Pit-a-Pat

25 Capítulo XXV


Notas iniciais
DOIS CAPS SEGUIDOS? É ISSO MESMO PRODUÇÃO? Sim sim ruehruehre gente não fiquem mal acostumados ok? Não quer dizer que vou voltar a postar toda quarta e domingo, só que vou tentar voltar a postar mais. A inspiração está um pouco melhor, mas nunca posso prometer constância. Ok? obrigada pelos comentários, espero que a virada tenha sido boa e o começo do ano satisfatório ;) Gente lembrando mais uma vez: WILL NÃO TEM CULPA DE NADA! Parem por favor, só parem! Se coloquem no lugar dele por 5 minutos, só isso que eu peço. Nico tem vida própria, eu não controlo ele, por isso ele só se machuca ruehruhruhreu :v Enfim gente aproveitem o cap! Boa Leitura!

Will

~Capítulo XXV~

:: 47º dia na Itália — Semana 6 ::

[...]

Will havia pego suas coisas no escritório para tratar da infecção de Nico o mais rápido que podia. Não parecia estar tão ruim e provavelmente estava bem no começo. O que o preocupava mesmo era a febre alta que ardia em sua pele.

Molhou o pano em água fria colocando em sua testa o fazendo estremecer, mas permaneceu desacordado. Pegou outro pano e começou a limpar o ferimento com cuidado. Estava avermelhado, um pouco inchado, mas melhoraria em um dia ou dois de repouso. Pegou um pouco de camomila depositando generosamente na ferida e enfaixando novamente.

Respirou fundo retirando sua camisa manchada a deixando no chão. Levantou-se indo até o guarda-roupa. Pegou uma camisa limpa para vesti-lo, mas resolveu que o deixaria só de calça. Devolveu ela e voltou para o rapaz o cobrindo com um cobertor grosso.

Recolheu o pano de sua testa o encharcando novamente e o colocando em sua testa, desta vez examinando-o mais atentamente. A febre alta irradiava por todo o seu rosto avermelhado e suado. O frio da água o acordou.

Nico abriu os olhos com dificuldade para focar em Will. O doutor sorriu sem muita emoção pra ele. Nico abriu a boca para falar:

― Eu... Eu li as coisas errado? ― perguntou em tom baixo e arrastado. Will aproximou-se dele para ouvir melhor. Franziu o cenho quando o fez.

― Do que está falando?

― Nós. ― respondeu virando o rosto para o lado derrubando o pano na cama. Will o pegou antes que molhasse tudo. Nico aterrou a face no travesseiro escondendo metade do rosto. Suas feições repuxaram como se sentisse dor: ― Eu gosto de você, muito, mas você tem medo de mim.

Will ficou tenso. Arregalou os olhos negando avidamente com a cabeça, mas sem saber o que falar. Nico riu.

― Você tem medo. ― repetiu ele fechando os olhos: ― Tem medo de mim porque faço você sentir coisas estranhas. ― riu mais uma vez sem emoção: ― Pode me odiar, não seria o primeiro.

Will ficou mudo sem saber como responder aquilo. Nico voltou a dormir deixando a conversa delirante para trás. O doutor se deixou cair para trás sentando no chão. Escondeu o rosto na mão sem reação imediata.

Aquilo foi um tapa. Um belo e forte tapa em sua cara. Nico não é de se expressar muito, sempre evita falar coisas que podem deixar o doutor mais desconfortável do que o normal, mas só foi preciso uma febre alta para que ele lhe confessasse o que o estava machucando.

Nico pensava que ele o odiava.

Respirou profundamente fechando os olhos sem saber o que fazer. Balançou a cabeça espantando os pensamentos, não tinha tempo para isso. Tinha de tentar abaixar a febre alta. Ela não causava só delírios e por isso ele tinha de fazer ela abaixar, nem que fosse só um pouco.

Pegou o pano da bacia de água fria e colocou em sua testa novamente o movendo por seu rosto e pescoço. Fez isso por umas três vezes antes de jogar o pano de lado e secá-lo. Abaixou a cabeça na cama apoiando-a em seu braço dobrado. Passou os dedos pelo braço de Nico o sentindo se arrepiar.

Mordeu o lábio descendo a mão para a sua, fria e calejada. Segurou ela acariciando o topo de sua mão com o polegar. Respirou fundo escondendo o rosto nas cobertas. Will realmente não sabia o que fazer.

Entrelaçou seus dedos nos dele e então fechou os olhos por alguns momentos e quando percebeu já estava dormindo.

Will acordou algumas horas mais tarde com Nico ofegante se remexendo na cama. O doutor se levantou medindo sua febre. Ainda estava alta. Refez o mesmo processo com o pano tirando a coberta dele para ajudar a febre a abaixar.

Aproveitou que estava de pé e fechou a cortina do quarto. Pegou um copo de água fria e fez Nico beber. O levantou pelo ombro o sustentando em seu braço. O pirata bebeu um pouco dela, mas logo voltou a dormir.

Will o depositou na cama e sentou-se na cadeira estalando as costas doloridas pela má posição. Recostou-se nela cruzando os braços e escorregando na cadeira. Ficou ali observando o rapaz dormindo respirando profundamente e de forma mais tranquila que antes, mas a vermelhidão de seu rosto ainda presente.

Mordeu o lábio pela sua estupidez. Tinha percebido ele vermelho e um pouco desanimado de manhã, mas tinha pensado de verdade que era por causa da situação deles do dia anterior e que nada tinha a ver com a ferida sarando.

Passou a mão pelos cabelos soltando o rabo de cavalo que lhe dava dor de cabeça. Apoiou a mão nos joelhos se levantou e desceu até a cozinha. Precisava fazer comida para quando ele acordasse novamente.

A noite passou e Nico dormiu direto até a manhã seguinte. Will permaneceu em seu quarto todo o tempo acordando com uma terrível dor no corpo por dormir na cadeira. Espreguiçou-se sentando na cama de Nico examinando sua ferida.

Estava menos vermelha. Suspirou aliviado limpando a ferida com os panos que deixara no quarto. Aplicou um pouco mais de Camomila e o enfaixou com tecido limpo. Nico se remexeu abrindo os olhos.

Resmungou escondendo o rosto no braço. Will rolou os olhos:

― Minha cabeça dói. ― comentou torcendo a boca: ― Me fala que eu não me lembro de nada ontem porque eu bebi até desmaiar.

― Não. Febre alta. ― discordou Will cansado: ― O ferimento estava começando a infeccionar, mas como peguei no começo não vai agravar.

― Oh! ― exclamou retirando a mão do rosto fazendo uma careta estranha, mas nada disse sobre o assunto. Will pensou em questioná-lo pra saber desde quando ele estava com dor, mas achou melhor esperar ele melhor.

Olhou bem para Nico que encarava a cortina de forma dispersa. Queria poder responder ele sobre ter medo de Nico ou não, mas seu rosto parecia melancólico demais para resgatar uma conversa feita no delírio de uma febre alta.

Suspirou afastando o cabelo do rosto de Nico carinhosamente medindo a temperatura. Parecia mais baixa do que na madrugada. O pirata retesou-se encarando Will de soslaio. O doutor sorriu pequeno descendo os dedos por seu rosto morno acariciando-o com a ponta dos dedos.

Nico fechou os olhos soltando um som prazeroso entre os lábios apreciando o carinho. Will crispou os lábios colocando alguns fios negros atrás de sua orelha afastando sua mão e se levantando.

― Vou pegar um pouco de comida. Você não come nada desde o almoço de ontem. ― avisou desconcertado. Nico somente o encarou: ― Volto logo.

Afastou-se tapando o rosto com a mão assim que fechou a porta de Nico atrás de si. Sentiu o coração batendo descontroladamente e o rosto irradiando calor. Resmungou algo antes de descer de vez.

Will não tinha medo de Nico, já tinha elaborado essa resposta em sua mente e degustado dela na madrugada que passou em claro.

Ele não tinha medo de Nico, não.

Tinha medo de Deus.

Nico

Assim que o doutor saiu Nico puxou as cobertas novamente escondendo o rosto debaixo delas.

― Doutor idiota. ― resmungou para si mesmo repuxando a camisa na altura do peito: ― Decide logo o que você quer, eu não vou aguentar você brincando comigo desse jeito.

Afastou a coberta aquietando seu coração descompassado. Resfolegou antes de olhar para a janela novamente. Nico odiava a vista dela da cama. Esfregou o rosto revivendo o sonho de novo e de novo e de novo.

Seu mini-inferno pessoal.

“Nico estava doente mais uma vez. Tinha sido trancado para dentro de seu quarto com somente sua mãe aparecendo de vez em quando. Odiava ficar sozinho, principalmente quando seu pai aparecia furioso no quarto em dias que estava acamado.

Tossiu fraco empurrando as grossas cobertas para o pé da cama. Pendurou as pernas para fora e deu um salto da cama alta. Caiu cambaleante no chão, mas assim que reestabeleceu o equilíbrio puxou uma das cobertas consigo e começou a andar em direção a uma parede coberta por uma tapeçaria do teto ao chão.

Puxou o tecido pesado com as mãos empurrando a pequena porta atrás dela. Era uma passagem secreta que dava em um corredor de emergência. Todos os quartos principais terminavam nela incluindo de seus pais e Bianca.

Enrolou-se no cobertor, fechou a portinha atrás de si e começou a andar no corredor empoeirado. A tosse deu uma agravada, mas ela compensaria. Andou um pouco até chegar à outra portinha puxando ela pela alça de metal. Afastou a tapeçaria semelhante a sua dando de cara com Bianca sentada em sua cama lendo um livro.

Ela estava tão concentrada nas páginas que não notou Nico andar até a sua cama. Quando o percebeu tomou um susto ao ser agarrada pela cintura debaixo das cobertas. Olhou para o lado sentindo Nico aterrar seu rosto em seu peito sorrindo alegremente.

Bianca abriu um sorriso amoroso afagando seus cabelos com carinho. Fechou o livro o deixando de lado na cama de casal. Deitou-se melhor abraçando Nico contra si o protegendo de qualquer coisa que o pudesse machucar.

Puxaram as cobertas até a altura da cabeça e com um beijo terno na testa do pequeno e um simples “Boa noite” ambos dormiram. Da mesma forma como dormiram acordaram com gritos de seu pai no corredor. Bianca sentou-se assustada colocando um braço na frente de Nico.

Hades entrou nervoso no quarto. A menina empalideceu.

― Então você veio para cá? ― o pai falou para Nico que se afundou nas cobertas assustado. Bianca entra na visão de Hades protetoramente: ― Você o trouxe para cá?

Antes que ela pudesse responder a mão dele enroscou em seus cabelos negros a fazendo soltar um grito de dor junto de lágrimas que desceram imediatamente.

― Tem noção do que fez? ― esbravejou ele: ― Ele não pode sair do quarto por um motivo. QUER MATAR O SEU IRMÃO?

― Não, não! ― falou ela chorando enquanto ele apertava os dedos em seus cabelos.

Nico fica entre os dois segurando a cintura de Bianca tentando proteger ela.

― MÃE! ― gritou o pequeno com toda a força que podia. Hades trincou os dentes levantando a outra mão.

Maria entrou no quarto correndo até seu marido. Segurou seu braço:

― Solte as crianças Hades! ― mandou ela tentando afastá-lo: ― Elas não fizeram nada, pare!

Hades a encarou com fúria desferindo um tapa em seu rosto com a mão livre. Ela cai no chão horrorizada. Nico chama por ela com lagrimas nos olhos.

― Você é só minha esposa, tem de fazer o que eu mandar você fazer! Se coloque no seu lugar Maria!

― Pai por favor solta a Bianca. ― pediu ele entre soluços: ― Por-Por favor!

Hades estreitou os olhos para os três antes de soltar a menina que segurou a cabeça soluçando no abraço de Nico.

― Mais tarde teremos uma conversa Bianca. ― falou ele olhando para Maria na sequência: ― Volte para seu quarto.

Assim ele sai deixando os três sozinhos e desamparados. Nico e Bianca, ainda chorosa, foram até a mãe que tinha uma marca avermelhada em seu rosto.

― Ta doendo? ― perguntou Nico enchendo os olhos de lágrimas novamente. A mãe somente sorriu abraçando os dois.

― Vai ficar tudo bem. ― Ela sussurrou chorando um pouco enquanto afagava as crianças com carinho. Pegou Nico no colo, segurou Bianca pela mão e saíram do cômodo.”

Abrindo os olhos novamente Nico trincou os dentes sentando-se com certa raiva. Aquilo aconteceu uns quatro anos antes de sua mãe se matar. Depois de ter ficado adulto Nico começou a compreender melhor o motivo da mãe ter feito o que fez.

Lembrava-se vagamente de Bianca nervosa com a mãe por ter se matado ao invés de ficar triste por ela. Isso Nico admite nunca ter entendido da irmã. Ela se dava bem com a mãe, tinha vários vestidos que foram dados por ela quando era criança e que foram jogados fora sem dó depois do acontecimento.

Ele só se lembra mesmo de Bianca com Hazel no colo e um olhar raivoso no enterro de Maria. Um olhar que ele viu uma segunda vez, mas desta vez direcionado para ele.

― Nico, trouxe um pouco de comida. ― falou Will entrando no quarto. O pirata o encarou ajeitando-se na cama: ― Não coma tudo se não aguentar, não quero que force nada.

― Roger! ― respondeu sorrindo sapeca para o olhar confuso do doutor, mas resolveu não explicar: ― Então, o que exatamente aconteceu ontem?

Will ficou tenso encarando Nico de forma estranha. O pirata retesou-se: ― O que houve?

― Você caiu no corredor. ― respondeu abaixando a cabeça evitando contato: ― Levei um susto quando te vi no chão.

― Ah... ― Nico abaixou o olhar envergonhado. Se lembrava vagamente do dia anterior depois do almoço, mas a memória de chamar o Will apareceu em sua mente de forma bem vaga.

― Há quanto tempo você está com dor? ― perguntou Will sério fazendo Nico voltar a olhá-lo.

O doutor tinha uma expressão séria no rosto, mas ao mesmo tempo uma compaixão nos olhos que o acalmava. Nico respirou fundo:

― Desde a feira. Depois da minha fuga. ― comentou passando a mão pela nuca: ― Estava doendo um pouco, mas não pensei que fosse piorar dessa forma.

Will arqueou a sobrancelha: ― Bom se tivesse me dito no dia teria feito você repousar por um tempo para evitar uma infecção, mas você quis fazer do seu jeito.

Nico franziu o cenho: ― Não é como se eu tivesse uma escolha. Não sei se você se lembra de como está o clima entre nós dois.

O doutor se calou. Nico respirou fundo olhando novamente para a janela. Por que e para que ele contaria? Para ele o ferimento não iria piorar e depois do clima que ficou entre eles não tinha muita vontade de falar com Will.

Ele não desistiu, mas não quer dizer que não doía. Nico sentiu a cama mexer, ficou tenso na mesma hora.

― Eu queria poder dizer algo para você sobre o que aconteceu, mas não consigo. ― admitiu fazendo Nico encará-lo.

O doutor parecia bem vulnerável. O olhar baixo e suplicante. Nico suspirou:

― Você já disse o que tinha de dizer. ― falou trocando olhares com o loiro: ― Mas não foi o bastante pra me afastar totalmente Solace. Não ainda.

Will estreitou os olhos sem entender. Nico se aproximou do doutor apoiando a palma de sua mão em seu peito sentindo as batidas rápidas de seu coração. Colou suas testas sorrindo docemente.

O doutor engoliu em seco fechando os olhos segurando a mão de Nico em seu peitoral. O pirata acariciou seus cabelos beijando sua bochecha carinhosamente.

― Eu ainda não desisti de você, Solace. ― sussurrou ele em seu ouvido sentindo-o arrepiar-se: ― Não ainda. ― repuxou sua camisa fechando os olhos suspirando: ― Eu sou egoísta, sabe? Não gosto de dividir.

Deitou sua cabeça no ombro de Will descendo o braço de seu cabelos para sua cintura aproximando seus corpos. Will não disse nada, mas Nico só estava esperando que ele o afastasse.

O doutor retirou sua mão de sua camisa entrelaçando seus dedos. Nico retesou-se encarando a mão cheia de sardas do Will acariciando a sua com o polegar. Respirou entrecortado.

― Estou confuso. ― respondeu Will baixo, o mesmo tom de Nico: ― Não sei se tenho coragem o suficiente para isso. Para nós. ― admitiu afastando Nico de seu abraço. Levou sua mão até seus lábios depositando um beijo terno na junta de seus dedos pálidos. Nico segurou a respiração: ― Mas eu não odeio você, não neguei você. Quero que saiba disso. Só... Só não exija de mim algo que eu provavelmente não possa te dar.

Nico mordeu o lábio desviando o olhar.

Ele sabia que era arriscado pedir para Will jogar fora tudo o que ele sabia e acreditava por eles. Nico entendia o dilema muito bem e por isso que ele concordou com a cabeça:

― No seu tempo. ― ele disse sorrindo triste: ― Quando estiver pronto.

Will abriu um sorriso forçado o desfazendo na sequência. Soltou a mão do pirata se levantando da cama. Nico abaixou o olhar.

― Vou deixar sua comida aqui, tenho um escritório para organizar. ― falou ele se virando para sair.

― Te vejo mais tarde. ― Nico disse puxando as pernas para cima ouvindo o trinco da porta e os passos de Will se distanciando.

Escondeu o rosto nas pernas fechando os olhos com força, já sabia o final daquela história.

Ele nunca estaria pronto.

Nico acabou dormindo novamente depois disso, a comida praticamente intocada. Não sabia bem que horas eram, mas quando começou a sentir pesos estranhos na cama começou a imaginar que já tinha passado do horário de levantar.

Sentiu mãozinhas quentes em seu rosto. Ele somente resmungou sorrindo:

― Hazel sai de cima. ― falou entrecortado segurando as mãozinhas. Ouviu risinhos gostosos enquanto a menina tentava se soltar.

Nico abriu os olhos um pouco chocado vendo os olhos caramelos enormes de Hazel o encarando. Nico franziu o cenho sem entender.

― Neeks levanta. ― pediu ela sentando-se no espaço livre da cama: ― O papai disse que você esta atrasado.

Ainda sem saber o que dizer o pirata encarou a pequena com curiosidade. Hazel não tinha dez anos a um bom tempo. Para ser franco exatos cinco anos desde que deixaram o Ducado para trás.

A menina cruzou os braços fazendo bico:

― Se tem tempo pra ficar me encarando tem também pra começar a se arrumar. ― falou a pequena petulante. Nico arqueou a sobrancelha: ― Vamos! A Bianca chega já já para a festa!

Dizendo isso ela desce da cama fazendo Nico dar um salto para fora a segurando pela mão. Hazel o encara sem entender. O coração de Nico começou a bater descontroladamente de pavor.

Como ele poderia estar ali? Justo naquele dia? Ele estava revivendo ele tudo de novo? Era a febre o fazendo alucinar?

Puxou a menina contra si a segurando pelos ombros enquanto ajoelhava no chão:

― Pode fazer um favor pra mim? ― pediu ele suplicante. Hazel concordou avidamente, com o olhar confuso.

― Não saia do meu lado em momento algum na festa. Fui claro? ― disse descendo as mãos segurando as pequenas e quentes mãozinhas da irmã.

Ela sorriu concordando, mas depois franziu o cenho:

― Mas você é o Duque. As pessoas não vão te deixar em paz. ― relembrou ela: ― As pessoas gostam de conversar com você.

― Sim, mas você é minha prioridade número um. ― ele disse piscando-lhe o olhos. Hazel riu envergonhada.

― Você fala isso pra Bianca também, não vale! ― resmungou ela, mesmo ainda sorrindo.

Nico ficou sério dessa vez levando as mãos da pequena aos seus lábios beijando-as:

― Você é minha prioridade. Sempre será! Não a Bianca. É errado fazer distinção, mas amo você mais. ― ao dizer isso sentiu como se um peso pressionasse seu peito.

Era uma verdade tão cruel que lhe doida demais admitir. Bianca tinha conseguido cair tanto em seu conceito que deixou de amar a própria irmã mais velha. Nico odiava tanto esse sentimento, mas ele não causou isso. Não foi sua culpa.

Foi dela.

― Você é meu favorito também. ― comentou ela abraçando ele feliz: ― Não conta pra Bianca.

― Nunca. ― respondeu retribuindo o abraço que sentia tanta falta, mesmo que fosse somente uma alucinação de sua irmã caçula.

Ele ficou de pé: ― Vamos nos arrumar?

― Vamos!

E então fizeram. Começaram a se trocar, as empregadas entraram no quarto ajudando a pequena a colocar o vestido rodado e cheio de babados que ela tinha pedido alguns dias antes.

Nico colocou sua vestimenta completa em tons de azul marinho com os babados brancos destacando suas mangas e o colarinho. O cabelo amarrado em um laço para trás. Colocou as luvas pretas e o anel de família no dedo anelar com seus olhos vermelhos cintilando macabramente.

Pegou uma bengala, mesmo sem a necessidade de usá-la, olhou Hazel brilhando em seu vestido azul de babados e sorriu para ela amorosamente. Ela devolveu o sorriso e ambos saíram para os jardins.

Os empregados se curvavam para eles com cumprimentos respeitosos. Alguns dos convidados perdidos pela casa lhe dando a mão em um cumprimento educado e Hazel mostrando seu vestido alegremente.

Os nobres a encaravam de lado com certo desprezo igual sempre, mas diferente do que ele fazia cinco anos atrás Nico os encarou. O olhar desafiador que aprendeu a desenvolver ao logo de seus anos como pirata.

Viu os mesmos desviarem o olhar e pedirem desculpas saindo apressados de perto do Duque. Ele levantou o queixo em uma pose desafiadora para o resto dos nobres ali presentes. Esticou sua bengala para o lado, uma ordem silenciosa para que a mesma fosse retirada de sua mão.

Com ambas mãos livres pegou na mão de Hazel com uma e a outra levou às costas. Passaram para o jardim recebendo olhares cortantes. Nico riu para isso. Ele nunca poderia mudar o que tinha acontecido naquele dia e nem a forma como as pessoas veem Hazel, mas se poderia fazer isso em uma alucinação então ele o faria.

Seu pai os esperava ali perto conversando com o Marquês. Nico tentou lembrar seu nome, mas não surtiu muito efeito. Hazel apertou a mão do irmão quando seu pai os olhou. Nico retesou a coluna mantendo a pose defensiva e séria puxando a irmã para trás dele.

Hades se aproximou com um sorriso tão falso que Nico tinha vontade de soca-lo. De novo.

― Perséfone estava procurando vocês. Estão atrasados. ― disse ele com uma pequena ameaça mascarada no fundo. Nico arqueou a sobrancelha:

― Nunca estou atrasado, vocês quem estão sempre muito adiantados. ― respondeu desafiador. Hades fechou a cara. Ouviu o Marquês rir no fundo:

― Concordo com meu Duque. ― respondeu ele curvando-se. Nico segurou a vontade de revirar os olhos. Puxa saco!

― Neeks, quero comer alguma coisa. ― pediu ela baixinho tentando fazer com que Hades não a ouvisse, mas ele o fez.

― Peça a uma das suas acompanhantes te levar para comer, Nicolà tem compromissos. ― ele falou severo.

Nico trincou os dentes:

Eu sou o acompanhante dela. ― falou sério aproximando o rosto de seu pai para que só ele o ouvisse falar: ― Eu tomaria cuidado se fosse você, ex-Duque. O Rei já me nomeou o dono dessas terras e você só não foi expulso dessa casa em respeito à Perséfone que, por incrível que pareça, é uma boa mulher e boa madrasta. Não me faça mudar de ideia.

Hades estremeceu, mas não perdeu a compostura. Contudo permaneceu quieto já que realmente não tinha como rebater aquilo. Nico sorriu vitorioso.

― Vamos Haz! Acho que tem doces aqui em algum lugar. ― comentou ele puxando a irmã com um sorriso enorme.

― Você não pode comer doces Neeks! ― ela falou desafiadora. O rapaz riu:

― Então melhor se afastar de mim, docinho. ― comentou piscando o olho. Ela corou totalmente lhe dando dois tapas na perna o fazendo rir mais ainda.

Desceram as escadas até o jardim, mas assim que viu Bianca e seu marido ele gelou no lugar. Hazel o encarou sem entender. E então o calor da mão de Hazel sumiu e Nico foi engolido pelo vazio de suas memórias.

Olhou ao redor e todos os rostos foram substituídos por máscaras brancas com sorrisos rasgados com cortes escorrendo o mais negro dos sangues. Olhos profundos e vazios. A terra começou a girar e as mascaras riram, risos tão macabros quanto suas presenças tempestuosas.

Bianca se aproximou dele, lágrimas de sangue escorrendo por seus olhos e um sorriso repuxado para a esquerda. Em sua mão jazia uma faca que escorria sangue e subitamente seu ferimento do ombro começou a latejar. Pôs a mão sobre ele sentindo o sangue morno descer descontroladamente.

Ouviu Hazel gritar o fazendo acordar do transe daquele sonho e virando para o som da voz. E então aquele mundo quebrou em pedaços igual um espelho despedaçado. Nico caiu e foi engolido totalmente pela escuridão.

― Nico!

O rapaz acordou assustado sentando-se na cama resfolegando desesperadamente. Por puro instinto segurou seu ombro lesionado atrás de sangue, mas não encontrou nada lá, nem mesmo a dor que jurava ter sentido há poucos segundos.

Mãos pequenas o tocaram novamente e desta vez bem acordado ele encarou quem era. Viu Milena o olhando com olhos arregalados. Nico soltou o ar sentindo-se subitamente enjoado.

― Tio Nico! ― gritou a pequena: ― Você está chorando!

O rapaz arregalou os olhos passando a mão por seu rosto molhado. Franziu o cenho limpando o rosto com a manga.

― Tio Nico! Tio Nico! ― chamou ela o puxando pela calça. Ele soltou o ar pesado de seus pulmões antes de afagar os cabelos da garota.

― Eu estou bem Milena. ― respondeu ele sorrindo da melhor forma que pode: ― Quando você chegou aqui?

― Junto da mamãe. ― falou ela incerta: ― Vim ver você porque o tio Will disse que você estava doente.

Ele abriu um sorriso um pouco mais honesto:

― Fico lisonjeado que se importe comigo pequena. ― ele disse tocando seu nariz com o indicador. Ela riu envergonhada: ― Estou um pouco cansado ainda, mas eu desço logo. Por que não vai lá com eles?

― Queria ficar aqui com você. ― pediu ela tristonha: ― Prometo não contar pra ninguém que você estava chorando.

Nico mordeu o lábio afagando os cabelos da pequena novamente sentindo aquele vazio no peito novamente.

― Sinto falta da minha irmã. ― Admitiu Nico desviando o olhar: ― Estava sonhando com ela.

― Oh... ― a menina segurou as mãos do pirata o fazendo olhar para ela: ― Posso ser sua irmãzinha enquanto ela tá longe! Henry gosta de ser meu irmãozinho.

Nico gargalhou. Aquilo aqueceu um pouco seu coração fragmentado:

― Não acho que seus pais vão me querer como filho. ― zombou ele, mas depois achou a ideia interessante. Provocar Charles era uma de suas metas de vida naquele momento.

― Posso contar uma história para você, quer ouvir? ― propôs ela toda alegre. Nico riu ajeitando-se na cama enquanto a menina sentava reta pigarreando: ― Gosta de histórias de princesas?

― Minhas favoritas. ― respondeu ele recebendo um sorriso animado da garota. E então ela começou a história.

Ela encenava, fazia vozes engraçadas, corria, pegava alguma roupa que achava no caminho para ser a capa do príncipe. Nico ria o tempo todo se sentindo um pouco mais leve. Ele não se sentia assim fazia muito tempo.

Droga, ele sentia falta de ter uma criança para cuidar. Que vexame.

― E então eles viveram felizes para sempre. ― ela falou se curvando. Nico bateu palmas.

― Adorei a história. ― comentou: ― Você é uma ótima contadora de histórias Milena.

Ela riu toda alegre:

― Milena! Precisamos ir! ― gritou Silena do andar de baixo. Os dois se olharam e Nico piscou para ela.

― Vai lá! Obrigado pela companhia. ― agradeceu ele.

A menina soltou a roupa de seu pescoço e correu até Nico lhe dando um beijo no rosto.

― Fica melhor tio, mas se não ficar eu conto mais histórias. ― ela falou correndo para fora sem esperar uma resposta.

Nico se deitou novamente dobrando as pernas para cima. Ele realmente sentia falta de uma criança enchendo o saco dele enquanto estava dormindo. Sorriu sem emoção para a memória de Hazel sorridente.

Fechou os olhos dolorosamente, mas depois os abriu decidido.

Sabia exatamente o que tinha de fazer.

Notas finais
DOIS FLASHBACKS DE UMA VEZ? Sim! Um deles foi uma lembrança, a outra foi um tipo de alucinação pq nosso Nico ainda está com febre alta ruehruheurheu Eu amei o momento dele com a Milena, sei lá eu amo Nico cuidado ou brincando com crianças ♥ É simplesmente muito fofo! E essa conversa do Will e do Nico? Está complicado né? O Will está dificultando demais, mas enfim isso não é motivos para xingamentos, ele vai abrir os olhos ;) Alguém já tem alguma ideia do que aconteceu de verdade no passado do Nico como Duque? Quero ler teorias ♥ Ah, caso tenham duvida, no flashback Nico tinha 6 e a Bianca 10. No sonho dele a Hazel tinha 10, ele 18 e a Bianca 22. Ok? Ok. obrigadinha por ler! Até o proximo. beijinhos~