Pit-a-Pat

58 Capítulo LVI


Notas iniciais
Olá meus amores!! E vamos aqui com mais um capítulo. Depois do último vcs devem estar meio ressabiados comigo né? kkkkkk Desculpe pelas lágrimas, mas espero que esse capítulo compensa a tristeza. Vamos lá? Boa leitura! AVISOS: Violência explicita, mortes e sangue.

JASON

~Capítulo XLVI~

:: 30º dia em Tortuga — Semana 18 ::

[...]

Jason gostaria de ter sido um herói nessa história, de ter dado a Connor todo o tempo de que precisava para começar a encarar seu luto. Cada pequeno minuto de tristeza e angústia no convés, não somente a dele como de toda tripulação anestesiada e ferida, observando em aflição o corpo inerte de um das crianças que tanto aprenderam a amar.

Era cruel, quase mesquinho, o desejo de abraçá-lo e fazer promessas vazias em memória ao irmão perdido. Jason desejava, almejava poder consolá-lo, mas não podia dar-se ao luxo de cair no luto brutal que envolvia seu peito e apertava tão forte, tão devastador, que seu ar lhe foi tomado impiedosamente; o egoísmo de debruçar-se sobre a morte enquanto o assassino ainda estava à vista no horizonte do Caribe.

A tripulação entenderia seu conflito e sua escolha. Usariam a vingança para acalentar o luto em seus corações partidos. Viu essa certeza na feição colérica de Sherman; no olhar de Malcolm, preso na figura do Argos II se distanciando, em sua raiva fria e silenciosa; nas lágrimas de ódio no rosto de Piper que o encarava e exigia que reagisse àquilo; no restante dos homens espalhados pelo convés, na fúria que crescia e tornava o ar ácido.

Jason limpou as lágrimas com a manga da camisa, sabendo ser preciso escolher um papel diferente naquela situação. O diabo que arrancaria de Connor o direto do luto.

Não lhes deu mais do que cinco minutos antes de gritar ordens para Sherman e Malcolm que já se moveram antes mesmo que Jason terminasse a frase. Os feridos foram levados para o dormitório coletivo e Travis, oh Travis!, foi apertado fortemente contra Connor, protegido pelos braços trêmulos de seu caçula.

Nunca esqueceria daquele olhar no rosto de Connor, tão arrasado e tão desiludido. A feição de um garoto que perdeu seu ente mais precioso, a conexão sanguínea que o separava dos demais; uma criança traída por uma figura adulta que confiou, certa vez.

Nunca mais.

Deu as costas para a feição quebrantada de Connor, para a silhueta de Sherman que gentilmente guiava Connor para o andar de baixo; seguro contra a violência que causariam, mas preso à uma memória que Jason desejaria protegê-lo contra.

Não sabia para onde Travis havia sido levado.

Odiava aquela situação.

Odiava-se ainda mais por ser o causador da tragédia das tragédias.

Fechou os olhos ao sentir a ignorância de suas escolhas, a vileza em suas decisões. Ainda assim, subiu até Malcolm, gritando ordens que mal conseguia processar enquanto o Caronte deixava o cais para trás, nunca perseguição lenta pelas velas queimadas, mas contínua e viciosa, ao Semideus dos Mares.

Naquele instante, percebeu que finalmente havia conseguido o motivo que faria Nico reconsiderar sua necessidade de manter contato com Jackson por questões diplomáticas, o motivo que caçou por anos a fio. Não era a carta, oh não, a carta sequer seria mencionada.

O motivo estava em algum lugar do navio, inerte e silencioso — tão errado, tão fora do normal. Não há silêncio quando os Stoll estão por perto, e ainda assim —, sendo carregado pelo Caronte em direção à justiça e vingança, não à paz de espito que tanto merecia.

Mas naquela circunstância, Nico não questionaria Jason, não.

Nico mataria Perseu Jackson com suas próprias mãos se estivesse presente; devoraria sua carne, cuspiria os ossos e entregaria a carcaça restante como oferenda aos deuses.

Jason engoliu pesado o amargor em seus lábios. Não era o que queria, nunca desejaria aquilo, mas os deuses entregaram a mais cruel das soluções. Encurralado, seguiu em direção ao horizonte.

Em frente, sempre.

O barqueiro jamais olha de volta para a morte.

O Argos II se afastava rapidamente sob o sol à pino e os ventos mornos do Caribe. Jason havia ordenado que substituíssem a vela queimada e rasgada por outra reserva, mas a troca era lenta e complicada de se fazer com o navio em movimento, dando ao Jackson uma vantagem vergonhosa.

O Caronte sempre foi veloz, no entanto, parecia carregar um peso a mais, como se puxado para baixo, para o fundo do oceano. O peso da morte, pensou Jason, o olhar fixo no navio que se distanciava cada vez mais.

— Quanto tempo até o conserto? — gritou Jason ao convés, impaciente.

Recebeu um olhar raivoso de Leo e o silêncio como resposta. Piper negou com a cabeça para o Capitão, voltando o olhar para as cordas que ajudava a enrolar. Jason suspirou, esfregando o rosto com a palma, transtornado.

Não conseguiriam alcançar o Jackson a tempo.

— Jason, mantenha a calma — Malcolm relembrou, guiando o navio para o Norte. Jason estalou a mandíbula, frustrado.

— Estou tentando.

— Se você perder a cabeça, todos nós vamos perder também — o navegador rosnou baixo, o olhar endurecendo encarava Jason num julgamento velado. Malcolm apertava o leme com força, os nós de seus dedos esbranquiçados e rijos, no ponto de ruptura igual a todos os outros no navio.

Jason concordou com a cabeça, apoiando sua mão no braço de Malcolm, em desculpas. O navegador relaxou um pouco, gesticulando com a cabeça para o Argos II.

— Sabe que não vai ser uma batalha fácil sem o Nico, não sabe?

Jason prensou os lábios. Sim, estava ciente.

— Não temos escolha — informou o Capitão, contrariado: — Consigo me manter numa batalha contra o Jackson, mas ele conhece como luto e eu a ele. Ou afundamos o Argos ou vamos perder se invadirmos o navio.

Malcolm meneou com a cabeça, pensativo.

— Então não podemos atacá-lo agora — decidiu Malcolm, mudando o curso para os corais a leste. Jason ergueu ambas sobrancelhas, surpreso: — Conserte as velas, dê prioridade para o navio e vamos pensar em uma estratégia. Se só temos uma chance, não podemos errar.

Jason concordou com a cabeça, gesticulando com as mãos na direção dos tripulantes, confusos com a mudança de rota.

— Troquem as velas e as cordas, deixem o navio no melhor estado que conseguirem. Iremos atrás do Jackson quando terminarem — ordenou por fim, voltando a atenção para Malcolm no leme e Sherman que subia as escadas, a feição nublada.

— Por que mudamos de curso? — reclamou o artilheiro.

— Sherman… — Malcolm suspirou, voltando o olhar para o horizonte.

Jason quem respondeu:

— Não vamos conseguir alcançá-lo nesse estado, e mesmo que a gente alcance e então fazemos o que? Não temos um único plano.

Sherman bufou, ofendido.

— Não precisamos de plano porra nenhuma. Eu vou à bordo do Argos e coloco todos pra correr.

Malcolm estalou a língua, consternado.

— E termina morto no convés do Argos — retalhou o navegador, encarando Sherman com severidade. O artilheiro cruzou os braços, ofendido, mas não rebateu a afirmação.

— Certo, vamos tentar resolver isso de outra forma. Não quero mais perdas — pediu Jason, apelando pela proximidade de Sherman com os garotos. Era um golpe baixo, mas o único Às que tinha no momento.

O artilheiro concordou com a cabeça, apoiando o corpo na amurada ao lado do leme, o rosto encarando o horizonte deixado para trás pelo Caronte. Jason aceitou o silêncio para si, observando o Argos desaparecendo no horizonte.

O tiro de canhão o pegou desprevenido.

Acertou as águas à bombordo, desestabilizando Jason e os demais no navio.

— De onde veio isso?! — gritou Malcolm, virando o leme para estibordo.

É o Octavian! — Leo anunciou de cima do mastro, apontando para Leste de onde surgiu por detrás dos corais o navio do ex-Imediato de Reyna.

Jason voltou-se para o convés, dando as ordens necessárias. Sherman desceu os degraus em dois saltos, alcançando os canhões sendo preparados para disparo. Jason ergueu o olhar para a vela sendo amarrada nos mastros. Não conseguiriam fugir do ataque sem a vela principal, teriam que iniciar um combate imediato.

— Preparem os canhões, ataquem ao meu sinal!

— Sim, Capitão!

Jason disparou para o lado dos canhões, desembainhando sua espada. Havia um muro de corais entre os dois navios, mantendo uma falsa sensação de segurança antes do final das pedras há poucos metros à frente.

— Mantenha o curso!

O navio sacolejou para a esquerda, enquanto Malcolm tentava manter o controle do navio tão próximo dos corais. Do outro lado, conseguia ver os homens do Octavian se preparando para uma troca de tiros ao lado dos canhões. Jason apertou os olhos para a situação, soltando profanidades.

Era uma emboscada desde o começo, e o Jackson os levou diretamente para Octavian. Sabia que o seguiriam depois do ataque, principalmente se a morte de Travis tivesse sido proposital. Não poderia afirmar, mas não poderia negar também. Iria atrás do Jackson nem que fosse a última coisa que fizesse.

Ambos navios se afastaram dos corais e Jason deu a ordem.

Os disparos de canhão percorreram todo o caminho de um lado ao outro, atingindo a embarcação menor de Octavian impiedosamente. Foram atingidos nas laterais, mas Jason não se preocupou com as avarias. O navio era grande demais para sofrer com alguns tiros de canhões.

— Se aproxime do navio, vamos invadir! — gritou Jason para Malcolm, gesticulando para Sherman no instante seguinte.

O artilheiro abriu um sorriso hostil, prendendo o machado em suas costas, soltando uma das cordas presas aos ganchos no mastro principal, testando sua resistência. Mais disparos foram trocados. Leo, do mastro no alto, deu um grito de alerta antes de outro sacolejar violento na lateral do casco. Jason praguejou:

Malcolm!

— Estou fazendo o que posso sem destruir a porra do navio, Jason!

Jason voltou o olhar para o navio de Octavian, a distância entre as embarcações era grande pelos corais ainda os separando; corais baixos, mas largos o suficiente para manter uma distância irritante entre ambos navios. Octavian não era tolo o bastante para se aproximar.

Mudaria de estratégia.

— Se não vier até nós, iremos até eles! — se virou para Atallah, gesticulando severamente em direção ao armazém com a pólvora: — Você é bom com explosivos, acerte-os.

O homem concordou com a cabeça, virando-se em direção aos barris. O papagaio em seu ombro mantinha-se em silêncio e Jason agradeceu por isso. As frases que a ave costuma repetir não são das mais esperançosas.

Outro chacoalhar do navio. Jason aproximou-se da amurada, observando Octavian no convés do outro navio, a feição sardônica moldada em um sorriso hostil. A expressão de quem vislumbra uma vitória fácil e rápida. Jason retirou a arma de seu coldre e atirou, errando Octavian por poucos centímetros. O capitão do outro navio abaixou-se no convés, e a troca de tiros começou, frenética.

Sherman e Piper atiravam próximos à escada para a proa, apoiados na amurada. Atallah aproximou-se com duas caixas pretas cheias de pólvora e um pano comprido saindo de dentro dela, úmido com algo que não soube identificar. O tripulante acendeu um fósforo, ateou fogo no pano e o jogou no convés inimigo.

Jason seguiu a trajetória com os olhos, vendo o instante em que o objeto acertou o convés e explodiu, espalhando metal em diversas direções como tiros de uma pistola. Jason abaixou-se instintivamente, sem entender.

— Pregos — respondeu Atallah, como se aquilo respondesse todas as perguntas de Jason.

Sherman gargalhou ao seu lado.

— Tem mais dessas com você? — gritou o artilheiro. Atallah concordou, puxando com sua direita um barril repleto das mesmas caixas, o cheio do rum invadindo o convés.

Jason gargalhou. Ah, Nico iria adorar aquele homem.

— Vão até o Atallah e usem os explosivos que ele fez. Agora!

Sem precisar se repetir, os tripulantes começaram a atear fogo nas caixas, lançando-as em diversas direções no navio de Octavian, outros miravam nas velas, na intenção de espalhar o fogo nos panos gastos. Com as explosões mais pregos eram disparados em direção aos tripulantes inimigos, os gritos de pânico aumentaram e os tiros de canhões diminuíram.

— Leo! A vela?! — Jason questionou, erguendo o rosto para cima.

O Bossum gesticulou rudemente com as mãos ao dar um nó firme na extremidade da vela. Abaixou o rosto na direção de Jason, tocando o indicador e o dedão em um gesto positivo. Jason virou-se para Malcolm.

— Nos leve para longe dos corais, dê a volta no navio! Vamos afundá-lo do modo tradicional! — gritou as ordens ao navegador, voltando a atenção aos tripulantes no convés: — Soltem os explosivos e voltem aos canhões! Quero aquele navio no fundo do mar!

— Sim, Capitão!

O navio saiu do lugar, o vento do oeste impulsionando-os para longe dos corais, tomando a dianteira e uma distância segura do navio. Malcolm virou o leme a bombordo, dando ordens para que soltassem a âncora, criando um ponto de tensão que puxaria o navio na direção do Octavian, mantendo-o fixo nas águas quentes do Caribe.

A âncora colidiu ruidosamente com a água no mesmo instante que uma explosão intensa iluminou o convés do Octavian. As labaredas do fogo ergueram-se no mastro principal, devorando a vela gasta e escura. Outro projétil acertou o navio, alastrando o fogo pelo chão da embarcação, envolvendo-o num inferno sobre as águas quentes.

Às costas do navio do Octavian, emergindo da fumaça espessa e alta nos céus, um navio escuro de velas negras aproximou-se perversamente do fogo intenso.

Uma caravela de velas negras, dois mastros principais carregando-o suavemente pelas águas e quatro outros em cada extremidade do navio. A bandeira pirata hasteada no topo trazia consigo o pior dos presságios.

— Você conhece o navio? — questionou Jason à Sherman, um incômodo em seu peito.

O artilheiro negou, apertando o punho no machado.

O navio do Octavian começou a afundar em apenas dois disparos. Se fosse um inimigo ou um Capitão pirata tentando sua sorte em meio ao desastre em que o Caribe se encontrava, talvez fosse um adversário o qual teriam dificuldades em lutar.

Uma espécie de déjà vu o acometeu, apertando seu peito.

Por fim, ele viu. Na lateral do navio, inclinado para fora com as pernas enroscadas na mortalha do navio com uma das mãos segurando seu corpo enquanto a outra mantinha um chapéu no lugar, estava o pirata responsável pelo disparo. Um chapéu que Jason reconheceria em qualquer lugar.

Puxou o ar com força, soltando-o em uma gargalhada histérica.

Ouviu Leo gritar do mastro e o alvoroço no navio tornou-se um clamor de guerra, estremecendo o piso do navio, arrepiando seu corpo em espasmos; bradando um nome como um deus a ser adorado; um Rei de volta ao seu trono de ossos.

Nico havia retornado ao Caribe.

O navio de Octavian afundou nas águas do Caribe sob o olhar frio de Nico do convés de seu novo navio. Os braços cruzados, a feição crítica aos gritos dos homens afogando-se nas águas hostis e no fogo embebido em rum e óleo de baleia. O odor fétido incomodava Jason, mas não saiu da posição que estava, capaz de assistir seu Capitão em sua pose altiva entregar as últimas ordens de execução, dando as costas ao cenário nas águas que não mais lhe convinha.

Jason sorriu, um alívio soltando todo o peso de seu corpo, a leveza desesperadora de alguém que carregou o peso da incerteza nas costas por tempo demais. Seu olhar cruzou rapidamente com Nico. Os olhos caramelos escondidos pelas sombras de seu chapéu o julgavam, como se tentasse decifrá-lo daquela distância.

Nico sorriu então, felino, dando ordens no convés. A caravela afastou-se das chamas e dos corpos, aproximando-se do Caronte num trajeto lento e linear. Jason não precisou dar as ordens para as velas serem presas ou a âncora mantida nas águas. Todos no navio ansiavam pelo retorno de Nico, pelo instante em que breves segundos de paz seriam trazidos à bordo — antes que o Capitão sentisse a presença da morte no navio.

Os navios ancoraram um ao lado do outro, duas caravelas de velas negras emparelhadas nas águas caribenhas; banhados pela morte há alguns metros de distância. Uma prancha foi posta entre eles e Nico a atravessou, o salto de sua bota ecoando aguda no silêncio afoito. Ao pisar no Caronte, Nico perguntou:

— Sentiram minha falta?

Risadas eclodiram pelo convés, quebrando a tensão nos corpos paralisados ao redor do Capitão.

Piper se jogou nos braços de Nico, seguida por Leo em um amontoado de mãos e risadas desconcertantes. Jason cruzou os braços, aliviado e levemente eufórico. Ainda que houvesse chances de Nico não aparecer, por menor que fossem, Jason sabia que em algum momento veria seu Capitão de volta às águas.

A pirataria é uma escolha. Relutante, mas uma escolha ainda assim. Entretanto, deixá-la é apenas um sonho distante de uma corrupção que consumiu os ossos e transformou a alma. Uma vez que se prova do sabor da pirataria, da tentação do ouro e da prata, nada supre a ganância impregnada em suas veias.

Nico voltaria, mesmo que desejasse não o fazer. Não se recusa o inferno quando se senta no trono do próprio Diabo.

Nico conseguiu se livrar do abraço de Piper e Leo para logo ser encurralado pelo restante da tripulação, os sons do navio retornando com força entre conversas, risadas, perguntas e uma leveza momentânea. Nico sorriu, respondendo aquilo que queria, ignorando algumas questões indelicadas e até mesmo permitindo que Sherman bagunçasse seu cabelo e Malcolm lhe tocasse o ombro. O alívio no rosto do navegador replicado no artilheiro.

Sobrevoando o grupo, Rudi cantarolava em seus tons agudos mensagens de morte e pesar, trazendo o olhar de ambos Capitães para a ave. Jason riu. Nico torceu os lábios, desgostoso.

— Por que ainda não atiraram nessa ave? — reclamou, irritadiço, balançando a cabeça em descrença. Rudi, animado, continuou a entoar cânticos de morte.

Leo acertou Nico no ombro, revoltado. Havia se afeiçoado ao animal tanto quanto Atallah, e qualquer menção ao animal o deixava nervoso. Jason aprendeu a conviver com a ave, mas Nico não era o mais afetuoso com animais, talvez fosse um problema a longo prazo.

— Mal chegou e já quer expulsar tripulantes? Mas é cara de pau. — Leo reclamou, cruzando os braços.

Nico arqueou a sobrancelha, a sombra de um sorriso em seu rosto.

— Curioso, podia jurar que esse navio era meu.

— A ave fica. — insistiu Leo, irredutível.

Nico deu de ombros, indiferente à situação, mas aquele brilho no olhar prometia problemas. Jason grunhiu, repentinamente exausto. Não daria uma semana antes de Nico atirar na ave por puro despeito. Se aproximou do amigo, ganhando a atenção absoluta do Rei Fantasma. Nico abriu um sorriso real, uma espécie de alívio em sua feição.

— Bom te ver de novo, Capitão. — comentou Jason, apoiando sua direita no ombro de Nico. Recebeu um inclinar de cabeça do Capitão, compreensão e reciprocidade em seus olhos âmbar.

— Teria vindo antes, mas meu médico me proibiu de subir num barco por várias semanas. — justificou-se Nico, suspirando dramaticamente, como se aquele fato fosse o foco de várias conversas ao longo dos quase cinco meses que esteve longe.

Malcolm riu, cruzando os braços.

— E você deu ouvidos? Desde quando?

— Desde que ele deixou de ser só meu médico — foi a resposta de Nico, virando o rosto para a caravela de onde veio.

Jason seguiu seu olhar para a tripulação de Nico, para os homens que o seguiram até o Caribe, para uma batalha que foi ganha em minutos com a mera presença do Capitão do Caronte. Os homens os observavam de seus postos, sentados de forma confortável, confiantes de que estavam seguros entre ambas tripulações pertencentes à Nico.

Entre eles havia duas figuras próximas, apoiadas na amurada do navio. Uma mulher de longos cabelos ruivos e cacheados, sardas em seu rosto e um chapéu vasto, provavelmente a Imediata que assumiria o posto de Capitã assim que Nico abandonasse o navio pelo Caronte mais uma vez.

Ela sorria gentilmente, seus olhos presos em Nico numa feição contente. Repentinamente, Jason se lembrou de seu rosto, da dona da Taverna em Siracusa, uma das amigas de longa data de Nico.

O navio e a tripulação finalmente fizeram mais sentido na sua cabeça. Não recordava seu nome, mas aquela tripulação era dela em todos os sentidos, apenas emprestada temporariamente.

O Caribe presenteado com uma nova senhora dos mares, ao que parecia.

Ao seu lado, dispondo de feições parecidas, estava um homem loiro e alto. Os cabelos soltos um pouco abaixo do ombro, as roupas claras e folgadas, e um sorriso nervoso que tornava sua presença mais simplória. Diferente da mulher ao seu lado que exalava confiança, nele havia uma aura gentil dos homens de terra firme.

Não precisou de mais que isso para identificar o médico de Nico.

Ele encarou Nico brevemente, como se tentasse entender o que ele queria que fizesse. Nico sorriu, gesticulando com a mão, chamando-o para o Caronte. O doutor olhou rapidamente para a tábua de travessia, um tanto aflito, mas se aproximou dela.

Nico voltou a encará-los, por fim, confiante de que o doutor os alcançaria sem problemas.

— Parece que andaram ocupados. — disse Nico, afastando-se de Jason em direção ao doutor, seu olhar retornando aos restos do navio de Octavian, a expressão obscurecida: — Ouvi boatos, mas nenhum que me dissesse o que realmente aconteceu pra Reyna desmanchar sua fragata.

Parou o olhar rapidamente no doutor, numa conversa rápida entre olhares privados, antes de voltar-se para a tripulação novamente, a exigência por respostas estampada em seu rosto, ansiando por uma luz. A dureza, no então, transformou-se em confusão, e o breve olhar se tornou numa busca explícita.

Oh…

— Onde estão os meninos? — questionou Nico, a tez franzida.

A temperatura no convés despencou drasticamente, forçando os olhares a se desviarem pela dor do luto que lhes foi negado, a vingança ainda longe, distante do horizonte há muito perdido.

Nico enrijeceu. Seu olhar fixo em Jason, ligando pontos que claramente desejava não o fazer. Ali, pela primeira vez em anos, Jason viu um julgamento frio em sua direção, a culpa da verdade que lhe seria revelada recaindo sobre ele.

Jason respirou fundo.

Jason. — Nico bradou, baixo, o tenor em sua voz estremecendo seu corpo: — Onde estão os meninos?

Sem saber como respondê-lo em meio a tantos olhares aflitos, gesticulou para a entrada dos andares inferiores, indicando por onde começar sua busca. Nico travou o maxilar, virando-se bruscamente na direção das escadas, descendo os degraus sem desperdiçar um único olhar em sua direção.

Ele sabia que o seguiria até o tártaro se fosse preciso.

Jason ignorou a aproximação nervosa de Malcolm, indo atrás de seu Capitão. Sabia o que os esperava no convés de carga, no canto reservado ao silêncio desesperador dos Stoll.

A maresia, como uma benfeitora, aplacava o cheiro de sangue e morte, filtrando sua presença como uma mãe piedosa e zelosa. Jason sabia que não havia nada que informasse a Nico o que encontraria lá, mas em sua memória amarga e traiçoeira, havia o odor e a figura da morte no andar, presente na forma como Nico travou seus passos no final das escadas.

Os ombros rijos, a respiração presa em seu peito. Imóvel e irresponsivo, paralisado na visão de Connor debruçado sobre um amontoado de tecidos escuros e manchados, escondendo a morte sob seus panos finos e gastos como uma mortalha improvisada. Os soluços de Connor ecoavam baixinho, como pequenos sussurros de desespero que escapavam por seus lábios já exaustos do choro eterno e minguante.

Jason não ousou se aproximar, não com Nico tenso à sua frente, com a reação violenta que se seguiria caso o retirasse abruptamente de seu transe.

Quem?

Jason prendeu a respiração, o som de sua voz pesado aos seus ouvidos, mas baixa o suficiente para não assustar Connor de seu pequeno e reclusivo momento.

— O Jackson.

Nico rosnou. Consoantes grotescas e violentas eclodiram de sua garganta, o raspar de seus dentes num som agoniante de hostilidade e cólera. O olhar de Nico encontrou com o de Jason, a raiva crua em sua feição transformada, na besta que carrega a morte em suas costas como o barqueiro dos mares.

Não havia piedade em seus olhos cruéis.

Vá!

Nico ordenou, amargurante aos ouvidos do Imediato, a ordem de caça finalmente entregue. Connor ergueu o rosto, assustado pela presença de Nico, seus olhos vermelhos e inchados se destacavam na palidez de seu rosto, seus punhos presos viciosamente no tecido rasgado e velho.

Jason então deu as costas para o cenário de morte, para o irmão mais velho retornando para casa, agraciado com o pior dos agouros; para o caçula em luto tendo de entregar seu coração em fragmentos nas mãos do mais velho, na esperança de que sejam reparados.

Caminhou de volta ao convés, dando as ordens para a caçada que tanto esperou conseguir.

O custo, entretanto, foi alto demais.

NICO

A morte é uma companheira constante na vida daqueles que desbravam os mares e os deuses que os habitam.

Não há entre os mortais um único momento onde o trajeto pelo mar seja seguro e desprovido da morte; onde não se torne a caça entre predadores cruéis e devassos.

Esse conceito, essa verdade absoluta sempre esteve presente na vida de Nico, na tripulação do Caronte, na incerteza do dia seguinte. E, ainda assim, não se preparou para um retorno fúnebre; para a feição quebrantada de Connor há poucos passos de distância, desolado e perdido, há espera de uma luz que o salvasse.

Nico sentiu seu peito se apertar, a garganta travar ao aproximar-se devagar, o salto de sua bota ecoando no assoalho pegajoso. Abriu os braços para o corpo que se jogou em sua direção, braços fortes envolvendo seu tronco num tremor desesperador do choro enlutado.

Envolveu o garoto num abraço aperto, desejando poder protegê-lo da verdade escondida debaixo de lençóis maltrapilhos e indignos do rapaz sob eles.

Connor sussurrava contra seu ombro, palavras que Nico mal conseguia compreender, entre soluços desoladores e um choro alto e doloroso.

Não disse que ficaria tudo bem.

Não mentiria, mesmo que a mentira fosse mais piedosa que a própria verdade. Não prometeria nada além do que pudesse lhe dar, não iludiria o luto de alguém tão jovem e imaturo.

Assim, contentou-se em balançar-se de um lado ao outro, vagarosamente, embalando-os em um espaço seguro e longe da realidade.

Sentiu-se tremer, a raiva e a angústia misturadas em seu peito, no desejo de expressar cada pequena gota de sentimento restante dentro dele, deixar-se explodir como uma estrela, partir-se em centenas de milhares de pedaços, e ainda assim.

Um Capitão não pode sentir.

Por isso, ali ficou pelo pouco tempo que tinha junto de Connor antes que subisse ao convés atrás de um inimigo que deveria ter derrotado há muitos anos; do monstro que aterrorizou seus pesadelos mais íntimos por quase uma década.

Da besta que ceifa mesmo sem ciência de seu poder.

Perdeu tanto por culpa do Jackson. Tudo que tinha de mais precioso fora tomado pelo semideus dos mares, pelo monstro que o tornou em um demônio sob as águas.

Perdeu seu ducado, suas irmãs, sua liberdade, sua dignidade [sua inocência], para no final retornar para outra perda.

Para mais um irmão tirado dele.

Travou o maxilar, a raiva fria consumindo seus músculos travados.

Havia esperado tempo demais por um motivo.

Não mais.

Subiu ao convés em pouco menos de um quarto de hora. Jason o aguardava na saída dos andares inferiores, o olhar firme e seguro, como a âncora que sempre foi na vida de Nico e de todos aqueles que navegaram ao seu lado por anos.

Acenou com a cabeça, virando-se ao restante da tripulação, ao silêncio desgastado de uma realidade que poucos estavam dispostos a chamar de rotina. A morte sendo a pior das constantes na vida nos mares.

Avistou William saindo dos quartos comunitários, parando no batente ao encontrar seu olhar. Podia ver a preocupação nos olhos azuis do Consorte, na forma como inclinou-se para frente, no desejo de poder alcançá-lo ali no convés. Nico ansiava por seu conforto, mas não ainda.

Virou-se para Rachel, ainda apoiada na amurada de seu mais novo navio. Precisava livrar-se do Jackson, mas antes havia outro monstro para caçar.

— Jason — bradou Nico, seu olhar pesando no Imediato. Jason gesticulou com a cabeça, atento: — Trace uma rota até a Reyna. Temos pestes para nos livrarmos antes do Jackson.

Ergueu o queixo em direção à Rachel.

— Te trouxe até aqui e lhe prometi um título. Faça por merecer minha generosidade.

Sem mais, Nico marchou para a Popa onde Malcolm estava.

— Traçar curso! Içar velas! Nos tirem de perto do outro Navio! — gritou Jason em alto tom, gesticulando aos tripulantes que correram pelo convés, acatando as ordens de Jason pelo caminho.

Parando ao lado de Malcolm, Nico respirou profundamente, sentindo seus músculos pesarem como pedra, puxando-o para baixo. O assoalho tornou-se oco sob suas botas, forçando-o a firmar suas pernas.

Expirou, virando-se ao navegador que o observava de canto de olho. Sua feição era fechada, mas continha nela uma preocupação familiar, um desejo de poder acudi-lo, mesmo sabendo que nenhum dos dois poderia demonstrar fraqueza em um momento de força.

Will subiu até onde estavam se aproximando de Nico, o sorriso triste de um companheiro que entende da morte e já a sentiu de perto diversas vezes. Entrelaçou seus dedos aos dele brevemente, usando de sua proximidade como âncora para a jornada atrás de Reyna. Para um ponto final em sua longa e cansativa história.

— Meus sentimentos — sussurrou Will em seu ouvido, deixando um beijo casto em sua têmpora.

Nico inclinou a cabeça em sua direção, aceitando a empatia.

— É perigoso aqui em cima.

Will assentiu, ciente desse detalhe.

— Ficarei com os feridos.

O Capitão concordou, afastando-se do amante. Desceu o olhar até Jason que terminava de subir as escadas na companhia de Sherman. Ambos se aproximaram de Nico, com feições duras e severas.

Prontos para o combate.

Empurrou Will levemente, a palma em sua lombar, incentivando-o a descer.

— Vai. — sussurrou para o amante, tenro, recebendo um sorriso encorajador. Os dedos do doutor apertando os seus uma última vez antes de descer as escadas de dois em dois degraus.

Não evitou o sorriso pequeno ao notar a fluidez com a qual Will havia se adaptado para viver num navio. Inspirou profundamente, erguendo o rosto para o céu límpido do Caribe, buscando forças para mais uma batalha naquele dia.

Mas não a última.

Estalou o pescoço, expondo seus dentes em um sorriso escarnecedor.

— Vamos ao trabalho, rapazes. Me deem seu pior.

Nico aprendeu a sobreviver com hostilidade e vileza. Ataques intensos, traições pontuais, explosões cruelmente arquitetadas e uma liberdade entregue em bandeja de prata nas mãos de seus homens mais mortais. A fúria de Sherman ou a calmaria pontual de Malcom; a indiferença de Leo ou a manipulação de Piper. Sempre há em seus homens sementes do Éden que florescem com espinhos e veneno em momentos que Nico lhes permite um vislumbre do sol.

Em sua fúria e luto, na raiva que aflorava sem peito, destilando-se em desforra e retaliação, Nico os guiou em direção ao navio de Reyna, à fumaça espessa que se erguia das águas claras do Caribe ao carregar os restos do que antes fora o navio da LaRue.

Marte encontrava-se em fragmentos, devorado por Netuno em uma batalha por território em águas inimigas. Reyna mantinha-se vitoriosa, o Argentium sobrevivendo a mais um ataque massivo de inimigos potentes e cruéis.

Mas não sobreviveria ao Caronte.

Nico ordenou o ataque em mar aberto, à vista de Reyna. Duas caravelas de grande porte, dois Capitães de lendas em um acerto de contas. Não há motivos para emboscadas ou véus escondendo suas intenções. Reyna queria sua cabeça, e Nico devia um pagamento à sua informante mais fiel.

Malcolm aproximou o navio do Argentium. Ganchos foram lançados, e invasões trocadas de um navio para outro. Nico desceu as escadas para o Convés letargicamente, sua espada em sua esquerda, desembainhada; o reflexo do sol à pino ofuscando a vista de quem se aproximava.

Reyna, altiva como a Pretora do Caribe, caminhou solene pelo assoalho úmido do Caronte, desviando de batalhas ao redor. Seu olhar preso em Nico e Jason, que aproximou-se do Capitão ao avistá-lo no convés, predatoriamente.

— Nico, meu amor, como senti sua falta — cuspiu a Capitã ao rotacionar o pulso, sua espada girando vagarosamente em sua palma: — É assim que me recebe depois de tantos meses longe?

— Você atacou Tortuga — Nico pontuou, direto. Não se via disposto a prolongar nenhuma conversa com Reyna: — Você tem sido uma inimiga de todos nós por anos, acho que uma aposentadoria lhe cairia bem.

Reyna mostrou os dentes num sorriso hostil.

— Então venha e me destrone, di Angelo!

Nico avançou contra Reyna, colidindo suas espadas ruidosamente contra a da Pretora. Jogou o peso de seu corpo contra a espada, rotacionando os pés ao afastar-se, ergueu sua espada ao se defender da investida da lâmina de Reyna, embebido em sangue ainda fresco da batalha anterior.

Girou o pulso, desprendendo sua espada da pressão da Pretora, acertando sua perna com o calcanhar, afastando-se. Reyna tropeçou ao se desequilibrar, segurando-se nas cordas do mastro principal. Jason avançou contra a Capitã, usando de sua distração com Nico.

Reyna puxou sua pistola, atirando contra o Imediato. Péssimo ângulo, disparo perdido às costas de Jason. Nico avançou contra a mulher, trocando posições com Jason ao colidir sua espada repetidamente contra a de Reyna, abusando de sua força. Uma, duas, três investidas a afastaram. Girou o corpo, erguendo a perna num chute em seu centro gravitacional.

A Pretora soltou a espada, seu braço segurando o local atingido com raiva em seu olhar. Afastou-se dos dois, escaneando a situação no convés ao seu redor. Nico fez o mesmo, observando a carnificina pintando o assoalho, os corpos no chão e a fumaça do Argentium erguendo-se pelas mãos hábeis de Leo no convés inimigo.

Nico voltou a encará-la, sua espada apontada contra seu rosto.

— Vamos terminar isso de uma vez, Reyna.

A mulher gargalhou. O tremor em seu corpo tornaram a risada em algo agourento, o riso psicótico em vogais altas e pesadas. Nico trincou o maxilar, irritado.

— Mesmo que me mate, não vai conseguir se livrar de mim ou de outros como eu — Reyna se ergueu outra vez, retirando uma adaga de sua bota de couro, posicionando-a paralelamente em seu antebraço: — Você tornou o mar nesta guerra infernal, nessa competição doentia por sangue. Se não sabe como lidar com isso, talvez você quem deva ser destronado.

Nico sorriu, divertido.

— Não me dê todo o crédito, você é a louca que criou uma fragata, acreditando que poderia governar os mares como se governa um país — Nico aproximou-se, o olhar fixo na Pretora: — Ninguém controla as águas do mar. Você quem foi a tola que deu a esses homens a ilusão de poder. Eu lhes dei apenas a morte.

Reyna endureceu a expressão em seu rosto, avançando contra Nico em um impulso raivoso. Nico defendeu-se com sua espada, mas o alcance da adaga de Reyna permitia que ela se aproximasse mais do que sua espada lhe dava espaço para se defender. Trincou os dentes, tentando ganhar distância entre a Capitã e ele, mas estava sem ter mais para onde recuar.

Soltou sua espada num impulso, jogando o corpo para o lado. Girou-se no chão, o joelho de apoio no assoalho, puxou sua pederneira e disparou. O tiro acertou a coxa direita de Reyna, o impacto a fazendo inclinar-se para frente, num grunhido animalesco ao continuar avançando por sobre a dor. Nico puxou seu punhal do coldre, desviando de Reyna pouco antes de colidirem corpo com corpo, enfiando a lâmina na coxa esquerda da mulher, girando o punhal brutalmente antes de retirá-lo.

Reyna despencou ao chão, ambas mãos espalmadas no assoalho pegajoso com seu próprio sangue que jorrava incessante, artérias rompidas que expulsavam sua alma de seu corpo doente.

A Capitã ergueu-se uma vez mais, o olhar raivoso sobre Nico.

— Seu merda! — Em um último ato de desespero, Reyna atirou-se contra Nico, A adaga em direção à sua jugular.

Nico jogou seu corpo para a direita. Sentiu o corte da lâmina de Reyna roçar sua pele num ferimento superficial. Seu punhal, no entanto, atravessou seu corpo, perfurando o estômago da Capitã. Reyna arfou pesado, derrubando sua adaga no chão do convés, sua testa repousou sobre o ombro de Nico, exausta.

O Rei Fantasma fechou os olhos, respirando profundamente antes de retirar seu punhal. Envolveu a Capitã com ambos os braços, sustentando seu corpo embebido em seu próprio sangue. Reyna soltou uma risada, úmida e fraca, seu corpo sem forças para nada além de breves palavras.

Nico virou o rosto em sua direção, atento.

— Espero que o Jackson acabe com você. — proferiu divertida, uma risada gorgolejante contra seu ouvido: — Que seu reinado acabe antes de começar.

O Capitão do Caronte abaixou o olhar, uma feição tranquila em seu rosto manchado de sangue.

— Não há reis no Caribe, Reyna. Somos homens livres de qualquer controle, livres para sermos nossos próprios governantes, por isso nos denominamos piratas.

A mulher negou com a cabeça, não havia nada mais a ser dito.

No horizonte, vindo de encontro com o Argentium, estava o navio de Rachel, recém-nomeado Delfos, lançando bombas de óleo na caravela da Ramirez. O fogo que já o consumia aos poucos alastrou-se como chamas infernais, devorando o casco e tudo que nele existia; tudo que tornava o Argentium num lar.

Os homens de Reyna foram jogados ao navio, devorados pelas chamas, mortos por tiros de pistola ao conseguirem fugir do naufrágio.

Nico observou o feito, acariciando os cabelos de Reyna que permanecia em silêncio, o breve expandir de seu peito sendo o único indício de ainda estar viva em seus braços. Ao seu redor, seus homens comemoravam a vitória, a fumaça espessa e larga, erguendo-se no céu límpido do meio-dia, criando nuvens ao obscurecer o sol intenso.

Nico inclinou-se para baixo, apoiando sua mão sob os joelhos de Reyna, erguendo-a em seus braços. A Capitã abriu os olhos, distante do mundo dos vivos, mas curiosa ao ser carregada em direção à amurada.

Inclinou seu rosto na direção da Pretora, um sorriso venenoso em sua feição branda.

— Um Capitão sempre afunda com seu navio — Nico lhe proferiu, impiedoso: — Que os tubarões a devorem.

Reyna riu fracamente.

— Vai se fuder.

Nico a soltou no mar, o corpo de Reyna colidindo com o óleo em chamas, os restos da vela cobrindo a visão de Reyna ao afundar nas profundezas do Caribe. O destino final de todo pirata que dedica sua vida ao mar.

Respirou fundo, abrindo os braços ao virar-se de volta ao Convés.

— Bom trabalho, rapazes.

Urros de vitória foram proferidos num tremor de vogais e gritos, de tiros para o alto e risadas largas. Trocou olhares rápidos com Jason, vendo o alívio no rosto de seu Imediato ao se ver livre de um antigo demônio em sua vida. Leo se aproximou de Nico, entregando-lhe a bandeira de Reyna, o fundo preto com uma coroa de louros desgastada em branco. Assentiu para Leo, virando-se em direção à Rachel no navio ao seu lado.

Amarrou a bandeira em seu punhal, ergueu o braço para trás e o lançou contra a Capitã, enfincando a lâmina no mastro principal do Delfos. Rachel arrancou o punhal, curiosa.

— Prenda no topo do mastro e volte para Tortuga. Todos vão saber o que aconteceu aqui. Te prometi um lugar no Caribe, Dare, e lhe dei um. Faça bom proveito — Nico gritou para ela, limpando as mãos ensanguentadas em sua calça: — Ah, e vá até a taverna e procure pela Wiki. Não seja como a Reyna e faça aliados.

Deu as costas para Rachel, acenando um adeus curto.

— Nossa parceria acaba aqui, tenho outros assuntos a tratar. Saia das minhas águas.

Sem perder mais tempo com a antiga amiga, Nico voltou para a popa onde Malcolm mudava o trajeto do navio para o Norte, atrás da única presa a qual estavam dispostos a sacrificar sangue e tripulantes para se livrar.

A caçada ao Jackson havia começado.

Sem a informação de ancoragem do Argos II, o Caronte vagou pelas águas do Norte por diversas horas antes de Nico ordenar uma mudança brusca de direção. Com a derrota de Octavian e a LaRue, e o surgimento de uma nova Capitã nas águas caribenhas, Percy Jackson seria um tolo se permanecesse em águas distantes e isoladas. Uma sentença assinada em ouro e tinta fresca.

Nico mudou de planos, arquitetou um trajeto diferente.

“Ele não vai se afastar de Tortuga. Quanto mais próximo estiver do píer, maior o senso de segurança.” comentou Nico para Jason e Malcolm, os braços cruzados frente ao corpo: “Se fosse Reyna ou até mesmo a LaRue o caçando, seria diferente. As duas não respeitam a neutralidade de Tortuga. Mas eu sim. Por isso ele nunca esperaria um ataque nosso.”

Apoiando-se na amurada do Caronte, Nico observava Tortuga se aproximando no horizonte. As cores vibrantes, os navios ancorados e as luzes dando vida a todo o píer.

O silêncio, no entanto, era ensurdecedor.

Nico suspirou, puxando o chapéu em sua cabeça, protegendo seus olhos do poente. Anoiteceria em poucos minutos, marcando o instante em que daria a ordem de ataque ao Argos II confortavelmente ancorado próximo ao píer, mas ainda em águas profundas. Podia ver dali a comoção no convés do Jackson, o ir e vir de tripulantes em euforia de uma vitória garantida.

Não havia música ou cantoria no píer, mas havia júbilo à bordo do Argos.

Detestável.

Travou o maxilar em uma ira fria, seu olhar travado na figura despreocupada de Perseu Jackson no centro do convés, dançando com Annabeth em volta de uma lamparina acesa, apoiada em um barril entre eles. Rodopiavam no ritmo das palmas, no som da flauta de pã tocada por Groover. Queria destruir aquela felicidade, a alegria que emanava de um navio que merecia dor e morte em seu caminho. Sem risadas ou felicidade.

Havia sorrisos onde deveriam ter apenas gritos de dor.

Havia um garoto morto em seu navio quando deveria haver dezenas de corpos habitando o Argos.

Sua raiva acumulou em seu peito, praguejando a lentidão do sol em se pôr. Precisavam da escuridão para o ataque funcionar, para que as sombras de uma noite sem luar os guiasse para a emboscada planejada. E, ainda assim!

Sentiu a mão de Jason em seu ombro, ancorando-o no Caronte.

— Está quase na hora — avisou Jason, o olhar preso no mesmo cenário que Nico assistia.

Ouviu resmungos revoltados do convés às suas costas, tirando sua atenção da pequena festa no navio inimigo.

— Foi o Sherman?

Jason concordou:

— Se o Malcolm permitisse que ele afiasse o machado mais uma vez ele partiria o Argos em dois — comentou o Imediato em tom de zombaria. Nico escarneceu, sem paciência para brincadeiras: — Está ansioso por um pouco de ação, não dá pra culpá-lo.

Nico concordou. Compreendia a sede que ele sentia pelo sangue do Jackson. Lidava com essa compulsão há quase dez anos, ansiando por um momento, mas sempre hesitante.

Agora, há pouco menos de dez minutos do ataque, Nico se via no dilema que enfrentou nos cinco anos de pirataria, nos longos anos de parceria com o Jackson em uma máscara mentirosa de amizade e confraternização.

Onde está a linha tênue que se proibiu de atravessar por todos aqueles anos?

O que o impedia? O que forçava sua mão contra os desejos claros de Jason de tornar Jackson o inimigo jurado do Caronte? Nunca soube responder e temia encontrar dentro de sua mente as respostas para o trauma que fincou suas garras e criou raízes profundas. Sempre acreditou existir uma linha que separava homens de feras, que separava seu eu pirata e nobre.

Por anos, mais do que jamais pensou ser possível, questionou-se moralmente, criando limites onde a pirataria jamais ergueria muros ou empecilhos. Somente há poucos meses, quando aceitou quem era de fato, que suas escolhas não mudariam a pessoa que Nico era, que o dilema desapareceu de sua mente.

O trauma ainda estava lá, fresco, crescendo como a peste que aterroriza o mais terrível de seus pesadelos, mas não a moralidade que havia atrelado a ele.

Nico não conseguia mais entender o motivo de nunca tê-lo matado.

Ergueu o olhar para o anoitecer, rasgando um sorriso escarnecedor em seu rosto salpicado pelo sol.

Que a moral fosse para o inferno.

— Comecem o ataque.

E que levasse Perseu Jackson com ela.

E Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita.

Dos céus, uma chuva de luz acendeu-se como estrelas em cadência, despencando contra o convés do Jackson em um jogo de pólvora embebida em rum e gordura. Do assoalho formou-se o fogo que alastrou-se por todo o convés, interrompendo a música da flauta, corpos colidindo contra lamparinas que iam ao chão, causando explosões pequenas de chamas e luzes.

Das trevas surgiu a luz, e da luz a imagem brutal da proa de uma caravela em tons soturnos do submundo. A colisão na lateral do Argos inclinou o navio assustadoramente em direção às águas do Caribe, lançando homens em sua escuridão impiedosa. O navio os empurrou em direção ao píer, a âncora sendo arrastada no fundo do mar.

Percy gritou por seus homens, para que se segurassem onde conseguissem. A velocidade do navio inimigo diminuiu, o trajeto foi modificado. A proa do navio invasor afastou-se do convés despedaçado, encostando-se paralelamente ao Argos II. Pranchas de madeira foram dispostas entre os dois, ganchos presos em suas amuradas.

A invasão iminente frente à seus olhos.

Do convés inimigo, Nico sorriu para Percy, a hostilidade da morte impiedosa e cruel, o barqueiro em busca de novas almas para guiá-las à outra margem do rio.

— Sentiu minha falta, Jackson?

Percy rosnou:

NICOLAS!

Nico gesticulou com sua esquerda e a invasão ao Argos teve início.

Sherman foi o primeiro a entrar no navio, colidindo seu marchando com os homens desestabilizados da tripulação do Jackson. Logo atrás dele, os tripulantes do Caronte se fizeram presentes numa onda de fúria e gritos de guerra.

Seus homens emergiram do breu da noite. A lua ausente, as estrelas sem luz e o fogo fraco demais para trazer o Caronte para o dia. Seus homens colidiram com o assoalho ao saltarem para o convés, suas espadas em riste e a ira em seus olhos buscando vingança e sangue.

Jason, ao seu lado, avançou em direção à Groover, tomando a atenção do Segundo Imediato para ele. Piper, um pouco atrás de Jason, atingiu um chute alto em Annabeth, sendo defendida habilmente pela Primeira Imediata do Argos.

Daquele ponto, o caos se instaurou. Disparos de pólvora, lâminas colidindo umas com as outras, gritos raivosos e sangue tingindo o assoalho em chamas deram ao Argos o fundo sonoro que Nico sabia ser digno deles.

Gritos de dor e corpos espalhados pelo convés.

Perseu Jackson afastou-se da confusão, caminhando em direção à Nico. Sua feição era distorcida, uma cólera fria que o tornava amedrontador, o semideus dos mares, o homem que controlava as águas na palma de suas mãos calejadas.

Desembainhou sua espada, apontando-a na direção do Rei Fantasma.

Nico acenou com a cabeça, sua espada em riste.

Os dois avançaram ao mesmo tempo, suas lâminas se colidindo na luz alaranjada das chamas no convés. Percy apertou os olhos, depositando o peso de seu corpo em sua espada. Nico travou o maxilar. Uma batalha de força seria sua derrota imediata com Percy tendo quase dez anos a mais que ele e mais massa muscular.

Jogando seu corpo para o lado, livrou-se da prisão da espada do Jackson, guiando a batalha para a popa, longe da confusão de corpos e violência. Nico esperou no topo das escadas enquanto Percy se aproximava devagar, um passo na frente do outro. Seu olhar era calmo, calculado, como quem observa e julga antes de um ataque.

Nico sempre ouviu histórias sobre o Jackson nos bares de Tortuga, no homem boêmio que dependia da astúcia de sua Imediata para conquistar e pilhar. A figura tola de um homem sem pulso para governar a si mesmo. Todas sempre erradas.

Perseu Jackson era astuto, sagaz, um manipulador dos mais cruéis. Annabeth era estrategista de guerra, uma mulher visionária como Nico e Malcolm; como Reyna um dia havia sido. Jackson, no entanto, era o homem que mentia e driblava, que usava de sua ingenuidade mentirosa como moeda de troca, uma prisão em olhos esmeraldinos e sorrisos afáveis.

Ele te convence de fatos desprezíveis, de fraquezas mal exploradas. Fazia com que acreditassem que as consequências de tudo que sofreram nas mãos dele foram frutos de sua própria fraqueza. Sempre o inocente que ensinou aos mais fracos como se tornarem fortes.

Esperando um “muito obrigado” após traumas serem criados e mortes se tornarem um desejo.

Recordava-se da primeira vez que reencontrou o Jackson ao entrar na tripulação de Reyna, anos depois do primeiro contato. Conseguia lembrar perfeitamente da feição chocada do Capitão do Argos, a forma como transformou-se de choque em curiosidade para, então, um sorriso orgulhoso.

“Parece que alguém resolveu aprender com o que ensinei, afinal.”

Nico segurou-se naquele dia para não reagir, não esboçar um sentimento sequer além da indiferença que aprendeu a usar, da falsa amizade que vestiu para o Jackson.

Recordava-se de sorrir para ele, como quem sorri para um amigo de longa data.

“Tive o pior dos professores.”

Percy gargalhou, perdendo o significado real que Nico depositou em sua resposta. A realidade do trauma que destruiu tudo que Nico um dia havia sido. Percy declarou, com júbilo, a amizade entre os dois para Reyna, o quão “promissor” ele seria. O quão querido ele era para o Jackson.

Só permaneceu no Aurum pelos créditos entregues pelo semideus dos mares.

Seu maior erro.

— Nunca pensei que me enfrentaria outra vez — Percy disparou, o tom de sua voz grave e hostil, inclinando o rosto numa avaliação ponderada: — Sabe como terminou da última vez.

Nico posicionou a espada em frente ao seu corpo, firme.

— Nunca pude esquecer.

Percy sorriu, maldoso.

— Não era para esquecer, pequeno.

Nico avançou outra vez, descendo a espada com força, acertando a lâmina do Jackson uma, duas, três vezes seguidas antes de se afastar. Percy inclinou o corpo para a direita, num jogo de pés que o impulsionou para frente, o ângulo do golpe desferido de baixo para cima. Nico apoiou a espada em seu ombro, recebendo o impacto.

Percy investiu novamente, girando corpo apoiado nos calcanhares, a espada, desta vez, descendo em direção ao seu pescoço. Nico ergueu a espada horizontalmente, aceitando a força desferida. Seu corpo estremeceu pelo impacto, seu ombro direito gritou, sua ferida no abdômen repuxando brutalmente.

Trincou os dentes, sentindo a diferença de habilidades em seus ossos.

Foi como retornar ao passado, àquela exata posição há oito anos atrás. Nico usando seu corpo de escudo para Giovanni, ferido em combate. Sua espada trêmula em suas mãos, o sangue na lâmina escorrendo do ferimento que desferiu em um dos piratas do Jackson na época.

O sorriso curioso, a feição hostil de olhos largos e esmeraldinos; o peso da lâmina colidindo com a sua, um show de caninos à mostra e ferocidade.

“Parece que alguém aqui sabe como usar uma espada.” elogiou Perseu, afastando as espadas, acertando-o duas vezes seguidas, desestabilizando-o de sua posição de pés, acertando uma joelhada em seu estômago.

Nico arfou, o ar deixando seu corpo, seus joelhos colidindo com o assoalho molhado e pegajoso. Sentiu dedos em seus cabelos, um puxão forte e os mesmos olhos insanos do Capitão do navio pirata.

“Seria um desperdício te devolver para os nobres.” comentou melodicamente, num tom felino que fez o corpo de Nico se arrepiar em pavor: “Vamos te polir primeiro. Tem muito ódio em seus olhos, pequeno. Vou te ensinar a usar isso ao seu favor.”

Abaixou-se ao nível de Nico, um sorriso divertido em seu rosto.

“Vou te fazer sentir o que é odiar alguém.”

O corpo de Nico estremeceu com a memória, jogando sua perna esquerda entre as de Percy, mudando a posição de sua lâmina, forçando a de Percy a escorregar para baixo. O som agudo da lâmina riscando a sua invadindo seus ouvidos com violência.

Girou o corpo, acertando uma cotovelada na lateral de Percy, empurrando-o para longe. Criou um espaço entre eles, respirando pesado. Percy torceu os lábios, descontente, tornando a avançar contra Nico.

Sem deixar que ele tivesse a dianteira, desviou para o lado, acertando a lateral de seu corpo com a lâmina. Percy se defendeu, recuando. Nico investiu outra vez em ataques repetitivos no mesmo lugar. Um giro de corpo, outro ataque lateral. Rotacionou o pulso, descendo a espada diagonalmente. Percy xingou, encurralado entre o timão e o Capitão do Caronte.

Nico aproveitou seu desconforto para um ataque de cima outra vez, colidindo as espadas. Com sua direita, no entanto, retirou seu punhal do coldre, esfaqueando Percy na lateral de seu corpo. Percy arfou, o espasmo em seus braços dando a Nico a vantagem que precisava. Deixou o punhal de lado, acertando uma joelhada em seu centro.

A espada do Jackson caiu com o impacto, permitindo que Nico desferisse um golpe final. Com a espada em ambas mãos, atravessou a lâmina por seu estômago, prendendo-o no timão do Argos II.

Percy tossiu. Sangue espirrou no rosto de Nico, escorrendo pelo pomo da espada até suas mãos, acumulando-se entre seus pés. Nico arfou pesado, o choque e a adrenalina da batalha trazendo-o para o presente, para os sons ao redor. O fogo havia chego neles, as vozes no convés diminuíram e o que antes era uma penumbra iluminada pelas chamas tornou-se dia dentro do tártaro sobre as águas.

Ouviu uma risada, o fazendo encarar Percy outra vez.

O Capitão do Argos sorria para ele, um riso retorcido em fúria e um algo à mais que Nico se recusava a reconhecer. O mesmo olhar que recebeu do Capitão aos quinze, indefeso em sua cabine, com mãos que o tocavam sem sua permissão.

Nico trincou os dentes, afastando-se de Percy de súbito.

Percy cuspiu o sangue em sua garganta, ofegante.

— Você se tornou exatamente… o que imaginei que se tornaria… — falou por fim, sua mão repousando no pomo da espada em seu estômago: — Tanto ódio, e tudo pra mim. Que… honra.

Nico rosnou, acertando um soco em seu rosto, arrancando mais sangue de seus lábios. Nico ofegava, afetado por suas palavras vis, mas não o suficiente para acreditar nelas. Antes, alguns anos atrás, teria acreditado.

Teria dado ao Jackson uma vitória que não lhe pertencia.

Percy não o tornou em nada. Nico se tornou o que sempre foi: sua própria ira.

Não chamou a atenção do Capitão do Argos por ser propenso ao ódio, mas por já carregá-lo em seus olhos, em sua essência.

Ódio por seu pai e toda dor que lhe causou; ódio por sua mãe e sua covardia em abandoná-los com o monstro que forçou sua mão; ódio de Perséfone por escolher seu pai à ele quando usurpou o lugar de Hades como Duque; ódio de Bianca por traí-lo quando sempre precisou dela.

Havia tanto em seu peito, tanta fúria cáustica e antiga, mais profunda que Percy jamais poderia chegar, mais desprezível que tudo que o Jackson lhe causou. Odiava o Jackson por destruir a confiança que tinha em si mesmo, na força que possuía em suas próprias mãos.

O fez duvidar de si mesmo, da capacidade de lutar de volta, de ser gentil sem demonstrar fraqueza; de causar dor sem violência. Da melancolia de perder algo que pensou jamais poder recuperar.

Não, o Jackson não o tornou em um homem cheio de ressentimentos e ódio, não criou a besta que Nico Solace era.

Nico di Angelo o fez.

Com um sorriso escarnecido, Nico abriu os braços numa exibição narcisista de si mesmo.

— Olhe bem, Jackson. O que eu sou, nada teve a ver com você — proferiu ruidosamente, permitindo-se o frenesi em seu peito se expandir com a feição irritada de Percy: — O meu ódio não é seu e quando morrer, farei questão de esquecê-lo e lançar suas memórias ao tártaro de onde nunca deveriam ter saído.

Nico se aproximou, segurando seu rosto num aperto hostil. Percy rosnou, colérico.

— Você não é nada. Só mais uma alma que vou jogar no fundo do mar — cuspiu Nico, afastando-se do Jackson.

Num movimento brusco, arrancou sua espada de seu corpo, lançando-o ao chão. Percy retorceu-se no assoalho, encolhido em seu próprio sangue pegajoso. Sem pensar duas vezes, Nico apontou a pistola contra seu rosto, sorrindo uma última vez.

— Que sua alma se perca na porra da travessia.

E então, ele atirou.

O som ecoou em seus ouvidos e, por breves instantes, sentiu uma paz que jamais pensou ser capaz de ter. Respirou profundamente, deixando uma risada maníaca escapar de seus lábios, numa euforia quase anormal. Era o fim.

Pelos deuses!

— Nico! — ouviu Jason gritar seu nome do convés, o fazendo desviar o olhar do corpo no assoalho aos seus pés.

No convés, outros corpos se aglomeravam. Viu Jason no centro de tudo, a espada em sua direita, sangue escorrendo de seus ferimentos no rosto e nos braços, o mesmo sorriso insano espelhado em seu rosto.

Piper estava sentada em cima de Annabeth, seu rosto coberto de sangue, um de seus olhos fechados, mas uma paz parecia ter invadido seu corpo naquele instante.

Foi nesse momento que Nico percebeu que haviam terminado. A caçada, após anos, chegou ao seu ponto mais alto.

Uma vitória nas águas caribenhas.

Sem dizer nada, gesticulou para o Caronte, guiando seus homens para fora.

Não viu Sherman ou Malcolm, muito menos Leo. Somente seguiu em frente, em direção ao convés de seu próprio navio, à segurança que conquistou com suas mãos e moldou como bem entendeu.

O único lar que abrigava toda a fúria que seu corpo emanava.

Com um último aceno, se afastaram do navio em chamas. Nico virou-se para Malcolm que já se encontrava no timão, dando uma única ordem.

— Nos torne visíveis.

E assim, Malcolm o fez.

Naquela noite sem lua ou estrelas, naquele dia de batalhas e mortes poluindo os mares com seus cadáveres ainda quentes e implorando por misericórdia, o Argos II e senhor das águas caribenhas caiu de seu trono após mais de uma década de reinado.

Pela primeira vez, a pirataria se viu sem um Rei, e sem um Rei continuaria até o fim de sua Era de Ouro. As chamas consumiram seu navio, seu capitão detentor de lendas e mitos dos mais extraordinários, devorado pelo fogo do tártaro, pela impiedade do ceifador.

E ao fundo, brilhando na luz das chamas como símbolo da vida na morte, afastava-se o navio que carregava consigo a morte e a miséria. O barqueiro que guiava os mortos ao outro lado.

O único barqueiro que matava seus passageiros ainda em terra firme.

Naquela noite, o Caronte foi avistado por todo o píer norte de Tortuga. A lendária bandeira do cerberus, as velas negras e gastas, o convés escuro e sem tripulantes. O Rei Fantasma que destronou o único Rei que o Caribe teve, deixando o trono vazio, com apenas um espectro o ocupando.

Naquela noite, o Caronte tornou-se a maior das lendas.

Tornou-se real.

Notas finais
Bom, finalizamos um Ciclo de ódio! Nico está de volta ao Caronte, Percy e Reyna foram pro saco e o Caronte ergueu-se não como lenda, mas como um navio que existe e está nos mares para matar. Fechamos mais um arco, mds do céu PaP está com os pés no final já já vão preparando os discursos de despedida kkkkkkk Eu ODIAVA esse Percy, mas ao mesmo tempo ele e Reyna eram os personagens mais PIRATAS que eu tinha feito, então mesmo odiando eles ainda fizeram jus ao papel deles na história. Mas não farão falta, vão com o diabo o/ Aliás, eu estava pensando em fazer um grupo no telegram (e um formulario no docs) pra todos que tem interesse em ter pap quando ele se tornar livro. Assim vcs não me perdem de vista e eu posso encher o saco de vocês do progresso de reescrita, o que acham? Enfim, até quarta com o último capítulo de Pit-a-Pat!! Depois teremos um Epílogo que se passa no futuro, espero que estejam preparados pra um adeus Só mais dois capítulos, oh boy~~~ Beijinhos~