Pintura de Guerra - One Shot
1 Pintura de Guerra
Notas iniciais
Tive a ideia após ouvir um comentário de uma garota que dizia : "Como podem os homens conseguirem ser bonitos sem usar nada, enquanto nós precisamos nos encher de maquiagem?"
Foi pouco após a ascensão das armas de fogo que tudo começou. A pequena ilha recebia visitantes indesejados, vindos do continente em suas embarcações abarrotadas de jovens soldados, prontos para tomar posse da cidade.
Os habitantes dali não eram totalmente indefesos e também possuíam armas, porém, a quantidade numérica era desfavorável e era uma questão de tempo até que fossem subjugados.
A balança pendia cada vez mais para uma derrota completa dos habitantes da ilha a medida que sua motivação e esperança ia caindo, até que governante da cidade apostou todas as suas fichas em uma última cartada.
Não era uma arma letal, pois não havia algo assim à disposição, nem uma grande estratégia militar, pois ninguém possuía tal conhecimento. O governante, cuja a maior característica era a eloquência que, inclusive, foi um dos motivos que o levou a tornar-se um líder, reuniu à todos no centro da cidade para um grande discurso. Um discurso motivacional.
Seus discursos eram sempre cheios de emoção e contagiantes, mas não era essa a cartada final. O discurso serviu apenas como meio de preparar os habitantes para o que estava por vir.
Ele relembrou dos antepassados, nos primórdios da civilização daquela ilha, onde os grandes guerreiros utilizavam de pinturas corporais como forma de intimidação sobre seus inimigos e, aqueles que voltavam vivos das batalhas, recebiam uma pintura única, que os destacava no grupo, sendo saudados como heróis e recebendo as glórias de sua bravura.
Foi assim que o povo foi convencido a utilizar as ancestrais pinturas corporais dos antigos guerreiros, convertendo-os nos novos guerreiros da modernidade, a fim de proteger a ilha dos invasores.
E assim o fizeram. Os soldados pintaram o tronco, braços e rostos, partindo então para a batalha final, ainda em êxtase pelo discurso motivacional do governante e agora sentindo-se invencíveis guerreiros.
Talvez a pintura tenha servido como distração, não se sabe ao certo, mas o que se sabe é que os guerreiros pintados saíram vitoriosos, mesmo que à custa de muitas vidas.
Os poucos que sobraram realmente tornaram-se heróis e receberam a pintura única, prometida pelo governante, que os marcaria para sempre como os bravos guerreiros que protegeram a ilha.
Com o ego inflado, os soldados faziam questão de dedicar vários minutos de seus dias para refazer a pintura, mas agora apenas em seus rostos, para que fossem reconhecidos de prontidão ao saírem pelas ruas e receberem os mimos dos demais habitantes, despertando admiração e paixões.
O tempo foi passando e alguns homens, mesmo não tendo participado da guerra, começaram a utilizar a pintura. Não havia uma lei, mas todos respeitavam, utilizando apenas a pintura padrão, que podia ser facilmente diferenciada daquela utilizada pelos heróis, chegando à um ponto onde praticamente todos os homens tinham seus rostos pintados.
Alguns começaram a modificar levemente o formato das pinturas, novos traços surgiram, novas cores, novas tintas, novos tons, sempre levados pela vaidade, até chegar ao ponto onde ninguém mais lembrava de como era quando os homens não cobriam seus rostos.
As mulheres, por sua vez, eram mal vistas se ousassem sair em público com algo mais do que a própria pele de seus rostos desnuda e tornavam-se motivo de chacota pela sociedade.
Na era atual, seguidamente mulheres de rostos pintados aparecem em programas humorísticos em forma de personagens cômicos, arrancando risadas da platéia. E, da mesma forma, homens sem pintura de guerra são mostrados como afeminados, também em programas humorísticos.
Por volta de vinte à quarenta minutos por dia, os homens dedicam-se, em frente ao espelho, a refazer sua pintura de guerra para que estejam apresentáveis para a sociedade, para se tornarem atraentes ou, ao menos, com uma aparência minimamente aceitável.
Um homem com uma pintura de guerra mal feita? É desleixado. Não se cuida. Como vai arranjar um amor assim? Ninguém vai querer.
Não são poucas as vezes em que, atrasados, os homens terminam de retocar suas pinturas já no ônibus ou trem, à caminho do serviço, demonstrando grande habilidade com um pincel e um pequeno espelho. Pintura de guerra às pressas é melhor que pintura de guerra nenhuma. Como vão atender clientes sem estarem apresentáveis?
No jornal, alguns homens fazem um manifesto chamado: “De Cara Limpa”. Contra o tabu intrínseco da sociedade que faz com que os homens sejam escravos da pintura de guerra, mas a maior parte das pessoas torce o nariz, tanto homens quanto mulheres.
“Onde já se viu homens sem pintura de guerra?”
“Bando de afeminados que querem acabar com a nossa sociedade.”
“Eu é que não ficaria com um homem que não quer ficar bonito para mim.”
No ônibus, enquanto completa sua pintura, um homem observa uma mulher, em pé próximo à porta, com seu rosto desnudo, apenas pele, sem nenhuma camada de tinta e pensa consigo: “como podem as mulheres serem tão lindas sem precisarem de pintura de guerra?”
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