Pit-a-Pat
16 Capítulo XVI
Notas iniciais

Will
~Capítulo XVI~
:: 32º dia na Itália — Semana 4 ::
[...]
Já havia escurecido há algumas horas e até o momento não havia falado com Charles ou Silena sobre Nico. Na verdade ele fez questão de evita-los, pois sabia o que estava por vir então pra que se estressar antes da hora? Ficou sentando no sofá ouvindo as histórias mirabolantes de Milena. Vez ou outra se pegava olhando para a porta esperando que Nico aparecesse por ela.
Assim que passou da hora das crianças irem para cama Will deitou-se no sofá fechando os olhos cansados. Havia chorado depois de chegar à casa de Charles e se trancado no banheiro deles. Só de imaginar o estado da senhora Barteles o deixou arrependido.
Arrependido por algo que não tinha culpa, por algo que não tinha como ser evitado, mas ainda sim sentia uma culpa culminando em seu peito. Nico lhe dissera sobre mortes não serem evitadas ou algo do tipo e ele entendia isso, por mais que sentisse a perda de Harley ele sabia muito bem sobre isso.
Sabia que não tinha controle sobre a morte, que ela vinha para todos e que idade era relativa. Contudo explicar isso pra quem perdeu alguém era inaceitável; explicar isso pra alguém que sentia pela morte de todos que já se envolveram com ele, amigos ou não, era impossível.
Ele teria de superar sozinho, e Will entendia isso. Ele estava sozinho com sua própria mente, e esse era um problema a lidar sozinho, ainda que tivesse três pessoas o apoiando naquele momento.
Ouviu passos aproximarem-se do sofá e com um suspiro latente sentou-se nele. Charles e Silena sentaram no outro ao lado com olhares sérios para com Will.
― Will sabe que precisamos conversar uma hora, certo? ― falou Charles com as mãos entrelaçadas no colo, curvado para frente. O loiro concordou: ― Você entende que acolher esse pirata foi um erro tremendo, certo?
― Não necessariamente. ― rebateu o doutor torcendo o lábio: ― O que tem de tão errado em eu querer ajudar alguém?
― Will nós entendemos isso, mas ele é um pirata e as consequências pra quem os acolhe é a forca. ― explicou Silena aflita. Will abaixou o olhar, afinal ela estava certa.
― Você o tratar por ser médico vai te dar uma carta branca. ― comentou Charles convicto. O Solace franziu o cenho: ― Quando chamarmos a marinha vamos explicar sobre você o ter curado, doutrinas médicas, até religiosas se precisar.
Will gelou. Marinha? Eles iam chamar a marinha?
― Não pode estar falando sério! ― falou o doutor em choque: ― Não vão chamar a marinha para prendê-lo! ― rebateu aflito remexendo-se no sofá.
― Will entenda que isso é para o seu bem! ― continuou Charles no mesmo tom sério de antes: ― Eu sei que você se sente abalado por causa do Austin, mas não deixe que isso o cegue. Ele vai lhe trazer problemas.
― Olha eu admito que no começo eu o ajudei por lembrar do Austin, mas depois de todo esse tempo acha que eu não o considero um amigo Charles? ― replicou Will sério. Os dois soltaram um grunhido de choque: ― Vocês não convivem com ele, então é claro que suspeitem ou desconfiem dele, é natural, mas eu nunca o entregaria a marinha.
― Você está doido? ― trovejou Charles levantando-se. Silena tentou segurá-lo pela manga, mas sem sucesso: ― Confiar nele? É suicídio William! ― aumentou o tom de voz nervoso. O doutor cruzou os braços:
― Não nos demos bem no começo por causa dessa desconfiança toda, mas agora estamos confortáveis um com o outro. ― Falou Will. Charles fez menção de rebater, mas ele lhe mostrou a mão pedindo silêncio: ― Eu não confio totalmente nele, confiança se é conquistada com o tempo, então não me diga que estou sendo irresponsável. Contudo do jeito que ele está indo não vai demorar muito para conquistar totalmente minha confiança. Isso é questão de caráter.
― Que ele obviamente não tem! ― grunhiu Charles passando a mão pelos cabelos.
― Will, eu entendo que você queira confiar nele, mas ele é um pirata. ― falou Silena preocupada: ― Eles nunca são confiáveis. Austin não era.
Will trincou os dentes: ― Ele é na medida certa. Nenhum de nós aqui é santo Silena.
― Will não complique as coisas por favor! ― pediu Silena: ― Ele precisa ser entregue a marinha, precisa pagar pelo que fez. Se esqueceu dos homens que morreram no ataque aquele dia?
Não, Will não havia se esquecido disso. Contudo nunca havia realmente perguntado o que havia acontecido naquele dia. Marinheiros morreram, mas provavelmente alguns piratas além de Nico também saíram feridos.
Ficar bravo pelos marinheiros estarem mortos é o mesmo que estar bravo pelos piratas estarem vivos. É como escolher quem quer que viva ou morra. Will odiava esse conceito.
Algumas batidas na porta chamaram a atenção dos três. Charles foi a passos pesados para a porta abrindo-a bruscamente. Ele parou enquanto Nico passava pela entrada com o chapéu tapando parcialmente seu rosto.
Will se levantou rapidamente:
― Nico! ― exclamou ele sentindo um alivio enorme percorrer seu corpo. Ele estava bem.
― Solace. ― o pirata o encarou nos olhos sorrindo minimamente: ― Prometi que não ia morrer, não prometi?
Will rolou os olhos: ― É o mínimo né?
Charles bateu a porta encarando os dois minunciosamente. Nico arqueou a sobrancelha antes de soltar um suspiro pesado.
― Acredito que vai começar o interrogatório. ― supôs sentando-se no sofá. Will o seguiu se sentando do lado.
Charles e Silena continuaram no outro, agora tensos e sérios com a presença do pirata no cômodo. Will começou as perguntas:
― O que houve? Ele apareceu? ― o doutor estava aflito. Levou meio dia pro Nico retornar. Ele não parecia machucado, o que era algo bom, mas não poderia dizer o mesmo do Barteles e isso o aterrorizava.
Nico respirou fundo:
― Ele apareceu sim. ― respondeu sério olhando o amigo: ― Tive de me livrar dele.
― Ou seja o matou? ― Charles falou com asco. Nico o encarou de soslaio: ― É a única coisa que você sabe fazer, certo?
― Como pode estar tão certo disso? ― indagou Nico curioso.
― Porque você é um assassino. ― cuspiu o ferreiro. Will mordeu o lábio nervoso com o rumo da conversa.
― Posso até ser, mas não matei o Barteles, seria estupidez demais. ― admitiu seco: ― Somente conversei com ele, e nessa conversa o convenci a ir embora pra Espanha e não matar o Solace.
Charles soltou uma risada de deboche: ― Até parece.
― Você queria que ele te respondesse certo? Então por que não escuta Charles? ― pediu Will nervoso.
Eles queriam conversar com Nico, queriam explicações, mas do jeito que estavam o que queriam mesmo era irritá-lo, era ver ele explodindo, era entrega-lo a marinha. Will notou o seu erro quando disse que confiava nos amigos.
Não pareciam muito confiáveis naquele momento.
Nico recostou no sofá: ― Se acreditam ou não, não importa. ― comentou em tom baixo: ― Só o que eu fiz, e que ele está vivo e vão comprovar isso amanhã.
― O que você fez exatamente? ― perguntou Silena curiosa.
― O que eu fiz não importa, o que importa é que ele amansou. ― disse visivelmente irritado.
Will suspirou. Sabia que não conseguiria arrancar nada dele se não quisesse falar. Assim sendo, Charles respirou fundo:
― Quem é você de verdade?
― Sou o capitão do Caronte, Rei Fantasma. Prazer. ― apresentou-se sem muito ânimo. Silena torceu o lábio:
― Não me é familiar o nome. ― admitiu contrariada.
― Não me admira. ― falou Nico debochadamente: ― Vocês vivem ilhados em seus próprios mundos seguindo regras cegamente e nem mesmo tentam descobrir o que está acontecendo fora daqui.
― Não precisamos desse tipo de informação. ― rebateu Charles.
― Todos precisam, se você quer ou não admitir isso é outra história. ― comentou balançando a cabeça em negação.
― O que mais? ― insistiu Charles: ― Eu disse pra me falar sobre você, quero mais informações.
Nico travou a mandíbula repuxando a calça entre seus dedos finos. Will ficou tenso. Se a intenção era de irrita-lo, então Charles estava fazendo um bom trabalho. Aquela altura Will sabia que Nico odiava falar de seu passado, tanto que evitava tocar na ferida que parecia ainda aberta sobre o assunto.
― Não tenho mais informações que isso. ― resmungou irritado: ― Passado é passado, e pretendo manter o meu lá!
― A história que nos contou, o que era verdade e o que era mentira? ― insistiu a moça. Silena parecia mais tranquila que Charles, talvez tentando entender o que se passava na mente de Nico.
O pirata abriu a boca pra falar, mas Charles o interrompeu:
― O que importa Silena? Com certeza era tudo mentira. ― ralhou nervoso: ― Não entendo o porquê de conversarmos com ele! Deveríamos ter chamado a marinha desde o começo!
Will o encarou decepcionado. Não parecia o mesmo amigo equilibrado de antes.
Nico rosnou: ― Parte da história é mentira, mas nem tudo! ― Cuspiu raivosamente. Will depositou uma mão em seu ombro alertando-o: ― Não, não sou dono de um café; Sim sou só eu e minha irmã; Sim Hazel existe e graças a todas as divindades do mundo ela é muito saudável; Sim eu tive de deixa-la para trás pra sustenta-la. E sim, morávamos em Veneza! ― falou em um único fôlego.
Respirou fundo antes de continuar:
― Se pensar bem teve mais verdades do que mentiras.
― Por que não gosta de falar de sua irmã? ― continuou Silena entretida no assunto.
― Ela faz parte de um passado que não existe mais. ― explicou abaixando o olhar: ― Adoro me exibir sobre ela pras pessoas, mas sempre termino nervoso com memórias que vem junto. Então evito. Além do que eu sou um pirata, e bem odiado por sinal. Se soubessem de sua existência a usariam contra mim. Só cinco pessoas sabem sobre ela, as únicas em quem confio de verdade. Vocês? Da mesma forma que não confiavam em mim eu também não.
Eles ficaram quietos depois disso. Silena aquiesceu como que compreendendo seus motivos, mas Charles ainda parecia nervoso. Will ainda estava com a mão no ombro de Nico e passou a alisar suas costas tentando acalmá-lo.
Aos poucos viu a respiração dele voltando ao normal e relaxando com seu toque.
― Ainda não confio em você, e com certeza não vou confiar tão logo. ― cuspiu Charles em tom baixo.
Nico riu debochado: ― A reciproca é verdadeira, meu caro.
Will afastou o braço de Nico olhando diretamente pro amigo:
― Chega Charles. ― pediu ele sério: ― Não sei o que você está querendo provar aqui, mas já deu dos ataques. Se você confia ou não nele não importa, ok? ― bradou: ― Eu confio nele, eu estou o acolhendo, e eu decido se vai chamar a marinha ou não, porque se quer saber enquanto ele estiver na minha casa vocês não vão fazer nada.
Charles arregalou os olhos em choque. Sentiu Nico o encarando, mas decidiu que não deveria envolve-lo no resto da discussão.
― Você está se ouvindo? ― falou Charles: ― Confia nele? Está o acolhendo? Quanto tempo vai demorar até ele revolver que você não é mais útil e te matar?
― Ele não vai fazer isso! ― defendeu Will possesso: ― Sinceramente o que você está querendo Charles? Eu não entendo! Ele não fez nada contra mim, acabou de se arriscar pra me proteger, e ainda questiona o caráter dele? Tá, ele é um pirata, mas meu irmão também é!
― E também não confio no Austin! ― ralhou Charles: ― Não pode simplesmente me pedir pra fechar os olhos.
― Não pedi isso, pedi para que deixe isso comigo. É o meu paciente e eu resolvo o que acontece daqui por diante. Você não é meu pai, não é meu irmão, então eu sugiro que pare de querer decidir as coisas por mim. ― disse respirando fundo na sequência: ― Vamos só... Parar de nos atacar ok? Odeio isso.
Charles o encarou com certa raiva, mas suspirou na sequência calando-se. Will agradeceu mentalmente por isso. Não queria falar dessas coisas com Charles. Olhou para Nico que estava cabisbaixo e quieto, coisa anormal para ele. Tocou seu ombro afetuoso.
― Nico, tudo bem?
O pirata soltou uma risada baixa:
― Esqueci de dizer que a ferida abriu... ― falou desmaiando em seu colo. Will o pegou antes de cair em suas pernas.
― NICO?
Ele sai do sofá depositando-o deitado nele. Silena apareceu do seu lado sob os protestos de Charles. Will abriu sua camisa, mas viu pouco sangue no ferimento. Suspirou aliviado.
― É cansaço, ainda bem. ― falou sentindo um peso enorme sair de seus ombros: ― Só está fraco, fez muito esforço. ― olhou para Silena: ― Tudo bem ele ficar aqui certo?
― Claro. ― respondeu rapidamente sem hesitar. Will agradeceu. Silena parecia mais tranquila que Charles e isso era um bom sinal.
Silena subiu para pegar cobertores enquanto Will retirava seu cinto com espada e arma de sua cintura colocando-a na mesinha de centro. Retirou seu sobretudo e chapéu ajeitando-o o mais confortável que podia evitando colocar muito peso na ferida e em seu ombro lesionado.
― Ele não pode ficar aqui sozinho, é perigoso Will. ― Charles voltou a falar. Will trincou os dentes já irritado com o falatório.
― Olha, eu não posso voltar pra casa arrastando ele todo o caminho e nem pretendo. ― rebateu calmo controlando o nervoso: ― Ele precisa de descanso. O mínimo que você pode fazer é confiar em mim, já que não confia nele. ― explicou mantendo o tom baixo e firme. Não queria se irritar com o amigo, não mais do que já estava.
Charles resmungou algo e saiu da sala sem dizer mais nada. Silena voltou com cobertas. Desejou boa noite ao Will e subiu atrás do marido. Respirou profundamente tentando acalmar os nervos.
Aquele dia tinha sido muito agitado, tenso, bagunçado e a flor da pele. Fazia tempo que sua vida não era mexida de cabeça pra baixo como no momento. Nico chegou causando nela, e por algum motivo não achava isso ruim, bem pelo contrário.
Ajeitou a coberta em seu colo afastando os fios de cabelo de seu rosto sereno. Não parecia com dor e isso era um ponto positivo. Sentou-se no chão debruçando-se ao seu lado enquanto o observava dormindo.
Ficou o encarando por um tempo observando o detalhes de seu rosto. Dali de perto pode ver um pouco de sardas em seu nariz e bochechas. Bem claras, quase imperceptíveis, mas que pra ele eram até fofas. Tinha uma cicatriz que em sua bochecha esquerda, não muito comprida no rosto, mas que descia até seu pescoço e imaginou onde ele a conseguiu.
Respirou fundo fechando os olhos por algum tempo antes de criar forças pra se levantar, mas dormir naquela posição não estava em seus planos.
☠
Will acordou com movimentos no sofá. Estalou as costas pelo incômodo. Havia dormido no chão e pela dor em suas pernas as manteve na mesma posição por muito tempo. Olhou para fora e ainda estava escuro, mas não sabia dizer que horas eram.
Olhou para Nico arregalando os olhos na sequência.
Estava ofegante como se estivesse em dor. Piscava os olhos repetidas vezes enquanto seu corpo tremia em pequenos espasmos. Will levantou-se em um solavanco:
― Nico? Ei, Nico! ― chamou ele assustado segurando o pirata pelos ombros. O rapaz tentou focar em seu rosto. Abriu a boca sussurrando algo que Will não compreendeu.
Aproximou-se dele:
― Preciso de açúcar. ― respondeu o pirata respirando fundo. Will ia rebater, mas ele negou: ― Por favor...
A contra gosto foi até a cozinha. De lá pegou um copo com água e encheu com açúcar até o copo ficar esbranquiçado. Voltou o ajudando a beber.
Nico fechou os olhos com a respiração ainda falha. Will sentou no chão o observando. Ele suava muito e a respiração rápida e cansada. Mordeu o lábio encarando-o preocupado. Nico desceu a mão até a de Will apertando-a com força. O doutor estremeceu com o toque encarando a mão trêmula do pirata na sua.
Respirou fundo retribuindo o aperto de sua mão. Aos poucos ele foi se acalmando. Minutos se passaram, talvez quase uma hora antes de Nico ficar calmo novamente, mas em nenhum momento soltou a mão de Will.
Olhou para o doutor cansado, mas aparentemente bem desperto. Will aproximou-se colocando uma mão em sua testa examinando-o como sempre. Nico afastou ela:
― Não estou doente. ― admitiu: ― É a diabetes.
Will arregalou os olhos: ― Diabetes? Por que?
― Excesso de açúcar no corpo é o que define a diabetes, mas falta também. ― respondeu o pirata com a voz baixa: ― Não posso ficar muito tempo sem comer, e eu só tomei café da manhã ontem, e bem cedo por sinal. ― falou numa risada fraca.
― Por que não me disse antes? ― perguntou o Solace visivelmente preocupado.
― Você não perguntou. ― zombou ele recebendo um olhar severo do doutor: ― A vamos, não faça essa cara.
― Claro que faço. ― resmungou ele apoiando a cabeça em Nico: ― Acordar com seu amigo se revirando no sofá como se estivesse com dor não é a coisa mais legal do mundo.
Nico ficou em silêncio digerindo as palavras:
― Você... Me considera um amigo?
Will levantou a cabeça: ― Não é obvio?
O pirata abriu a boca em choque. Fechou ela sorrindo na sequência. Afagou os cabelos loiros de Will o fazendo resmungar:
― Você realmente é uma figura, Solace.
― Ah vamos, para com isso. ― resmungou ele sorrindo com a interação: ― Esta bagunçando tudo.
Nico riu ajeitando-se no sofá.
― Dessa vez vai dormir no outro sofá, ou gostou do chão? ― perguntou Nico sapeca. Will rolou os olhos se levantando. Soltou a mão do rapaz.
― Vou pro sofá. ― admitiu caminhando até lá: ― Só queria saber que horas são, mas to com preguiça de ir até o escritório.
Nico torceu o lábio esticando o pescoço para olhar as janelas da sala. As cortinas estavam abertas como sempre ficavam. Will seguiu seu olhar:
― Pela claridade, ou falta dela, deve ser umas três da manhã. Ainda tá longe do sol nascer. ― respondeu voltando a posição antiga. Remexeu-se desconfortável: ― Ferida do lado esquerdo, ombro lesionado no lado direito, assim você me ferra.
Will riu:
― Digamos que você é bem azarado.
― Ah nem vem com graça pra cima de mim que ainda não recebi nenhuma ameaça, e olha que isso acontece geralmente quando eu chego aos lugares. ― zombou ele com o olhar desafiador.
― Bem, me defendendo foi a primeira vez que recebi uma ameaça de verdade. ― cruzou os braços fazendo bico.
― Certo doutor. ― respondeu o pirata fechando os olhos: ― Estou cansado, então se me der licença.
― Não deveria comer algo antes? ― sugeriu Will sério.
― Seria melhor, mas a cozinha está longe.
Will soltou o ar derrotado. Levantou-se indo até a cozinha. Acendeu uma lamparina e começou a ver o que poderia dar para ele comer àquela hora. Não era um adepto de lanches noturnos, afinal sempre deixavam o organismo desregulado e preguiçoso.
Foi atrás de frutas principalmente achando um pouco de figo em um cesto, um copo de suco, desta vez sem açúcar. Os pegou e levou até Nico.
O pirata já estava sentado esperando pelo que Will traria. Pegou o figo em mãos dando a primeira mordida. Fechou os olhos soltando um suspiro satisfeito:
― Não aguentava mais ver figo, mas olha o que a fome faz.
Ficaram quietos depois disso. Nico devorou a fruta em pouco tempo além de beber todo o suco antes de voltar a deitar, desta vez mais confortável que antes. Embolou-se nos cobertores entregando um a Will que deitou no outro sofá.
Will não estava com sono. Não depois daquele susto logo de madrugada. Não, com certeza não dormiria mais até o amanhecer de fato. O mesmo não poderia ser dito de Nico que assim que ajeitou-se melhor dormiu profundamente, o cansaço o embalando.
O doutor sorriu com isso aconchegando-se no sofá. Pensou um pouco no que dissera antes para Nico e sorriu:
― Você com certeza já é meu amigo Nico. ― resmungou fechando os olhos afundando o rosto no cobertor: ― Então tente não morrer.
Aguardou pelo amanhecer e por Charles e Silena que viriam como dois furacões ao descobrirem que não dormiu no quarto de hóspedes. Ficou naquela posição por um bom tempo antes de sol começar a clarear a sala.
Levantou do sofá espreguiçando-se e indo até a janela fechando as cortinas para não acordar Nico. Foi até ele o vendo deitado na mesma posição de antes, mas parecia bem sereno. Foi para a cozinha comer algo, estava faminto.
Não demorou muito para Charles e Silena descerem atrás dele, mas dessa vez não discutiram. Charles se manteve calado o tempo todo emburrado e Silena continuava a mesma de antes, só um pouco cansada. Provavelmente teve uma longa conversa com Charles em privado.
Depois de se servir Will voltou para sala a fim de acordar Nico para irem para casa, mas assim que voltou viu Milena e Henry encarando-o com curiosidade. Will sorriu pra eles colocando o dedo nos lábios pedindo para ficarem quietos. Os dois sorriram fazendo “shh” repedidas vezes como que para entender.
Will sorriu levando-os pra fora. Assim retornou para o lado de Nico balançando-o levemente no ombro.
― Nico, acorda. ― chamou ele com a voz baixa. O rapaz resmungou remexendo-se relutante. Will chamou outra vez, desta Nico abriu os olhos pesados. Bocejou esfregando os olhos sonolento: ― Bom dia.
― Dia. ― respondeu desanimado.
― Vem, vamos tomar café e voltar pra casa. ― falou ele estendendo a mão para Nico poder se levantar. Ele aceitou sentando-se ereto no sofá.
― Melhor comer na sua casa, no clima não deve estar um dos melhores. ― comentou Nico soltando outro bocejo.
Will olhou para a cozinha onde Milena e Henry começavam a se servir. Charles ainda se mantinha emburrado num canto. Will concordou com Nico nesse ponto.
― Tudo bem, vamos.
Os dois se aprontaram para sair. Nico ainda estava vestido como pirata e com certeza não passaria desapercebido com uma espada e armas. Contudo Nico ainda assim saiu com pelas ruas, mas longe de Will e pegando caminhos alternativos. Durante o trajeto sozinho Will pensou em como seria dali por diante.
Charles não levou a notícia de Nico ser um pirata bem e as chances da marinha aparecer subitamente na sua porta eram enormes. Silena até estava tranquila, mas não sabia até quando. Eles dois eram muito apegados com Will, mas às vezes se esqueciam que ele não era um de seus filhos e tomavam decisões sem lhe consultar.
A partir daquele momento deveria ficar mais esperto com o que falar ou não para eles. Will nunca pensou que um dia teria de agir assim perto dos dois.
Quando chegou em casa Nico já estava lá esparramado no sofá do Hall. Will nada disse, somente foi para a cozinha ajeitar o café para ele. Mais tarde Nico foi para o quarto onde dormiu por quase um dia inteiro.
☠
Nico
Depois de todo o esforço do dia anterior Nico sentia-se extremamente cansado. Tinha esquecido o quão cansativo era lidar com seus ferimentos, agora mais que nunca estava odiando isso.
Como no começo teve de voltar para a cama por mal conseguir ficar de pé. Era como se tivesse gastado toda sua energia e a reserva ficando assim debilitado. Odiava a invalidez, odiava sentir-se dessa forma e ainda mais deitado em uma cama sozinho.
Odiava ficar sozinho.
Will tinha aparecido com frequência no quarto para conversar, mas o olhar tristonho e as bolsas debaixo de seus olhos mostravam o cansaço e provavelmente a culpa que estava sentindo. Nico pensou no que dizer para que se sentisse melhor, mas não existiam tais palavras.
A dor é individual.
Respirou fundo lembrando-se da noite anterior. Will dizendo que eram amigos e pedindo para ele não morrer depois. Sorriu para o fato. Não havia pensado em considera-lo como um amigo, bem pelo contrário, mas a ideia encheu seu peito com uma alegria que a muito não sentia.
Como uma descoberta nova, um novo livro, uma nova história. Claro que uma pequena parte de si dizia que não queria ser só amigo de Will, mas Nico tratou de calar ela rapidamente. Não valia a pena arriscar-se tanto.
Will entrou no quarto sentando-se na cadeira ao lado da cama. Tinha em mãos dois livros, um deles sendo MacBeth o qual Nico conhecia de cor e salteado. Pegou o livro em mãos folheando-o nostálgico.
― Nico? ― Will chamou calmamente.
― Hmm? ― respondeu sem tirar os olhos das paginas.
― Está chateado?
Nico parou de folhear o livro olhando-o com cautela.
― Por que estaria?
― Eu disse que eles eram confiáveis, mas acabou não sendo verdade. ― admitiu abaixando o olhar. O pirata negou:
― Eles não me entregaram para a marinha, então acredito que eles surtarem seja uma reação normal. ― comentou Nico sincero: ― Aliás não conseguiria manter a mentira por muito tempo, para ser sincero.
Will teve de rir disso:
― Certeza? Parecia bem confortável com ela. ― Nico lhe mostrou a língua. Will sorriu, abaixando o olhar na sequência: ― Nico?
― O que?
― Poderia me contar um pouco do seu passado? ― perguntou o doutor curioso.
Nico prendeu o ar sem reação. Não, ele não queria falar de seu passado.
― Solace...
― Eu sei que você odeia falar dele, mas preciso entender você. Não preciso de tudo, só o principal, só o essencial. ― pediu Will suplicante.
Nico engoliu em seco antes de suspirar.
― O que quer saber?
Ele sorriu negando: ― O que quer me contar?
O rapaz arqueou a sobrancelha antes de pensar bem sobre isso. O que poderia falar que não o prejudicaria ou o faria se lembrar de algo?
― Já te contei sobre o Jason? ― Will negou: ― Bem, talvez eu deva começar daqui.
― E quem é ele?
― Meu primeiro imediato. Aquele que está como segundo no comando do navio. ― respondeu sucinto: ― No momento está atuando como Capitão.
― São bem amigos?
Nico aquiesceu:
― Mais como irmãos talvez? ― disse num sorriso nostálgico: ― Ele é bem super protetor, igual o Charles. Por isso não me incomodo tanto com a forma que ele te trata. O Jason faz o mesmo.
Will sorriu: ― Mesmo sendo um pirata cheio de marra?
― Há-há. ― resmungou Nico rolando os olhos: ― Ele me fazia comer de três em três horas, não deixava ninguém entrar na minha Cabine que não acompanhado dele, exceto claro pelos meus homens mais antigos.
― Existe vinculo entre vocês? ― perguntou Will curioso: ― Ou é tudo de interesses?
― Somos uma família, mas não se engane. A maioria não é. ― rebateu ele respirando fundo.
― Conheci Jason há oito anos. ― começou ele: ― Estava a bordo de um navio mercante fazendo alguns... Serviços. ― disse Nico pensando em como descrever o que fazia naquele dia: ― Bom, digamos que era coisa de família.
Will concordou incentivando-o a continuar:
― O navio foi atacado por piratas nesse dia. Eu lembro da correria, gritaria e várias coisas acontecendo muito rápido. Minha sorte é que eu sabia usar uma arma. ― falou Nico: ― Meu azar é que eu sabia usar uma arma.
― Como assim?
― Eles acharam que eu seria interessante de manter vivo. ― emendou ele com um tom de escárnio na voz.
― E... Isso não é bom? ― indagou Will.
― Não na minha situação. ― admitiu suspirando: ― Eu fui levado a bordo do navio pirata e escravizado como um servo pessoal do Capitão.
― Espera, você foi sequestrado? ― Will arregalou os olhos em choque. Nico aquiesceu: ― Por quem?
Ele abaixou o olhar trincando os dentes nervoso:
― Perseu Jackson.
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