Pit-a-Pat

53 Capítulo LI


Notas iniciais
Opa! O que acham de mais um cap? Esse é o último cap com Will e Nico. O próximo são nossos meninos no caronte!! Finalmente repostando os capítulos que excluí em 2019. Pra quem não lembra, a primeia nrração do Caronte é com o Leo que já esta escrita há muuuuito tempo kkkkkkk facilita pra mim já que já está revisado! Ai, vamos lá? AVISOS: Cenas de violência, morte, sangue e insinuação de assédio. Boa leitura!

Nico

~Capítulo LI ~

:: 5º dia em alto mar — Semana 14 ::

[...]

Deixaram os mares europeus naquela mesma noite ao partirem de Siracusa, sendo agraciados pelo horizonte do mar aberto em poucas horas de viagem. Com a entrada de novos tripulantes e a confiança em uma Imediata que Nico havia sido apresentado por Reyna anos atrás, pode finalmente descansar pela noite, dormindo às horas que havia dedicado acordado com Will nos primeiros dias.

Era acostumado com o balanço do navio, por viver em uma cabine por mais de cinco anos. O sacolejar se tornou calmante, o subir e descer do navio nas ondas era um costume às pernas sempre firmes e conscientes da constante movimentação.

Sentiu o momento em que entraram em alto mar. O navio mais instável, ondas maiores e o subir e descer da embarcação em águas profundas. Nico amava esse sentimento, amava estar atrás do timão com as vozes dos homens cantando músicas de bar e o vento forte os guiando por águas perigosas.

O único porém da jornada era um leve incômodo que o preocupava, que não levou em conta ao trazer William a bordo. Ele enjoou fácil em águas tranquilas, mas ali em alto mar ele parecia simplesmente derrotado.

Nico queria poder deixar o timão e acudi-lo, mas era o único que conhecia a rota ao norte, e precisava estar em alerta a todo momento.

Com isso, Will ficou aos cuidados pessoais de Rachel.

Os dois sentados no fundo da popa, às costas de Nico, com William apoiando a cabeça entre os joelhos após esvaziar o estômago pela segunda vez naquela manhã. O mar estava agitado, os ventos intensos os carregando diretamente para o Norte, causando turbulência no navio em sua jornada contra a correnteza.

Não seria uma jornada confortável para Will, principalmente nos primeiros dias de adaptação. O alto mar desafia até o mais resistente dos homens.

— Respire bem fundo, Will. — orientou Rachel, afagando suas costas carinhosamente: — O ar fresco ajuda.

Will resmungou algo, baixo demais para Nico entender, mas o suficiente para compreender que era um resmungo contrariado. Ele não parecia acreditar muito no encorajamento de Rachel.

— Capitão! Pedras à estibordo! — gritou um dos tripulantes no alto, de vigia.

Nico girou o timão levemente, os tirando do caminho dos rochedos.

— Talvez um pouco de água ajude. — comentou a Imediata, gritando para os homens no convés: — Alguém desce e me traz um coco?! Agora seria bom!

— Dare, vai fazer ele vomitar de novo. — reclamou Nico, vincando a testa ao se virar para a colega. Ela concordou com a cabeça, vagamente.

— Talvez sim, talvez não. — concluiu, aceitando o coco em sua palma, cortando-o habilmente com sua adaga incrustada com pedras lazuli: — Alguma coisa tem que parar no estômago dele.

— Eu posso escolher tomar ou não? — murmurou Will, ainda escondendo o rosto entre os joelhos.

— Erga a cabeça, amor. O enjoo fica pior se ficar abaixado. — comentou Nico, suave, voltando o olhar para o convés lotado, o ir e vir da tripulação agitada.

— Não muita, Will. — admitiu Rachel, seu tom gentil e compreensivo: — Tente. Irá desidratar rápido se não conseguir ficar com nada no estômago.

A atenção de Nico desviou novamente para o Convés, para a movimentação intensa, próxima à escada da proa. Um pequeno grupo, não mais que cinco homens, conversavam entre si com risadas e apontares sutis. Havia um tom arrogante em suas risadas, em uma conversa baixa entre exclamações exageradas.

em se esconder aos olhos de todos.

Nico tencionou a postura, uma troca rápida de olhares entre ele e o homem no centro da roda, um sorriso lançado em direção ao Capitão do navio.

Odiava pessoas novas em seu navio, tripulantes os quais passado são uma incógnita para Nico, onde há sempre caçadores de recompensas e assassinos de aluguel escondidos entre conversas boêmias e feições embriagadas quando, de fato, há uma esperteza antiga em seus olhos ferozes.

Não conhecia aqueles homens, não sabia qual deles eram tripulantes de Rachel e quais aceitaram a oferta de uma vida nova no Caribe sob o comando feminino de uma Pirata. Poucos se atreveriam a aceitar uma jornada sob bandeira pirata, principalmente na certeza de haver uma troca no comando do navio.

Nico viu, durante seu ano como tripulante da Pretora dos Mares, como seu comando era questionado, considerado irrelevante ou insano. A forma grotesca a qual os homens se referiam à sua jornada e como se tornou a primeira mulher pirata a dominar o Caribe. Ouvia os boatos, as histórias a seu respeito, seu envolvimento e crescimento às sombras do Caronte.

O Caronte era um navio novo com um Capitão bem mais jovem e inexperiente. Por mais que a ordem dos acontecimentos fossem clara, que a ascensão do Caronte se desse anos após o domínio de Reyna pelo Caribe, ainda havia os rumores de camas aquecidas e privilégios roubados.

Conhecia os olhares, os boatos e as histórias. Sabia qual a situação a qual Rachel se colocaria, mas havia tanta certeza em sua feição, em sua postura altiva ao dar ordens aos homens sob seu comando, que Nico se permitia relaxar.

Ainda assim, algo em sua mente gritava pelos instintos aflorados, em sinos ensurdecedores em seus ouvidos, um alerta pesado.

O contato visual foi quebrado com o som de Will esvaziando o estômago outra vez. Um suspiro deixou seus lábios, encarando Rachel com uma crítica em sua sobrancelha arqueada.

Ela rolou os olhos.

— Sim, sim. Eu sei, “eu te disse”. — resmungou a Imediata, acariciando as costas de Will outra vez.

Nico esfregou o rosto com a esquerda, consternado.

Seria um começo bem conturbado.

— … ele causou tanta confusão no bar que eu tive que chamar seu Imediato pra tirar o Nico de cima daqueles caras. — Rachel narrava a história para Will entre risadas e dedos apontados para Nico, apoiando no timão do navio.

Will negou com a cabeça, o movimento bagunçou os fios soltos em seu ombro. O sol estava mais forte naquele dia, permitindo que navegassem por águas calmas pelos últimos dias.

Após os primeiros dias turbulentos no navio, Will começou a se adaptar melhor. Menos enjoos, mais comida parando em seu estômago. Aos poucos, com o passar da primeira semana, Will acompanhava Nico em sua rotina matinal. Entre café da manhã, risadas e conversas divertidas, histórias compartilhadas entre eles de eventos passados — com a liberdade de os fazerem sem medo de afeiçoar-se.

Durante a manhã, quando Nico se apossava do timão, Will ficava ao seu lado, conversando com Rachel e Cecil por longas horas, trocando informações e aprendendo um pouco mais sobre o navio.

Eu trabalho na cozinha! Cada um de nós faz aquilo que é o melhor no navio, não tem uma cobrança imensa.” garantiu Cecil, apoiado na amurada de frente para Will. Ele tinha os cabelos castanhos curtos, uma tatuagem no pescoço e um sorriso cheio de mentiras: “Mas o povo fica inquieto sem comida, então o dia é agitado lá embaixo. Você tem sorte de comer na cabine, a comida de vocês é a melhor que a gente tem.”

Will chegou a trocar um olhar chocado com Nico, o que levou a uma conversa desconcertante sobre ser justo ou não a divisão de comidas de melhor qualidade para Nico e Will. Acabou tomando um tempo considerável tanto para Cecil quanto para Nico até ambos conseguirem convencê-lo de que não havia nada de errado no privilégio.

O doutor parecia cético, mas não insistiu no assunto por mais tempo.

Depois desse dia, quando Nico estava ocupado demais com Rachel e seu navegador, Lee Fletcher, na leitura dos mapas e as melhores trajetórias pelo norte, Will se distraía com Cecil em passeios pelo navio, o acompanhando na cozinha ou sendo arrastado para conversas de grupo.

No começo, via a dificuldade com a qual Will lidava para se encaixar. Piratas não eram pessoas sociáveis, e em muitos momentos desconfiavam de sua própria sombra, aflitos e com paranoias próprias. A maioria deles eram fugitivos, bandidos sem causa, homens de pouca índole. Pessoas terríveis acreditam que todo o mundo segue a mesma linha vil de pensamentos, se tornando violentos ao menos gesto hostil.

Entretanto, Nico estaria mentindo se dissesse que Will não encontrou rapidamente seu espaço entre os tripulantes. Os sorrisos gentis do Consorte eram o suficiente para desfazer qualquer uma das feições irritadas e desconfiadas.

Ainda não confiavam plenamente em Will, mas há o interesse em tentar.

Os cumprimentos sempre começavam tímidos até se tornarem curiosos, o que era brecha ideal para Rachel dar início aos contos descarados sobre suas curtas visitas à Siracusa em todas as vezes que visitava Hazel, numa passagem rápida para reabastecer antes da jornada de volta.

Não que se envergonhasse de suas histórias, mas achava desrespeitoso que Rachel as contasse como forma de descontrair seus homens, mas o som dos risos de William valiam a pequena humilhação.

A risada de Will ecoava pelo convés, chamando atenção de tripulantes mais distantes, contagiando o navio num humor incomum. Nico era acostumado com risadas altas, com brincadeiras de mal gosto feitas pelos Stoll ou o Valdez; e os gritos de afronta quando Sherman era o alvo de tais brincadeiras imbecis.

Mas sabia, pelo tempo que passou com Reyna, que era incomum ver Capitães, Consortes ou Imediatos interagirem com a tripulação de forma tão descontraída. Por mais que a pirataria fosse uma quebra dos padrões da sociedade, a hierarquia existe mesmo entre os mais desesperados.

Controle é sempre uma forma de alívio para aqueles que temem fazer escolhas por eles mesmos. E não há nada mais aterrorizante para um pirata do que lidar com as consequências de seus próprios atos.

Rachel não parou com as histórias, se divertindo com a leveza na qual o convés se afundava. Nico observava a forma divertida do amante, o sorriso largo, a camisa aberta até metade do peito, as mangas dobradas no cotovelo pelo calor excessivo do mar atlântico nas águas quentes que os guiavam em direção aos países tropicais.

Will ergueu o olhar das conversas, sorrindo cúmplice para Nico. O Capitão piscou para ele, o encorajando a contar algo caso se sentisse confortável. Não gostou muito da liberdade de Rachel, mas Will detinha de toda sua história e permissão para contá-la sem se preocupar com detalhes perigosos. Will era astuto demais para deixar escapar histórias que Nico confidenciou somente à ele.

E, como uma forma ominosa de quebrar o contato visual com Will, Nico se viu alcançando os mesmos olhos escuros de dias atrás; vigiado, assistido de longe por alguém interessado em alguma coisa que Nico tinha para oferecer.

Sua identidade era um mistério. Nico se assegurou de seguir no anonimato, escondido nas sombras de seu alter ego sussurrado aos sete mares, mas isso não impediria um caçador de recompensas de descobrir e executá-lo atrás do peso em ouro que suas vítimas valiam. Ele queria algo, e Nico não lhe daria o prazer de ser encurralado.

Cortou o contato visual, ajeitando a postura, inclinando-se levemente para trás num medir hostil de suas intenções. Não seria desafiado em seu próprio navio.

Dare. — sua voz ecoou pelo convés, chamando a atenção da roda de conversas. Gesticulou com a cabeça para ela, a chamando para perto.

Nesse ponto, o homem já havia retornado aos seus afazeres, desinteressado no diálogo entre Nico e Rachel.

— Algum problema? — questionou a Imediata, o olhar severo em sua feição outrora boêmia.

— Talvez. — balbuciou, indicando com o olhar o tripulante que o incomodava: — O que sabe dele?

Rachel suspirou pesado, pensativa. Não era um bom sinal.

Nico voltou o olhar para Will que, ainda entre uma risada e outra, desviava sua atenção para Nico com uma preocupação genuína em seu rosto. Sorriu para ele. Will não precisava se preocupar com nada daquilo, não ainda.

— Não sei muito. — respondeu por fim, trocando o peso das pernas: — Foi um dos homens que se voluntariou no bar. Está na cidade há algumas semanas, mas nunca peguei seu nome nas conversas. Por que? Ele fez algo?

— Ainda não.

Rachel arqueou a sobrancelha, curiosa.

— Não posso matá-lo por algo que ele ainda não fez, Solace. — relembrou Rachel, fazendo Nico estreitar os olhos.

— Claramente. Quero informações. Nome, o que fazia antes da pirataria e qual o interesse dele em mim. — ordenou, gesticulando vagamente em direção ao Will: — Se puder, mantenha o Cecil próximo do Will por enquanto.

— Sim, Capitão.

Rachel desceu para o convés, retornando às conversas ao lado de Will. Por enquanto, Nico se manteria em alerta, mas algo o incomodava naquela situação. Não parecia alguém interessado em sua cabeça da forma que Bryce havia demonstrado em sua tentativa fútil de matá-lo. Eram sorrisos cheios de provocação, e sua mão coçava para alcançar a arma no coldre e matá-lo ali mesmo.

Mas a tripulação não era sua. Não havia ganhado o respeito de ninguém naquele navio. Por enquanto, teria de manter a compostura. Teria oportunidades, afinal, estavam em águas piratas.

Um sorriso irrompeu de seu rosto, venenoso. Oh, ele mal podia esperar.

Suas espadas se chocaram ruidosamente no centro do convés.

Nico investiu pela lateral, sua perna entre as de Rachel ao encurralar a Imediata contra o cerco de homens eufóricos, assistindo ao duelo entre assobios e apostas ao fundo.

Rachel rosnou, trocando a espada de mão, rasgando um espaço entre eles, dando abertura para que o atacasse. Ambidestra, quem diria. Nico posicionou as pernas em um ângulo fechado, defendendo-se da investida horizontal da lâmina de Rachel. Abaixou a sua diagonalmente, enroscando as espadas em um movimento circular, puxando-as para frente.

Rachel perdeu o equilíbrio, dando a brecha para Nico erguer sua perna direita e acertar um chute em seu estômago, derrubando a Imediata ao chão em ofegos e resmungos dolorosos.

Os gritos aumentaram ao redor, o dinheiro sendo repassado entre as mãos dos espectadores.

— Você é boa. — comentou Nico, a ponta de sua espada erguendo o queixo de Rachel suavemente, forçando-a a encará-lo em sua derrota: — Mas nem tanto.

Rachel estalou a língua, se afastando da lâmina. Nico riu, embainhando-a antes de oferecer uma mão para Rachel, erguendo-a do chão.

— Chutei muito forte? — questinou ao seu lado, um sorriso divertido no rosto. Rachel respirou profundamente, enfática: — Certo, isso foi um sim?

Rachel o empurrou para longe, uma risada estrangulada.

— Na próxima me esfaqueie também, Capitão.

— E perder minha melhor Imediata? Nem em sonhos. — brincou por fim, caminhando ao seu lado até as escadas para a popa, o aglomerado de homens se encontrando ao redor de outra disputa no convés: — Mas vai precisar melhorar sua técnica até chegarmos no Caribe.

— E o que? Vai me ensinar? — ridicularizou, sentando-se nos degraus, impedindo que Nico subisse: — Já ensinou alguém na vida, senhor morte?

Nico arqueou a sobrancelha, nada impressionado.

— Já, mas não ia me oferecer. — garantiu Nico, apoiando o corpo em sua perna esquerda, os braços cruzados frente ao corpo: — Trabalhe melhor seu jogo de pés, não estamos indo ao Caribe à passeio. Pode não participar da batalha da Reyna, mas dificilmente ficará de fora de algum atrito.

A Imediata concordou com a cabeça, apoiando os cotovelos nos degraus, relaxada.

— Farei isso. Temos longas semanas pra treinar.

— Se você diz. — Nico suspirou, encarando a porta da sua cabine: — O Will não subiu hoje?

— Ainda não. Bati na porta, mas ele não me respondeu.

Nico franziu a testa, caminhando em direção à cabine, uma preocupação no fundo de sua mente.

Destrancou a porta antes de entrar, passando a chave ao fechá-la. O som do convés diminuiu drasticamente, a acústica da cabine de uma caravela infinitamente melhor que os navios que geralmente conseguem roubar. Roubar uma caravela era um serviço para poucos, e além de Reyna, Nico desconhecia alguém que tivesse derrotado dezenas de marinheiros por um simples navio.

Reyna tinha o costume de expor seus feitos em atos impossíveis como uma forma de se auto-assegurar.

Nico nunca sequer pensou em fazer igual. Era trabalho além do que estava disposto a se dedicar.

Caminhou pelo corredor da cabine, passando pela porta aberta do escritório, entrando na área privativa do cômodo.

A cama estava arrumada, a mesa posta com uma garrafa de vinho e porções de frutas e potes de conserva dançando pela mesa, de uma ponta a outra letargicamente, o sacolejar do navio guiando sua jornada pela superfície escura.

No sofá, jogado de forma cansada, estava o motivo de sua preocupação inicial. Nico soltou o ar, aliviado, caminhando até o amante. Se ajoelhou em frente à seu rosto, fazendo contato direto com íris azuis e brilhantes.

Will sorriu para Nico, um pouco forçado. Nico retribuiu o gesto, acariciando seu rosto com ternura. Will fechou os olhos, aceitando o afeto.

— Está mareado?

Will negou. Já estavam à bordo há uma semana, a maresia já estava melhor, Nico sabia disso, mas precisava perguntar mesmo assim. Will havia começado a se comunicar mais com as pessoas no navio. Havia certa tensão sempre que Will conversava com alguém da tripulação, por serem estranhos ou pelo fato de Will ser um dos poucos Consortes assumidos na pirataria.

Por mais que os piratas aceitassem as coisas com mais facilidade, nem todos anunciavam aos quatro ventos sobre seus interesses amorosos incomuns. Nico não via problema em assumir o Will, ainda mais em um lugar onde a palavra final e os julgamentos eram dados por Nico.

Não há lugar mais seguro para William do que um navio comandado por Nico e sua raiva facilmente estourada.

— Aconteceu alguma coisa?

Will abriu os olhos outra vez, virando o rosto ao depositar um beijo na palma da mão de Nico. O pirata sorriu, paciente.

— Só… pensando. — comentou, soltando um suspiro: — Ainda é bem recente, difícil não lembrar o tempo todo.

— Eu sei. — Nico murmurou suavemente, deixando um beijo delicado em sua testa.

— Não aconteceu nada demais, é só que… — Will respirou fundo, colocando seus pensamentos em ordem: — … ontem estava conversando com a Rachel sobre crianças e acabei comentando da Mirella e do Henry. Sinto saudades, muita.

Nico concordou com a cabeça, sentando completamente no chão, sua lateral encostada no sofá, a cabeça deitada no espaço ao lado de Will, seus olhos fixos nos dele. Estavam um pouco vermelhos, inchados. Nico prensou os lábios, acariciando a base de seu olho com o polegar.

— Tudo bem sentir saudades, é natural. E podemos falar delas se isso te ajudar a superar, a tornar a conversa natural. — sugeriu em baixo tom, suave: — Chorar um pouco sempre ajuda, sabe?

Will riu:

— Você diz isso como se costumasse chorar sempre que se sentia triste.

— Bom, isso não é sobre mim.

Will riu, acertando um tapa leve em sua cabeça. Nico encolheu os ombros, sorrindo de volta para o amante.

— Eu não choro porque sou uma péssima pessoa e muito rancorosa. — relembrou Nico, enfático: — Você pode chorar. Está tudo bem.

O doutor concordou, se encostando no fundo do sofá, virando o corpo para ficar de lado. Ergueu o braço num convite silencioso para que Nico se deitasse com ele. Sem evitar o sorriso largo, Nico subiu no sofá, deitando ao lado de Will que o envolveu em um abraço apertado.

Nico soltou uma risada contra a clavícula de Will, envolvendo sua cintura no processo de se acomodar. Will beijou seus cabelos, esfregando seu rosto levemente neles, atrás de um conforto físico que Nico podia lhe proporcionar na privacidade de sua cabine.

Estavam em águas tranquilas, e por isso Nico se daria o luxo de um momento pacífico com Will, num calor que o embalava junto do subir e descer do mar, do peito de Will se expandindo a cada respiração calma e relaxada.

Fechou os olhos para o conforto, adormecendo junto de Will no silêncio sussurrado.

Há algo de poderoso nas palavras, no desejo contido nelas.

Na terceira semana em alto mar, imerso na desconfiança infernal que Nico havia criado por Ethan — a única informação relevante que Rachel conseguiu tirar do tripulante —, recebeu a notícia amarga que havia escapado de seus lábios malditos dias antes.

Bandeira preta! — gritou um tripulante no alto do mastro de vigia. Nico ergueu o olhar para o homem, desviando sua atenção da conversa com Will: — Estibordo, Capitão!

Nico se virou, a visão do navio pirata se aproximava ao longe, velas negras em alta velocidade. Pela direção do vento, os alcançariam em poucos minutos.

— Dare! — Nico a chamou, se virando para a mulher, a feição severa de Rachel com ambas mãos no coldre: — Prepare os canhões e afrouxem as velas centrais.

Afrouxar? Irão nos alcançar mais rápido! — exclamou Rachel, apontando diretamente para o navio.

Faça o que te mandei, Dare! — Nico trovejou, gesticulando para o convés.

Rachel inflou o peito, raivosa e conflitante, mas acatou as ordens dadas, gritando-as para os tripulantes em correria no navio. Nico entendia sua recusa, mas sua experiência no mar era sua maior vantagem em combate.

Se virou novamente para o timão, puxando-o para bombordo.

— Nico?

A voz de Will soou trêmula ao seu lado, um rastro de apreensão cortando o espaço entre eles. Repentinamente, Nico se viu preso numa bolha opressiva e silenciosa ao virar-se em direção à Will, encarando olhos tão assustados quando jamais os viu antes.

William não poderia se defender naquele ataque, e Nico definitivamente seria incapaz de o fazer por ele. Homens demais, violência demais. Nico ofegou, puxando Will pelo pulso escada abaixo, olhos atentos no horizonte, no navio se aproximando rapidamente de sua posição, as velas frouxas os fazendo perder força e velocidade.

Abriu a porta da cabine, empurrando William para dentro o mais gentil que podia.

— Não saia daqui, me ouviu? — pediu Nico, a porta entreaberta, o ressoar das ordens de Rachel e os passos acelerados dos tripulantes marcavam o pouco tempo que tinha: — Tranque a porta e fique aqui, por favor. Volto para te buscar quando tudo acabar.

Will arfou, sua mão envolvendo o tecido da roupa de Nico, num aperto desesperado e receoso. Havia dúvida em seu olhar, uma preocupação latente: Você vai ficar bem? Vai voltar? Não me deixe sozinho!

Segurando sua mão, Nico se aproximou de William, depositando um beijo em seus lábios, um toque rápido; um conforto quase inútil. Sem dizer mais nada, Nico se afastou de William, lhe lançando um último olhar antes de fechar a porta, subindo somente ao ouvir a tranca na fechadura.

Respirou fundo, o mais forte que pode, travando a mandíbula em uma feição amorfa. Girou os calcanhares, seus olhos percorrendo o convés lotado.

Escutem bem! — trovejou imponente, chamando a atenção dos tripulantes em um estremecer assustado. Nico ergueu o queixo, a mão descansando no pomo de sua espada: — Deixem que nos abordem. Os deixem entrar, não se dividam.

— Seremos massacrados se fizermos isso!! — exclamou um dos tripulantes, seguido por outros mais, ultrajados com a noção passiva de Nico.

Nico arqueou a sobrancelha, um desafio em seu olhar afiado; o sentimento indigesto de ser questionado em seu próprio navio. O homem prensou os lábios firmemente, acuado perante a atenção opressiva do Capitão.

Então, Nico sorriu, nefasto; um quê divertido em seu rosto obscurecido pelo chapéu sob o sol da manhã. Os tripulantes estremeceram, seus olhos desviando da figura sinistra de Nico Solace.

— Eu lhes dei uma ordem clara, mas, obviamente, uma ordem de Capitão pode ser ignorada. — com um sorriso felino, Nico deu as costas para os tripulantes: — Faça o que bem entender.

Nico subiu as escadas, o olhar no horizonte, no navio há menos de uma milha de distância.

— Preparar canhões! — ordenou da popa, virando o navio à estibordo, alinhando o navio perfeitamente para que a abordagem do navio inimigo fosse paralela à eles, evitando colisões desnecessárias.

Rachel repetiu suas ordens, gesticulando nervosamente de um para o outro, seu olhar apreensivo sobre Nico. Nico a chamou para o seu lado, o silêncio no convés ensurdecedor enquanto o navio se aproximava pela lateral. Menor em tamanho, mas o silêncio do outro navio gritava perigo. Nico não conhecia o navio, mas nunca precisou se apegar a nomes além dos de sua tripulação.

A morte nas águas nunca é lembrada.

— Esperem. — Nico falou, o olhar firme no navio, as velas negras criando sombras no navio de Nico. Ao ultrapassar o mastro central, Nico bradou: — Fogo!

Rachel repetiu o grito e então, o caos.

Fumaça emergiu de ambos navios, nublando a visão do que acontecia no convés. O som de espadas colidindo e pólvora explodindo das pistolas se misturavam ao som de ganchos sendo lançados de um navio para o outro.

Nico se virou para o primeiro dos invasores, desembainhando sua espada em um movimento horizontal, subindo da cintura ao ombro do homem que acabara de pousar à suas costas. Nico se virou outra vez, dando as costas ao corpo antes de colidir com o piso de madeira, sua lâmina interceptando outra em sua direção.

Num jogo de pés para a esquerda, Nico investiu contra seu oponente, impondo força nos movimentos circulares de seu pulso. Uma, duas, três investidas e o contato com a pele foi imediato. Sangue jorrou do ferimento, e Nico seguiu para o convés.

— Fique no timão! — ordenou a Lee, descendo as escadas e entrando em combate.

Com Rachel ao seu lado e espada em riste, girou os calcanhares, seu corpo inclinado diagonalmente, sua espada desceu com força contra a lâmina inimiga. O som agudo de metal contra metal ocupava seus ouvidos, travando o maxilar para o som irritante.

Um movimento brusco de seu pulso para a esquerda fez a espada de seu oponente deslizar pela lâmina. O homem perdeu o equilíbrio, seu corpo seguiu o caminho de sua arma. Nico puxou o braço para cima, sua lâmina cortando pele e cartilagem. Outro giro de seu corpo, outra lâmina em seu caminho.

Nico ergueu o olhar para o navio atracado ao seu lado, para as cordas que permitiam a travessia dos homens ociosos e cheios de risadas, o desejo de possuir um navio como uma caravela estampada em seus rostos sardônicos.

A batalha acontecia em seu navio, como havia planejado, com exceção de alguns poucos tripulantes que desacataram sua única recomendação. Um sorriso perverso esticou em seu rosto, avançando com sua perna esquerda entre as de seu inimigo, a enganchou na panturrilha do homem e puxou o calcanhar para trás.

Sem equilíbrio, o homem foi ao chão, tendo seu peito perfurado pela espada de Nico. Um giro da lâmina. Ele parou de respirar.

Nico retirou a espada, virando-se para seus homens.

— Dare! — gritou Nico na direção onde a Imediata provavelmente estava: — Ordene que seus homens coloquem barris de pólvora e óleo nas catapultas e lancem no navio!

O que?! — exclamou a mulher, o tiro de sua pederneira levantando fumaça do cano aquecido pela pólvora.

— Faça o que estou mandando, Dare. — ordenou outra vez, atraindo atenção não só da Imediata, mas de homens ao redor deles.

Longos segundos se passaram antes que Rachel gesticulasse em volta, agitada.

— Ouviram nosso Capitão! Repassem a mensagem, andem!

Sem esperar para entender mais do plano, os homens deixaram a batalha e começaram a carregar as catapultas. Nico caminhou até a borda do navio, observando seus homens.

Havia em seu convés ao menos dez tripulantes do navio inimigo, lutando com espadas de forma raivosa. Na popa, Lee parecia com dificuldades contra um homem com machados em ambas mãos. Nico apertou os olhos, a lembrança de Sherman intrínseca em sua mente, sua fraqueza clara e óbvia aos seus olhos afiados.

Retirando uma de suas armas do coldre, esticou o braço em direção ao homem, mirou e atirou. Seu grito agonizante o levou ao chão, seu joelho estourado pelo impacto do tiro certeiro. Com um ato misericordioso, Lee cortou-lhe a garganta, voltando imediatamente para o timão, mantendo o navio em curso e longe da área de colisão.

— Tudo pronto, Capitão! — Cecil gritou ao seu lado, duas catapultas com dois barris amarrados em cada.

Nico assentiu, enfiando sua espada em um dos barris, embebendo-a no óleo pegajoso. Um rastro de óleo começou a escorrer no convés ao retirá-la da madeira.

— Mirem no centro, quando eu mandar! — E Nico aguardou, seu olhar passando pelos homens no barco inimigo, sua tripulação teimosa e falsamente eficiente.

Um deles, o primeiro a desafiá-lo, encontrou os olhos de Nico. O sorriso, que outrora era nefasto no convés, tornou-se divertido, um que de prazer ao gritar suas ordens.

Agora!

As catapultas lançaram os barris ao ar em direção ao mastro central. Nico retirou sua pederneira do coldre, mirou e com um tiro certeiro, a pólvora se incendiou, explodindo contra o mastro. O navio chacoalhou, o óleo em chamas se espalhou como a peste, cobrindo corpos e velas, erguendo fumaça e queimando carne. Gritos eclodiram do convés em pânico e desespero; o navio em chamas no sol escaldante e ventos traiçoeiros, atiçando o fogo a cada novo soprar.

Nico acertou sua lâmina em uma das lamparinas ainda acesas no convés, ateando fogo em sua própria espada. Impedidosamente, atravessou o peito de um dos inimigos ainda em seu convés, distraído com a explosão de sua própria tripulação, tendo seu ferimento cauterizado, o fogo tomando conta de seu corpo.

Com o fogo ainda presente no óleo em sua lâmina agora misturado à sangue queimado, Nico apontou para o mastro.

— Derrubem.

Sem hesitar desta vez, seus homens miraram os canhões no mastro, e com dois tiros de canhão, ele se partiu ao meio, despencando contra o navio, levando consigo mais homens, espalhando o fogo de forma feroz.

Com uma vitória certa, Nico sorriu para seus homens, um gesticular desinteressado ao redor, enquanto gritos vitoriosos eclodiram ao seu redor.

— Não fazemos prisioneiros, matem todos. — ditou Nico, caminhando para as escadas em direção à popa: — Ah. — Nico parou no pé da escada, se voltando brevemente para seus homens: — Não sujem meu convés. Faça-os andarem na prancha.

Rachel se aproximou de Nico, o sorriso nervoso no rosto de alguém que acabara de vivenciar sua primeira batalha. Ao se aproximar, no entanto, seu rosto tornou-se sóbrio.

— Tinham homens nossos no outro navio. — comentou a Imediata, olhando para o estado lamentável do navio perdido entre brasas e corpos.

Nico sequer se dignou a olhar para onde a morte reinava às suas costas. Nico poderia ser o barqueiro de suas almas, mas sabia tão bem quanto Caronte que não deveria interessar-se demais pela morte. Ela é traiçoeira com aqueles próximos demais do mundo inferior.

— Eu lhes dei uma única ordem. Estão mortos por me desacatarem. — seu tom era firme, feroz, ecoando no convés repentinamente silencioso, contra o som do mar em ondas suaves na superfície.

Rachel aquiesceu então, compreensiva. Se virou para o convés, para os homens rendidos de joelhos no chão de madeira.

— Se livrem deles. — Dare gesticulou rudemente com a cabeça na direção do mar, e Nico voltou seu caminho até Lee, tomando o timão de suas mãos, os guiando para longe do navio em chamas, em águas conhecidas e quentes.

Corpos foram lançados ao mar, gritos de piedade percorreram todo o navio, mas Nico manteve o olhar nas águas tranquilas, em suas velas frouxas e suaves no vento de verão.

— Firmem as velas! — gritou ao convés, observando o ir e vir de seus tripulantes em serviço.

— Sim, Capitão! — várias vozes gritaram ao seu redor e Nico sorriu, girando o timão à bombordo.

A adrenalina compulsória se esvaiu, a pulsação de seu sangue mais calma. Devolveu a navegação para as mãos ágeis de Lee, descendo até sua cabine enquanto Rachel gritava ordens para arrumarem o convés.

Ao destrancar a porta foi recebido por braços em sua cintura, colidindo as costas contra a porta fechada, o rosto de Will apoiado em seu ombro. Nico riu, envolvendo o pescoço de William num gesto caloroso e calmante.

Fechou os olhos, se deixando embalar no calor de William e no conforto de seus braços e suas perguntas preocupadas.

Estava bem. Estava no controle.

Como deveria ser.

Will

Will seguiu Nico para fora da cabine, sendo bombardeado com o odor desconfortável de sangue e óleo queimado. Havia um cheiro terrível, algo corroído entre eles, como um animal em decomposição.

Repuxou o nariz, olhando ao redor.

Nico apertou seu braço, encorajador, sorrindo terno antes de voltar ao timão. Will respirou fundo, sua bolsa em suas mãos trêmulas. Ainda estava assustado, apavorado. Viu o navio se aproximando, ouviu os gritos, a feição desesperada de Nico ao perceber que Will ainda estava ao seu lado, indefeso e paralisado.

Ficar naquela cabine, esperando que a loucura do lado de fora se resolvesse, torcendo para que Nico não terminasse gravemente ferido como da última vez — com um ferimento mortal no abdômen e uma doença maldita o devorando vivo — o agonizou.

Sentou e guardou no chão da cabine, olhos pregados na porta, nos sons distintos de tiros e espadas, na voz intensa de Nico ao proferir “Não fazemos prisioneiros, matem todos”, tornando a imagem de Nico em algo novo e amorfo. Histórias de seus feitos no mar nunca retrataram com exatidão como era ouvir Nico como um Capitão pirata. A impiedade em suas palavras graves e odiosas; o riso sardônico de quem detém de poder o suficiente para controlar e moldar qualquer situação.

Era novo, era estranho, mas era tão ele que William precisou segurar toda sua vontade de abrir a porta e se jogar em seus braços.

Com Nico dentro da cabine, o cheiro de pólvora e óleo em seu corpo — e o leve odor ferroso que o envolvia — seus braços prendendo Nico contra a porta em um abraço desesperado, William percebeu não se importar com aquela atitude mordaz.

Estavam em águas piratas, território inimigo e vulneráveis. Eram soldados de combate, eram homens sobreviventes numa guerra entre marinha e piratas. Sem aliados, sem amigos.

Somente eles e a imensidão do mar os julgando.

— Está machucado? — sussurrou em seu ouvido, relutante em soltá-lo, mas disposto caso haja algum ferimento para ser cuidado.

Nico riu baixo, seu corpo estremeceu contra William ao apertá-lo mais em seus braços.

— Nem um único arranhão, vida. — garantiu então, depositando um beijo em sua têmpora: — Mas tenho vários homens feridos lá fora. Se puder tratá-los, eu agradeceria.

Foi a vez de Will rir:

— Eu sou o médico do navio, Nico. É meu trabalho. — rebateu Will, se afastando de Nico, encarando seus olhos intensos e profundos, um orgulho brilhando em suas írises.

— Bom, porque preciso que conquiste o respeito desses homens, como acabei de conquistar o meu. — respondeu, acariciando seu rosto com ternura. Will inclinou o rosto em sua palma, atento: — Cuide deles como você cuidava das pessoas em Ravenna. Não tem segredo algum. Se conseguir salvar pernas ao invés de amputá-las, será idolatrado.

Will soltou uma risada nervosa.

— Eu não tenho nenhum equipamento para amputações, Nico!

— Oh, eu tenho, não se preocupe. — comentou, batendo no pomo de sua espada de forma divertida.

Não vou cortar a perna de alguém com sua espada! — bradou, indignado.

— Acredita, um dia você vai.

E com essa conversa mórbida na cabine, e um último olhar em direção a Nico que havia subido para uma conversa com Rachel, Will respirou fundo, sabendo que precisaria se focar.

Se olhasse para trás, veria os restos do navio inimigo, a fumaça alta e grossa, o crepitar da madeira queimando e o som da água do mar a extinguindo para recomeçar outra vez, o óleo servindo como gás para as chamas famintas.

Will apertou a alça da bolsa e se aproximou de um grupo de homens sentado na escada, o braço de um deles pendendo fora do lugar. Um ombro deslocado, provavelmente.

— Posso dar uma olhada? — Will perguntou ao tripulante, recebendo olhares ameaçadores em sua direção.

— Pra que? — rebateu o tripulante, desconfiado.

Will ergueu sua mala, o sorriso nervoso em seu rosto.

— Sou médico, lembra?

A feição raivosa voltou, mas saber como rebater a resposta de William, por mais que Will soubesse que ele não queria ser atendido, deixou que o doutor se aproximasse. Will afastou os outros dois homens, segurando o braço deslocado. O homem grunhiu, um rosnado de alerta para Will.

Will tremia, mas era seu trabalho e sabia o que fazer.

— Vai doer, mas só por alguns segundos. — garantiu Will, ajeitando o ângulo do braço, a palma na omoplata, e num movimento brusco puxou o ombro para o lugar.

Com um grito de dor e um movimento ao seu lado, Will parou no chão, arrancado de perto do tripulante. Os quatro se entreolharam, chocados. Empurrar o Consorte do navio era uma jornada à prancha, ainda mais com o Capitão no convés, vendo tudo com sua feição severa. Will sabia que Nico estava observando às suas costas, simplesmente pelo silêncio sufocante do convés, e justamente pela situação nervosa e tensa que Will começou a rir, uma risada nervosa e assustada.

Por Deus, que cenário absurdo!

Will se ergueu do chão, ainda em meio a risadas, se aproximando do tripulante.

— E o braço? — Questionou, apontando para o ombro no lugar, examinando-o com o olhar.

— Hm? — o tripulante então olhou para baixo, para o braço sensível, mas sem a dor excruciante de antes: — Oh! Parou de doer!

— Eu disse. Doeria por alguns segundos, e depois passaria. — explicou Will, tocando o ombro do homem, analisando minuciosamente o trabalho que fez: — Evite usar esse braço por alguns dias, sem pesos ou esforço desnecessário e ficará bem.

— Não vai precisar cortar fora? — outro homem perguntou, surpreso.

Will se virou para ele, receoso.

— Foi só um trauma. O osso saiu do lugar, mas já coloquei de volta. — garantiu, olhando para os quatro com certa incerteza: — Vocês cortam?

— Às vezes o braço faz um barulho estranho quando tentamos colocar, e depois de alguns dias ele começa a gangrenar.

Will puxou o ar. Por Deus, Will pensou, horrorizado, eles quebram o braço da pessoa?

— Não… é, eu só coloquei no lugar. Vai ficar tudo bem. Amputações só quando necessário! — garantiu Will, a voz forte ao concluir: — Eu sou médico, não açougueiro. Meu trabalho aqui é garantir que vão ficar bem com meus tratamentos, não colecionar ossos. É o seu braço, e farei de tudo para o deixar preso ao seu corpo.

Will disse o básico, o que foi ensinado por seu avô antes de assumir o posto como médico de Ravenna. Não desistiria de nenhum deles, nenhuma única parte de seus pacientes. Poderia ter deixado Nico morrer de infecções ou permitir que o surto de catapora se espalhasse sem se enfiar em livros, desesperado por aprender como tratá-los adequadamente, mas não o fez.

Não entendia como funcionava a medicina entre piratas além dos boatos que seu próprio avô lhe contava, mas Will seguiria agindo como médico, e, por esse fato, manteria cada um deles vivos dentro e fora de suas capacidades.

E, ainda que fosse uma convicção simples, pareceu bastar para homens se aproximarem dele, comentando sobre seus ferimentos, sabendo que, em hipótese alguma, William os condenaria à um fim pior que a morte para um pirata.

Will os tratou um a um, aprendeu seus nomes e suas ocupações. Trocou conversas divertidas com aqueles levemente feridos, e assuntos mais pesados com homens cujo ferimento os mandariam direto para a prancha, num atestado de morte; num ato de piedade.

Sorria e os distraia, tornando o convés num pequeno centro médico. Cecil, sempre prestativo, o ajudava com o manuseio de ervas, sendo seu ajudante por todo o tempo que os tratou.

Ainda conseguia sentir o olhar de Nico sobre si, virando o rosto brevemente para sorrisos gentis com o mesmo brilho orgulhoso em seus olhos.

Will sorria de volta, agradecido.

Satisfeito de ainda poder ser William Solace mesmo em um ambiente tão hostil.

Um mês em alto mar e Will já se sentia parte daquele navio.

Havia risadas, jogos de cartas espalhados pelo convés e ofensas sendo proferidas em tons brincalhões. Brigas que começaram como algo perigoso e se tornaram no evento do dia, coletando dinheiro de apostas e rostos revoltosos por terem sua disputa transformada em lucro.

Will achava isso uma diversão curiosa, mas teve sua participação nas apostas — e algo lhe dizia que os tripulantes roubavam para que Will vencesse, mas não tinha provas além da risada de Nico quando lhe perguntou, recebendo um “Eu sou canhoto, mas não sou Hércules. Há um limite para quantas vitórias eu podia ter sozinho.”

Não ajudou muito, mas Nico parecia saber que trapaceavam para ele e não se incomodava com a ideia.

A cada semana que se passava, Will começava a sentir o calor dos mares tropicais. Um calor infernal que parece consumir cada parte de seu corpo sem piedade ou compaixão. Não entendia como alguns homens se mantinham sem camisa, sendo castigados pelo sol tão intenso.

Se jogou ao lado de Nico na popa. Lee no timão, Rachel dando ordens enquanto os dois aproveitavam o dia calmo. Will deitou a cabeça no ombro de Nico, o chapéu de Capitão em sua cabeça. Não sabia porque Nico ainda não havia lhe dado o chapéu de uma vez, ele era quem mais usava entre os dois.

Iria roubá-lo quando Nico menos esperasse.

— Hm, parece que vem uma tempestade por ai. — comentou Nico curiosamente.

Will ergueu o rosto para o céu limpo, sem nuvens para protegê-los do sol.

— Onde?

— No horizonte. — respondeu Nico, o rosto virado para a esquerda.

Will se virou, observando a figura escura se aproximando. Era… intimidador. Ver a chuva caindo daquela forma, raios riscando o horizonte numa promessa maligna e cruel. Will se acomodou mais próximo de Nico.

— Não dá para contornar ela?

Nico negou, acariciando seu ombro.

— Não podemos sair da rota. Não são águas tranquilas, mesmo que aparente ser. — respondeu Nico, um respirar fundo que prometia problemas.

Era nessas horas que Will odiava saber ler suas expressões.

— Oh, Ethan! — exclamou Will ao lado de Cecil na cozinha, ajeitando suas ervas medicinais ao lado do amigo: — Como está o ombro?

O homem parou sua jornada até o andar inferior, fazendo contato visual com Will. Ele sorriu para ele, um sorriso estranho e falso, mas Will já havia parado de tentar entender as expressões daqueles homens. Cada um tinha uma história por trás de suas feições forçadas, e Will não iria se meter em assuntos complicados.

Fosse qual fosse a história de Ethan, Will não estava verdadeiramente interessado.

— Está bem melhor. Acho que posso voltar ao combate se precisar! — garantiu ao se aproximar, apoiando ambos braços na bancada onde Will preparava as ervas, inclinando-se em sua direção: — Preciso socar alguém na cara logo!

Cecil soltou uma risada anasalada.

— Soque a sua, seu bastardo.

Ahn? Tá querendo arrumar briga, cozinheiro? — ameaçou o mestre de armas do navio, o rosto deformado num sorriso maldoso: — Não vai durar um minuto comigo, gracinha.

— E eu vou te envenenar na próxima refeição se me chamar assim de novo, seu porra! — bradou Cecil outra vez, com a mão firme em seu cutelo.

Will entrou entre eles, as mãos erguidas em sinal de paz.

— Rapazes, calma!

— Calma? Ele quem começou com as ofensas!

— Eu disse o óbvio, seu animal!

— Seu--

Chega! — reclamou Will, aumentando o tom de voz.

Odiava ter que gritar, mas descobriu da pior forma que manter a voz calma e mansa não faz diferença nenhuma se a pessoa não fosse o Nico. Aparentemente, Nico poderia ouvi-lo não importava o barulho ao redor e isso, obviamente, não se aplicava ao restante da tripulação.

Então, gritar se tornou uma rotina.

— Ethan, vai fazer sei lá o que lá no convés de carga. Cecil, almoço, agora.

Uma das coisas mais estranhas de ser o Consorte do navio era que as pessoas realmente o obedeciam. Um tom mais forte, um olhar afiado e as reclamações acabavam.

Ethan estalou a língua.

— Falo com você depois, Billy. — e com isso Ethan se foi.

— É Will! — o doutor tentou relembrá-lo, mas sem sucesso.

Ethan definitivamente o chamava assim de propósito. Cecil respirou fundo, descendo o cutelo contra o peixe na tábua com força, cortando-o ao meio sem dificuldades. Irritado.

— Certo, o que foi isso? — Will questionou, curioso.

Cecil ficou em silêncio, retirando as entranhas do peixe metodicamente. Will aguardou, voltando a mexer com suas ervas. Cecil suspirou, se desfazendo das partes do animal em um caldeirão no fundo da cozinha. Acendeu o fogo à lenha e voltou ao lado de Will.

— Tome cuidado com o Ethan, ele é péssima notícia. — pediu Cecil, o tom pesado em sua voz.

Will franziu o cenho, sem entender.

— Péssima notícia?

— Ele vai fazer alguma coisa, eu sinto isso e não sou o único. Todos veem como o Ethan e o Capitão se encaram. Tem algo podre acontecendo. — reclamou Cecil. Respirou fundo ao se virar para Will: — Você é o Consorte do Capitão, Will. Preste atenção.

Com esse alerta, Cecil voltou a cozinhar. Will ficou em silêncio, encarando a bancada, um desconforto repentino se alojando na base do seu estômago.

O cheiro do peixe começou a enjoá-lo.

AFROUXEM AS VELAS! — Nico gritou a plenos pulmões durante a tempestade que os pegou naquela noite, como Nico havia imaginado.

Não era pequeno ou apenas água. Eram ventos fortes, uma chuva pesada e dolorosa contra a pele, com raios lançados impiedosamente nas águas agitadas; trovões estourando sobre suas cabeças; ondas altas e perigosas, tão altas que Will temia serem engolidos pelo mar.

Se segurava na amurada ao lado do Timão com Nico os levando para longe da tempestade enquanto tentava os manter na rota inicial. Nico resmungou alto, os pés firmes no chão o mantendo no lugar ao serem atingidos por outra onda, entrando no navio, levando consigo homens desavisados, protegidos apenas pelas amuradas do navio que os impediam de serem arrastados para dentro do oceano raivoso.

Capitão! — Rachel gritou, subindo as escadas desajeitada: — O navio não vai aguentar!

Claro que vai! — rebateu Nico, virando o navio na direção de uma onda maior, conseguindo subir por ela ao invés de ser engolido. Will sentiu o impacto do Navio caindo na água novamente, seu peito martelando desesperadamente no pânico do mar.

Como Nico podia amar isso?

Capitão! As roldanas estão se soltando! — gritou uma vez do alto, fazendo Nico exclamar profanidades.

— Will! Entre na cabine, preciso ir até as velas! — ordenou Nico, descendo as escadas ao entregar o timão para Lee.

Will se virou para o convés, para a escuridão do navio iluminado apenas pelos raios, riscando os céus com intervalos de apenas alguns segundos. Era desesperador.

Desceu para o convés nos intervalos claros, alcançando a cabine num suspiro aliviado. Ainda era difícil se locomover, o navio subindo e descendo num ritmo que tirava seus pés do chão, o forçando a se apoiar nas paredes. Chegou até o sofá num respirar profundo, percebendo, naquele instante, o motivo dos móveis serem fixos no chão.

Sentou no sofá, sentindo o sacudir do navio, ouvindo os objetos soltos nas cômodas indo de um lado para o outro, colidindo na pequena elevação das beiradas.

O som de vidro quebrando o despertou do torpor, se virando para a janela trincada, cacos no chão e água da chuva entrando. Will engoliu um xingamento — era um pirata agora, mas nem tanto assim —, e se abaixou para recolher os cacos antes que se espalhassem pela cabine toda.

Passos às suas costas chamaram sua atenção, erguendo o rosto para Ethan, parado no corredor. Will paralisou, sua respiração presa em seu peito repentinamente pesado.

A conversa com Cecil voltou para ele, tornando aquela situação preocupante. Apertou um dos cacos em sua mão, em alerta.

— Ethan? — chamou pelo tripulante, inquieto: — Como entrou?

O homem sorriu, o mesmo sorriso estranho de antes, apontando para trás.

— Pela porta. Estava aberta.

Will arfou, assustado. Com a pressa de sair da chuva se esqueceu de trancá-la. Naquele momento, percebeu o que Nico quis insinuar com a tranca, e a fala de Cecil.

Ethan queria alguma coisa, e Will era o ponto mais vulnerável do Capitão.

Inferno!, Will exclamou em pensamento.

— Por que?

— Sabe, Billy, eu reparei em você no instante em que entrou no bar, segurando no Capitão como um garotinho perdido no mercado, um pequeno troféu que o Capitão gosta de expor por ai. — comentou Ethan, entrando no cômodo em passos firmes, como se o balançar do navio não o incomodasse: — Cheio de sorrisos e de toques. No começo, eu pensei em só te tirar do Capitão e saciar minha curiosidade, sabe? Mas depois daquele ataque eu percebi que seria suicídio fazer isso.

Ethan apoiou a cintura na mesa, num caminhar felino, rodeando Will em uma caçada já ganha. Will apertou o vidro em sua palma, sentindo o corte na pele e o sangue escorrer lentamente.

— Então, ao invés de brigar por uma curiosidade, resolvi esperar. Uma abertura, uma oportunidade. — Ethan voltou a andar, o sorriso nojento e asqueroso que Will descobriu o que significava. Um tremor correu por seu corpo, o asco e o pânico misturados: — Nada melhor do que uma tempestade no meio do oceano que vai levar horas para acabar, tomando toda a atenção do nosso Capitão. Horas, Billy.

E, sem esperar que Will lhe desse uma resposta, Ethan avançou para cima dele, o puxando pela frente da camisa. Will soltou um grito, em pânico, erguendo a mão num impulso desesperado, atingiu o olho esquerdo de Ethan com o caco de vidro.

Ethan urrou pela dor, dando a brecha para Will se afastar, correr até a cama onde havia uma arma escondida debaixo dela, onde Nico lhe confidenciou manter armamentos para emergências.

Will nunca, em nenhum momento, pensou que usaria uma arma em sua vida, mas ao ver a forma raivosa de Ethan erguendo-se acima dele, como uma montanha de músculos e ira, Will sequer pensou ao apontar a arma e puxar o gatilho.

O recuo do tiro jogou Will na cama, os olhos fechados para o que havia acabado de fazer.

O silêncio na cabine durou longos e desesperados segundos, onde Will criava imagens tenebrosas em sua mente sobre sangue, vísceras e um corpo aos seus pés. Um choro se prendeu em sua garganta, um soluço querendo irromper.

E então, uma risada.

— Você errou, docinho.

Will começou a chorar, a arma escorregando de sua mão para a cama, numa letargia desesperadora. Por favor…

Mas eu não.

E outro disparo irrompeu no ambiente, agudo e pungente, seguido pelo baque de um corpo caindo ao chão da cabine. Will abriu os olhos, encarando a postura completamente colérica de seu amante.

A arma em riste, a fumaça escapando pelo cano, os ombros tensos e a respiração tão acelerada que Will imaginou se ele havia corrido até ele, sabendo o que poderia estar acontecendo. Will voltou a chorar, tirando a atenção de Nico do corpo, seus olhos se transformando de fúria em preocupação e terror.

Will sentiu ser tomado por braços, seu rosto escondido no ombro de Nico, apertando com força o suficiente para deixar marcas. Soluçou alto, o pânico daquela situação tomando conta de seus membros trêmulos. Estavam molhados, aterrorizados e com um corpo aos seus pés, mas Will nunca se sentiu tão feliz em ver Nico matar alguém.

Nico beijou sua cabeça, num aperto intenso.

Will… Você-- ele, o que-- — Nico não conseguia perguntar, e Will entendia. Will sabia o quão aterrorizante aquela situação era para Nico.

— Eu acertei seu olho com o vidro da janela. — garantiu com uma risada úmida e sem emoção alguma: — Foi o mais próximo que ele chegou de mim.

Nico soltou um arfar entre risada e choro, o apertando ainda mais, tornando o abraço num ato puramente doloroso, mas Will não se importava.

Meus deuses…

Will concordou.

Pelos deuses, ele estava bem.

Will já tinha visto a ira de Nico em Ravenna, tanto contra o Senhor Barteles quanto contra Giovanni no dia de sua fuga. Após a morte de Ethan, pensou que não havia mais fúria em Nico que pudesse se moldar em algo mal e cruel.

Will estava errado.

O corpo de Ethan foi arrastado pelo convés. Nico o puxando pela camisa, Will com uma arma nas mãos.

“Para que pensem que foi você. Que não é indefeso.”

“Mas eu sou.”

Nico riu, observando o vidro preso no crânio de Ethan, uma diversão mórbida em seu olhar.

“Will, você é tudo menos indefeso.”

Nico reuniu todos os companheiros de Ethan e mandou que fossem acorrentados ao corpo, ignorando protestos e pedidos de perdão. Rachel garantiu que machucassem a pele, que gangrenassem os membros em poucas horas. Foram lançados num bote, deixados à deriva no oceano. Uma porção de água e comida para que durassem um dia. Um único dia.

O corpo apodreceria preso a eles sem poderem desova-lo no mar. E assim com o próximo, o próximo e o último. Num ato cruel e insensível de vingança e ira.

Se havia alguém que não respeitava Nico, a partir daquele instante todos passaram a temê-lo.

Will só observou de longe, a pederneira em sua mão trêmula, o corpo tenso e doloroso.

Deu as costas para o bote, seguindo Nico de volta para a popa, uma nova resolução em sua mente.

Não seria um fardo para Nico, nem hoje nem nunca. Se pudesse dar um jeito de lidar com aquela situação, se pudesse se tornar um parceiro ao invés de um simples amante, Will se tornaria nisso.

Não seria a fraqueza de Nico, não seria usado dessa forma.

— Nico. — Will chamou sua atenção, parando ao lado dele e de Rachel no timão. Os dois se viraram para ele.

— Tudo bem? — Nico perguntou, sua palma quente o segurando pelo braço, preocupado. Will sorriu, erguendo a arma em sua mão direita.

— O que acha de me ensinar a usar isso?

Will seria seu porto seguro.

Notas finais
Nico voltou como capitão pirata MESMO kkkkkkkkk pensa num bicho cruel, ave. E aqui vemos o momento em que o Will viu que precisaria se tornar um pirata pra sobreviver nas águas, para nao ser um martir pro Nico. Cruel, mas uma verdade amarga. Na conversa sobre amputação, a medicina naquela época era precária, e qualquer coisa que resultasse em amputação seria um passo pra morte. Não tinha antibióticos nem material esterilizado. Era amputar e esperar pra ver se a pessoa sobreviveria ou morreria, e, os que sobreviviam, sofriam com a situação deles. Hoje em dia tem mais recursos para situações como essas, antigamente era pior; era cruel. Ninguém era gentil ou compreensivo. Enfim, Will é um bom médico, vai dar certo. Ah eu fiz uma lista no twiiter com os leitores que me seguem. Nao lembro de todos, entao se nao estiver nela me responde nesse tweet aqui que eu te coloco: https://twitter.com/Babswings/status/1498061269605109761 Foi isso gente! Esperam que tenham gostado, e pra quem estava com saudades dos meninos no caribe, bom... lets que lets!! Beijinhos~