Pit-a-Pat
27 Capítulo XXVII
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXVII~
:: 50º dia na Itália — Semana 7 ::
[...]
A decisão de chamar os oficiais da marinha foi pouca discutida entre os dois. Depois que Nico viu pelo menos dez oficiais entrarem na casa começou a repensar profundamente sua ideia.
Will resolveu ir atrás dos oficiais ao invés de Nico. Ele havia achado mais seguro que o médico local denunciasse uma invasão e violência contra ele e seu paciente ao invés que jogar o Nico aos cães.
Mal se passaram dez minutos e Will retornou com oficiais armados. Nesse meio tempo Nico amarrou as mãos dos homens ainda desacordados com algumas cordas improvisadas que tinha na casa.
Will andou apressado ate o pirata o segurando pelos ombros com o olhar preocupado e tenso. Nico não soube dizer se era pela situação deles ou por estar bem machucado.
Um dos oficiais que apareceu para eles tinha uma farda diferenciada dos demais. Era um tom azul marinho com faixas brancas adornando suas mangas longas. Várias medalhas de honra presas em seu peito e um chapéu assemelhando-se a capitães de navios da nobreza indicava sua alta posição na marinha.
Sua mão esquerda descansava na bainha de sua espada. Nico respirou profundamente ficando ereto. Trocou olhares com o homem com expressão seria e afiada.
Arregalou os olhos nada discreto enquanto era bombardeado por memórias de oito anos atrás. Memórias que o assombraram durante sua adolescência inteira incessantemente.
Aquele homem era a prova viva de um de seus traumas mais dolorosos, e por Deus ele desejava tanto que ele não o reconhecesse.
O oficial franziu o cenho e o examinou de cima a baixo parando o olhar no ferimento. Sua expressão suavizou na mesma hora:
― Sou o Capitão Giovanni Mozetti. Estou responsável no momento pelo porto de Ravenna e as fragatas ancoradas nela. ― apresentou-se olhando ao redor antes de voltar a observar Nico: ― Está ferido?
O pirata aquiesceu receoso:
― F-Foi uma briga meio injusta se quer saber. ― comentou Nico recriminando-se por gaguejar, mas acabou reforçando seu ponto. Sentindo o aperto de Will em seu ombro intensificar: ― Três soldados contra um médico e um homem ferido não é muito limpo.
O soldado concordou brevemente:
― Poderiam me explicar com mais detalhes como chegou a esse ponto? ― indagou apontando para os homens desacordados no chão da cozinha.
Estavam sendo levantados pelos marinheiros levando tapas no rosto para despertarem. Nico respirou entrecortado pelas fisgadas no ferimento, mas concordou em replicar o que aconteceu, porém Will negou.
― Nico se sente um pouco. ― pediu Will infringindo um pouco de força em seu ombro lhe indicando a cadeira ao seu lado.
O pirata não recusou a oferta sentando-se cansado e visivelmente dolorido. Will assumiu a história explicando como as coisas haviam acontecido. Usou da desculpa dos homens contra eles acrescentando um pedido de dinheiro e impostos fora de época.
O senhor Mozetti mudou sua expressão suave para algo grave e amedrontador. Seu rosto contorceu-se em ira ao ouvir sobre cobrança de dinheiro não autorizado.
Nico se remexeu desconfortável na cadeira chamando ligeiramente a atenção de Will que lhe jogou um olhar inquisidor. O pirata sorriu reconfortante.
― Se Nico não estivesse em casa não conseguiria lidar com eles. ― garantiu o doutor suspirando: ― Nico é meu paciente há dois meses com um ferimento grave. Esse tipo de coisa acontecer em minha casa é inaceitável.
― Concordo plenamente. ― bradou o Capitão de forma grave. Virou-se aos outros oficiais: ― Levem esses três para a base e contate o Almirante Mogliezzi. Ele vai se encarregar de contatar o Conde sobre essa afronta ao Ducado.
Os soldados bateram continência e saíram arrastando os homens semiacordados pelos braços atados. Dois oficiais ficaram para trás de guarda com o Capitão.
― Esse ferimento então já é antigo? ― reforçou Giovanni com curiosidade. Will confirmou virando-se para Nico:
― Como você está? ― perguntou afetuosamente. Nico sorriu pequeno.
― Dolorido. O esforço abriu o ferimento. ― ressaltou encostando-se a cadeira com caretas forçadas. Uma pequena ceninha sempre ajuda.
Will franziu o cenho não compreendendo o fingimento:
― Se importa se eu perguntar onde conseguiu esse ferimento? ― Nico ficou tenso diante do interrogatório, ainda mais o tom de sua voz grave que o arremetia a tempos sombrios, mas relaxou com o sutil toque de Will em seu antebraço.
― Estava vindo visitar o doutor de Veneza, mas fui assaltado e atacado por homens com espadas. ― explicou: ― Eu estava desarmado. Não tinha como me proteger. O Solace tem cuidado de mim desde então.
Giovanni aquiesceu:
― O ferimento abriu sozinho pelo esforço? ― Continuou o Capitão. Nico negou:
― Sabiam que eu estava machucado e usaram desse conhecimento contra mim. ― reforçou travando o maxilar. Esse pequeno detalhe o estava comendo vivo.
O Capitão franziu o cenho: ― Como eles sabiam disso?
Dessa vez foi Will quem respondeu:
― Dificilmente algo que acontece na cidade não se espalha pelas ruas. ― zombou Will rolando os olhos dramaticamente. Nico riu entrando na onda.
Isso pareceu ser o suficiente para suavizar o olhar duro do Capitão.
― Devo concordar. ― comentou cruzando os braços: ― Posso considerar então autodefesa?
― Sim. ― respondeu Will prontamente: ― Se não fosse pelo Nico não acho que estaria inteiro. Eles foram pegos de surpresa, isso ajudou. Não sei lutar ou me defender apropriadamente.
Nico arqueou a sobrancelha: ― Do que esta falando? Você derrubou o último com uma panela! Foi épico.
Will cruzou os braços: ― Foi no calor do momento. É diferente.
Giovanni olhou de um para o outro sorrindo meigo:
― Vocês são bem amigos, não?
― Com certeza. ― Will respondeu sem hesitar. Nico não evitou de sorrir envergonhado.
― Cavalheiros vou deixá-los por hora. Preciso interrogar esses homens o quanto antes. ― avisou sério. Nico viu Will ficar tenso: ― Voltarei outra hora para ver como estão. Sinto muito pelo transtorno.
Assim o oficial deu um breve aceno com a cabeça e saiu da cozinha seguido pelos outros dois soldados. Parou no meio do caminho trocando olhares rápidos com Nico. Sua expressão mudou, mas o pirata na conseguiu decifra-la antes que o Capitão continuasse caminho e saísse da casa.
Will respirou pesado olhando Nico:
― Eles vão interrogar os homens, Nico! ― falou o doutor com terror nos olhos: ― Essa mentira não vai durar nada.
― Pelo contrário. ― reforçou Nico ficando de pé. Will colocou sua mão na lombar do pirata como suporte: ― Esses homens tinham como missão me eliminar. Esse tipo de tarefa é ilegal tanto para quem faz quanto para que contrate os serviços. Por serem homens do Conde vão se safar sem muitos problemas com a mentira, mas se admitirem que estavam em uma missão de assassinato seriam julgados pelo Ducado.
Will meneou a cabeça compreendendo. Seguiram para a sala no intuito de subirem para o quarto tratar do ferimento de Nico, mas a porta estava aberta e o murmurinho dos curiosos era ouvido de onde estavam. Nico rolou os olhos.
― Os curiosos estão se revirando na fora. ― comentou Nico maldosamente. Will riu:
― Cidade pequena. A única diversão deles é a fofoca. ― ressaltou divertido.
Nico caminhou até a porta no intuito de fecha-la, mas algumas moças apareceram entrando no espaço pessoal de Nico. O pirata ficou tenso.
― Vocês estão bem? ― perguntou uma delas curiosa: ― oh! Estão machucados! ― exclamou assustada.
― Estamos bem, nada demais. ― reforçou Nico educadamente. As moças se entreolharam preocupadas.
― Querem ajuda em algo? ― sugeriu outra delas tocando no braço de Nico delicadamente.
O pirata paralisou com toque antes de se afastar bruscamente, uma expressão de puro pavor desenhado em seu rosto. A moça assustou-se com o gesto, mas se aproximou outra vez.
A mente de Nico pareceu girar. O toque formigava de uma forma aterrorizante em seu braço. Ela o tocou outra vez, o cenho franzido e olhos fervendo de curiosidade.
Nico resfolegou sendo bombardeado pelas memórias ruins uma seguida da outra; toques, palavras, a dor. A vergonha. Sentiu-se enjoar e um pânico sem tamanho tomar conta de seu corpo.
Olhou para Will suplicante esperando que ele entendesse o recado. O doutor o encarava de braços cruzados e olhar cortante, mas seu rosto passou de irritado para compreensão em segundos.
A moça foi afastada dele pelas mãos ágeis do doutor que o puxou para trás pelos ombros delicadamente. Involuntariamente agarrou-se a roupa de Will abaixando o olhar.
― Senhoritas, nós tivemos um dia difícil. Preciso tratar do ferimento dele o quanto antes. Se importam de passar aqui outra hora? ― sugeriu Will se livrando educadamente das garotas.
Elas concordaram e saíram fechando a porta no caminho. Nico respirou pesado não se afastando de Will nem por um segundo. O doutor afagou seu braço afetuosamente, mas não disse nada e nem perguntou. Nico sentiu-se grato por isso.
Fechou os olhos permitindo-se por breves minutos fingir que nada estava acontecendo entre os dois. Que não tinham pessoas atrás dele, e que Giovanni não tivesse aparecido na sua frente.
Virou para Will aterrando seu rosto em seu ombro sentindo seu corpo tremer e tremer sem parar. Will o segurou ali passando a segurança que ele precisava para voltar ao normal e evitar um ataque de pânico.
Respirou fundo afastando-se de Will sorrindo se graça. O doutor tinha o semblante sério e analítico. Nico desviou o olhar:
― Odeio quando me tocam. ― respondeu a pergunta não feita cruzando os braços. Will aquiesceu, mas ainda parecia confuso.
― Eu te toco o tempo todo. ― disse aflito. Nico negou:
― Não desse jeito. Eu sei quais são as suas intenções. ― admitiu evitando contato visual: ― Mas pessoas estranhas me incomodam bastante. Nunca sei o que elas pensam ou o que elas querem com a aproximação. Por isso não deixei que me tocasse direito nos primeiros dias.
Will compreendeu soltando uma risada:
― Sou seu médico Nico, não teria nenhuma intenção ruim te tocando. ― assegurou ele, olhar suave e tranquilo. Nico soltou o ar aliviado pela mudança no clima.
Deu um meio sorriso mordaz: ― Você não é só meu médico, Solace.
Antes que Will pudesse refutar a afirmação a porta foi escancarada fazendo Nico aproximar-se do doutor protetoramente. Charles apareceu seguido por Silena que fechou a porta atrás dela.
Nico fechou a cara.
― Vocês estão bem? ― perguntou Charles avaliando os dois de cima a baixo.
― Estamos sim. ― afirmou Will. Nico suspirou:
― Charles, quais as chances de você estar envolvido nesse ataque? ― Nico perguntou diretamente ouvindo Will arfar atrás de si.
O ferreiro cerrou os olhos confuso antes de arregalá-los surpreso:
― Eu nunca chamaria alguém pra machucar vocês. ― defendeu-se Charles ligeiramente ofendido: ― Podemos ter nossos desentendimentos, mas não sou baixo assim.
Nico arqueou a sobrancelha incrédulo:
― Eles sabiam que eu estava machucado e onde. ― reafirmou olhando dele para Silena: ― As únicas pessoas que detêm desta informação estão nessa casa.
― Sei que está desconfiado Nico, mas sem querer te ofender, nunca mandaríamos alguém pra te machucar sabendo que o Will se envolveria. ― explicou Silena duramente.
― Silena! ― bradou Will chocado.
― É a verdade William. ― reforçou Charles: ― E se ele precisa dessa verdade pra confiar em nós então vamos lhe dar.
― Não confio em vocês. ― admitiu Nico suspirando na sequência: ― Mas sei o quanto gostam do Solace, por isso acredito que tenha uma quinta pessoa envolvida. Afinal de contas fizeram do doutor um saco de pancadas.
― O que?! ― trovejou Silena correndo até o doutor segurando seu rosto entre suas mãos: ― Will...
Charles estalou a língua irritado.
― Você dá mais trabalho do que pensei. ― rosnou o ferreiro olhando Nico por longos momentos.
O pirata ajeitou a postura, colocando em seu rosto uma expressão desafiadora. Não teria como brigar com um armário igual Charles, mas poderia tentar se safar na lábia.
Will entrou na frente de Nico encarando Charles:
― Sem briga vocês dois. ― alertou: ― Acabamos de sair de uma e não quero começar outra. ― Olhou Nico de soslaio antes de voltar a encarar o amigo de infância: ― Preciso tratar do ferimento dele que continua sendo mais grave do que um corte no meu rosto ou inchaço.
Charles torceu o lábio, mas não disse nada. Tomando isso como trégua Will esticou a mão para Nico segurando em seu antebraço delicadamente, como um pedido de permissão silencioso.
O pirata foi até a escada com o doutor seguido de Silena e Charles. Nico sentou na cama com um pouco de dor sendo prontamente examinado pelo Will. Silena aproveitou para ajudar a pegar as coisas do doutor que estavam do outro lado da sala. Enquanto isso Charles sentou em uma das cadeiras com a carranca formada.
Will desabotoou a camisa de Nico desenfaixando-o sem nem pensar em Silena no outro lado do quarto e no quão inapropriado isso seria, mas nenhum dos três no cômodo parecia se importar com isso. Nico não soube dizer se se sentia confortável ou ofendido por isso.
― Está doendo muito? ― Will perguntou observando atentamente o ferimento avermelhado. Nico negou:
― Estava fazendo drama. ― admitiu dando de ombros: ― Está dolorido pelo golpe, mas ele já estava bem melhor que antes.
Will torceu o lábio discordando: ― A ferida externa sim, a interna ainda estava ruim. ― respondeu levantando-se e pegando o pano umedecendo com água fria: ― A cicatrização interna demora bem mais, então se continuar abrindo o ferimento vai dificultar a cicatrização Nico.
O pirata bufou irritado. Não era como se a culpa fosse dele. Ou ele atacava ou era atacado. Lógica pura.
Will fez a limpeza rápida podendo ver a parte inchada, mas nada tão preocupante. Nico estava super desconfortável com aqueles dois no fundo o vendo seminu, afinal de contas isso é algo antiético, certo? Quem fica observando outra pessoa desse jeito invasivo?
O doutor pareceu perceber isso, pois se levantou olhando para os dois:
― Podem esperar do lado de fora enquanto termino aqui? ― pediu educadamente. Charles arqueou a sobrancelha curioso, mas Silena na mesma hora enrubesceu puxando o marido pelo braço antes dele poder protestar deixando o quarto.
Nico soltou o ar que sequer sabia estar prendendo voltando a observar Will com cautela. Ele parecia pensativo, quase tanto quanto na manhã daquele dia. Nico conseguia compreender isso, afinal haviam sido atacados logo depois de soltar a bomba de que iria embora.
Will não recebeu a noticia muito bem, e por mais claro que isso fosse para Nico ele não sabia como amenizar a situação. Algo parecido havia acontecido entre Hazel e ele na primeira vez que teve de deixa-la sozinha para ir trabalhar em um navio de mercadorias.
Foi difícil deixar a irmã para trás, mas ele teve de fazer. O dever batia à sua porta, da mesma forma que ela estava fazendo agora, mas...
Respirou fundo olhando Will mais atentamente. Sua expressão estava séria enquanto ajeitava o conteúdo das ervas na mesa. Da cama conseguia ver o machucado no canto de sua boca e em baixo de seu olho esquerdo. O cabelo quase solto do laço deixava vários dos fios loiros caindo em seu rosto.
Seu estomago se revirou anormalmente. Aquilo era sua culpa. Will estava machucado porque demorou demais pra se afastar, pra deixar de envolvê-lo em seus problemas, mas ainda assim...
Não tinha forças para ir embora.
Não percebeu quando se levantou, só sentiu o rosto de Will em suas mãos e os olhos azuis assustados o encarando.
― Nico? ― perguntou curiosamente ainda segurando as ervas em mãos.
Nico semicerrou os olhos acariciando o machucado em seu olho. Crispou os lábios aproximando do doutor. Sentiu o mesmo ficar tenso contra si. Delicadamente depositou um beijo no machucado em seu olhos fechando os seus no processo.
Ouviu Will arfar com o gesto. Nico se afastou apoiando sua testa no ombro do doutor, derrotado.
― Me desculpe. ― pediu apertando os olhos com força, a voz embargando no final da frase. A culpa o devorava vivo.
Sentiu a mão de Will afagar seu ombro afetuosamente antes de subir para seus cabelos. O outro braço do doutor o puxou para perto pela cintura o prendendo em um abraço. Nico estremeceu com o calor da mão de Will em sua lombar.
― Não tem que pedir desculpas. ― assegurou acariciando seus cabelos. Nico mordeu o lábio enlaçando a cintura do doutor com ambos braços ficando mais confortável.
Seu coração batia rápido e dolorosamente em seu peito, mas era um sentimento bom. Não se importava de estar sem camisa, nem mesmo sobre o machucado que latejava em seu abdômen.
Queria poder ficar daquela forma e sentir aquele tipo de calma e proteção que há anos não sentia. Por Deus esse sentimento é tão injusto. Sabendo que Will não o afastaria tão logo por educação, Nico quem o segurou pela cintura e se afastou delicadamente.
Respirou fundo outra vez levantando o olhar para o doutor. Will tinha o olhar sereno. Um sorriso meigo nos lábios e um leve rubor nas bochechas. Nico imitou o sorriso criando mais distância entre eles antes que fizesse alguma idiotice igual da ultima vez.
Desviou o olhar voltando para a cama. Will o seguiu com a erva em mãos e passou em seu machucado mantendo o rubor no rosto todo o momento. Nico ficou curioso sobre isso, mas achou melhor deixar sua curiosidade para si.
Will terminou de enfaixa-lo se mantendo agachado no chão com uma das mãos no joelho de Nico. O pirata franziu o cenho para isso, mas Will falou primeiro:
― Ainda pretende ir embora?
Foi um sussurro. Uma pergunta assustada. O pirata abaixou o olhar enquanto pensava na resposta. Ele sabia o que tinha de fazer e a resposta que tinha de dar, mas àquela altura da situação ele ir embora ou ficar não faria diferença.
Já sabiam do envolvimento do Nico com Will, e o obrigaram a fazer a escolha por ele. Depositou sua mão em cima da do doutor apertando-a afetuosamente.
― Não mais. ― respondeu puxando Will para frente. O doutor entendeu o recado se levantando e sentando ao lado do pirata na cama: ― Não faz mais diferença.
Will franziu o cenho: ― Como assim?
― Eles já sabem onde eu estou ficando e irão voltar novamente. É só questão de tempo antes de mais alguém aparecer por aqui. ― admitiu acariciando a mão do doutor que ainda estava entrelaçada à sua: ― E mesmo que eu vá embora, mesmo que eu esteja a quilômetros em mar aberto não fará diferença. Eles não acreditarão em você. Irão te machucar, Solace.
O doutor fechou a cara não gostando da notícia. Arqueou a sobrancelha descrente:
― Então quer dizer que eles vão voltar, não importa o que a gente faça de agora em diante? ― perguntou direto. Nico concordou.
Will estalou a língua nervoso: ― Então?
― Acho que está na hora de eu parar de fugir, Solace. ― confessou convicto: ― Já está na hora de eu parar de correr do meu passado. Não sei como as coisas vão fluir, não acredito que tenha a mesma influência que eu tinha cinco anos atrás, mas talvez alguns aliados apareçam se eu me comunicar com as pessoas certas.
― Aliados? O que você pretende fazer? ― indagou Will ainda confuso: ― No que você está metido, Nico?
O pirata mordeu o lábio relutante em contar. Ele deveria contar tudo para o doutor, mas não sabia se aquele era o momento certo e sequer estavam sozinhos na casa. Ele somente negou com a cabeça com olhos suplicantes. Não podia contar, não ainda.
Não até ter certeza que ele estaria seguro com essa informação.
Will suspirou retirando sua mão da de Nico e se levantando da cama.
― Vou descer falar com o Charles. Descanse um pouco. ― falou por fim se virando e saindo da sala.
Nico sequer precisou perguntar pra saber que ele ficou ofendido com seu silêncio. Arfou exausto caído com seu corpo para trás no colchão. Fechou os olhos e antes que percebesse já estava em sono profundo.
☠
Will
O doutor saiu do quarto encostando-se a porta por um momento. Colocou a mão no rosto controlando um pouco sua frustração. Sabia que Nico não podia lhe contar muitas coisas, mas na atual situação deles pensou que pelo menos o que estava acontecendo ele poderia compartilhar.
Não exigia nenhum segredo, nenhuma verdade absoluta. Só queria poder ter a capacidade de ajudar quando precisasse e não ser jogado nas sombras como Nico fazia com ele constantemente.
Respirou fundo e desceu as escadas atrás dos amigos que discutiam na cozinha. Mesmo sabendo que era errado resolveu desacelerar o passo e ouvir.
― E você acha que isso vai resolver algo? ― indagou Silena nervosa.
― Não sei, mas as coisas não podem ficar desse jeito, Silena! ― bradou Charles sério: ― E mesmo que não resolva, bem, antes o bem estar do Will do que o pirata certo?
O doutor retesou-se.
― Não concordo com isso Charles. ― negou a moça: ― Ele tem sido um bom rapaz esses tempos, e eu acredito que ele se importe de verdade com o Will.
Charles riu debochado: ― Se importar? Ele é um pirata! Piratas só querem ver o mundo pegar fogo e sentar em cima das cinzas. Se ele se importasse já teria ido embora e deixado o Will em paz.
― Ele está ferido, Charles!
― Que infelizmente não é uma ferida mortal o bastante para se livrar dele por nós. ― admitiu sério. Silena arfou em choque.
Will entrou na cozinha sentindo seu sangue ferver. Encarou Charles que se virou para ele sem sequer se fingir de arrependido.
― Vai embora. ― ordenou o doutor.
― Will... ― Silena começou, mas Will levantou a mão para ela a calando.
― Vão embora, agora. ― disse uma segunda vez, agravando o tom de voz.
Charles suspirou pegando Silena pelo antebraço e a forçando para fora da cozinha. Passou pelo Will trocando breves olhares afiados. Silena chegou à porta. Olhou para Will dizendo um “sinto muito” mudo.
Will assentiu aceitando dela, mas cruzou os braços ainda esperando que saíssem. A moça deixou a casa, mas Charles ainda ficou ali.
― Está escolhendo o lado errado da briga, William. ― disse o ferreiro. O doutor crispou os lábios.
― Estou do lado certo, Charles. ― admitiu: ― Mas você está enganado se acha que o lado correto seria o do Nico. Eu simplesmente tenho entendimento o bastante para julgar e pesar o certo e o errado. O fato de Nico ser um pirata está te cegando para as coisas.
― Ele ser um pirata está cegando a você! ― ele disse em tom baixo fechando a porta num baque alto: ― Você está vendo o Austin nesse homem! Esqueceu o que os piratas são? Assassinos, ladrões e mentirosos! Não é porque seu irmão conseguia ser uma exceção que ele também é.
― Não estou vendo o Austin no Nico. ― respondeu convicto.
― Ah não? ― exclamou Charles em tom de deboche: ― Então me diga que não o acolheu e cuidou dele porque você pensou que poderia ser o Austin? Me diga que você não o deixou confortável, deu de comer, roupas, liberdade de ir e vir na sua casa sem nenhum tipo de preocupação de que ele poderia te matar porque ele não te lembra do bêbado desgraçado do seu irmão!
Will trincou os dentes irritado:
― Saia, Charles.
― Não. ― negou cruzando os braços: ― Não vou sair até você me contar porque o ajuda tanto. Por que dar seu sangue por ele? Por que correr o risco de ser preso e ir pra a forca por um pirata? Um homem sem índole nenhuma que te jogaria para os cães sem se importar com as consequências―
― De qual Nico você esta falando? ― Will perguntou sério. Charles calou-se não compreendendo a pergunta: ― Se esta falando do rapaz que acabou de me pedir desculpas naquele quarto a beira das lágrimas, então você realmente não sabe pelo que esta brigando.
Charles apertou os olhos abrindo a boca, mas Will o interrompeu:
― Nada do que você disser vai mudar o que penso do Nico. ― ele falou sério: ― Eu moro com ele há quase três meses e conheço ele bem mais do que você Charles. Sim ele tem segredos, tem problemas, fez escolhas erradas ao longo do caminho, mas se você sentasse por uma hora e conversasse de verdade com ele não teria todo esse medo dele.
― Não tenho medo dele. ― rebateu.
― Tem sim. ― reforçou apontando para o quarto no segundo andar: ― Aquele rapaz lá em cima te assusta. Assusta pelo fato dele ser um homem que resolve seus problemas com as próprias mãos; te assusta por ele falar coisas que você tem medo de dizer em voz alta; te assusta porque ele me conquistou mais rápido do que você no passado; te assusta porque você se sente ameaçado pela presença dele; te assusta porque seus filhos o adoram. ― soltou tudo nervoso, gesticulando com as mãos: ― Acha que ele vai te tirar minha amizade, te tirar seus filhos, e te deixar sem nada.
Charles travou o maxilar sem dizer nada. Will resfolegou desviando o olhar do amigo.
― Ele é inofensivo, Charlie. ― continuou o doutor: ― Ele é carismático, magnético, intrigante. ― falou sorrindo para si mesmo: ― É um rapaz que perdeu coisas demais na vida, mas que sente coisas demais. Se prestasse atenção nele veria a variedade de expressões e sentimentos que ele demostra perto de seus filhos: compaixão, amor, dor, saudade, perda. É visível pra quem quiser ver.
Charles expirou pesadamente.
― Não julgue pelo que ele foi rotulado. Julgue pelo que ele é, e vai ver que o que eu faço por ele não é nem um terço do que ele fez por mim. ― admitiu Will ficando calado depois disso.
Não sabia o quão bom seu amigo era para interpretar as coisas, mas sabia que havia falado coisas demais e que seus sentimentos assumiram boa parte da sua defesa, mas ele não estava errado sobre nada do que falou.
Nico sempre sem considerou uma sombra, uma parte obscura da sociedade. Will só via nele um rapaz que irradiava luz por onde passa. Todos já foram quebrados uma vez na vida, mas a luz que provém das batalhas mais árduas são as mais intensas.
O ferreiro virou-se de costas e saiu da casa sem dizer mais nada sobre o assunto. Will soltou o ar esfregando o rosto com as mãos puxando o ar entre os dentes pela dor na sua pele cortada.
Andou até o sofá no Hall e se sentou apoiando a cabeça em ambas as mãos.
Por Deus ele estava condenado.
☠
Nico
O pirata acordou depois de muito tempo sentindo suas pernas formigando por ter dormido com elas para fora da cama. Sentou-se dolorido esfregando o pescoço enquanto apoiava seus cotovelos nos joelhos. Soltou seu cabelo do laço sacudindo-os para ficarem mais livres em seu rosto.
Levantou-se caminhando para fora do quarto. Estava de noite e todas as luzes da casa estavam apagadas. Não conseguia ver as horas no relógio do Hall, mas pelo silêncio do lado de fora deveria ser de madrugada. No canto da sala conseguia ver um feixe de luz que vinha provavelmente do escritório do Will.
Desceu as escadas com cautela no breu da casa e entrou na sala. A porta do escritório estava aberta e o doutor estava com os braços na mesa e a cabeça entre elas, mas não parecia estar dormindo.
Entrou no cômodo sem chama-lo, mas Will levantou o olhar o ouvindo andar pelo assoalho de madeira. Tinha os olhos cansados e com pesadas bolsas debaixo deles. Os machucados ainda estavam do mesmo jeito, sem cuidado nenhum e manchados de sangue.
― Tudo bem? ― Will perguntou apoiando o rosto em sua mão. A pergunta pareceu sair no automático, já que não havia interesse nenhum em seu tom de voz.
― Vem, vamos pra cama. ― falou o pirata segurando Will delicadamente pelo braço. O doutor suspirou, mas se deixou ser arrastado pelo rapaz.
Nico pegou o castiçal que Will estava usando – a vela quase toda derretida na base – e subiram para o quarto do doutor. Will retirou as várias camadas de roupas ficando sobre com a camisa branca e a calça. Soltou os cabelos e se virou para Nico que mexia nas suas ervas e faixas.
― Senta na cama, vou cuidar do seu rosto. ― falou Nico convicto. Will arqueou a sobrancelha duvidoso, mas sentou-se onde lhe pediu.
Nico segurou o queixo do doutor com seu indicador e polegar sentindo-o estremecer com seu toque. Com o pano molhado começou a limpar o ferimento em seu olho delicadamente. A luz da vela estava fraca, mas com o pouco que ela fornecia conseguiu limpar bem o sangue fresco do corte.
Desceu para seu lábio cortado fazendo o mesmo processo. Seu ventre começou a se revirar sentindo-se arfar involuntariamente. Não tinha motivo para isso, e nem podia pensar em nada mais do que limpar o ferimento.
Da ultima vez que resolveu ouvir os pedidos de seu corpo Will evitou se aproximar dele por um tempo, não queria repetir o mesmo efeito. Retirou o pano assim que terminou fazendo menção de sair de perto, mas Will o segurou pelo pulso o mantendo no lugar.
Levantou o olhar para o doutor. Ele o encarava sério, mas parecia bem mais desperto do que antes. Sentiu a outra mão de Will acariciar sua bochecha afetuosamente. Nico estremeceu com o toque sentindo borboletas se ouriçando em seu estômago.
A mão de Will desceu para sua nuca o puxando para baixo. Nico fechou os olhos sentindo os lábios de Will contra os seus. Delicado, uma troca de carinho breve e suave, um selinho que se encerrou antes mesmo de começar.
Nico abriu os olhos curioso. Will desviou os seus subindo a mão de seu pulso para entrelaçar seus dedos retirando o pano de sua mão no processo.
― Eu... ― ele começou, mas as palavras pareciam não lhe ajudar muito.
Nico abaixou o olhar compreendendo onde aquela conversa daria.
Ele ainda não estava pronto.
Sorriu tristemente aproximando-se do doutor e depositando beijo morno em sua testa.
― Eu ainda estou aqui, Solace. ― admitiu olhando-o nos olhos: ― Mas não estarei por muito mais tempo, e ambos sabemos disso. ― comentou vendo os olhos azuis marejarem: ― Mesmo que eu vá embora logo, não quero que se force a nada por culpa ou piedade. O que você estaria sacrificando para fazermos isso é muito pesado, e eu entendo.
Afastou-se completamente pegando o pano que havia caído ao chão.
― Só de estar perto de você pra mim basta, mas bastaria para você? ― Nico perguntou sorrindo pequeno: ― Boa noite, Will.
Virou-se e saiu do quarto antes que ele disse algo a mais, antes que Nico voltasse praquele quarto e terminasse o que o doutor começou.
Parou de andar tocando os lábios com os dedos sentindo lágrimas se formando em seus olhos. Tapou o rosto com as mãos.
― Droga Will. ― arfou limpando os olhos com a manga da camisa: ― Não brinca comigo. Por favor.
Respirou fundo entrando no seu quarto sem saber mais como avançar com o doutor. Não conseguia mais ficar naquele jogo, doía demais.
Porque no final das contas o único idiota que se deixou apaixonar durante as brincadeiras não foi o Will.
Foi ele.
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