Pit-a-Pat
30 Capítulo XXX
Notas iniciais

Will
~Capítulo XXX~
:: 53º dia na Itália — Semana 7 ::
[...]
Will estava um caos.
Sentia uma agonia irradiar por seu peito, dolorosa e traiçoeira, imaginando todos os tipos de possibilidades, de motivos e saídas, mas tudo parecia intensificar a dor. Imaginar que Nico poderia estar o manipulando todo aquele tempo, como uma marionete para seus próprios jogos sórdidos e mortais era talvez a pior das possibilidades que sua mente resolveu moldar.
Seu coração pulsava sem parar, não se acalmava, não tranquilizava. O peso em seu peito aumentava e a única coisa que conseguiu fazer foi ficar sentado no escritório, imaginando como sair novamente daquela sala.
Sua mente estava um turbilhão de pensamentos conflitantes e mentirosos.
Sentia como se todos os momentos que tiveram e tudo que eles falaram e riram durante aqueles três meses fossem simples mentiras contadas pelo Nico, brincando com Will igual fazia com todos. Doía imaginar que ele poderia fazer parte de mais um grupo de otários enganados pelo pirata.
Will sempre acreditou em segundas chances. Sempre acreditou que as pessoas mudavam e que existia algo bom em cada uma pedaço escuro do mundo, e quando Nico apareceu para ele machucado, armado e com uma tatuagem pirata Will resolveu lhe dar o direito da dúvida.
Por semanas Will pensou que tinha acertado em fazer isso, mas ele tinha medo de saber a verdade no final das contas. Não conseguia formular um único motivo para ele ter mentido sobre sua identidade o tempo todo. Queria usar ele de isca pra quando fosse embora? Para focarem nele quando desaparecesse do mapa?
Esta é a parte onde as mentiras começaram a se apossar de sua mente vulnerável. O que era real e o que era criação de sua mente perversa? Mas tudo parecia tão real, tão palpável.
Não deixava de imaginar o que Nico realmente esperava acontecer quando Will descobrisse? Que iria achar incrível e conversar como sempre fizeram esquecendo os machucados em seu corpo feitos por homens atrás dele? Esquecendo o voto de confiança dado a ele desde os primeiros dias que foram jogados longe como se não fossem nada?
Will odiou a si mesmo por acreditar tão cegamente em Nico.
Odiou a si mesmo por não odiá-lo de verdade.
Não conseguia. Estava decepcionado, frustrado, arrasado. Estava se sentindo traído por algo que Nico tecnicamente não era obrigado a contar ao Will; se sentia mais uma pessoa enganada por ele. Que caiu em seus jogos.
E ainda assim não conseguia ressentir dele.
Tentou ter raiva, ódio, indignação, mas a única coisa que conseguiu expressar honestamente foi mágoa. Mágoa por imaginar que Nico, seu amigo, estivesse brincando com seus sentimentos como se fosse um brinquedo descartável. Zombando de sua tragédia esse tempo todo enquanto se preparava para seguir em frente.
Deixando os restos de um coração para trás.
Por Deus, Will temia uma desilusão. Seu coração já se partia em pedaços antes mesmo de Nico negar ou afirmar as coisas. E por isso ele odiava toda a situação.
Ficou trancado no escritório pelo resto do dia não saindo para almoço ou para as visitas que havia planejado. Sentou em sua cadeira com sua mente trabalhando a mil por hora, sem noção de para onde ir ou o que fazer.
Já estava perdido antes, mas agora parecia pior. Respirou fundo passando a mão pelos cabelos soltos. Estava um trapo e conseguia sentir o cansaço o abraçando. Esticou os braços levantando da cadeira. Seria melhor deitar um pouco, organizar a cabeça antes de enfrentar o Nico.
Não havia lhe dado chance alguma para se explicar ou se defender. Will não fazia isso, não era justo. Iria permitir que ele falasse e se explicasse, mentir mais se assim quisesse.
Não soube dizer se isso era ser idiota ou astuto.
Fechou os olhos ao segurar a maçaneta e esperou um pouco. Tentou, por mais alguns instantes, se colocar no lugar de Nico. Entender seus motivos e medos.
O que leva uma pessoa a esconder quem ela era? O que leva uma pessoa a sustentar uma mentira que ela sabe que será colocada em cheque em algum momento?
Nico não parecia ser um tipo de pessoa manipuladora. Will poderia estar magoado, mas ele ainda conhecia Nico o bastante pra acreditar nisso.
Não deixaria sua mente criar um Nico que não existia realmente.
Ele não mentiu a toa. Não segurou o fardo da mentira sem motivo. Tinha uma razão, Will só precisava lhe dar a chance de se explicar.
Droga, já estava o perdoando muito antes de uma conversa real.
Saiu de uma vez no escuro da sala de estar. As cortinas grossas estavam fechadas e a luz da tarde não passava por ela. Apertou os olhos seguindo a luz que irradiava pela porta de entrada do cômodo imerso no breu.
Chegou no hall sendo agredido pela claridade excessiva em comparação ao escritório. Resmungou um pouco seguindo caminho para a escada.
Ouviu passos atrás dele vindos da sala. Will parou congelado no lugar. Coração palpitando dolorosamente pela ansiedade de uma conversa.
Escutou o rapaz respirar fundo antes de falar algo.
— Will por favor me deixa explicar. — pediu Nico mantendo distância do doutor. Will não o interrompeu, sequer continuou o caminho dando esperanças ao Duque. Ele merecia a chance de falar, afinal: — Não contei porque pensei que realmente era a melhor alternativa.
— Não enganei você, não menti nem fiz nada disso. Pra ser franco te contei mais coisas do que deveria nesses meses, mais do que contei a muita gente que conheço à anos. — disse o rapaz respirando fundo: — Não imaginei que omitir seria a pior alternativa, e sinto muito por isso…
Will fechou os olhos não querendo ouvir aquelas desculpas fajutas. Ele estava dando voltas de novo, evitando a verdade, como sempre.
Sempre.
— Se quer falar, fale. — cuspiu Will o olhando pela primeira vez desde que Nico começou a se explicar. O Duque apertava as mãos nervosamente, parecendo conflitante: — Pare de mentir. Pare de evitar o assunto quando acha que é desnecessário. Não cubra uma falha com outra.
Nico crispou os lábios respirando fundo:
— Não contei por medo. — admitiu por fim fazendo Will arquear a sobrancelha: — O primeiro por medo de te envolver em algo que não lhe dizia respeito, mas eu sabia que não conseguiria esconder de você por muito tempo, e que uma hora ou outra se envolveria nos meu problemas. — começou crispando os lábios: — Mas principalmente medo de isso mudar alguma coisa, como sempre mudava.
Will não entendeu esperando Nico complementar:
— Não é segredo que eu gosto de você. Por Hades eu deixei isso o mais explícito possível todo esse tempo, e nunca me senti mais à vontade com alguém ou confiasse mais em alguém do que em você. — umedeceu os lábios continuando: — Você parecia à vontade, o bastante para um talvez acontecer.
Nico se calou por um momento analisando Will. O doutor prendeu o ar entendendo a insinuação, mas não disse nada sobre. O Duque suspirou retomando:
— Se eu te contasse quem eu era você poderia… Iria… — Nico puxou o ar tomando coragem: — Mudar totalmente. Vi isso acontecer tantas vezes Will. Senti isso na pele tentativa após tentativa. Homem ou mulher. Sempre mudavam quando entendiam quem eu seria.
Will arregalou os olhos:
— Você…
— Amavam o que eu seria, amavam meu dinheiro. Amavam o que eu poderia lhes dar. — cuspiu Nico apertando as mãos em punho: — Como acha que eu ficava a cada descoberta? A cada frustração que eu era acometido? Não queria que isso se repetisse.
— Eu queria que você se interessasse por mim. — admitiu aumentando o tom de voz: — Essa pessoa na sua frente, sem título, sem terras, sem nada além de uma pistola e um chapéu caindo aos pedaços. Essa pessoa que trata as coisas como piada, que finge ser diplomata mas adora resolver as coisas nos punhos. — falou rindo ligeiramente na última parte: — Essa pessoa que se apaixona tolamente pelas pessoas erradas.
Will mudou sua feição. A mágoa dissipando pouco a pouco.
Nico retomou o fôlego:
— Não justifica, eu sei que não. — continuou passando a mão pelos cabelos nervosamente: — Eles ainda te machucaram por minha causa, você ainda se arriscou por um mentiroso enganador porque você vê algo em mim que eu não vejo mais.
Will comprimiu os lábios aproximando-se de Nico lentamente.
— Essa parte da minha vida foi a única coisa que eu quis omitir, até mesmo sobre o Jackson eu falei… Eu… — Nico parou estremecendo visivelmente.
Will se aproximou dele o puxando para um abraço apertado. Nico envolveu sua cintura com os braços tremendo contra o doutor. Will fechou os olhos com força, aquilo era o suficiente. Estava bom, chega!
—… Eu contei cada falha minha, cada medo, cada coisa que eu lembrava ou você perguntava, mas eu não podia contar isso. — falou contra ele o apertando forte: — Achei que era o melhor, achei que deveria. Fui egoísta pois tentava me proteger. Admito isso ok? Era isso que queria Will? — falou, tom de voz quebradiço: — Fiz isso por mim. — confessou parando de falar enquanto resfolegava pesado.
— Chega Nico… — sussurrou Will em seu ouvido afagando suas costas com a ponta dos dedos: — É o bastante.
— Me desculpa. — pediu Nico suplicante. Tão quebrado, frágil.
Will quis chorar mais do que antes.
— Já desculpei. — confessou Will para ele continuando com as mãos em suas costas, traçando desenhos com a ponta dos dedos tentando acalmá-lo: — Tudo bem.
Nico afirmou com a cabeça escondendo o rosto em seu ombro. Repuxou a parte de trás de sua roupa enquanto esperava sua respiração normalizar. Will afagou seus cabelos soltos carinhosamente.
Não, Will não conseguia odiá-lo.
Nico já fazia isso por ele.
☠
Assim que Nico acalmou se afastou do doutor, envergonhado. Will podia sentir a tremedeira diminuir,mas parecia tão frágil quanto antes.
Vulnerável.
— Nico. — Will o chamou segurando ambos seus braços delicadamente: — Olha pra mim.
O Duque o fez incerto. Olhar tão suave que Will não soube como começar a falar.
— Eu não vou te tratar diferente por saber que você foi um Duque no passado. Isso não importa pra mim. — assegurou o doutor convicto: — Eu conheço você, bom uma parte de você, mas acho que podemos caminhar daqui.
Nico confirmou sorrindo aliviado:
— Então acho que é melhor você me conhecer direito, certo? — sugeriu Nico o puxando pelo pulso até o sofá do Hall.
Will sentou ao seu lado curioso.
— Acha que está pronto pra me contar? — perguntou o doutor tirando uma risada de Nico.
— Você não existe Will. — falou Nico meigo: — Não é um segredo de vida ou morte, era uma parte do meu passado que não quis resgatar por n motivos. Se está disposto a ouvir então estou disposto a contar. Talvez não tudo, não ainda.
Will meneou com a cabeça sorrindo aberto ao se dar conta de algo. Nico o estava chamando pelo seu primeiro nome.
Mordeu o lábio evitando comentar sobre isso. Sentia aquilo como uma pequena conquista e quis manter isso por mais tempo.
— Não sei o quanto você conhece sobre os Di Angelo, mas somos uma família tradicional da Itália. — começou ele brincando com os dedos do doutor. Will nem tinha reparado que ainda estavam de mãos dadas: — E por isso todos os Duques da nossa família precisam ser nomeados pelo próprio Imperador, mas isso depende da relação entre nossa casa e o Império.
Will assentiu prestando atenção:
— Meu pai foi nomeado aos vinte e cinco anos. Nessa época já estava casado com minha mãe e já tínhamos nascido, Bianca e eu. — continuou com um ar nostálgico: — As coisas na casa mudaram um pouco já que meu pai tinha uma forma diferente de cuidar das coisas.
Nico torceu o lábio pensativo:
— Ele era a favor de trabalho escravo. Por mais que isso não exista na Itália o tratamento que temos com negros parece sempre se manter. — comentou enojado: — Os italianos se acham superiores que as outras raças e isso se estende ao imperador.
Will franziu o cenho não gostando disso. Austin era negro assim como Charles e Henry, sabia que esse tipo de atitude existia mundo afora, mas ficava feliz por pelo menos não ver isso em sua cidade tão abertamente.
— Então ele contratava pessoas para trabalhar para ele que não fossem de cor e isso o destacou em relação aos outros nobres. — comentou suspirando pesado: — o ato se seguiu até que chegamos no ponto que estamos hoje. O ducado mal tem negros e seu número se conta nos dedos. — cuspiu Nico irritado: — Um ato deplorável, mas achar algum nobre de boa índole é um desafio.
— Minha mãe era filha do Conde Tardelli ao norte da Itália. Foram prometidos um ao outro muito cedo. — explicou comprimindo os lábios: — Eles não tinham uma relação muito boa.
Will ficou sério. Podia sentir a tremedeira dele voltar. Apertou a mão de Nico tentando mantê-lo estável.
— Meu pai era violento. Achava que tudo se resolvia com surras, seja nos servos e soldados ou família. — afirmou evitando o olhar do doutor.
Will segurou a respiração com a implicação daquilo.
— Minha mãe sofreu muito nas mãos dele, e se acha que isso era motivo o bastante pra ela ser socorrida quando reclamava disso, está enganado. — cuspiu, subitamente nervoso: — Ela foi obrigada a conviver com isso por anos. Ninguém nunca se importou.
Nico fechou os olhos respirando fundo. Will se manteve quieto esperando. Ele reabriu os olhos aquosos e cheios de dor e mágoa. O doutor entrelaçou seus dedos:
— Não se obrigue a falar. Se isso te machuca desta forma. Posso entender. — admitiu Will recebendo um aceno do Duque.
— Enfim, ela morreu quando eu tinha dez anos e ainda é um momento traumático pra mim. — afirmou respirando fundo: — Mas alguns anos antes dela morrer meu pai apareceu com uma criança, filha de um caso que ele teve.
— Hazel foi trazida porque sua mãe acabou morrendo no parto. Minha mãe a acolheu sem pensar duas vezes. A menininha negra que me encantou desde o primeiro dia. — admitiu risonho.
Will sorriu junto apreciando a mudança no clima.
— Depois que minha mãe morreu as coisas ficaram piores. — continuou: — Eu tenho uma saúde frágil desde o começo. Descobriram minha diabetes quando tinha seis anos e desde então tive tratamento diferenciado. Passei a maior parte do meu tempo preso à minha própria cama.
Will ficou em choque.
Isso o lembrou do começo, de quando ele chegou e precisou ficar acamado por três dias seguidos. O quanto ele parecia melancólico e tristonho.
Por Deus aquilo era terrível.
— Nico…
O rapaz negou: — Isso durou por um tempo, era bem terrível mas depois que ela se foi ele parou de me prender lá. Acho que Bianca interveio por mim, não sei ao certo.
— Os treinos intensificaram. Esgrima, dança, montaria, etiqueta, estudos. Tudo duplicou. Tinha menos tempo para mim mesmo e não sabia mais o que era ter uma vida.
Mordeu o lábio respirando profundamente:
— Depois do que aconteceu com o Jackson… Bom… — Nico balançou a cabeça mudando de assunto: — Eu consegui ter controle de algumas coisas, enfrentei meu pai com mais frequência. — comentou franzindo o cenho: — isso gerou conflito dentro de casa, mas fui quebrando as regras gradativamente, mas algumas coisas ficaram imutáveis.
Will aquiesceu compreendendo.
— Assinei projetos de extensão de ruas e linhas de trem. Autorizei a entrada de conhecimento estrangeiro e trabalho. Abri o mercado do Ducado pro mundo exterior. — falou sorrindo orgulhoso: — Isso me gerou aliados quando exigi o título de Duque ao imperador.
Will gargalhou:
— Bem a sua cara fazer isso. — ralhou o doutor tirando um sorriso maldoso de Nico.
— meu melhor defeito, raio de sol. — afirmou ele piscando exageradamente.
Will rolou os olhos se deixando levar pelo apelido, ruborizando.
— Enfim, eu consegui o título de Duque e depus meu pai sem dó. Não me arrependo, mas ao mesmo tempo eu penso no que teria acontecido de diferente se meu pai ainda fosse o Duque durante o golpe. — refletiu pensativo.
— Foi fácil assim tirar seu pai do poder? — sugeriu Will curioso.
Nico negou: — Não é fácil tirar o título de alguém sem um bom motivo. Então eu apelei pra um escândalo.
Will arqueou a sobrancelha nada surpreso.
— Duas coisas que eu revelei para o Imperador que as a maioria das pessoas não sabem até hoje: a causa da morte da minha mãe e a existência da Hazel. — explicou ele respirando fundo.
— O escândalo da minha mãe foi imperdoável, mas meu pai ter tido um caso durante o casamento com uma mulher negra e escondido a criança por dez anos foi o fim dele. — respondeu torcendo o lábio: — Para não desgraçarmos o nome da família pedi o título de Duque com o apoio dos nobres que assistiam ao espetáculo.
— O Imperador te deu o título então? — concluiu Will chocado com o desfecho.
— Não sem que eu prometesse não criar mais escândalos. — disse rindo depois: — Acho que falhei nisso.
Will balançou a cabeça concordando.
— Você é perigoso Di Angelo. — comentou recebendo um empurrão do Duque e um sorriso meigo.
— Não muito, só com quem merece. — admitiu relaxando o corpo contra o sofá, calmo. Apertou a mão de Will ligeiramente: — Você não acha que perdoa as pessoas fácil demais?
Will arqueou ambas sobrancelhas:
— Acha que eu deveria ter te torturado um pouco é? — disse um tanto incrédulo. Nico confirmou:
— Talvez eu merecesse. — respondeu com um sorriso fraco no final.
— Não acho que mereça. — rebateu Will mordendo o lábio.
Respirou fundo criando a coragem que precisava para se aproximar dele. Deitou a cabeça no ombro do Duque fechando os olhos brevemente. Sentiu Nico ficar tenso, mas logo depois seus dedos finos alcançaram seus cabelos loiros acariciando delicadamente.
— Acho que você está aprendendo a confiar nas pessoas. — complementou o doutor olhando para a outra mão do pirata. Fina e calejada, com algumas cicatrizes na pele já antigas.
Seus dedos estavam entrelaçados e Will se sentiu bem assim. Era estranho e ainda tinha noção da sua consciência o alertando para se afastar, mas Nico tinha algo que o puxava e o impedia de se afastar de verdade.
Descobriu que não queria realmente.
— Reaprendendo, talvez. — disse Nico virando o rosto e depositando um beijo rápido nos cabelos de Will. O doutor mordeu o lábio inferior segurando o sorriso: — Mas talvez essa sua confiança demais seja um problema.
— Não reclamou dela quando não tem entreguei pra marinha no primeiro dia. — ralhou o doutor.
Nico riu:
— Não sou idiota. — comentou simplesmente. Will rolou os olhos indignado: — Obrigado.
O doutor se ajeitou em seu ombro, olhos pesados.
— Pelo quê exatamente?
Nico demorou para responder e Will começou a pegar no sono, pálpebras fechando involuntariamente.
— Por não me descartar como todo mundo. — sussurrou Nico baixinho, mais para ele mesmo do que para o doutor.
Tanto que Will já estava dormindo quando ele disse isso.
☠
Will acordou horas mais tarde.
O Hall estava escuro e toda a casa imersa em um silêncio assombroso, quebrado somente pelo tic-tac do pêndulo do relógio na sala. Bocejou se sentindo aquecido no sofá, mesmo estando fresco e no outono.
Se ajeitou melhor sentindo um braço em seu ombro o apertar de leve. Subitamente ficou mais desperto tentando entender o que se passava ali.
— Já acordou? — perguntou Nico perto de seu ouvido arrepiando o doutor inteiramente. Will se afastou o suficiente para encarar o Duque.
— Que horas são? — perguntou tendo agora plena noção de que dormiu em cima de Nico.
Ainda tinha um dos braços envolvendo a cintura do pirata, mas Nico não parecia se importar nem um pouco com esse fato.
— Já são oito. — respondeu ele olhando através da sala para o relógio pêndulo, mas estava escuro demais pra confirmar: — Não sei a quanto tempo o relógio tocou pra ser sincero, mas tenho certeza que ainda são oito horas.
Will riu disso deitando a cabeça novamente no pirata recebendo um cafuné.
— Por que não me acordou? — perguntou enquanto apreciava o carinho mais que convidativo.
— Você não dormia bem tinha dias. — respondeu ele, o remorso em sua voz evidente: — Fiquei com dó de te acordar, parecia confortável.
Will sorriu com isso.
— Além de que ter você nos meus braços é muito bom. — zombou ele recebendo um tapa de Will na perna.
— Engraçadinho você. — resmungou ele sentindo seu rosto se ascender: — Melhor fazermos algo pra comer, não?
— Hm.
— Sério Nico. — Will insistiu se afastando dele de vez sentindo falta do calor de seu corpo assim que a corrente de ar o fez estremecer.
— E o que quer fazer? Já é bem tarde. — rebateu Nico puxando uma das pernas para cima abraçando-a contra seu peito.
— Você saiu pra comprar coisas no mercado mais cedo. — relembrou Will se levantando.
— Ah é. — respondeu deixando o corpo cair no sofá no lugar onde Will estava.
— Não vem? — questionou Will arqueando a sobrancelha pra silhueta deitada. Nico resmungou rolando para fora das almofadas e o seguindo até a cozinha.
Foram atrás de fogo para acender os candelabros e lampiões. Assim que todos estavam acesos começaram a remexer na cesta com a comida que Nico comprara no mercado. Tinha frutas, uma ave para limpar e legumes.
— Acho que ainda tem um pouco de pão, podemos comer com tomate. Até que fica bom. — comentou Will separando as coisas na mesa: — Limpamos a ave amanhã.
— Ok. — respondeu Nico e então começaram a arrumar as coisas.
Não demorou muito até que estivessem sentados à mesa comendo e conversando um pouco melhor. Will gostava do clima mais animado. Os últimos dia havia sido terríveis com a tensão constante entre eles. Ter um pouco daquela paz lhe fazia bem.
— Posso perguntar uma coisa? — falou Will enquanto se servia de mais do café que Nico preparou.
— Claro. — respondeu Nico prontamente.
— O que vai acontecer se você voltar e descobrirem que é um pirata?
Essa pergunta estava rondando sua cabeça desde a conversa com Dylan. Não era sua prioridade, mas ela estava ali o preocupando o suficiente para o fazer parar de comer e ponderar o que aconteceria com Nico se descobrissem.
O poupariam da forca por ele ser um Duque?
Nico olhou para sua xícara de café enquanto parecia pensar em uma resposta. Inspirou profundamente antes de soltar o ar:
— Vou para a forca se algum deles souber, mesmo meu pai. — admitiu encarando Will nos olhos. O doutor estremeceu com o pensamento.
— Mesmo sendo um Duque? — complementou comprimindo os lábios em uma linha tensa. Nico confirmou:
— Infelizmente sim. Nesse caso não há distinção, somente a condenação. — rimou ele piscando o olho tentando amenizar a tensão na mesa.
Will riu se deixando levar.
— Então melhor não contar a ninguém. — ressaltou o doutor tomando um gole do café quente. Nico concordou:
— Giovanni sabe. Não sei como, mas ele sabe. — comentou Nico franzindo o cenho: — Acabei não questionando isso, talvez ele tenha me ouvido no bar, não sei ao certo.
— E ele é confiável? — insistiu Will preocupado.
O pirata assentiu:
— Ele é sim. Era o único, junto de Dylan, que sabia que eu saia com homens. — respondeu somente olhando Will nos olhos.
Era um olhar sincero e aberto, como se convidasse Will a questionar sobre isso. O doutor prendeu o ar repentinamente tenso. Nico sorriu culpado:
— Nunca me entregaram e me acobertavam em muitas coisas, então sim Giovanni é tão confiável quando Dylan, mas não sei se vou contar pra ele também. — ponderou quebrando contato visual: — Quanto menos pessoas souberem melhor.
Will aquiesceu não sabendo como continuar a conversa. Era um assunto bem delicado, mas a forma como Nico falava sobre isso deixava o ato mais natural, menos errado. Era estranho a facilidade que ele tinha de expressar seus sentimentos. Will queria ter esse poder.
Sabia que Nico esperava uma resposta, qualquer coisa que indicasse que Will iria ou não aceitar alguma coisa entre eles. Nico merecia uma, mas o doutor ainda não tinha nada pra dar.
Bom, isso era uma mentira. Ele tinha a resposta, mas ainda tinha medo de assumir ela. De realmente falar ela em voz alta e expressar seus sentimentos sobre o pirata; rapaz que o fazia perder o fôlego.
Respirou profundamente. Talvez pudesse começar devagar, testando os sentimentos pouco a pouco. Will compreendia a magnitude de suas ações, tanto entre eles quanto para uma possível punição pública na praça, mas seu coração palpitava em seu peito, pedindo por uma chance, só uma. Uma chance para lhe provar que o risco valeria a pena.
Que amar não era um pecado.
Crispou os lábios levando sua mão até a de Nico em cima da mesa. O pirata retesou-se olhando para o doutor inquisitivo. Will passou seus dedos por sua palma entrelaçando-os delicadamente, sem pressão, esperando uma reação dele. Manteve os olhos nos negros de Nico, como uma forma de se manter firme.
Não poderia fraquejar agora.
Nico sorriu tímido — algo que Will nunca pensou que veria — fechando seus dedos nos do doutor, acariciando sua mão com o polegar carinhosamente.
— Eu tenho medo também Nico. — admitiu Will apertando sua mão, observando a feição tímida se tornar preocupada: — Mas eu quero tentar, compreender. Vamos devagar, sem forçar nada.
Will sabia que era um pedido grande. Que insistir em algo menor do que Nico esperava poderia ser mais doloroso do que somente recusá-lo. Esperava alguma negação, esperava que ele se recusasse a aceitar isso, mas o olhar compreensivo que Nico lhe mostrou foi o bastante para se deixar acreditar que ele talvez também estivesse com medo.
Talvez o medo seja a única coisa que os mantém sãos.
— Devagar. — afirmou ele levando a mão de Will aos seus lábios e depositando um beijo delicado e doce, olhos vidrados nos azuis do doutor.
Will sorriu se deixando levar pelas borboletas em seu estômago.
Talvez tentar não fosse tão ruim assim.
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