Pit-a-Pat
33 Capítulo XXXIII
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXIII~
:: 57º dia na Itália — Semana 8 ::
[...]
Nico se olhava no espelho enquanto Chris terminava de arrumá-lo.
Dylan havia aparecido mais cedo com roupas que poderia usar nos dias das reuniões com os nobres. Nico chiou em ter de voltar a utilizar aquelas roupas pomposas, mas entendia a necessidade da boa aparência.
Se observou de cima abaixo nostálgico.
As várias camadas de linho fino da mais alta grife se encaixavam perfeitamente no seu perfil esguio. Observou o azul marinho — quase preto — delimitando seu torso. Os excessos de pano branco em suas mangas e pescoço criavam a quebra no escuro da roupa.
A luva da mesma cor do paletó estendia-se somente até o começo da mão, parte da palma exposta.
Seu cabelo foi ajeitado para trás preso em um rabo de cavalo baixo com um laço azul o segurando. Recusou o pó para branquear seus cabelos e observou finalmente o conjunto completo no espelho.
Fazia cinco anos que não vestia algo tão refinado e caro, ou que usasse colônia aromatizante ao invés do cheiro natural de maresia.
Christiano cruzou os braços admirando seu feito. Nico sorriu para ele agradecido.
Andou até a gaveta de seu quarto retirando dela as duas chaves e o anel presos em sua corrente de prata. Mordeu o lábio segurando em mãos o anel de caveira. Os olhos de rubi julgando-o na base de ossos.
Respirou fundo colocando-o no dedo indicador esquerdo. A marca registrada dos Di Angelo.
Virou-se para o garoto que assistia seus movimentos com cautela. Nico sorriu para ele esticando os braços abertos.
— Como estou? — perguntou retórico, mas o garoto pareceu pensativo antes de escrever nos papéis que Nico lhe dera.
“Como um Nobre.”
Ele rolou os olhos, mas aceitou a rotulagem.
— Ao menos isso. — zombou ao se sentar na cama arrumada.
Respirou profundamente fechando os olhos. Seria um longo e complicado dia. Não estava mais acostumado com as etiquetas de praxe da elite, mas esperava conseguir manter bem a compostura.
Ainda era bem cedo e poderia relaxar um pouco antes que algum deles chegassem. Talvez ficar um pouco com o Will no escritório.
Christiano o tocou no ombro de leve. Nico abriu os olhos curioso. O rapaz apontou para a porta onde Will o observada do batente.
Sentiu seu rosto arder de leve com o sorriso delicado nos lábios do doutor.
— Bom dia. — falou o pirata se levantando. Will devolveu o cumprimento o medindo da cabeça aos pés.
— Fica muito bem assim. — confessou o doutor honesto. Nico mordeu o interior da bochecha conflitante.
— Infelizmente eu sei. — respondeu cruzando os braços: — Não estou mais acostumado a vestir tanta roupa. Realmente não teria conseguido sozinho. — admitiu a última parte num sussurro.
Will riu:
— Bom que o Christiano estava aqui. — ele disse inclinando o corpo para o lado, fazendo contato visual com o atendente: — Bom dia.
O rapaz sorriu educado curvando-se comedido enquanto as roupas de Nico. O Duque se virou para ele também.
— Vou descer. Já comeu? — perguntou recebendo um aceno positivo do garoto: — Muito bem então.
Nico saiu do quarto junto de Will, Christiano os seguindo logo atrás. Assim que entraram na cozinha Christiano começou a arrumar algo para eles, servindo-os rapidamente e com maestria. Will ia rebater, mas Nico negou para ele.
Não seria nada bom privar o rapaz de fazer o que lhe foi mandado. O deixaria confuso e sem saber se realmente estava sendo útil ou se estava atrapalhando. O doutor suspirou, mas deixou que Chris continuasse.
Se sentaram na mesa:
— Quando eles vão chegar? — questionou Will curioso. Nico crispou os lábios pensativo.
— A qualquer momento, na verdade. — confessou: — Dylan disse que eles iriam aparecer esporadicamente para não levantar suspeitas. Ele deve chegar primeiro que todos.
O doutor concordou com a cabeça não parecendo muito confortável com a situação. Chris se aproximou deles aprontando a mesa: colocou duas xícaras de porcelana com um bule com chá fresco e uma jarra de suco, frutas cortadas em tigelas de vidro, pães diversos com potes de geléia e outras coisas mais caras distribuídas pela mesa.
Colocou os pratos decorados em frente a eles com três fileiras de talheres e duas taças.
Nico se ajeitou para comer, mas o olhar de Will para a mesa quase o fez rir. O doutor não estava assim tão acostumado com esse tipo de mesa farta que os Nobres normalmente tem, e provavelmente se perguntava de onde havia pego toda aquela prataria.
— Chris achou tudo isso guardado naquele quartinho no Hall. Achamos que seria melhor usarmos dela do que as canecas de ferro que normalmente usamos. — explicou Nico delicadamente. Chris concordou com a cabeça receoso, afinal havia mexido nas coisas de Will sem seu consentimento: — Antes que surte eu permiti ok?
Will balançou a cabeça aceitando, mas o franzido entre suas sobrancelhas preocupou o pirata ligeiramente. Decidiu deixar essa conversa pra depois, gesticulou para Chris que imediatamente encheu sua xícara com chá quente. Lhe serviu um pedaço de pão com geléia e depois se afastou aguardando novas instruções.
O doutor não pediu ajuda, se serviu sozinho comendo em silêncio na mesa. Nico fez o mesmo bem desconfortável com a quietude de Will. Não estava acostumado com o silêncio durante as refeições, principalmente porque em todas as vezes que isso acontecia era devido à alguma briga ou mesmo desentendimento.
Não queria algo assim entre eles novamente.
— Chris, poderia subir e pegar minha bengala? A esqueci no pé da cama. — pediu Nico tomando de seu suco. O rapaz assentiu saindo da cozinha. Nico o seguiu com os olhos, e assim que ouviu seus passos na escada segurou a mão de Will lhe chamando a atenção: — O que foi?
O doutor respirou fundo: — Isso é tão artificial. É estranho ver você dessa forma.
Nico desviou o olhar desconcertado. Ele sabia que isso ia acontecer, afinal de contas se apresentou para ele como um pirata e agia e se portava como um. Seu eu nobre e pirata eram duas figuras muito diferentes uma da outra; polos opostos.
Umedeceu os lábios tentando achar algo pra falar, mas nada lhe veio à mente. Apertou a mão do doutor solidário, mas optou pelo silêncio. Will que tirasse suas próprias conclusões. Nico levou muito tempo para descobrir qual de suas duas facetas era a real, e talvez o doutor precisasse descobrir isso por ele mesmo.
Se afastou voltando a comer. Christiano apareceu com a bengala a colocando apoiada ao lado da mesa. Se curvou de leve e Nico acenou com a cabeça agradecido. O café continuou da mesma forma e assim que terminaram Will foi para o escritório e Nico se sentou no Hall aguardando.
Retirou um dos livros da estante e se pôs a ler enquanto Chris arrumava a mesa da cozinha para receber os nobres. Achava um tanto estranho não haver uma sala de jantar para uma reunião mais privada, mas se contentava com o pouco que tinha.
Folheou o livro sem muito interesse, sua mente trabalhando em duas sintonias diferentes e não sabia qual delas dar prioridade no momento. Suspirou tapando o rosto com as mãos enluvadas, conflitante. Gostaria de poder ter suas respostas de forma rápida, mas a única coisa que sua mente martelava era ir conversar com o Will.
Desde quando ele se tornou sua prioridade, acima até de seu passado?
Batidas firmes na porta o trouxeram de volta à realidade. Ficou ereto cruzando as pernas com leveza. Christiano foi até a porta abrindo-a para o visitante. Do lado de fora se encontrava Dylan com um homem de sobretudo preto e chapéu de penas chamativo. Por debaixo da roupa Nico identificou a vestimenta fina da nobreza.
Passaram pela porta entregando seus casacos e chapéus ao Atendente que se retirou para guardá-los. Nico se levantou recebendo seus visitantes.
— Sejam bem-vindos Dylan, Visconde Abbateli. — cumprimentou a ambos com um aceno. Dylan se curvou enquanto o Visconde retribuiu o gesto.
— Duque di Angelo. — disse com clara curiosidade na voz. Seus cabelos negros medianos mexeram com o movimento, contrastando seus olhos azuis faiscantes e a marca de nascença debaixo de seu olho direito.
Suas roupas eram em tom verde escuro com adornos dourados por toda a vestimenta. Em uma mão uma bengala de dragão chamativa de olhos vermelho fogo. Nico sempre achou aquele acessório além do ridículo, mas nunca externou seus pensamentos.
— Sente-se enquanto aguardamos pelos outros nobres. — propôs Nico guiando-o até o sofá no Hall: — O dono da casa está no escritório, irei chamá-lo.
O Visconde sentou-se concordando: — O que o senhor achar melhor.
Nico então se retirou do Hall sentindo o olhar de Dylan em suas costas. Olhou para ele brevemente capturando um olhar firme de seu soldado. Continuou o caminho até o escritório apoiando-se no batente enquanto Will escrevia algo em seu caderno de anotações.
Will levantou o olhar para ele: — Qual deles chegou? — indagou o doutor levantando-se.
— O Visconde. — respondeu fechando a porta atrás deles e se aproximando de Will antes que ele se afastasse. Apoiou ambas mãos em seus ombros: — Não precisa ficar nervoso, nem mesmo nos acompanhar nas conversas sobre guerra, mas gostaria da sua companhia naquele Hall.
O Solace respirou fundo concordando: — Tudo bem, posso fazer isso. Mas nunca conversei com Nobres. Acho que meu cliente de mais alta classe seria o Senhor D, e ele não é o melhor exemplo de conduta.
Nico riu: — O chame de Vossa graça, ou Vossa Excelência. Eu te dou permissão de me chamar como sempre o fez, não precisa disso comigo, ok? — explicou ele ajeitando a gravata de Will.
O doutor sorriu pequeno: — Só faltava ter que chamá-lo assim. Meio estranho.
Nico pressionou os lábios pensativo: — Como se eu fosse deixar meu parceiro me chamar de algo que o inferiorize.
Will estremeceu um tanto surpreso. Nico sorriu para ele:
— Somos iguais, para mim você não é inferior em nada entendeu? — garantiu Nico se afastando e abrindo a porta: — Melhor irmos, antes que Dylan venha nos buscar pessoalmente.
O doutor o seguiu para o Hall. O Visconde tomava do chá o qual Christiano havia lhe oferecido. Dylan não estava em nenhum lugar à vista. Assim que foi avistado pelo nobre o mesmo se levantou reconhecendo a chegada de Nico.
O Duque apontou para Will com graça: — Este é William Solace, dono da casa e amigo íntimo da família. — respondeu Nico sério.
O Visconde assentiu com a cabeça estendendo-lhe a mão:
— Muito prazer meu Lorde, me chamo Pietro Abbateli, Visconde. — apresentou-se educado. Will apertou sua mão.
— Muito gosto, Vossa Graça.
Se separaram sentando-se nos sofás. Nico fez questão de sentar-se ao lado de Will como reconhecimento de sua importância num sofá para dois lugares. Recebeu uma xícara de Christiano com chá, mas Will recusou a sua.
— Acredito que haja mais coisas a serem contadas além da carta, Nicolà. — comentou Pietro solene. O Duque concordou.
— Infelizmente não havia o que mais explicar em uma carta. Muito do que aconteceu e irá acontecer é melhor ser dito pessoalmente. — respondeu depositando a xícara na mesinha de centro: — Decerto, gostaria de fazer uma pergunta, Visconde.
— Vá em frente.
— O que o fez acreditar tão rápido que a carta era realmente minha? — questionou sério.
A atitude do Visconde e do Marquês foram instantâneas, não abriram brechas para alguma cilada ou armação. A atitude tanto do Conde quanto do Grão-Duque foram as mais esperadas pelo Duque.
Pietro pensou por um momento sem cortar contato visual com Nico. Se desfez de sua xícara cruzando as pernas.
— Nunca foi negada minha entrada na mansão. — respondeu severo. Nico ficou tenso: — Ainda que houvesse algum desentendimento Duque, meu convívio com meus primos nunca em foi rejeitado.
Nico cerrou os olhos para a afirmação. Eram primos distantes do lado de sua mãe Maria. Ele era uns dez anos mais velho que Nico, mas sempre estava presente em finais de semana menos atarefados em seus domínios. Se lembrava vagamente do tempo em que Hazel o seguia por todo canto da mansão como um mamãe pato e seu filhote.
Entretanto, nunca foram muito próximos. Ainda que Pietro possuísse uma atitude mais espontânea com sua família, o pequeno atrito entre eles depois da descoberta do suicídio de sua mãe se tornou mais palpável.
Pietro havia exigido uma explicação de Nico depois que lhe contou o que aconteceu, e o motivo de ter escondido isso de todos por quase dez anos. O Duque o respondeu com frieza, pois era como havia se acostumado a lidar com a vida.
O Visconde levou aquilo como insensibilidade.
Desde então não se davam tão bem quanto antes, e Nico pessoalmente não imaginou que o primo realmente fosse tentar ajudar.
— Não imaginou que eu pudesse rejeitá-lo depois de nosso desentendimento? — sugeriu ríspido: — Afinal de contas me ofendeu de várias formas aquele dia. Poderia negar sua presença.
Pietro negou com a cabeça, fitando-o.
— A briga foi meses antes de expormos seu pai. E durante esse tempo ainda assim era convidado a passar um tempo com Hazel à pedido dela. Você nunca vetou nossas interações. — explicou entrelaçando seus dedos: — Quando isso aconteceu e as cartas de Hazel pararam de chegar imaginei que algo estivesse fora de eixo.
Nico sorriu sarcástico:
— Sagaz como sempre, meu primo.
O Visconde arqueou a sobrancelha: — Diferente de você sou líder de família à mais tempo.
— Concordo.
O silêncio se instaurou por um momento. Christiano aproveitou para retirar as porcelanas da mesa.
— Está ferido?
Nico franziu o cenho: — Por que a pergunta?
— Está pendendo o corpo para o lado. Sua postura não está correta e sempre foi exemplo de boa conduta. — ressaltou Pietro.
Nico olhou para seu abdômen por instinto. Não imaginou que fosse visível para mais alguém além de Will, mas pelo visto os olhos afiados do Abbateli não poderiam ser enganados.
— Nada com o que se preocupar. — assegurou: — Pergunte ao meu doutor se quiser. — ressaltou apontando para Will ao seu lado que se mantinha calado.
Pietro observou Will por um momento antes de sorrir cortez.
— Qual a gravidade real do ferimento?
Nico arqueou a sobrancelha.
— O suficiente para eu não ter concordado com essa campanha. — respondeu forte. O Duque o encarou nada surpreso com sua resposta honesta.
O Visconde riu de leve: — Então ele não é um de seus fantoches. Surpreendente.
Will estremeceu com o termo. Nico torceu o lábio para a provocação, mas não se deixou abater. Recostou-se no sofá ameaçador.
— Não é meu fantoche, afinal de contas gosto de pessoas com atitudes ao invés de nobres que se submetem a humilhações para um punhado de atenção. — cuspiu provocativo: — Conheço alguns que lamberiam meu sapato só para serem acariciados e chamados de “bom garotos”.
Will arfou horrorizado com sua atitude. Pietro fechou o rosto raivoso enquanto um sorriso vitorioso se desenhava no rosto do Duque.
— Seu-
A porta foi aberta por Dylan que entrou acompanhado de mais dois homens, um deles usando o mesmo tipo de vestimenta do Visconde, já o outro veio totalmente exposto com sua roupa preta com adornos prateados. Seus cabelos ruivos brilhavam forte contra o sol da manhã.
As sardas em seu rosto faziam contraste com seus olhos verdes alegres. Dentre os membros que convidou para a reunião, o jovem Marquês era o único que possuía sua mesma idade. Nico sorriu para o velho conhecido se levantando.
— Enrico. — cumprimentou Nico aproximando-se do Marquês. O ruivo o abraçou surpreendendo o Duque que ficou sem reação, várias sirenes tocando em seu cérebro o fazendo estremecer. Dylan fechou o rosto não gostando nada da aproximação do Marquês.
— Que bom te ver novamente, Nico. — afirmou se afastando do amigo. O Duque concordou com a cabeça desestruturado respirando fundo pelo toque nada convidativo. Ainda não sabia como lidar com ele.
O Marquês sempre foi um rapaz mais aberto quanto à sua forma de agir com as pessoas. Não era contra contato físico e muitas vezes transparente demais. Infelizmente isso criava para ele uma má fama entre os Nobres. O Conde pigarreou entregando seu chapéu e casaco para Christiano.
Seus cabelos loiros estavam presos para trás em uma fita branca. Sua roupagem toda em tons de azul claro com adornos dourados e uma espada na cintura. Seus olhos azuis cintilaram para Nico em surpresa.
— Então a carta era autêntica afinal. — concluiu se aproximando de Nico trocando um aperto de mãos firme: — É bom vê-lo seguro, Nicolà.
— Agradeço sua preocupação. — admitiu: — Deixem-me apresentá-lo ao dono da casa. Este de William Solace, doutor e atual amigo da família. Não irá participar da reunião conosco, mas se dispôs a deixar que usássemos sua casa.
O Conde assentiu com a cabeça para o doutor que retribuiu o gesto.
— Agradeço a hospitalidade, meu Lorde. Não nos demoraremos. — concluiu lhe apertando a mão: — Sou o Conde Matteo de Baltimore.
— Muito gosto, Vossa Graça.
— Sou o Marquês Enrico di Stefano, mas me chame de Enrico. Não gosto dessas formalidades. — apresentou-se. O Conde estalou a língua irritado com sua atitude afastando-se.
Nico se forçou para segurar a risada.
— Como queira. — respondeu Will sorrindo educado, mas Nico sabia o quão falso aquele sorriso era: — Se me derem licença, preciso atender à um paciente esta manhã. Por favor sintam-se à vontade.
E desta forma Will fugiu daquele clima tenso no Hall. Nico sorriu de lado para sua facilidade em escapar das coisas. Queria ter essa capacidade, mas ele normalmente atrai os problemas.
— Os Generais chegarão mais tarde, porque não nos sentamos? Irei atualizá-los da minha situação. — propôs Nico aguardando enquanto os nobres se acomodavam. Dylan franziu o cenho.
— Com todo respeito Vossa Excelência, não seria melhor esperar por eles? — indagou o soldado confuso.
Nico negou: — Eles estão aqui como apoio bélico. Não há necessidade de convencê-los a nos ajudar, pois trabalham para nós.
— Mesmo que eles se recusem, seus postos se localizam em nossos domínios. Temos meios de persuasão bem convincentes, soldado. — garantiu o Conde sentando-se em uma poltrona.
Enrico sentou no sofá para dois e Nico sentou-se na outra poltrona. Pietro arqueou a sobrancelha para ele, mas Nico fez questão de ignorar.
— Por onde querem que eu comece?
— O começo seria bom. — respondeu Matteo: — Não sabemos quando as coisas complicaram, nem mesmo o motivo de seu desaparecimento por tanto tempo.
— Sabemos que as coisas estão estranhas há um bom tempo, mas é difícil ter uma noção real da situação. — Pietro concluiu.
Enrico concordou com a cabeça. Nico fechou os olhos momentaneamente:
— Pois bem.
☠
A explicação de Nico foi breve e não com tantos detalhes como contou para Dylan dias antes. Ressaltou para a atitude do Conde e a cumplicidade de sua irmã no golpe. Explicou o motivo de sua fuga e o que fez durante esse tempo.
Especificou também sua falta de conhecimento dos aliados do Castellan, impossibilitando-o de contatá-los mais cedo. O Conde de Baltimore se manteve impassível durante a conversa toda, mas Pietro e Enrico expressaram emoções bem gritantes, principalmente quando narrou a traição de Bianca.
Pietro sussurrou um “inacreditável” enquanto parecia assimilar as coisas.
Nico terminou depois de um tempo. O silêncio se instaurou no Hall sendo ouvido somente o tic-tac do relógio de corda. O Conde estava de olhos fechados, imerso em pensamentos. Enrico não conseguia encarar Nico nos olhos, parecia conflitante.
Seu primo foi o primeiro a se pronunciar.
— Então foi um golpe interno, mesmo sua irmã fazia parte do ataque. — concluiu Pietro: — Foi realmente um ataque imoral.
— Exatamente. — O Conde concordou severo: — Esse tipo de atitude vinda de um nobre como o Castellan é inaceitável. Saber que o golpe se estendeu para membros da família deixa o ato ainda mais desprezível.
— E o antigo Duque? Ele sabia disso? — Erico indagou curioso. Nico franziu o cenho.
Essa pergunta ele não sabia responder.
— Acredito que não. Caso contrário já saberíamos algo dele à essa altura, mas nada impede que tenha auxiliado na organização.
— Seu pai é um homem de baixa índole. Desculpe as palavras duras Nicolà, mas bem sabemos o que ele fez no passado para perder o título de Duque. — refutou Matteo batucando no braço da poltrona com o indicador, nervoso: — Não me surpreenderia caso se aliasse ao Castellan.
Nico crispou os lábios. Se seu pai estivesse envolvido seria bem mais complicado já que ele era Duque há muito mais tempo que todos naquela sala possuíam seus títulos.
Sua experiência como nobre e reconhecimento no passado não eram em vão.
— Considerando sua participação nisso, precisaremos de uma estratégia mais concreta, garantir que ele ainda está recluso na casa de campo. — Sugeriu Nico.
Pietro concordou: — O ideal seria mandarmos soldados para impedir a saída do ex-Duque e de seus soldados. Vetando qualquer comunicação.
— Isso impediria qualquer notícia sobre nosso ataque de chegar ao Conde. — emendou Enrico: — Mas conseguir isso é mais do que nos programamos.
— Ainda temos tempo para um ataque. — garantiu Nico: — Dylan se encarregou de listar os homens que estão à meu favor na mansão, e devo dizer que a quantidade é considerável.
O Conde arqueou a sobrancelha: — Que seria?
Nico gesticulou os dedos recebendo em mãos o papel entregue pelo próprio Dylan. Abriu o envelope lendo a caligrafia do amigo.
— Duzentos soldados. Mais da metade do meu exército particular incluindo o serviço secreto que não participou do golpe. — respondeu jogando os papéis na mesa e centro.
Matteo aquiesceu satisfeito.
— Posso disponibilizar exatamente a mesma quantidade de soldados. — se pronunciou: — Mas antes preciso entender as estratégias de ataque que você pensou em usar.
— A mesma quantidade para mim. — emendou Pietro.
Enrico concordou solene. Nico respirou fundo. No bruto teria exatos oitocentos soldados disponíveis para um ataque. Não precisaria de tudo isso para uma invasão em sua mansão, mas a folga que a quantidade lhe dava era o suficiente para não ter que se preocupar com falta de poder bélico.
— Pois bem. Dylan mapeou os soldados do Conde e onde cada um deles permanece. Suas rondas, escalações e horários de folga. Ao todo temos trezentos soldados dentro da mansão, sendo somente cem deles realmente fiéis ao Castellan. — resumiu Nico.
O sorriso funesto do Conde deixou Nico desconfortável. Era um homem de guerra e por mais que a Itália não estivesse envolvida em nenhuma batalha, era um amplo conhecedor de estratégias bélicas e ataques de tradição Romana.
Nico se levantou: — Vamos até a cozinha. As plantas da casa e as informações que precisaremos estão todas nela.
Os nobres se encaminharam para a Cozinha. Uma pequena mesinha ao lado estava com uma ânfora de vidro cheia de vinho fresco e quatro taças rodeando-a. Matteo se serviu de uma delas:
— Quando os Generais irão chegar? — indagou tomando do vinho. Dylan se curvou antes de responder.
— Por volta do meio-dia Vossa Graça.
O Conde estreitou os olhos, mas nada disse a respeito.
— Christiano, sabe que horas Andréa chegará? — indagou Nico olhando para o rapaz. O mesmo concordou levantando ambos indicadores, formando o número onze.
O Duque concordou com a cabeça: — Bom, vão chegar para o almoço eu suponho.
Observou o olhar dos nobres em cima de Christiano. Olhos curiosos e ao mesmo tempo severos por sua presença. Nico conhecia bem aquele olhar de desprezo, o julgamento que estavam dando ao jovem sem motivo algum.
Claro que compreendia que a presença dele significava atos ilícitos e provavelmente envolvimento com o submundo da cidade, deixando a posição de Nico naquela sala questionável.
Bem, ele realmente era uma figura nada confiável, afinal.
Nico mudou sua feição instantaneamente para algo mais ameaçador, alterando sua postura nobre para a pirata em segundos. Estreitou os olhos desafiando os nobres a externarem seus pensamentos.
O Conde estremeceu desviando o olhar assim como Petro. Enrico os abaixou para a mesa aparentemente desconcertado. Dylan franziu o cenho para isso, mas Nico resolveu ignorá-lo novamente.
— Vamos deixar uma coisa clara, não sou o mesmo de cinco anos atrás e espero que não se esqueçam disso. — rosnou nervoso: — Estamos aqui como colegas, mas se me sentir ameaçado não vão gostar do que vai acontecer.
Matteo fez menção de dizer algo, mas Nico o impediu:
— Posso não estar na minha mansão nesse exato momento, mas exijo de vocês o mesmo respeito que eu como um Duque ei de receber. E isso inclui meus serviçais. Nesta sala ainda detenho do maior título, e não se esqueçam disso. — alertou ajeitando a postura novamente, deixando-se sentar com graça e delicadeza na mesa.
Totalmente contrário de seus gestos segundos atrás.
Christiano ficou atrás dele, mas parecia menos intimidado após ser defendido pelo Duque. Os nobres se sentaram da mesma forma, desta vez distantes de Nico.
Apoiou os cotovelos na mesa sustentando o rosto em seus dedos entrelaçados:
— Vamos direto ao ponto. A estratégia seria um ataque lateral pela área de entrada dos servos. É a menos monitorada e rodeada pelas árvores do jardim. — explicou ríspido, não dando brecha para ser questionado: — Um ataque frontal será feito, mas a força principal se concentrará na lateral da mansão.
— Entraremos com os soldados por ela, deixando o ataque frontal à cuidado dos generais com uma bandeira de ataque brutal. — continuou pegando a adaga de sua cintura e cravando-a na mesa.
Os nobres pularam no lugar e Dylan ficou tenso, a mão na bainha da espada automaticamente. Nico arqueou a sobrancelha para ele, desafiando-o a confrontá-lo.
— Aqui é onde se encontra a saída de emergência da família real. — explicou retirando sua mão do cabo da adaga, onde a mesma se cravava na área de treinamento perto da cozinha. Matteo observou o Duque em óbvio choque: — A saída dos servos é há um quilômetro dessa área, que foi por onde escapei da outra vez.
— Se quisermos pegar o Castellan, é aqui onde irei interceptá-lo. — concluiu retirando a adaga com maestria.
Enrico observou inseguro Nico guardar sua adaga em sua cintura, cruzar as pernas e sorrir mordaz. Pietro não soube o que dizer no momento, chocado com a atitude fora do comum do primo.
Nico nunca havia apresentado nenhum tipo de agressividade ou sadismo em todos os vinte e três anos que conhecia o primo, então sua expressão era compreensível para o Duque. Matteo, por outro lado, o analisava com afinco, como se quisesse despí-lo para ver o que mais havia escondido em suas vestimentas.
— Se continuar a me encarar assim, Matteo, vou exigir pelo menos um cortejo antes. — zombou abrindo um sorriso malicioso.
O homem bufou indignado. Enrico riu chocado com a provocação. Pietro rolou os olhos.
— Ele ele está de volta.
— Não lembro de ter ido à lugar nenhum. — ralhou: — Não estou aqui para brincadeiras senhores, me levem à sério se quiserem realmente solucionar esse problema.
Dylan se aproximou de Nico analisando-o, mas nada disse.
— Então se vamos entrar por aqui, como iremos interceptar o Castellan? — indagou Matteo menos tenso.
— Não vamos, eu vou. — respondeu sorridente: — Sozinho.
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