessoa que acredite que possa ajudar ela de alguma forma irá lhe trazer álcool achando estar ajudando nos ataques. — comentou apoiando os braços na mesa: — Mas estaria fazendo justamente o contrário. As primeiras semanas serão difíceis, mas ela vai conseguir se for determinada.
Nico sorriu concordando.
Não conhecia ninguém que realmente havia parado de beber ao longo de sua vida, mas ser rodeado de piratas que normalmente preferem a morte do que abstinência não ajudava muito.
Andréa bateu na porta entrando com a bandeja e uma porção do almoço.
— Senhor Levesque desça da mesa, por favor. — pediu ela depositando as coisas em frente ao Will que riu da cara de incrédulo que Nico fez, mas ainda assim acatou ao pedido da mulher.
— Obrigado Andréa. — disse num sorriso. A mulher retribuiu saindo da sala.
Nico bufou:
— Ela tem alguma implicância comigo é?
Will rolou os olhos: — Mesas não foram feitas para se sentar, então ela está com toda razão.
— Ei, você deveria me defender sabia? — rebateu Nico, ambas mãos na cintura: — Que tipo de amante é você?
O doutor tensionou os ombros, mas logo sorriu meigo:
— Um não muito experiente. — confessou mexendo na comida: — Como foi a conversa?
— Boa, mas eu acabo surpreendendo as pessoas com minhas atitudes, é hilário. — disse sentando-se na mesa novamente.
— Abusado você, não? — comentou divertido: — E você surpreende todo muito, isso nem é mais novidade.
— É uma qualidade. — completou apoiando o cotovelo em sua perna dobrada sobre a mesa. Apoiou o rosto em sua palma aberta e observou Will almoçar.
O doutor devorou algumas garfadas antes de encará-lo. Cenho franzido e um pouco incerto.
— Você não deveria estar aqui.
— Não gosta da minha presença? — rebateu sereno, fitando-o nos olhos. Will negou:
— Não é isso, mas tem pessoas que esperam algo de você naquela cozinha. — explicou apoiando a mão em seu joelho, terno: — Volte, não me importo de passar a tarde sozinho no escritório. Sempre fiz isso antes de você começar a morar aqui.
Nico travou o maxilar sem desviar o olhar de Will. Sabia que o doutor estava acostumado a ficar sozinho, mas não queria isso, não quando estava prestes à sair para uma guerra e o deixaria sozinho por semanas.
Não queria que ele pensasse que significava menos que as pessoas naquela sala. Havia reparado na forma que agiu perto dos nobres, estava deslocado, mal. Nico umedeceu os lábios levantando a cabeça e segurando a mão de Will, entrelaçando seus dedos com firmeza.
O doutor o encarou curioso.
— As pessoas naquela mesa já sabem dos meus planos, só estão repassando a conversa de hoje de manhã. Além disso, prefiro ficar aqui sentado nessa mesa te observando de que no meio de um monte de nobre engomado. — confessou beijando os nós dos dedos de Will, esboçando um largo sorriso.
Will arregalou os olhos ligeiramente antes de desviar o olhar ruborizado. Nico riu inclinando-se para frente atrás de seus olhos fujões.
— Você pode estar acostumado a ficar sozinho Will, mas não planejo que continue assim daqui por diante, se me deixa ficar com você. — sussurrou de leve, seu peito palpitando de ansiedade.
Will virou para ele em choque.
— Você vai embora Nico, e nós dois sabemos disso. — falou o doutor abaixando o olhar para suas mãos entrelaçadas, de repente separando-as: — Vou voltar a ficar sozinho.
O pirata fechou a boca para o que diria em seguida. Não tinha argumentos no momento. Ainda estava indeciso quanto ao que fazer com o Will sendo que nem ele mesmo decidia se queria algo com o Nico ou não.
Respirou fundo olhando para a porta repentinamente interessante. O silêncio se instaurou no escritório, o som da cortina se mexendo pelo vento que entrava da janela aberta era a única coisa na sala com vida.
Nico queria poder assegurar Will, mas nem sobre sua viagem para sua mansão, e muito menos seu retorno ao mar eram coisas que poderia evitar. Era muito o que pensar, muito o que sacrificar por algo que nenhum dos dois tinha controle se seria ou não mais do que simples curiosidade.
Sentia a insegurança de Will, e aos poucos começava a se contagiar com ela.
— Pensei que havíamos decidido aproveitar o agora, ao invés de pensar no futuro. — comentou Nico voltando a encarar o doutor.
Will retribuiu o olhar, a expressão dolorosa em seu rosto.
— Não quero que pense nas consequências das coisas, das escolhas que posso fazer no futuro. Só sinta o presente, e me deixe cuidar de você da forma que eu posso. — pediu voltando a tocar sua mão sobre a mesa de leve, como um convite tímido: — Sei que posso acabar prometendo mais do que cumprirei, mas nesse exato momento só quero estar perto, te mostrar que estou aqui. Te fazer sentir o mesmo calor familiar que sinto sempre que estou perto de você.
Will respirou fundo fechando os olhos. Nico continuou:
— Eu entendo por onde sua mente está caminhando, está confuso com tudo. Com o que somos, o que você sente. — falou firme, mas até mesmo Nico podia ouvir um fraquejar em sua voz se prestasse atenção: — Se compreenda primeiro antes de tentar me entender, acho que pode ser mais fácil.
Suspirou pesado removendo sua mão. Desceu da mesa ajeitando suas roupas levantadas.
— Melhor eu voltar, vou tentar mandá-los embora ao entardecer. — disse por fim indo até a porta e saindo por ela.
A fechou delicadamente apoiando as costas na madeira fria do escritório. Escondeu o rosto em sua mão esquerda, apertando os olhos entre seus dedos. Tinha medo de iludir o Will com algum tipo de atitude ou sentimento que demostrasse.
Não sabia ainda o que fazer depois que voltasse daquela guerra. Já tinha uma quantidade razoável de dinheiro guardado para ir embora em um dos barcos mercantes que viajaria para o Caribe, só precisava arrumar as malas e partir.
Era tão simples e fácil. Um passo para fora daquela casa e estaria de volta no Caronte antes da guerra começar realmente.
Mas não, não era fácil para ele. Saber que daria as costas à pessoa que naquele momento ocupava um espaço tão grande em sua vida era impossível. Não conseguia compreender de fato quando aquilo aconteceu. Quando Will se tornou seu motivo principal para não voltar para o Caribe?
Quando Will o acorrentou naquele amor fadado ao fracasso? Quando se deixou iludir por um afeto passageiro?
Will não iria retribuir suas investidas mais do que já estava fazendo. Um beijo, um abraço, um sorriso? Era fácil de conseguir.
Uma confissão sincera? Isso ele não teria. Roubar um beijo? Tão fácil quanto roubar doce de criança, mas não era isso que ele queria.
Não era um relacionamento como o da Reyna que ele estava atrás.
E a cada momento se sentia cada vez mais decepcionado com o quão imaturo estava agindo. Se deixando levar por ele. Se deixando machucar por Will. Estava começando a ruir de novo, se iludindo quando claramente nada sairia daquele relacionamento.
Suspirou derrotado afastando-se da porta.
Endireitou o corpo e caminhou leve pelo assoalho de madeira. Tinha nobres para manipular, e esses comiam na palma de sua mão.
☠
— Vossa Graça, entendo o que está planejando, mas algo desse calibre levaria meses para planejarmos. — avisou o General Mogliezzi. Seus cabelos estavam presos para trás, já grisalho. Estava de roupas comuns, mas o brasão do Ducado claramente em seu peito; a caveira de olhos vermelhos raivosos.
— Vocês tem uma semana, menos ainda se contarmos que ele já suspeitam de minha estadia aqui. — comentou Nico sério, sentado na cabeceira da mesa. Os generais estavam de pé em volta da mesa observando o mapa aberto. Dali Nico ainda conseguia ver o rasgo de sua adaga no papel.
Sorriu de canto:
— Uma semana? Vossa Excelência com todo respeito, mas é quase impossível. — Artiaggli rebateu preocupado. Sua tez franzida desde o momento em que pisou naquela casa. Trocava o peso das pernas constantemente pelo nervoso.
— Então faça ser possível. — refutou Nico: — Se minha intenção de chamá-los aqui fosse para dizerem o quão “impossível” esse ataque é, então estou perdendo meu tempo senhores. — comentou apoiando os cotovelos na mesa: — Se fosse fácil eu faria sozinho, melhor, teria feito eu mesmo cinco anos atrás.
— Vossa Graça— Enrico começou, mas Nico o cortou levantando o mão.
— Entendo que estejam apreensivos, mas se as circunstâncias fossem melhores lhes daria mais tempo para se preparar, mas da mesma forma que não tivesse esse luxo, não posso lhes dar. — concluiu soltando o ar: — Seus exércitos pessoais são fáceis de organizar, mas não temos como fazer isso separadamente.
— E esse é exatamente o problema, Vossa Excelência. — O General Pamparonni ressaltou. Sua peruca branca contrastando em meio aos cabelos coloridos dos nobres: — Onde e como vamos conseguir reunir tantas pessoas em uma semana para repassar ordens?
Nico estreitou os olhos pensativo.
Conhecia uma região em seu território sem ninguém lá, pelo menos na época em que ainda era Duque proibiu a construção de qualquer coisa ali com a intenção de construir algo pra Hazel caso o escândalo sobre ser bastarda lhe impedisse de ter um casamento decente.
Ficava próximo da mansão, talvez fora da área de ronda.
— Eu conheço uma área. — disse chamando a atenção dos nobres: — Foi fechada alguns anos atrás por mim, e só pode ser construído ou mexido com minha assinatura pessoal. Nem mesmo o símbolo do Ducado funciona. — comentou Nico pensativo. Encarou Dylan atrás de clarificação.
— Ainda está parado, sem uso. — reforçou o soldado: — Ninguém vai lá há anos. É só floresta.
— Então podemos usar. — afirmou Matteo convicto: — Nos dê duas semanas. Uma para organizarmos nossos exércitos pessoais, e outra para unificá-los na região para o ataque.
Nico confirmou:
— Pois bem, temos duas semanas até o ataque. — concordou: — Armamentos serão por conta de vocês, e o que perderem será recompensado em ouro no final.
— Não há necessidade Vossa Graça. — Pietro negou: — Veja isso como uma aliança. Uma troca para um futuro distante.
Nico riu cético: — Pietro, não pretendo criar dívidas com ninguém. Irei lhes pagar os custos da batalha quando terminarmos, depois disso cada um seguirá pelo seu caminho como se nunca tivéssemos nos unido.
Enrico crispou os lábios antes de falar:
— Devo considerar que o Senhor não tem intenção de devolver o favor em futuros eventos.
— Ajudarei no que puder, até onde puder. — admitiu sério, passando os olhos dos nobres aos generais, antes de repousá-lo em Enrico novamente: — Mas me ajudar com a intenção de criar uma aliança vitalícia comigo, isso creio que não poderei lhes fornecer.
— Não estamos atrás de aliança, mas de compromisso. — Metteo ressaltou: — Se vamos ajudá-lo, precisamos saber que um dia o fará por nós.
Nico travou o maxilar.
Claro que não estavam fazendo aquilo de coração aberto, mas foram bem mais diretos do que esperava. Recostou na cadeira, cruzando as pernas debaixo da mesa pensativo. Poderia muito bem negar qualquer ajuda futura, já que suas intenções em continuar como Duque eram próximas à zero, mas talvez…
— Não posso prometer nada, já que minhas atitudes vão depender do julgamento do Imperador. — relembrou severo. Os nobres desviaram o olhar, o clima na cozinha mudando drasticamente. Suspirou antes de continuar: — Mas posso prometer um acordo que pode favorecê-los dependendo do resultado desta guerra.
— Pretendo terminar ela invertendo o jogo, fazendo com que o Castellan seja visto como único inimigo e causador de todo o problema, diferente do que sabemos que será. — explicou pausadamente, atento aos detalhes: — Fazendo isso, me posicionando como vítima no ataque citar nomes de gratidão dão créditos ao Imperador, como bem sabemos. O máximo que posso lhes dar com certeza é reconhecimento, nada mais.
Matteo fechou os olhos absorvendo a informação.
Era pouco, Nico sabia que era, mas aquilo infelizmente não era mentira. Suas ações serão pagas diretamente ao Imperador, onde ajoelhará no chão, abaixará sua cabeça e aceitará qualquer punição que o Imperador revolva lhe dar.
Isso se não for a morte na forca.
Enrico afrouxou a gola de sua gravata discretamente, mas o sentimento na mesa era mútuo. Mesmo os generais podiam sentir o peso da morte pairando em suas cabeças. Dependendo de como as coisas prosseguirem com o Imperador suas vidas poderiam estar em jogo.
— Pretendo assumir toda a culpa do problema, mas se eu for inocentado dos atos do Castellan, principalmente pela minha fuga cinco anos atrás, irei intervir por vocês. Tem minha palavra. — prometeu sincero.
Não era muito de prometer nada à nobreza, mas naquela situação era mais do que justo que o fizesse, afinal de contas poderia levar mais gente para a forca do que o previsto em sua conta.
— Já sabia onde estava me metendo mesmo antes de vir. — confessou Matteo sorrindo mordaz: — Tem meu apoio.
— O meu também. — Enrico respondeu prontamente.
— Já estou aqui, não vejo porquê não. — Pietro suspirou derrotado.
Os generais bateram continência aceitando as consequências da guerra. Nico sorriu para Dylan que repetiu o gesto; até mesmo Christiano se curvou para ele minimamente.
— Então temos um encontro para organizar.
☠
A noite caiu em Ravenna e os nobres se retiraram para os preparativos. Se econtrariam em uma semana na área demarcada por Nico no mapa que lhes foi entregue. Todas as estratégias de combate foram discutidas e debatidas, e durante a semana que acampariam na floresta iriam ajustar os últimos detalhes.
A guerra nunca esteve tão próxima.
Dylan escoltou os Nobres para suas carruagens na borda de Ravenna enquantos Generais se encontraram com Giovanni para uma última conversa antes de partirem para se organizarem. Nico se apoiou na mesa da cozinha. Não deixou Christiano arrumar suas anotações o dispensando pela noite. Fez o mesmo com Andréa que prometeu voltar no dia seguinte para arrumar a bagunça deixada pela visita.
Ficou sozinho na cozinha, a luz fraca do lampião sendo a única coisa iluminando o ambiente. Seria difícil, ainda mais pensando profundamente no que estava prestes a fazer. Iria enfrentar o Castellan, provavelmente matá-lo se tivesse a chance, e logo depois teria de prestar contas com o Imperador explicando sua ausência de cinco anos e o motivo da comoção popular que causaria.
Fechou os olhos sentindo a dor de cabeça irradiar.
Tinha uma ideia se formando em sua mente, mas para ela funcionar devidamente precisava de mais uma coisa, mais uma pessoa trabalhando para ele, mas infelizmente não tinha controle sobre ele.
Se Nico era considerado uma víbora, esse homem era uma águia de tão astuto. Suspirou pesado fechando as mãos em punho nervoso. Muita coisa poderia dar errado nisso, coisa demais e não tinha tempo para planejar, ou pensar.
Era entrar para matar ou morrer; nada tão diferente de sua vida pirata.
Sentiu dois braços o abraçarem pela cintura. Estremeceu com o toque, o calor de outra pele contra o seu o deixou em alerta, mas logo o cheiro de colônia barata o cobriu relaxando os músculos. Abriu um sorriso mínimo segurando os braços do doutor contra si.
— Pensei que já tivesse subido. — comentou Nico delicadamente, apoiando seu corpo para trás contra o peitoral de Will, sentindo-se bem mais confortável.
— Me desculpe. — pediu Will encostando a testa em seu ombro.
Nico virou a cabeça para ele, curioso.
— Pelo que?
— Por dificultar as coisas. — confessou apertando o abraço: — Ainda é complicado compreender, mas ao mesmo tempo eu sei o que estou fazendo.
Nico concordou com a cabeça, mas não tinha o que dizer.
— Não sei se você vai ficar ou não, se vai voltar dessa guerra vivo ou… — Will prensou os lábios não continuando. Nico respirou fundo se virando para o doutor, ainda em seus braços. Will continuou: — Não posso evitar de pensar no futuro, mas gosto do que tenho agora. Gosto disso.
Comentou levemente acariciando Nico por cima de suas várias camadas de roupa. O pirata fechou os olhos apreciando o calor. Enlaçou a cintura de Will abraçando-o delicadamente, seu rosto contra seu pescoço sentindo-se seguro.
Will o apertou contra si permanecendo assim por um tempo. O coração de Nico palpitava esperançoso, mas o medo ainda o rodiava sem parar; o medo de acabar se iludindo ou iludindo Will era demais para ele conseguir conciliar. Decidiu não pensar nisso, não naquele momento.
Teria uma semana inteira antes de partir para o acampamento. Até lá poderia pensar no que fazer apropriadamente. Se afastou do doutor aceitando o carinho em seus cabelos presos. Will sorriu para ele.
— Vem, eu te ajudo a tirar tudo isso. — comentou o puxando pela mão enluvada. Na outra segurou o lampião os guiando até o segundo andar.
Nico pensou em fazer alguma piadinha, mas resolveu que não era o momento ideal. Apertou sua mão sentindo o calor emanar contra sua pele gélida. Se deixou ser arrastado todo o caminho até seu quarto, fechou a porta e parou encarando Will.
O doutor olhou rapidamente em volta o puxando para perto. Retirou primeiramente suas luvas junto do anel da família; passou seus dedos por seu blazer o descartando adequadamente na cadeira ao lado, deixando-o esticado. Nico arrancou a gravata sem delicadeza nenhuma, desabotoando as mangas de sua camisa sentindo-se mais livre com o ar gélido do quarto contra sua pele.
Desabotoou a camisa sentando-se na cama. Will se encostou na parede e esperou até que Nico estivesse sem a parte de cima da roupa. Se virou para a bandeja com as faixas e unguentos. O pirata apoiou os braços para trás dando espaço ao Doutor de examinar seu ferimento.
Will mexeu nele sem trocarem uma única palavra. Nico fechou os olhos momentaneamente cansado do dia corrido e do nervoso. As ervas estavam frias contra sua pele, mas era agradável a força que Will as aplicava. Se deixou relaxar mais ainda permitindo um pouco de seu estresse esvair.
Sentiu seu corpo amolecer e quando deu por si estava sendo segurado pelos ombros por Will que mantinha o olhar assustado para ele, a tigela de ervas no chão do quarto. Franziu o cenho tentando voltar a ficar ereto, mas seu corpo não respondia.
Will o manteve estável.
— Quando foi a última vez que teve uma noite de sono decente? — perguntou preocupado. Nico deu de ombros.
— Não tenho noites de sono decentes. — admitiu cansado, seus olhos não permaneciam abertos. Will suspirou acariciando seus cabelos delicadamente. Retirou sua faixa de cabelo o deitando no travesseiro.
Nico se ajeitou na cama de lado, fechando os olhos novamente. Ouviu a risada de fundo do Will. Sentiu mãos quentes em seus tornozelos e seus sapatos logo foram retirados.
— Pode dormir sem faixa no ferimento hoje, deixe-o respirar. Não precisa mais dela, o que é bom. — garantiu contente, mas a conversa era mais para ele mesmo do que para Nico que fazia esforço para ouví-lo. Sentiu a cama mexer e um beijo em seus cabelos. Abriu um sorriso involuntário: — Durma bem.
— Vá dormir… também… — falou Nico sem abrir os olhos.
— Tenho alguns papéis para organizar. — Admitiu acariciando seus cabelos: — Mas irei logo logo.
Nico negou com a cabeça o segurando pelo braço.
— Você vai se matar assim. — resmungou forçando seus olhos a se abrirem. Will sorriu reconfortante.
— Boa noite Nico.
O pirata respirou fundo virando para o outro lado.
— Buenas Noches, cariño.
Will parou na soleira da porta observando a figura de Nico que dormia profundamente pela primeira vez em dias. Sorriu para ele descendo com o lampião para o escritório, um sentimento caloroso irradiou por seu corpo.
E uma mão apertou seu coração aflito.
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