Pit-a-Pat

52 Capítulo L


Notas iniciais
Hey! Olha eu aqui de novo! Tenho um aviso bom pra dar: Teremos capítulos TODO DOMINGO de hoje até dia 13/03! Lembram que eu disse que quando a gente chegasse perto dos capítulos excluídos eu poderia postar com uma frequência boa? Pois bem, CHEGAMOS! Ai, fico contente em poder mimar vocês igual eu fazia no começo Mas não me abandonem por conta disso em kkkkkkk eu mimo vocês então me mimem de volta por favor kkkkk Enfim, não vou segurar mais vocês. Boa leitura!

Nico

~Capítulo L ~

:: 102º dia na Itália — Semana 14 ::

[...]

A costa se distanciava aos poucos, o atro do céu mesclava-se ao cobre do pôr-do-sol às suas costas, velando sua partida do continente europeu. Nico inspirou profundamente, sentindo o gosto do sal invadir seus sentidos, arrepiando seus músculos numa memória há muito ansiada por seu corpo.

Apertou os punhos no timão, fechando os olhos para o movimento do navio, os sons claros das velas agredidas pelo vento do anoitecer, o estalar das ripas dos mastros sob solavancos leves do mar que os guiava para longe da Itália, o Canal Candiano uma silhueta cada vez menor. Cada som lhe despertava um sentimento nostálgico, um aperto em seu peito de puro pertencimento; de sorrir e se sentir acolhido.

Ao atingir a primeira corrente marítima em rota para Siracusa, Nico finalmente relaxou o corpo, o pânico e o nervosismo daquele dia, abandonando seus músculos doloridos. Abriu os olhos para o cenário à sua frente, o mar fundindo-se ao horizonte, as águas quentes do verão europeu os guiando para a segurança que o oceano oferece àqueles que sabem como alcançá-la.

Abriu sua bússola de bolso ao virar o timão levemente à bombordo, ajustando a rota para Leste em direção ao Atlântico. Precisaria levar o navio para águas conhecidas para que pudessem passar a noite em segurança. Por mais que o mar lhe passasse conforto, Nico conhecia os perigos que espreitavam no silêncio da noite opressiva e soturna.

Um monstro reconhece outro, afinal.

Ouviu a porta da cabine se abrindo no Convés, sorrindo ao ouvir os passos descoordenados do doutor ao tentar manter o equilíbrio em solo instável. Ergueu seu olhar para a forma de William agarrada ao corrimão da escada, uma careta determinada em seu rosto empalidecido. Riu divertido, recebendo um olhar afrontoso de William.

— Precisa de ajuda?

Will bufou, esticando o braço num pedido mudo. Nico riu outra vez, indo até o doutor em passos leves e firmes. O puxou para o seu lado, segurando-o firmemente pela cintura enquanto caminhava de costas, de volta para o timão. O doutor apoiou a testa em seu ombro, aceitando o apoio que Nico lhe fornecia.

O pirata acariciou sua cintura, depositando um beijo em seu ombro.

— É bem diferente do que imaginei — William admitiu, envergonhado. Nico concordou com a cabeça, voltando seu olhar para o horizonte distante e obscurecido pelo fim do pôr-do-sol. Ainda conseguiria ver o continente se virasse para trás, há várias horas das rotas africanas seguras de se navegar.

Comprimiu os lábios. Precisaria acender lamparinas antes que se tornasse impossível de se locomover no breu do mar.

— Você se acostuma, prometo — garantiu em baixo tom, afastando William de seu ombro para que pudesse encará-lo nos olhos: — Vou precisar ficar aqui em cima pelos próximos dias. Sem tripulantes, não posso deixar o convés vazio. Preciso estar em alerta.

William apertou os olhos.

— Iremos navegar de noite?

Nico negou: — Não. Não posso arriscar com somente nós dois à bordo — respondeu, apoiando-o no timão: — Preciso acender as lamparinas, consegue manter o timão firme enquanto isso?

Will encarou o objeto em suas mãos, o rosto surpreso.

— Oh, isso é um timão.

Nico não segurou sua risada, ecoante na popa em vogais abertas e largas. Will sorriu para ele, contagiado pela leveza de sua voz. Nico caminhou de costas alguns passos antes de virar no topo da escada, descendo de dois em dois degraus atrás de fósforos.

Em pouco tempo tinha o convés iluminado pelo fogo das lamparinas, finalmente lhe permitindo ter um vislumbre de William no timão, o olhar curioso de seu amante sobre o navio de noite. A iluminação não era intensa, não se Nico quisesse evitar atenção desnecessária, mas o bastante para que distinguisse os degraus por onde subia até o doutor.

Apoiou uma lamparina na amurada em frente ao timão, abrindo sua bússola num olhar rápido. Ajustou o curso brevemente antes de depositar um beijo no rosto de William, agraciado pela liberdade de o fazer sem restrições.

— Não é o paraíso, mas é calmante — comentou Nico, observando o céu totalmente enegrecido, as estrelas intensas e conjuntas; a via láctea clara na tela escura e infinita.

Will seguiu seu olhar, atraído pelo céu que raramente percebia no seu dia a dia. Nico conhecia a rotina daqueles que moram nas cidades, do desejo de olhar sempre para frente, nunca se permitindo vislumbres do céu numa noite de verão como aquela, limpa e sedenta por atenção.

Sentiu a mão de William encontrando a sua, apertando-a levemente. Will o encarou, seus olhos azuis suaves e gentis ao se inclinar em sua direção. Nico fechou os olhos ao toque de lábios delicados nos seus, num gesto casto e carinhoso, envolto na brisa suave do mar calmo e sereno.

Acariciou seu rosto repleto de sardas, seu próprio céu estrelado ao alcance de suas mãos, salpicando-o de beijos suaves, tirando uma risada tímida de William. Respirou fundo, afastando-se o suficiente para gravar em sua mente aquele olhar cheio de significados que Nico aprendeu a decifrar aos poucos. Will inclinou seu rosto contra sua palma, fechando os olhos para o gesto tenro.

— Como está? — questionou baixo, sem quebrar a serenidade do momento.

William inspirou fundo, depositando um beijo em sua palma calejada.

— Mareado. — respondeu sincero ao abrir os olhos: — Mas a brisa ajuda.

Nico concordou com a cabeça, acariciando seu rosto com o polegar.

— Fique mais um pouco antes de descer. — pediu Nico suavemente, esticando seu braço ao timão, reajustando o curso.

Will franziu a testa.

— Não precisa da bússola?

— A corrente nos puxa para o Oeste. Manter o timão à estibordo será minha missão pelos próximos dois dias. — respondeu Nico gesticulando com sua mão livre.

— Siracusa?

Nico sorriu:

— Siracusa, sim. Precisamos de tripulantes.

— Conhece alguém em Siracusa? — questionou William com curiosidade, a cor em seu rosto voltando aos poucos.

— Conheço pessoas em todo lugar. — zombou divertido, sorrindo para o rolar de olhos nada surpreso de Will: — Mas sim, tenho contatos em Siracusa para conseguir homens leais o suficiente para navegarem conosco.

— Pensei que piratas não fossem leais.

— Não são, mas toda lealdade pode ser comprada, Will. Não há orgulho entre os perdidos. — respondeu em baixo tom, se virando para o horizonte: — Desça para a cabine, a noite na cama é mais confortável que no convés. Vai se adaptar melhor com o navio se estiver lá dentro.

Will negou: — Balança muito lá embaixo, e não quero ficar sozinho agora.

Nico voltou a encará-lo. Por breves instantes havia se esquecido dos ocorridos daquele dia, da verdade amarga sobre Charles e da fuga de Ravenna. A brisa do mar não traria toda a cor de volta ao rosto de Will, não quando sua energia havia se perdido no caminho até o navio.

Apertou os lábios sem saber o que responder. Não poderia descer com ele para a cabine, seria irresponsável de sua parte, mas o convés não é dos lugares mais confortáveis de se ficar. Além das escadas, não há um único assento onde Will poderia passar a noite.

Olhou em volta rapidamente, cogitando algumas soluções.

— Posso trazer os cobertores aqui para cima. — sugeriu William, apontando para o fundo da popa, a amurada alta e espessa.

Nico concordou com a cabeça. Seria a melhor solução.

— Tudo bem. Consegue pegar tudo?

Will sorriu:

— Volto logo.

Com isso, o doutor desceu pelas escadas com um pouco mais de facilidade que antes, mesmo que precisasse dos braços para firmar seu centro gravitacional. Nico caminhou até a amurada, observando-o entrar na cabine e desaparecer de vista. O Capitão permaneceu no mesmo lugar, erguendo o olhar para o horizonte, totalmente entregue à noite clara e quente.

O silêncio do mar era absoluto, lhe causando o mesmo arrepio que sentiu na manhã daquele dia. Não havia perigo imediato, mas um mar silencioso é tão perigoso quanto a raiva em suas águas. A brisa movendo o navio era o único alívio que Nico se dispunha a aceitar como absoluto. Onde há ventos há caminhos a serem percorridos.

Inspirou profundamente, voltando sua mente para os eventos do dia. Havia um leve rastro de vergonha pela forma como reagiu à informação que Francis lhe passou. Depois de todos os eventos no Ducado, tudo que teve que sacrificar e se doar, Nico sabia que não conseguiriam escapar ilesos de Ravenna. Havia perdido qualquer poder que pudesse ajudá-lo a sobreviver à forca; e mesmo que houvesse algum resquício de nobreza em seu nome, sodomismo não é perdoável nem mesmo ao Imperador.

Se não fosse por Giovanni, talvez tivessem sido pegos em sua fuga. Nico não era dos mais otimistas, mas a situação deles era das mais pessimistas possíveis, e sem ajuda de fora Nico não teria sido o suficiente para proteger o Will, e esse simples pensamento o aterrorizava.

A pirataria é uma vida de constante atenção. Tripulantes traidores, sombras traiçoeiras, amizades compradas. Há mais perigos numa única noite num navio pirata do que Nico presenciou nos três meses em terra.

E, sabendo que precisou de ajuda para conseguir protegê-lo, algo apertava seu peito com a ideia de que talvez, talvez, não conseguisse cuidar de William da forma como precisava. Will teria que passar por um treinamento de luta para aprender a cuidar de si mesmo, mas no começo, enquanto fosse totalmente dependente dele, Nico teria que saber como arcar com a responsabilidade imensa que não sabia se conseguiria lidar.

Não é fácil estar sempre em alerta, sempre atento aos olhares atravessados, aos cochichos maldosos, aos punhais dançando em mãos ágeis e desejosas por uma luta. Teve a experiência com Connor e Travis até que pudessem se proteger sem Nico por perto. Esperava que o mesmo acontecesse com Will, sem que eventos perigosos ou falhas ou tarde demais acontecessem. Temia não ser o bastante, e temia ainda mais por não poder compartilhar seus medos com Will. Sabia que ele entenderia, mas não queria assustá-lo além do necessário.

Respirou fundo, esfregando o rosto, espantando o cansaço de seus olhos.

Ouviu a porta da cabine bater e a silhueta de William apareceu na escada. Nico soltou uma risada para a quantidade de coisas que o amante trazia em seus braços. Ajudando com os cobertores, Nico os estendeu no chão atrás do timão, usando os travesseiros de William como apoios para mantê-los no lugar.

Enquanto isso, William ajeitava a pequena caixa com um punhado de frutas frescas — cortesia de Giovanni, provavelmente —, além de uma pequena pilha de livros. Não acreditava que Will fosse ter algum interesse em ler algo, mas se manteve em silêncio.

Will sentou nos cobertores, as costas contra a amurada de madeira do navio, encarando Nico com olhos cansados.

— Se não vamos navegar durante a noite, para onde vai nos levar?

Nico voltou o olhar para o horizonte, pensativo.

— Tem um conjunto de pedras há algumas milhas daqui, à uma hora de viagem. Podemos ancorar nele e apagar as velas. É um bom esconderijo por enquanto. — garantiu Nico, recordando-se das ilhas próximas da área. Passariam despercebidos se conseguissem chegar antes que as rotas mercantes ficassem movimentadas.

Deu as costas para Will, mantendo-se focado no horizonte. Por mais que não houvesse piratas na região, a marinha ainda seria um problema. Precisaria estar em alerta pelos próximos dias.

O silêncio no navio os embalou pela próxima hora, com o som das águas e o vento nas velas guiando-os pela noite calma de céu limpo.

Nico ancorou perto dos rochedos dentro do tempo prometido, apagando as velas espalhadas pelo convés. Mantendo somente duas acesas, uma em suas mãos e a outra ao lado de Will, Nico faz o percurso até o doutor. Will estava de olhos fechados, encostado na amurada. Sua testa franzida indicava seu desconforto, fosse pela maresia ou pelos eventos do dia.

Um suspiro escapou de seus lábios ao se sentar ao lado de Will. Sentiu os braços do doutor em sua cintura, sendo gentilmente puxado para perto. Deixou a lamparina ao seu lado, se afundando no conforto calmante de Will.

E mais uma vez, o silêncio.

Fechou os olhos para a calmaria que sentia ao lado de Will, os dedos do doutor acariciando sua cintura ternamente em movimentos circulares e letárgicos. Sorriu pequeno, aproveitando do momento de paz depois de horas tentando sobreviver nas ruelas de Ravenna, dependendo somente de Giovanni e um pouco de sorte — algo que nunca realmente teve na vida.

A quietude das águas permaneceu por horas, mas o estremecer de William ao seu lado, no prelúdio de lágrimas, tornou o silêncio ensurdecedor. Nico se virou, tomando o rosto úmido de William pelas palmas, limpando a tristeza líquida e quente de suas bochechas.

Will fechou os olhos com força, como se o gesto fosse o bastante para fazê-lo parar de chorar.

— Eu não entendo… — Will sussurrou entre soluços, o choro tornando-se copioso à medida que seus pensamentos ganhavam cores e formas: — …não entendo as lágrimas. Desculpe.

Shhh, não tem que se desculpar. — garantiu Nicollà, acariciando seu rosto com o polegar, absorto no azul de seus olhos sob a luz fraca da lamparina. Havia tanta dor neles, tantos sentimentos ignorados pelas últimas horas que se tornaram estranhos para William. Nico sorriu, um quê de tristeza em seu tom: — Você demorou para entender o que aconteceu. Às vezes, levamos dias ou anos para aceitarmos alguns eventos. Mortes, traições. Não é fácil, Will.

O doutor negou com a cabeça, incrédulo.

— Eu não estava tão triste antes. Mas agora… é como se tudo pesasse ao mesmo tempo. — seu choro intensificou, escondendo o rosto em suas mãos trêmulas: — Nem pude me despedir de minha irmã como tinha planejado, ou da Silena e das crianças. E o Charles, oh meu Deus o Charles.

Os soluços se tornaram descontrolados, escapando por entre seus dedos na tentativa vã de tapá-los. Inclinou-se para frente ao tentar se encolher no amontoado de cobertores emaranhados em suas pernas, seu pequeno mundo ruindo aos seus pés.

Nico o abraçou imediatamente, escondendo o rosto em seus cabelos loiros soltos e bagunçados pelo vento e pela maresia. Acariciou suas costas, envolvendo-o com carinho, tentando transmitir a Will um pouco de segurança para que se desfizesse em lágrimas sem medo; que deixasse sua dor se esvair.

A traição de Charles atrapalhou não só a jornada deles, mas todas as despedidas as quais William havia planejado. Nico sabia o quão querido William era para as pessoas da cidade. Via no olhar das pessoas o respeito que o doutor detinha na palma de suas mãos sempre tão gentis e hábeis, dispostas a cuidar e curar tudo que estivesse ao seu alcance.

Viu a interação entre ele e a irmã caçula; seu tom caloroso e preocupado ao comentar sobre o Senhor D.; os sorrisos gentis que se expandiam na presença das crianças após consultas bem sucedidas e doenças curadas. Will sempre irradiava calor por onde passava, recebendo o mesmo sentimento acalentador de cada um dos moradores de Ravenna.

Ser forçado a deixar a cidade onde cresceu, aprendeu a andar e falar, perdeu parentes e ganhou outros mais, para no fim receber olhares de repulsa, rostos distorcidos em fúria e desgosto, tornando as memórias de William em um passado tão frio quanto o convés repentinamente se tornou. Isso o destruiu. E Nico não poderia culpá-lo.

Sua irmã nunca entenderia realmente o motivo de ter fugido. Mesmo que Giovanni lhe contasse tudo, explicasse seus motivos e o botado que se espalhou como brasa ao vento, nunca seria o bastante, e Nico sabia que William planejava uma rápida visita à sua irmã antes do final de semana.

Se tivesse sido mais observante, talvez pudesse ter notado qual seria a decisão de William. Não notou. Nico não notou nada. Nem mesmo um boato que se espalhou muito rápido.

Rápido demais.

Will estremeceu em seus braços, trazendo Nico de volta para os prantos do amante. Nico beijou seu cabelo, os balançando levemente para frente e para trás, num movimento calmante e sutil.

Um cantarolar escapou de seus lábios, a melodia que ambas sua mãe e irmã tocavam no piano em dias tempestuosos quando se reuniam na sala de música. Quando os dias eram simples e fáceis de se viver.

Deixou a melodia escorrer de seus lábios, acariciando seus cabelos enquanto se deixava ser capturado num abraço cheio de dor e pesar, no toque atormentado de um homem que perdeu tudo que tinha em menos de um dia.

Na angústia de terem algo tão doloroso em comum.

A noite seria longa e cansativa, mas os dias continuariam a correr sem atrasos, o tempo em seu curso ininterrupto. Um dia as cicatrizes se fechariam por completo, tornando-se apenas memórias distantes e desoladas em sua história. Talvez levasse dias. Talvez levasse cinco anos. Mas Nico sabia que o sofrimento teria um fim.

Só esperava poder ser parte de sua nova felicidade.

Will

:: 1º dia no mar — Semana 14 ::

Will ouviu uma vez de sua mãe, quando ela estava de cama adoentada, em seus últimos dias entre os vivos, que uma grande parte de viver era a dor. A dor da perda, a dor da traição e da perda de confiança; a dor de amar tanto que seu coração parecia existir fora de seu próprio corpo, ocupando o mesmo espaço da pessoa que o fazia palpitar intensamente.

“Há dores que são terríveis, Willy.” comentou sua mãe naquele dia, o sorriso ainda radiante, mesmo em meio a tanto sofrimento numa cama há muito desconfortável. “Desejamos poder escapar, desaparecer para longe de nossos próprios corpos enfraquecidos. Há dores que nos fazem questionar o motivo de ainda estarmos vivos.”

William não tinha idade para entender nada daquilo, mas continuava ao seu lado, sua mão pequenina segurando a de sua mãe. Ossuda e leve, com as marcas de uma doença devoradora e atroz. Ela sorria para Will. Naomi sabia que ele não entendia, mas conselhos de vida são dados para um dia, distante ou não, serem usados com a sabedoria passada pelos pais.

“Mas há outras dores que são bem-vindas. Quando nos ferimos por alguém ao proteger e cuidar; quando amamos tanto que a dor se torna convidativa. Amar é uma batalha, querido. Há vitórias e derrotas, mas quando se ama e é amado da forma correta, tudo vale a pena no final.” Naomi acariciou seu rosto, com o sorriso cansado e apático. William fechou os olhos, esfregando o rosto em sua palma. “Se lembre disso, meu querido, pois sei que seu pai não lhe dirá essas coisas. Um dia, descobrirá que há sacrifícios que devem ser feitos. Vai doer, mas não será para sempre. Doerá até perceber o valor da sua dor.”

Naomi morreu naquela mesma semana, com William chorando aos pés da cama sem entender uma única palavra que sua mãe lhe confidenciou.

Doía muito e não valia nada.

Agora, William conseguia entender.

Will se manteve ao lado de Nico durante toda a manhã, entre pedidos de desculpas pela madrugada conturbada e abraços esporádicos e acalentadores. Nico aceitava cada um deles, um sorriso carinhoso em seu rosto sempre que era pego pelos braços de William. O doutor sabia que Nico se preocupava, que havia mais atenção em seus toques do que se deixava demonstrar.

Demorou horas para finalmente parar de chorar e se deixar vencer pelo cansaço do dia, pela exaustão de lágrimas e soluços copiosos. Nico cuidou dele por toda a noite, navegando pelas águas sem uma única hora de sono. Will se sentia culpado, mas nenhuma de suas desculpas foram aceitas pelo amante.

— Eu fiquei acordado porque quis, Will. Está tudo bem. — garantia ele todas as vezes, sem se irritar quando Will voltava a se desculpar.

Ao serem negados seus pedidos, William os transmitia com abraços e beijos, com carinho da única forma que ele sabia transmitir. Nico ria todas as vezes, com sorrisos radiantes e às vezes surpresos, como se o fato de William demonstrar tanto o chocasse.

Will queria rir. Nunca puderam ser tão espontâneos como agora. William nunca pode se permitir toques despreocupados, não em situações onde sua mente não possui controle antes que um desastre aconteça. Contudo, ali no meio do mar, com somente Nico como testemunha de seus toques, o que o impedia de se soltar um pouco?

Ainda sentia o peso em seu peito com os eventos do dia seguinte e sabia que se pensasse demais nisso voltaria a chorar, mas se sentia mais leve depois do desabafo. Como se um peso tivesse sido retirado de seus ombros tensos e sempre tão ocupados.

Nada pesava em William naquele momento.

Aquilo era novo.

— Acho que estou enjoando de novo. — comentou Will em um tom arrastado. O mar estava calmo, mas o café da manhã parecia revoltoso em seu estômago.

Nico riu, enviando tremores por seu corpo colado ao dele.

— Eu te disse pra sentar um pouco. — comentou o pirata, as costas apoiadas em William, enquanto os braços do doutor o firmavam pela cintura. Nico tinha uma mão preguiçosa no timão do navio, os levando para Siracusa por águas calmas e suaves.

Will escondeu o rosto em seu ombro, resmungando alto. Outra risada de Nico estremeceu seu corpo.

— Will. — Nico o chamou, virando a cabeça em sua direção. Will inclinou a sua, encontrando seus olhos âmbar: — Quer controlar o timão um pouco? A distração pode ajudar no enjoo.

O doutor sorriu largo, concordando com a cabeça. Parecia interessante, novo. Uma distração era tudo que ele mais queria no momento.

Nico soltou os braços de William de sua cintura, puxando-o por seu pulso até que este tocasse uma das malaguetas do timão. Will envolveu um dos punhos de madeira em sua mão, encarando Nico em busca de respostas.

Nico apontou para frente.

— Observe o horizonte. Caso tenha algo no caminho, você desvia para o lado que estiver livre. — Nico puxou o timão para baixo: — Aqui é estibordo. — e então empurrou levemente para cima: — E assim é bombordo. Só guiar o navio pelo caminho livre que ficaremos bem. Mantenha o curso a bombordo.

Nico abriu a bússola ao lado de William, mostrando para ele a agulha apontando para o Oeste antes de lhe entregar o objeto frio. Will concordou com a cabeça, tentando memorizar as direções que Nico deu. Sorriu então, o horizonte de céu limpo e águas calmas facilitava o percurso. Não sabia exatamente onde estavam, mas era uma rota sem navios, e isso atiçou brevemente a curiosidade de Will.

— Onde estamos?

— Estamos em águas africanas. — explicou Nico, os olhos fixos nas águas distantes: — Fica longe das rotas italianas, mas dentro de rotas mercantes.

— Mas não tem navios por aqui. — comentou Will, olhando em volta.

— Os boatos correm rápido, amor. — disse Nico, cruzando os braços. Uma feição sóbria em seu rosto: — O Caribe entrará em guerra, e diversos navios piratas foram avistados próximos aos mares africanos. Muitos acreditam que estejam se realocando pro Caribe, e por isso o comércio ficou escasso.

— Vocês usam rotas mercantes?

— Quando planejamos saques, sim. — Nico sorriu ardilosamente, dando de ombros: — E sempre planejamos algum saque ou pilhagem.

Will riu, balançando a cabeça. Fazia sentido, ainda que o chocasse a ausência do comércio náutico. Às vezes, Will esquecia o quão temidos os piratas são para as pessoas comuns. Muitos perdem mais do que simplesmente mercadorias e bens.

Nico foi um deles, afinal.

Respirou fundo, seus pensamentos repentinamente tomando tons enraivecidos. Voltou a atenção para o mar calmo, sem pedras. Seria um dia bem tranquilo.

Nico sentou na amurada na popa, abrindo uma luneta e vigiando as águas mais distantes. Will apoiou o corpo no timão, um suspirar deixando seus lábios secos.

Ainda estava enjoado.

— Temos pólvora o suficiente para começarmos uma revolução! — comentou Nico, subindo as escadas da popa: — Além de armas de fogo e muitos mantimentos no compartimento de carga. Giovanni não descansa em serviço, deveria receber um aumento.

William sorriu, um sentimento de gratidão em seu peito pelo que o Capitão arriscou por eles.

— Deveria fazer uma carta de recomendação, então. — comentou William, sorrindo para o arquear curioso das sobrancelhas de Nico.

— Oh? Ficou engraçadinho de repente. É a maresia?

— Na verdade, acho que vou vomitar a qualquer momento. — Will confessou, apoiando a cabeça nos braços dobrados sobre o timão. O vento ajudava um pouco, mas o navio balançava demais.

Sentiu a palma de Nico em suas costas, gentil.

— Se deite um pouco, eu assumo daqui. — Afirmou, o guiando de volta para os cobertores no chão. Will foi sem questionar.

Aproveitou o enjoo e o cansaço para um descanso, dormindo quase imediatamente ao se deitar, uma coberta fina sendo colocada em seus ombros.

Dormiu pelo restante da manhã, sendo despertado por Nico ao meio dia em ponto, com o chapéu do pirata firme em sua cabeça.

— O sol é cruel nessa hora da manhã. — confirmou Nico, sentado ao seu lado no chão de madeira da popa, uma porção de ovos cozidos em conserva e frutas frescas.

Will segurou a aba do chapéu, ficando o garfo em um dos ovos. O enjoo deu uma pequena trégua, mas esperava que encher o estômago não fosse uma péssima ideia.

— Precisamos comer as frutas o quanto antes. Estragam muito fácil lá embaixo. — relembrou Nico, jogando algumas uvas em sua boca.

Ficaram em um silêncio confortável por alguns minutos, ouvindo o som do mar contra o navio, o vento sacudindo levemente as velas brancas e fartas. Will as observava, fascinado. Nunca havia pisado em um navio antes, e esperava poder fazer um tour decente com Nico no entardecer, quando ancorassem pela noite.

— Eu estava pensando — Nico começou, tirando William de seus devaneios: —, talvez eu devesse parar de usar o nome de minha irmã na pirataria. Quero dizer, ninguém realmente sabe quem é o Rei Fantasma, mas sabem que o meu sobrenome é Levesque.

Will murmurou, pensativo.

— E di Angelo são seria o ideal, eu suponho.

— Definitivamente. — garantiu Nico, convicto: — Não sei bem o que usar ou se eu deveria usar algo. Não é nenhuma profissão onde eu precise de identificação e conexão familiar, mas… sinto que não posso mais usar um passado que abdiquei. Não seria correto.

O doutor tomou um gole da água, respirando fundo. Usar seu passado depois de ter lutado tantos anos para finalmente superá-lo parecia terrível, errado. Nico fez de tudo para se ver livre das amarras dos di Angelo, e por mais que sua irmã tivesse um sobrenome diferente, ainda pertencia à família.

Levesque e di Angelo são unicamente conectados. Um como uma memória amarga, o outro como uma lembrança agridoce. Talvez Nico precisasse de algo novo. Ou só… diferente.

Um calor repentino queimou seu rosto, escondendo-se no chapéu de Nico automaticamente.

— E se escolher um que já existe? — sugeriu William, evitando o olhar de Nico: — Se quiser, pode usar o meu.

Will ficou em silêncio, esperando uma resposta de Nico. O ouviu respirar fundo, sem proferir uma única palavra. Will mordeu o lábio, nervoso. Estavam juntos agora, eram um casal, amantes, qualquer que fosse o termo que usassem no relacionamento deles. Podiam compartilhar bens, sua companhia, seus corpos. Seus sobrenomes.

Era um compromisso que William nunca imaginou poder propor à alguém. Seu coração bombeava intensamente em seu peito, o som ensurdecedor em seus ouvidos esperançosos.

Será que Nico também gostaria desse tipo de compromisso?

Ouviu o prato sendo depositado no chão. A mão de Nico envolveu o pulso de sua mão que segurava o chapéu, afastando-a delicadamente. Will virou o rosto em sua direção, soltando o ar aliviado para a feição emocionada de Nico. Teve seu rosto envolto pelas palmas quentes de Nico, seus olhos presos nos caramelos do pirata.

— Tudo bem eu usá-lo? — inquiriu Nico, o tom tão baixo e tão esperançoso, como se temesse uma repentina recusa após um presente tão quisto.

Will teve que sorrir. Ele estava se doando completamente, e precisava que Nico soubesse receber sem temer que William recuasse. Não o faria. Não de novo. Nunca mais machucaria Nico dessa forma tão covarde.

Se ele se doasse, não teria mais volta.

— Eu quero que você use. — garantiu o doutor, apoiando as mãos sobre as de Nico, inclinando levemente a cabeça, focando no olhar emocionado do pirata, o brilho em seus olhos caramelos cheios de um amor que Will mal conseguia explicar: — Estamos juntos, Nico. Compartilharmos sobrenomes é natural, não é?

Nico soltou uma risada úmida, concordando com a cabeça.

— Você não pode me fazer chorar dois dias seguidos, William. Eu tenho uma reputação. — ele brincou, puxando Will para um beijo.

Will fechou os olhos, envolvendo os dedos na camisa preta de Nico, sorvendo do beijo intenso; os lábios entreabertos, o toque de suas línguas num arrepio cândido em sua coluna; os dentes de Nico em seu lábio inferior. Will suspirou, torcendo o tecido em seus punhos cerrados.

Nico se afastou, depositando beijos castos em seus lábios molestados, beijos que se tornaram sorrisos largos e radiantes. Will se sentiu contagiado por eles, imitando-os inconscientemente. Abriu os olhos outra vez, para o olhar devoto do Nico.

— Nicollá Solace. — ele comentou então, enrolando a língua ao proferir seu sobrenome. Will se arrepiou pelo tom rouco do pirata, o sorriso aumentando em seu rosto: — Gosto da sonoridade. Gosto demais, meu amor.

William o puxou de volta para mais um beijo, desta vez o impedindo de interrompê-lo antes de se ver saciado; antes de se deixar levar pelo tremor em seu corpo, intenso e fugaz, queimando sua pele a cada toque das mãos de Nico em seu corpo.

Jogou a cabeça para trás, saboreando o sentimento ardio.

Nicollá Solace.

Will não sabia que podia amar tanto alguém até compartilhar tudo que tinha e não sentir falta do que foi dado.

Não precisava de nada de volta, contanto que aquele nome continuasse a ecoar em sua mente, estremecer sua pele; deixar seus lábios numa lamúria agressiva de ofegos e suspirares.

O mar nunca pareceu tão familiar.

Ancoraram em Siracusa no dia seguinte.

Nico abaixou a bandeira Italiana no instante em que avistaram a costa de Siracusa. Nico lhe contou que só a manteve hasteada por proteção, caso encontrassem algum navio à distância. Não seriam questionados se se mantivessem na rota comercial, mas preferiu a cautela.

As coisas mudaram quando as águas se tornaram hostis novamente. Nico lhe contou sobre a cidade, sobre o número excessivo de piratas coexistindo no litoral Italiano, como o crescimento do Caribe contribuiu para o aumento da pirataria em águas europeias.

Não era como Tortuga ou Port Royal. Era sutil, uma existência nas sombras, em lugares que se deve saber procurar. São raras as cidades litorâneas sem um único informante pirata nos bares clandestinos.

— Ravenna era pequena demais para ter um. Por isso eu ocupei esse cargo. — Nico comentou ao lado de Will enquanto ancorava no porto.

Will rolou os olhos, observando o cais tão cheio de vida. Era diferente de Ravenna, onde o canal era de uso quase exclusivo da Marinha Italiana. Ali havia mais vida, mais pessoas percorrendo o cais em vestidos coloridos e tabacos entre seus lábios do que Will jamais viu antes.

Nico caminhou até a lateral do navio, soltando a corda que prendia a âncora enquanto Will mantinha o navio reto no curso. Começava a entender o motivo de um navio ter tantos homens. Muitas das funções requerem diversas pessoas para executá-las, uma delas sendo as âncoras — quando soltá-las ou puxá-las de volta — ou as velas que precisam ser recolhidas num trabalho manual. Uma tripulação seria de grande ajuda para Nico, já que William mal conseguia ficar de pé no leme antes de começar a enjoar novamente.

Com a ancoragem feita, os dois desceram para o píer, pagando a pequena tarifa antes de entrarem no mercado da cidade.

Como em qualquer outro, era repleto de pessoas num ir e vir apressado. Mercadores anunciando os itens de suas bancas em alto tom, gesticulando àqueles com feições curiosas ou perdidas vagando pelo mercado; pessoas com cestas de flores, oferecendo presentes aos casais em passeio, depositando lírios brancos em mãos distraídas.

William se viu deslumbrado pelas cores das especiarias, os cheiros picantes e intrigantes atiçando seu paladar. Acabou sendo guiado por sua curiosidade, ouvindo os vendedores explicarem pacientemente sobre cada uma das mercadorias exóticas vindas da Índia. Temperos secos e fortes ao paladar europeu, mas definitivamente divinos na culinária típica deles.

Se virou para Nico, numa curiosidade velada.

O pirata concordou, cruzando os braços.

— Acho as comidas asiáticas fortes, mas gosto do sabor. — explicou Nico, gesticulando aos grãos de café alguns sacos de distância das pimentas: — Igual o café. Forte e amargo, mas definitivamente algo que deveria provar.

Will murmurou, pensativo.

— Talvez na volta. — comentou então, acenando para o mercador ao deixar a banca.

Nico apareceu do seu lado, envolvendo seu pulso com os dedos levemente. Will o observou, curioso.

— Caso você se perca novamente. — brincou, divertido, puxando-o em direção à onde supostamente deveriam ir.

Will se deixou ser guiado, observando as bancas enquanto Nico comentava sobre terem tempo de olhar o que quisessem depois da visita ao bar. Sabia que era uma viagem importante para Nico, portanto permaneceu na linha.

Mas voltaria pelas especiarias, definitivamente.

Quanto mais se aproximavam do bar, mais Will se via exposto ao que seria o seu mundo a partir de agora. Foi como transitar de uma tela pintada por Botticelli para uma obra de Caravaggio. Algo belo e colorido para cenários escuros e vulgares.

O aroma do álcool invadiu seus sentidos, mesclando-se aos perfumes doces e ao tabaco no ar. Risadas altas e avogaladas ecoavam pelos becos em conversas exageradas ao redor de mesas de madeira com apostas de cartas.

Havia movimento nas ruas com crianças correndo, perseguidas por cachorros eufóricos atrás de gravetos nas mãozinhas pequenas, desviando de mulheres esguias em movimentos charmosos e cheios de curvas.

Era uma imagem caótica, mas havia algo de belo e divertido nas risadas libertinas e nas feições cheias de sorrisos.

Do lado de fora do bar, Will conseguia ouvir as vozes altas e divertidas em conversas sob influência do álcool em seus corpos. Como um lugar fechado poderia ter tantos sons altos diferentes era um mistério para William. Ao pisarem dentro do estabelecimento, uma voz ecoou pelo bar, forte e potente com a leveza de tons femininos que comandam e sabem que são obedecidos.

— Levesque! Seu filho da puta! — a frase pareceu sacudir o ambiente, atrelando-se às conversas ininterruptas ao redor. Nico virou o rosto em direção ao bar, sorrindo para a mulher do outro lado.

Will a observou. Seus cabelos eram fartos e cacheados em tons claros de ruivo, tão característicos do povo do norte da Europa, soltos em seus ombros nus num vestido liso e simples em cores de verde e marrom com um colete por cima do vestido, emoldurando a cintura decorada pelo coldre. Duas armas de fogo, uma de cada lado.

Seu sorriso era afiado, seus olhos verdes os mediam com curiosidade, depositando duas canecas pesadas de metal na mesa, o colarinho escorrendo pelas bordas.

— Dare. — cumprimentou Nico, apoiando-se na bancada de frente para a moça, soltando o pulso de Will: — Já faz um tempo.

Ela riu, debochada.

— Sua presença na Itália é mais rara do que alguém sóbrio nessa cidade, e olha que eu nunca vi um. — comentou então, cruzando os braços frente ao peito, desconfiada: — O que faz em Siracusa? Da última vez que o vi estava fugindo daqui como a peste.

Nico suspirou, gesticulando para o fundo do bar.

— Teria alguns minutos?

Seus lábios se juntaram, sua desconfiança acentuou. Will observou a troca de olhares, a competição acirrada entre caramelo e oliva. Por fim, ela suspirou, gesticulando para uma das moças junto a ela no bar.

— Leve três canecas para o segundo andar. Fique no bar. — orientou simplesmente, saindo para o centro do estabelecimento.

— Sim, senhora.

Nico a seguiu então, se virando para William brevemente, sorrindo encorajador ao retomar seu caminho para o segundo andar. Will se manteve próximo, observando o ambiente com mais cautela.

Havia um grupo de homens no fundo do bar com cartas nas mãos e canecas de bebida empilhadas no centro; mulheres inclinadas sobre encostos de cadeiras entre sorrisos intrigantes e moedas entre seus dedos melados. Uma delas piscou para ele, o seguindo com o olhar até que desaparecesse nas escadas.

Chegaram num segundo andar vazio, a mesa era pensa e com cheiro forte de bolor e bebida velha. Se sentou ao lado de Nico, apreensivo. A moça sorriu para William.

— Rachel Dare, ou só Rachel. Você decide.

Will sorriu de volta.

— William Solace. Muito prazer, senhorita.

— Oh, educado. — se virou para Nico, provocando: — Deveria aprender com ele.

— Eu sou educado.

—Só se o nosso sobrenome for Ramirez. — ridicularizou, aceitando a caneca de cerveja da garçonete.

As outras duas foram colocadas na mesa. Rachel tomou um gole generoso da cerveja antes de se inclinar na cadeira.

— Certo, manda.

— Estou com um navio vazio, com somente William e eu de tripulantes. — explicou por enfim, os braços cruzados sobre a mesa: — Preciso chegar ao Caribe. Sozinho é impossível, então estou atrás de uma tripulação.

— O que houve com a sua?

— Me separei dela por um tempo, mas vou me reencontrar com eles no Caribe. — completou, segurando a alça da caneca e tomando um gole da sua bebida, devolvendo-a à mesa.

Will retornou o olhar para a sua, observando a espuma branca escorrendo pela borda da caneca, o cheiro forte da cerveja incomodava seu olfato. Não estava muito confiante com o gosto.

— Preciso da sua tripulação. — admitiu Nico, firmando o olhar na dona do bar.

Will se virou para Nico, chocado. Ouviu histórias sobre Reyna, LaRue e várias outras mulheres que são Capitãs Piratas, fortes ao ponto de forçar um homem de joelhos e implorar por clemência. Sempre viveu em uma sociedade cristã, com a nobreza sendo dita como modelo de boa conduta, e ver uma mulher como Rachel, com o queixo erguido e a confiança de alguém que sabe estar no controle de uma conversa, o deixou encabulado.

Rachel estalou a língua, um quê de curiosidade em seu olhar.

— O que eu ganho?

Nico sorriu, entortando a caneca em um único gole, depositando-a ruidosamente na mesa. Estendeu a mão para pegar a caneca de Will, ainda intocada.

— O navio que estou comandando no momento. — respondeu confiante, seu olhar fixo em Rachel.

A mulher pareceu surpresa, com a caneca paralisada no ar. Will também estava. Não sabia que o navio era parte da barganha. Havia sido um presente de Giovanni, afinal.

— Qual navio?

— Uma caravela italiana. — o sorriso de Nico era sardônico, daqueles que sabem quando um assunto ou um fato se tornam o momento chave de uma negociação.

Rachel assobiou alto, incrédula. Uma risada escapou de seus lábios, inclinando-se para frente.

— Uma caravela novinha? Sem devolução?

— Sabe que não preciso dela, Dare. — Nico olhou em volta, assegurando-se da privacidade que Rachel havia lhes proporcionado. Apoiou os cotovelos na mesa, seus cabelos escorregando pelo ombro, cobrindo seu rosto numa penumbra intrigante: — Eu comando a morte, afinal.

Rachel puxou o ar entredentes, a feição chocada ocupando seu rosto repentinamente pálido.

O Rei Fantasma…

— Me ajude e terá minha palavra de que você e sua tripulação estarão entrando em um acordo vantajoso. Eu posso lhe dar essa vantagem, posso forjar essa vantagem ou roubá-la. — o sorriso de Nico continuava em seu rosto, rasgando sua feição em algo grotesco e desconcertante. Will estremeceu, desviando brevemente o olhar do amante: — A queda de uma senhora dos mares e a ascensão de outra.

Rachel inclinou-se na mesa, rosto quase colado ao de Nico: — Quem?

Nico voltou a se sentar ereto, umedecendo os lábios com a ponta da língua.

— Se torne minha imediata nessa missão até o Caribe e descobrirá. Me dê a melhor tripulação que tiver, a melhor que você precisará, e então poderá realizar seu sonho de criança. — o sorriso de Nico suavizou: — Desbrave o mar, Rachel. Deixe que ele te ame tanto quanto o ama.

A dona do bar ficou em silêncio, o som das risadas do andar inferior finalmente quebrou a bolha que os envolvia na mesa, quase ensurdecedor. Will soltou o ar pesadamente, o coração palpitante, o olhar preso em Nico. Agora entendia o motivo de ser um homem temido tanto como nobre quanto pirata. Havia algo em seu tom de voz, em sua postura hirsuta, em seu olhar sagaz que ditava regras sem questionamentos.

Sempre com a última palavra, a última peça de um quebra-cabeça que William sequer tinha noção de que estavam construindo.

Pensou que Rachel quem comandaria a conversa, mas Nico o surpreendia a cada dia a mais que passavam juntos. Sorriu, algo quente se espalhando em seu peito ao ver a determinação no olhar de Rachel.

Orgulho.

— Temos um acordo, Levesque. — ela lhe estendeu a mão, a palma calejada de quem luta com mãos limpas. Mãos de um soldado, de um sobrevivente.

De uma Capitã Pirata.

Nico a apertou, concordando com a cabeça.

— Parece que temos, sim.

Retornaram ao navio tarde naquela mesma noite.

Após a conversa com Rachel, Nico o levou a um restaurante na avenida principal, longe dos becos escuros e lúgubres perto do cais. Passaram a tarde juntos, explorando a cidade portuária, visitando lojas de bugigangas, feira de trocas — Nico conseguiu uma adaga nova, com um sorriso divertido no rosto e um “Será útil” nos lábios. Will somente concordou, não duvidava que realmente fosse ser —, além de retornarem pelas especiarias indianas e mais mantimentos não perecíveis.

Teriam mais pessoas entre eles por meses, e Nico pagou pela entrega de um carregamento imenso de comida. Pelo que descobriram mais cedo, pólvora e armamento forravam os andares inferiores da caravela, sem a necessidade de reestocar.

Will aproveitou para devolver seus pertences espalhados pela popa de volta à cabine. Ali, sob a luz das lamparinas que Nico acendeu — podendo, nesse caso, acender todas que desejassem na proteção do porto —, pode finalmente ter um vislumbre da cabine.

Um armário balcão ocupava todo o entorno do cômodo, logo abaixo das janelas amplas. A cama se encontrava à direita, em cima de um palanque de madeira avermelhada com duas escrivaninhas uma de cada lado.

No centro, um conjunto de sofás e uma mesinha, no fundo à esquerda uma mesa grande, com oito cadeiras e um candelabro cativante fixado na mesa. Will passou a mão pela superfície, sentindo as bordas elevadas, como uma proteção intrigante. Sorriu pequeno para o lugar, era bem aconchegante. E, com mais pessoas vigiando o navio, poderiam compartilhar a cabine dali por diante, os dois juntos, sem ter que dormir no chão da popa ou passar dois dias em claro com a desculpa de precisar navegar.

Ouviu o som de botas no assoalho. Se virou para Nico que entrava na cabine, uma corrente pendurada em sua mão enluvada. Sorriu para Will.

— Preciso que fique com isso. — esticou a mão para o amante, o induzindo a pegar o objeto.

Will sentiu o peso da chave em sua palma, robusta, mas belamente trabalhada no ferro retorcido. Ergueu o olhar para Nico, curioso.

— Essa chave é para…?

— É da nossa cabine. — respondeu, se aproximando de William. Segurou a mão com a chave com ambas as suas, fechando-as sobre ela: — É muito importante que sempre, sempre, tranque a porta ao entrar aqui. Não importa que seja por dois minutos para buscar um livro ou qualquer que seja o motivo. Me entendeu?

Will franziu a testa, confuso.

— Tudo bem, mas por quê?

Nico respirou fundo, beijando a ponta de seu nariz.

— Paranoia minha. — disse por fim, suspirando: — Muita paranoia e experiência.

— Tudo bem. Eu vou trancar. — Will prendeu o colar em seu pescoço, arqueando a sobrancelha para Nico: — Mas e você? Tem a chave?

— Tenho uma cópia. — respondeu ao retirar sua corrente do pescoço, agora com duas chaves e nenhum anel de caveira: — Só nós dois temos acesso à cabine. Ninguém entra sem nossa permissão.

— Não se preocupe. — Will garantiu, envolvendo o pescoço de Nico com os braços: — Ficarei bem.

Nico suspirou, escondendo o rosto em seu ombro ao envolvê-lo pela cintura, apertando o abraço. Will se deixou ser tomado pelo tempo que Nico precisasse, acariciando seus cabelos soltos com ternura. Nada demais aconteceria, sabia disso, mas também estava em terreno desconhecido. Se Nico lhe pedia com tanta convicção, não havia motivos para não o fazer.

Mas isso despertou uma curiosidade nova no doutor, uma que talvez não desejasse realmente saber.

Na manhã seguinte, Rachel chegou com mais de quarenta homens atrás dela. Will estava atrás de Nico na popa, observando-os entrarem no navio com seus pertences e risadas divertidas nas conversas boêmias. Eram os mesmos homens do jogo de cartas no dia anterior no fundo do bar de Rachel, Will notou.

— Já estava preocupado. — Nico brincou em voz alta, descendo as escadas ruidosamente, medindo os homens que se calaram imediatamente ao tenor em seu tom.

Rachel sorriu largo, acenando para William e ignorando Nico completamente.

— Oi, Will!

— Bom dia, Rachel.

— Sempre tão educado, acho uma graça. — respondeu divertida, dando uma volta no lugar, analisando o navio que seria dela no final da jornada: — Impressionante. Ainda não acredito que roubou um monstro desses.

— Comprei, mas não vem ao caso. — Nico sacudiu a mão no ar, desinteressado no assunto do navio já discutido anteriormente: — Trouxe vários homens. Conhece todos?

— Conheço os que preciso conhecer, mas para uma viagem que atravessa o Atlântico em águas piratas? Precisamos de mais que confiança, Nico. — respondeu, afiada.

Nico bufou, mas pareceu satisfeito.

— Serve.

Se aproximou do grupo de homens no convés, seu olhar percorrendo cada um de seus rostos. O silêncio pesou no navio, a frieza e a postura ereta de Nico impunham liderança; o tipo de liderança a qual você se curva e aceita ser comandado. Os homens se remexeram, desconfortáveis.

Rachel se aproximou de William.

— Erga os ombros, Will. Imponha respeito ou não receberá nenhum. — orientou a mulher, as mãos entrelaçadas atrás do corpo.

Will assentiu, ajeitando sua postura imediatamente.

— Hoje, vocês fazem parte de uma tripulação temporária que partirá de Siracusa até o Caribe. Sem paradas, sem saques. Uma viagem direta à Tortuga. — respondeu Nico, o tom altivo de sua voz estremecendo a pele de Will: — Estarão sob meu absoluto comando pelas próximas semanas. Não são os primeiros homens que tenho que lidar, e não seriam os primeiros corpos a sujarem o chão do meu navio.

O silêncio prevaleceu, escondido atrás de sombras criadas pelo sol amanhecido.

— Sou o Capitão desse navio. Nico Solace. — introduziu-se, um brilho divertido em seu olhar. Rachel soltou o ar, surpresa.

Solace? — murmurou ela ao lado de Will.

Will mal conseguiu esconder o rubor em seu rosto, mas fez seu melhor.

— Como Primeira Imediata, Rachel Dare ocupará essa função. — Nico gesticulou para ela e, por fim, para William: — E este é William Solace, o médico dessa embarcação.

Will deu um sorriso, a lembrança da conversa na noite anterior retornando para ele.

“Eu estava pensando em introduzi-lo como médico. Aceitaria?”

Will sorriu: “Claro. Eu sou médico, e exercer esse trabalho aqui seria minha única contribuição.”

— Mas ele também tem outra ocupação nesse navio, uma que jamais deve ser quesitonada. — O tom de voz de Nico era mordaz, uma ameaça velada em vogais pesadas.

“Não será sua única.” Nico ergueu a cabeça de seu ombro, o olhar hesitante: “Lembra de quando me perguntou o que éramos? Antes de eu partir para o Ducado? Que eu disse que nos via como amantes, mas que não era a palavra que eu buscava?”

“Me lembro, sim.”

“Eu sei qual é, mas nunca tive coragem de lhe contar. Tinha medo de influenciá-lo a fazer uma escolha. Gostaria de passar a introduzi-lo com ela.”

Will piscou os olhos, repentinamente curioso.

“Qual?”

— William Solace é médico desse navio e meu Consorte. — disse então, enfrentando com olhares afiados expressões de choque e outras desinteressadas: — O segundo no comando dessa embarcação, com o poder de jogá-los para o mar sem sequer precisar me tirar da cama.

Will fechou os olhos, sentindo o peso daquela palavra em seus ombros, a responsabilidade de ser o ponto fraco de Nico, por hoje e para sempre.

Capitão e Consorte.

Sorriu, então. Satisfeito.

— Fui claro?

Sim, Capitão! — as vozes de mais de quarenta homens estremeceu o chão do navio, causando em Will um estremecer arrepiante.

Nico sorriu, então.

— Guardem seus pertences e assumam suas posições. Partiremos daqui para o Caribe por águas amaldiçoadas, num trajeto que reduz a viagem pela metade. Vocês tem um quarto de hora. — Nico deu às costas aos homens, os dispensando.

A tripulação desceu para o primeiro andar, onde se instalariam pelos próximos meses. Nico se aproximou de Rachel e Will, trocando um rápido olhar com seu amante.

— Pelo menos trocou as velas, Solace? — provocou Rachel, sorrindo ladina: — Não quero chamar atenção com velas brancas.

Nico riu, seguindo para o mastro central da caravela. Desamarrou uma das cordas, segurando-a com sua esquerda.

— Minha cara Rachel, eu nunca faço as coisas pela metade.

Soltou a corda, a vela negra descendo em cascata pelo mastro, sacudindo pelo vento intenso do Leste.

Ainda estamos no porto, imbecil! — relembrou Rachel, entre uma risada e uma feição preocupada.

— Bom, melhor lidar com isso. É o seu navio, Rachel. — Nico se afastou, puxando Will para cima na popa enquanto Rachel gritava ordens para zarparem imediatamente.

Nico sorria radiante, uma liberdade avassaladora em sua expressão leve e boêmia. Will entrelaçou seus dedos, vendo pela primeira vez os frutos de uma escolha bem feita. Nico nunca sorriu assim em terra, e nunca o teria feito se o forçasse a ficar.

Ali, Nico podia ser feliz sendo quem era e Will, pela primeira vez em vinte e quatro anos, poderia descobrir quem gostaria de ser. Sem expectativas familiares ou dos moradores de Ravenna. William podia sorrir aos sons de gritos ecoando e o sacolejar do navio deixando o porto.

Seu corpo foi enlaçado pela cintura por Nico, o firmando na partida abrupta do navio, sorrindo para ele da mesma forma a qual vinha fazendo desde que finalmente puderam ser eles mesmos.

Will beijou seu sorriso, tomando para si a euforia que irradiava entre eles, sabendo que poderia o fazer a qualquer momento. Ali, naquele navio, ele quem ditava as regras, e algo nesse fato o satisfazia, e muito. Sorriu por fim, encarando o horizonte com uma perspectiva diferente.

O mar definitivamente se tornou familiar.

Notas finais
Foram 8k de somente solangelo. Ai ai, gosto que agora isso é uma constante né? Eles sempre juntinhos, amo de paixão. Nicollá Solace... GENTE! urheuheurhue essa cena é minha favorita do capítulo, preciso nem falar o pq né? Mais uma das cenas que eu tava me coçando pra poder escrever. Ai, eles estão tão gays e fofos, nem parece pap preciso matar alguém logo. Espero que tenham gostado. Tivemos a aparição da Rachel, um pouco do emocional do Will (que vai continuar nessa constância, porque tá bem fresco), vimos um pouco de Siracusa e agora vamos ao Caribe! Já andaram de barco gente? Cruzeiro, escuna, lancha? Dá um enjoo pq vc jura que ta andando em linha reta e quando vê ta escorado na parede do barco com tudo girando kkkkkkk seu corpo não entende NADA e fica meio sem equilibrio. Ai, o Will vai sofrer MUITO. Me sigam no twitter: https://twitter.com/Babswings Até domingo que vem! Beijinhos~