Piltover's Finest
25 Capítulo 23 - Recomeço
Notas iniciais

Batidas leves ecoam a partir da porta, ainda muito cedo pela manhã. O sol, ainda timidamente trazendo seu brilho dourado ao mundo, tinge de vermelho e roxo o céu escuro noturno, calida e serenamente anunciando o dia que nasce. A maçaneta gira.
– Riven?... — a monja exclama baixo, colocando a cabeça para dentro do cômodo, procurando-a.
A general exilada, sentada em um dos lados da humilde cama, com a magnânima ombreira do exército noxiano em uma das mãos e uma faca na outra, raspa já com um ânimo afetado a gravura do emblema dos dois machados de guerra da peça, a indicação de sua origem, sua missão, por quem luta. A monja, finalmente adentrando o pequeno quarto arrumado de improviso para a hóspede, aproxima-se lentamente.
– Logo que abandonei minha divisão, a primeira coisa que fiz quando finalmente deixei de correr foi tomar uma faca e começar a raspar o símbolo que identifica o Exército de Noxus. — ela voltava o símbolo para si, como se fosse capaz de olhar nos olhos de quem fora antigamente naquele reflexo distorcido pelas inúmeras cicatrizes no metal — Com um misto de fúria e... medo, eu lembro de descontar toda aquela raiva, toda aquela primeira frustração no metal, mas o símbolo não sumia. É como se Noxus se impregnasse a todo custo em seu passado e é impossível apagar sua marca; sempre haverá um resquício inextinguível de Noxus para te lembrar o que você é, seja para o bem ou para o mal...
Karma observou a peça de armadura flagelada nas mãos da fugitiva, onde apesar das duras marcas contra o metal, ainda era possível ver, em tinta branca contra o fundo verde-escuro, o brasão de armas da cidade-Estado conquistadora. Sentou-se ao lado dela.
– O passado é algo extremamente difícil de se apagar, Riven; por mais que as marcas principais desapareçam... — ela começou a tirar o bracelete de um dos pulsos — ...restam sempre cicatrizes para nos lembrar do que fizemos, o que aconteceu... — sob o bracelete, grandes faixas irregulares de pele fina e retorcida jaziam, cicatrizes do que pareciam ser grandes e antigas queimaduras que ficariam lá para sempre, escondidas pela monja por algum motivo completamente desconhecido — O passado não se desfaz. Ele compõe o que nós somos... Mas isso não significa que você não possa escrever um novo futuro.
Distante demais para absorver as palavras da mulher sob encargo daquele lugar, a noxiana continuava fitando absorta a ombreira desgastada.
– Os camponeses que serão treinados estão prontos?
– Pedi que se reunissem antes do amanhecer no jardim próximo ao antigo campo de meditação da lótus. Creio que seja um lugar digno; é aberto, porém ao mesmo tempo protegido. Ninguém interferirá em suas aulas.
– Ótimo. — levantou-se, quase com indiferença, e rumou para a porta vestindo a sóbria túnica branca envelhecida, a cinta vinho e restos de sua antiga armadura que, por algum motivo, resolvera manter consigo. A ombreira não. Queria, ao máximo, esconder sua identidade, principalmente para evitar um levante enfurecido contra ela justamente no único lugar em que conseguira se instalar após tanto tempo vagando a esmo. Quando atingiu a porta, seguida imediatamente pela monja, virou-se ligeiramente, uma voz ríspida e um olhar duro — E não pronuncie meu nome. É um nome conhecido entre as fileiras noxianas; é melhor que não chegue às colônias.
~¨ ~
A monja e a guerreira desceram a interminável escadaria que levava ao Templo da Lótus, seguindo para uma outra construção cuja entrada, tomada por heras e vinhas, quase perdia-se ao pé da colina. Um pequeno portão de ferro levava ao corredor sustentado apenas por colunas, sem paredes, que logo dava vista ao que um dia deveria ter sido um lugar simplesmente magnífico. Sim, pois ainda que velho, ferido e abandonado, o antigo campo de meditação ainda era capaz de tirar o fôlego de seus visitantes.
– A guerra chegou muito próximo daqui. Conseguimos enviar muitas pessoas para longe da cidade quando soubemos da chegada das tropas noxianas, mas os que não puderam fugir... ou os que preferiram lutar... — neste momento, Karma esboçou um leve sorriso que atenuava sua expressão reflexiva enquanto contava sobre aqueles tempos de fúria — ...eles se alocaram aqui e no Templo. O Templo da Lótus não foi tocado, mas os campos de meditação sofreram com as batalhas.
Riven ia escutando o que a governante contava enquanto a seguia do corredor para um caminho entre pequenos arbustos decorativos, mas sua atenção, pouco presa aos costumes de Ionia, logo se desviara ao observar o que acontecia no primeiro círculo de meditação por onde passaram.
"A moça da província." constatou para si mesma com alguma surpresa. Sua atenção fora captada primeiro por lâminas que flutuavam e atacavam no ar, como se mãos invisíveis as brandissem. Impossível. Aquilo era fascinante; imagine todas as novas possibilidades que um exército teria num combate caso possuíssem aquela habilidade de manejar muito mais do que duas lâminas! Não gostava da ideia de combate à distância, coisa de gente covarde... Mas pelas lâminas que voavam, a ex-general se apaixonou... "Quem será que..." ma pôde completar sua pergunta, a resposta já lhe apareceu, e daí o espanto. A moça da outra província. Aquela da qual ouvira o relato e vira chorar em desespero. Não a julgara propriamente "indefensável", visto que trazia sangue em suas roupas e alegara ter matado quase vinte homens, mas também definitivamente não a vira como uma guerreira, chorando desamparadamente da forma como lembrava. Ainda assim, talvez uma oponente notável.
– ...e então, pensando nisso, eu queria saber: vamos precisar de... ...Riven? Riven, você escutou alguma coisa do que eu disse?!
– Que técnica é aquela? Você sabe fazer?
Karma seguiu, com algum desapontamento, o olhar da outra e então encontrou Irelia treinando num dos círculos, a alguma distância.
– É o estilo Hiten, criado pelo mestre Lito, antigo governante da província do Placídio. Lito era simplesmente inacreditável nas artes marciais e o estilo Hiten é a expressão da iluminação que o mestre alcançou, mas ele fora morto na primeira investida de Noxus, a mais brutal. Irelia é filha dele e hoje é a única pessoa a manter vivo seu legado.
A moça de cabelos brancos observava os movimentos fluidos e precisos da jovem à distância...
– Podemos prosseguir? — indagou Karma
– Claro.
Ao final da caminhada, um amplo gramado se estendia antes do primeiro arbusto esculpido e dos caminhos de pedra e areia que delimitavam o jardim do campo de meditação. Nele, pouco mais de uma dúzia de pessoas — homens e mulheres de variadas idades — esperava pelo treinamento a ser dado pela ex-general. Não tinham nem sinal de armadura e as espadas eram feitas de madeira, sem o peso de uma espada real; seguravam errado a empunhadura!!
– Isso são suas tropas?!
– Essas foram as pessoas que se voluntariaram até agora; me desculpe, mas faz só três dias que decidimos fazer isso.
– Karma, as pessoas podem te chamar de sábia por aqui, mas eu particularmente acho que você é LOUCA!
Discutiam em sussurros enquanto se aproximavam dos aprendizes, Riven perplexa ao ver aquilo e Karma com um sorriso divertido no rosto, como se soubesse de algo grandioso que ninguém mais sabia...
– Meus amigo! — a monja exclamou em tom alto e claro, com aquela aura de felicidade latente e satisfeita com a qual acordara, e imediatamente a atenção de todos estava cativa por ela — Hoje algo novo se inicia em nosso vilarejo. Não mais seremos vítimas do metal frio que um dia nos assolou, mas nos tornaremos mestres e amigos dele para que possamos então proteger tudo aquilo em que acreditamos... Esta é a monja Anala — quando Karma proferiu o nome, referindo-se a Riven, a noxiana não pôde deixar de notar um dos jovens aprendizes que segurou muito mal uma risada debochada. Fulminou-o com o olhar, fazendo o rapaz estremecer quando percebeu que ela tinha percebido, e então, vê-lo virar-se para Karma numa postura tensa fez com que a general se sentisse um pouco mais contente — uma velha amiga que aceitou ajudar-nos nessa missão. Ela ficará encarregada por vocês e os ensinará a lutar e defender-se. — a monja virou-se para a outra... "monja" — Bem, acho que não há mais tempo a perder. Eles são todos seus... "monja Anala".
A governante saiu com um sorriso jocoso deliciado com a situação, e Riven ia perguntar-lhe alguma coisa, quando de repente ouviu uma risada mal contida de novo. Virou-se de supetão, furiosa, e o rapaz já estava novamente tenso. Fixou o olhar raivoso nele e franziu o cenho, brava, esperando que o recado tivesse ficado bem claro para não ter que expressá-lo de outra forma...
– Está bem! Algum de vocês aqui já teve qualquer treinamento militar com ou sem armas?! — sua voz forte e tom ríspido intimidaram mais do que encorajaram qualquer um dos aprendizes, que ficaram estáticos, de cabeça baixa, tentando não cruzar o olhar com o dela. — EU FIZ UMA PERGUN...
– Eu! — um homem de meia-idade trêmula e amedrontadamente respondeu. No fundo de seu ser, Riven sabia que ele só tinha respondido para tentar dar um fim àquilo, mas ao menos era um início.
– Ótimo. — tomou a espadinha de madeira do homem, forçou a ponta com as mãos, quebrando-a, e finalmente fazendo com que aquilo tivesse uma ponta afiada, algo que pudesse machucar. Entregou-a de volta ao camponês — Me mate.
– O-o qu...
– VAMOS!
O homem, ofegando aterrorizadamente, não acreditava naquilo. Que tipo de pedido era aquele?!
– ISSO NÃO É UM PEDIDO; VAMOS LOGO! ATAQUE!
Segurando com mais firmeza a espada, o camponês puxou todo o ar que pôde e correu em sua direção, pronto para desferir o golpe mais forte que podia dar.
– AAAAAAAAAAAAAHHHHHHH!!!!!!
Dando apenas uma investida para o lado, a mulher roubou a espada de madeira de um dos aprendizes, desviando do que inutilmente a atacava, e então partiu para seu contra-ataque.
Quando o atacante acabava de virar-se, mal restaurando o equilíbrio, a instrutora prontamente desferiu um golpe pesado demais para uma espada de uma mão só. Mesmo conseguindo aparar o golpe, o homem sentira seu impacto e tivera que recuar, mas a mulher definitivamente não parava.
– IAÁ!! HÁÁAÁ!!!
Cada vez que ela brandia sua espada, avançando com uma velocidade impressionante, o homem tentava defender-se com gigantesca dificuldade, impedido de encontrar qualquer força ou equilíbrio e aproximando-se cada vez mais do chão, enquanto a tesnão apenas aumentava entre todos os aprendizes que assistiam àquela verdadeira surra espantados.
Riven estava de corpo e alma na batalha, lutando som fervor e não poupando absolutamente nenhuma energia. Batalhas só podem ser vencidas se houver plena convicção ao entrar em campo... Mas eis que ela percebeu, em meio à luta, quanto se perdera do objetivo inicial... A força da Grande Conquistadora de Noxus jazia em sua completa certeza quando entrava em uma batalha; Riven nunca havia questionado ou olhado para trás antes de dizimar um oponente, e fora assim que escalara às mais altas fileiras do exército de Noxus... Mas... ...O que fazer quando sua certeza é envenenada? Quando os alicerces de sua convicção e tudo no que acreditava são absolutamente abalados, e uma névoa de constante dúvida paira sobre seus pensamentos, impedindo-a de encontrar novamente seu caminho?...
– P-por favor! P-p-por fav-vor, monja Anala, eu imploro, tenha piedade!
Uma voz a tira de seu transe. Uma voz aterrorizada e súplice, debaixo de seus pés e da ponta de sua espada.
– M-monja Anala, me desculpe, por favor!
Perplexa com a própria atitude, Riven imediatamente deixou de pisar no peito do homem e recolheu a espada ao vê-lo derrotado no chão, e ela prestes a apunhalá-lo mortalmente, como...
...como fizera com milhares e milhares de outros ionianos na guerra.
Ajudou-o a levantar-se; aquele maldito sentimento de falha e angústia prestes a tomá-la e confundi-la novamente; QUE ÓDIO! Virou-se para seus aprendizes. Todos tinham um profundo medo no olhar ao olharem para ela... Seu coração e sua respiração iam disparar de novo...
– Me escutem!– não. Ela precisava mostrar a seu corpo quem estava no comando de si mesma — A especialidade de Noxus é transformar pessoas em monstros. Eles não vão ligar se você é pai, mãe, órfão, se tem uma família; eles sequer vão ouvir qualquer súplica ou grito de dor!... Só o que um soldado noxiano tem em mente é sua superioridade e o compromisso de completar sua missão para honrá-la, e eles não mostrarão piedade... — seu discurso emocionado parecia surtir, ao mesmo tempo, um efeito semelhante, porém diferente do que surti em Karma. Eles não levavam aquelas palavras com a mesma tranquilidade que ela... Mas aquilo somente acendia neles com mais intensidade o desejo de levantar e lutar.
– É por isso que você veio nos ajudar, monja Anala. Ensinar-nos a nos defender.
– Vocês são camponeses e... pessoas comuns. Um soldado noxiano é treinado desde a infância para a guerra; muitos têm somente a vida militar para si...
– Nós também só temos esta vida, aqui em Ionia como camponeses, para nós, monja... — uma jovem se pronunciou com o que parecia ser seu último fio de esperança... Mas um fio que, mesmo tênue, ela aparentava se agarrava com força; mesmo com sua aparência ainda quase infantil, mesmo com sua total falta de experiência bélica, mesmo portando apenas a mísera espada de madeira e nenhum armamento ou armadura a mais, apenas os juvenis e ingênuos cabelos longos soltos ao sabor do vento... — Se nos tirarem mais isso... O que nos resta?
A noxiana exilada mediu a firmeza súplice nas palavras daquela criança que podia muito bem ter sido ela num passado distante... Riven então observou bem seu grupo de aprendizes, um a um. Não havia mais aquele expresso terror de antes em seus olhos, mas havia um fardo muito mais pesado a se carregar... Eles lhe pediam... Eles lhe clamavam... Eram vidas inteiras, histórias inteiras que depositavam-se suplicantes nas mãos dela — nas mãos sujas dela -, implorando que lhe alimentassem com uma última esperança de que aqueles pesadelos iriam acabar... Como prometer aquilo se sequer sabia quando seus próprios pesadelos acabariam?...
– Monja Anala... — um dos mais jovens dos aprendizes, um garotinho pouco mais que uma criança, captou o olhar perdido dela e repousou levemente a mão sobre seu braço. Ela virou-se para ele — ...você sofreu nas mãos de Noxus...
Ela sentia que, para o menino, aquilo era muito menos uma pergunta do que uma constatação a qual ele chegara e que, agora, por pena ou empatia, o fazia tentar confortá-la da forma que achava que ela precisava. Por um instante, a Conquistadora sentiu-se simplesmente fraca. Mas não conseguia dizer exatamente se sentia ódio daquele sentimento de fraqueza. Olhou novamente seus aprendizes e pôde perceber a dor de cada um deles ao se compadecerem dela, compartilhando daquele luto e convalescença generalizados resumidos naquelas singelas palavras: "Você sofreu nas mãos de Noxus". ...Recompôs sua postura altiva e austera de militar, e então devolveu a espada que havia tomado de um deles.
– A decisão não é minha quanto a lutar ou não; vocês não são um exército, e eu não sou a comandante de vocês... — os suspiros e expressões de desapontamento logo vieram, porém a ex-general continuou — ...no entanto, eu prometi algo... a vocês e a mim mesma... e, se preciso, eu pagarei com cada pedaço da minha alma essa promessa de que a guerra acabará em Ionia. — de repente, todos os rostos refletiam um novo espírito de esperança, não mais agarrando-se a ela como água que esvai pelos dedos, mas verdadeiramente desejando-a, vivendo dela e por ela, e, neste momento, aquelas pessoas sentiam-se capazes de tudo... Depois de muito tempo, Riven pôde respirar fundo... e era como se sentisse o ar entrar em seus pulmões um pouco mais leve — Está bem, chega de conversa. Vocês querem mesmo aprender a lutar? Então eu não vou pegar leve...
~¨~
–SITARA, FIRME ESSAS PORCARIAS DE PÉS NO CHÃO! ARRUME ESSA POSTURA; MAIS AVANÇADA; FAÇA DIREITO O GIRO DO PULSO!!!!!– ao final de um dia inteiro de treino puxado sem direito nenhum a descanso, a mulher assistia enfurecida ao embate entre dois aprendizes — QUE INFERNO! VAYU! VOCÊ VAI DEIXAR MESMO QUE ELA TE SURRE DESSE JEITO?! ELA NEM ESTÁ SEGURANDO DIREITO A ESPADA!!!!– os dois alunos claramente não estavam lutando apenas entre si, mas principalmente contra as correções severas que a instrutora fazia. Soldados noxianos eram terríveis? Pff! Vocês deviam é conhecer aquela mulher! — Prestem atenção nos... Uuuuugh! É O SUFICIENTE.
Ao ouvirem aquilo, os dois aprendizes que esgrimavam quase caíram ao chão, aliviados. A instrutora ordenou que o grupo se reunisse.
– Eu diria que tivemos um progresso, um verdadeiramente tímido progresso treinando o básico hoje o dia todo, mas se vocês querem ser páreos para as tropas noxianas, então terão que fazer MUITO melhor... Eu quero que treinem até não aguentarem mais levantar um dedo, até seus ossos doerem ou até cansarem de ouvir a minha voz nas suas cabeças...
– Se for assim, eu já terminei de treinar então... — um aluno zombou em voz muito baixa para que a fera não ouvisse.
– ...e no próximo treino, é melhor que tenham corrigido todas essas falhas que eu já corrigi hoje se não quiserem fazer flexões ATÉ DEIXAREM DE SENTIR OS BRAÇOS. DISPENSADOS. — todos os pouco mais de meia dúzia de aprendizes partiam, exaustos, em silêncio. Sozinha, Riven respirou fundo e sentou-se no chão — Como é que essa gente toda sobreviveu ao ataque de Noxus? Se as tropas tivessem aparecido aqui hoje, seria um verdadeiro massacre!... — aquelas pessoas não eram verdadeiros soldados. Não tinham em si a ânsia bárbara pela batalha, aquele impulso insaciável pela vitória; eram camponeses e monges e crianças e... ex-aprendizes de camponeses e monges, tanto faz. Só queriam tocar suas vidas tranquilamente e ter alguma noção de como se defender... Mas ela havia jurado que transformaria aqueles lavradores em guerreiros, e isso ela ia sim fazer.
Levantou-se e recolheu suas poucas coisas, traçando de volta o caminho pelo qual Karma a trouxera. Ia pensando em coisas pequenas e observando os cascalhos que voavam ao chutar o chão levemente a cada passo, porém aí deteve-se novamente escutando o som de golpes e o movimento letal de lâminas rasgando o ar majestosamente... Decidiu assistir mais de perto àquele treino isolado.
– Há! Iá! Fu-huyáá! — não era como se lutasse contra um oponente, era mais como se treinasse uma coreografia. Apesar do empenho, os... "passos" eram comedidos e limitados, até sua expressão era contida, fluindo através de pequenos gritos monossilábicos... Mas de fato, existia uma beleza exótica naquilo.
– Há... Há! ...Quem é você? E o que está olhando? Iá! — a jovem mulher que treinava indagou sem sequer ter olhado em volta ou desviado sua atenção do treino.
– Isso. — apontou as lâminas que voavam livres pelo ar — Estilo Hiten, certo? Nunca tinha visto...
– Não é algo comum de se encontrar, nem mesmo por estas partes... Não há mais muita gente que conheça esse estilo... Há! ...muito menos que o treine. Iá!
– É bem interessante... Muito útil brandir mais de uma lâmina ao mesmo tempo em diferentes direções, diferentes oponentes... Mas me parece... um tanto limitado.
Irelia tomou um segundo para virar-se e olhar a estranha.
– Ainda não me respondeu. Quem é você?
– Monja... Anala. — hesitou um instante, desacostumada — Antiga amiga da Karma; vim ajudá-la.
– "Aprendiz"?
– O que?
– "Aprendiz" Anala, você quis dizer. Você não tem muito os modos de nenhum monastério que eu conheça... Há! ...e também... não parece o tipo de pessoa que escolheria viver como monge. Me pareceu mais uma aprendiz de Karma buscando ajuda, escondida sob a proteção dela, do que um monge que cordialmente e sem receios chega e se apresenta...
Tomando aquelas palavras, Riven não pôde evitar o sentimento de uma certa pontada no que ainda havia de seu orgulho típico de noxianos... Mas esboçou um leve sorriso sarcástico. Virou-se de costas e começou a andar.
– Humpf... Muita determinação para quem explodiu chorando desesperada por ajuda na sala da Karma outro dia... Você também luta assim do jeito que fala?
A noxiana ficou satisfeita ao perceber o súbito silêncio feito quando as lâminas foram interrompidas abruptamente no ar. Irelia, ainda fervendo com aquela provocação que lhe lembrava a arrogância das tropas de Mme. DuCoteau em sua casa, definitivamente não conseguia mais se concentrar em seu treinamento. Congelou as lâminas no ar e respirou fundo, como havia sido ensinada...
Uma lâmina, de repente, rompeu o ar ao lado de Riven, muito próximo de seu rosto, e foi fincar-se no chão ao lado dos pés dela.
– Você luta do jeito que fala? — a voz de Irelia soou atrás de si.
Hah! Engraçado ouvir suas próprias palavras saírem da boca de outrem como uma provocação... A ex-general virou-se novamente de frente para sua oponente com um ar de triunfo e displicência. Segurou o cabo da lâmina e, fazendo pouca força, arrancou-a do chão e começou a caminhar para dentro do círculo onde a ioniana treinava.
– Me parece que estamos num desequilíbrio aqui... Eu com uma lâmina, você com três...
– Pode usar todas as vantagens que quiser, já que precisa delas para lutar. — Irelia imediatamente colocou-se em posição de combate.
– Vantagens? Hah, não... Na verdade, acho que vou começar lutando apenas com a mão esquerda...
– Aproveite enquanto ainda tem ela.
– Com certeza...
Lançando um olhar desafiador ávido para Irelia, Riven avançou atacando com uma velocidade tal que quase não fora percebida pela mestra do estilo Hiten de Ionia... Quase. No último instante, Irelia fez um círculo com os braços, fechando-os então à sua frente enquanto as três lâminas, juntas, voaram colocando-se entre ela e a lâmina de sua atacante. Sem perder tempo, a mulher girou o corpo, saindo da direção do ataque da outra e, ao mesmo tempo, levando consigo uma das lâminas de sua formação de defesa...
Aquele "escudo" improvisado de Irelia se desfez e Riven avançou ainda um passo adiante antes de deter-se e girar, apenas para encontrar então a moça da província já com um ataque pronto para desferir-lhe pelas costas.
Puxando aquela "espada" com rapidez, a noxiana conseguiu desviar do primeiro golpe, mas teve então que usar a grossa manopla da mão direita para defender-se do segundo ataque que Irelia já aplicava, e sabia que havia ainda uma terceira lâmina para tomar cuidado, mas agora perdera de vista onde esta estava.
"Droga!"
A ex-general ouviu então o ligeiro som do metal rasgando o ar e virou-se a tempo de aparar o golpe mortal que atingiria sua nuca, mas teve que engolir um pouco de suas palavras tão triunfantes e mudar a espada para a mão direita se quisesse lutar com mais agilidade.
– Mudando de ideia, Anala? Achei que estivesse muito fácil pra você...
– Não se precipite; estamos só começando...
Com violência, Riven golpeou a lâmina da ioniana de baixo para cima com força excessiva, fazendo com que perdesse a estabilidade que tinha no ar e, aparentemente, o metal girava desorientadamente no céu enquanto subia como uma flecha, como se tivesse se desprendido do controle da mão invisível que a guiava. Irelia espantou-se com aquilo, mas não podia perder tempo com o que perdera; terminar a luta era o que importava. Com uma destreza assassina, saltou para fora do campo de visão da adversária e lançou as lâminas na direção dela, ceifando o ar em giros estraçalhantes, como se fossem rodas dentadas num frenesi espiral em busca de dilacerar a carne do oponente. Dessa vez a general havia tomado controle da posição daquelas lâminas, todas as três, e então acertou a primeira com sua espada, fazendo-a voar longe; desviou-se da segunda e, no momento que a primeira lâmina que roubara de Irelia começava a retornar ao chão, golpeou o ar com tamanha força que o metal avançou como um projétil em direção a Irelia e...
TZIIIIIM!!!...
...ela usou o próprio decoro ioniano para parar a lâmina!
...Incrível.
Riven não foi capaz de esconder um esboço de sorriso interessado com o que vira daquela técnica... Muito bom...
...mas nada realmente impressionante diante de sua própria espada.
– IÁÁÁÁÁ!!!
Ganhando o ar com um monstruoso impulso, a guerreira aproveita o momento de distração e total vulnerabilidade da outra para aplicar um golpe final de força cataclísmica, porém ao invés de esquivar-se, ela observa a ioniana justamente... avançar em sua direção.
Com a única lâmina que lhe restara, Irelia decide que esta merece o coração de sua desafiante, e então enfrenta-a cara a cara, mirando a ponta magistralmente afiada do metal para o peito da oponente enquanto avança.
Riven decide adiantar o golpe para que sua espada dance entre os ossos do crânio do inimigo e a vitória seja conquistada.
Quase num piscar de olhos, as lutadoras precipitam-se vertiginosamente em direção à outr...
– CHEGA!!!!!
A espada da general e a lâmina da governante atingem assustadoramente o ar; um som ao mesmo tempo estridente e abafado machuca os ouvidos enquanto a atmosfera emite um clarão esverdeado ofuscante.
Karma, com ambos os braços estendidos em direção a elas, arfa, observando tudo com uma expressão perplexa e assustada enquanto pequenas gotas de suor brilham em seu rosto.
– ...O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!
Ambas as lutadoras, que foram ao chão após o violento impacto com o nada, levantavam-se e se recompunham logo. Em seu âmago, Riven sabia que aquela preocupação toda era por causa dela. Irelia, recolhendo a lâmina que caíra consigo e se prontificando a retomar a outra das mãos de Riven, respondeu com total naturalidade, estranhando aquele excesso por parte de Karma.
– Uma monja que fala demais decidiu vir trocar uma palavras... então tivemos uma "conversa". — Karma ainda observava a situação toda sem conseguir articular uma palavra. Em seu interior, o conflito do que sentia e do que pensava pela primeira vez tenebrosamente dividiam-na: o quanto de confiança poderia depositar numa exilada noxiana e o quão preciosa sua ajuda poderia ser a eles? Não conseguia não deixar de expressar aquela preocupação naquele momento, ao chegar de repente e ver as duas rumo a se matarem, mas se seu primeiro julgamento sobre a situação estivesse errado, também não podia denunciar a verdadeira identidade da mulher que estava ali. Contudo, a tranquilidade com que Irelia agia diante de tudo aquilo... — O que houve, Karma? Parece que viu algo; está começando a me preocupar.
– ...E... Eu...
– Desculpe, governante, mas acho que Karma não está acostumada com treinamentos como este e relacionou nossa "conversa" com um péssimo vislumbre do passado... — Riven tomou a frente e falou num tom seco, sem tirar os olhos da monja — ...Vimos muitas coisas nessa vida. Muitas das quais talvez nos assombrem até o túmulo...
A ex-general caminhou convictamente até a monja, que recobrara a altivez. Vinha totalmente desarmada, as mãos à vista. Olhou nos olhos dela; uma expressão fechada como um céu de tempestade... porém muito mai... desapontada que amedrontadora. A monja retribuiu com um olhar duro.
– Acho que está na hora de retornar.
Karma virou-se e saiu. Sem olhar para trás, a general seguiu, acompanhando-a.
– Boa sorte com os treinos, Anala. — a voz da mulher da província entoou flacidamente. Riven apenas continuou andando.
~¨~
Um silêncio absoluto abateu-se durante todo o trajeto subindo as escadas de volta ao Templo da Lótus. A tensão que se estabelecera nos campos de meditação não diminuíra, e parecia que qualquer mínimo movimento mal calculado seria capaz de criar faíscas que arderiam logo num enorme incêndio. Mas, pelo caminho todo, apenas austeridade e silêncio. Aquela mudez manteve-se até mesmo depois de adentrarem o templo e seguirem caminhos distintos. Karma, sentindo os pensamentos misturarem-se como gritos num mercado caótico, rumou para um dos altares mais reservados do templo ao invés de seguir para sua sala. Encostou as portas do recolhido lugar e então, da chama principal acesa no altar presente, acendeu um dos bastões de incenso e ajoelhou-se fechando os olhos, levemente começando a acalmar seus pensamentos e sua respiração...
Um corpo, de repente, irrompeu das portas para dentro da sala onde Karma se concentrava.
– Você também não acredita. Disse que pensava diferente dos outros e até tentou encenar isso, mas você também não consegue deixar de pensar que tem uma víbora do outro lado da porta esperando o momento perfeito para dar o bote!
– Mostre mais respeito; você está interrompendo um momento sagrado.
– Você interrompe a luta e olha pra mim como se eu fosse um monstro, como se eu fosse um pesadelo prestes a se realizar, o pior dos seus arrependimentos, quando eu só estou tentando ajudar uns camponeses toscos...
– Riven, cale-se...
– ...a se tornarem alguma coisa que possa se defender, quando eu estou tentando te ajudar a ajudar essas pessoas, e você sequer é capaz de acreditar um mínimo em mim, mas não fala nada, não olha na minha cara e nem desentala de vez todo esse ódio por mim e por Noxus que você tem na sua gargan...
– VOCÊ QUERIA QUE EU AGISSE COMO VENDO VOCÊ ATACAR A IRELIA?!!
O grito enfurecido da monja ecoou em todo o templo. Era perceptível a pulsação acelerada de Karma e sua respiração ofegante.
– ...eu não sou uma deusa, Riven! Eu tento, de todas as formas, liderar o meu povo da melhor maneira possível; eles sentem fome, sentem medo, e a cada dia há menos motivos para continuar acreditando, mas eu tenho que mantê-los firmes, eu tenho que transmitir a eles a serenidade e alimentar com toda a esperança de que precisam pra seguirem persistindo, mas eu sou só humana!
A voz da mulher não descansara por um instante, não tomara tempo para respirar entre um fato e outro e não perdera aquela intensidade angustiada nenhuma vez, embora seu tom fosse vacilante e um tanto desacreditado... Os cantos dos olhos da monja brilhavam, mas ela se recusava a deixar que aquele estado prevalecesse, se recusava a se mostrar menos firme que a outra líder à sua frente... Começava a sentir o cansaço, mas se comprometera tão profundamente com a missão de suprir os outros com toda a força que necessitavam, que... ...
– ...Eu. Sou só. Humana. ...Eu também vacilo nas minhas crenças, eu também tenho minhas dúvidas... — a voz decidida, porém cada vez mais emocionada da governante ioniana obliterava gradualmente a fúria decepcionada com a qual a exilada fugitiva adentrara a sala — ...Pelos deuses, Riven... Você sabe como é guiar pessoas através de situações difíceis; você sabe... Você ainda recebeu todo o treinamento necessário pra enfrentar as coisas que viu de frente, pra liderar centuriões e impedir que surgisse neles a qualquer momento a vontade de recuar... Imagine como foi para mim acordar um dia e ver meu povo aterrorizado, morrendo em ruas banhadas de sangue... Eu era só uma monja, general... Sequer vislumbrava chegar um dia ao nível dos sábios... E eu ainda sou somente uma monja que se viu um dia com o destino de todas essas pessoas nas mãos...
Quando ela parou de falar, o silêncio novamente se instalou...
...Talvez tivesse perdido um pouco a sensibilidade com o mundo... Na verdade, talvez tivesse perdido absolutamente toda a sensibilidade, lidando com soldados e sendo um soldado desde que se lembra... O título de General a engrandecia, sim, um bocado. Mas, naquele momento, as incontáveis honrarias e insígnias que um dia tivera pareciam começar a pesar, lentamente se transformando num fardo quase incarregável... Era tão simples antes: perguntar e ser respondida. Realizar algo e responder imediatamente por seus atos. Preto no branco, tudo extremamente rígido e impessoal...
– ...Você tem se saído bem, governante.
Karma, que abaixara o rosto para esconder os cantos dos olhos que enxugava antes mesmo que pudessem se turvar, sentiu então a mão que vacilava em tocar seu braço, ainda meio à distância, sem saber como agir... Tomou um pequeno tempo para se certificar do rosto limpo, e então observou que a general noxi... que Riven, um tanto desconcertada quanto ao que fazer, vacilava entre tentar melhorar ao menos um pouco a situação e simplesmente manter a distância que sempre mantinha. Era estranho ver uma figura tão imperiosa parecer sem muita orientação. Secou os olhos, que anuviavam de novo.
– Você... tem feito um muito bom trabalho. — tentava medir as palavras, encontrar as certas que não fossem nem muito emocionais, nem completamente ríspidas; algo que não rompesse a formalidade, mas que também fosse possível servir de algum conforto a uma pessoa... "comum". A monja suspirou, ainda se recobrando.
– Eu estou fazendo o que posso...
– Humpf... Já é melhor que o que eu fiz, pelo menos... — a mulher de cabelos brancos deu de ombros e comentou com um riso sarcástico, sem muita animação. Entendendo o que a fugitiva queria dizer com aquilo, Karma achou melhor simplesmente calar... Tratava-se de um assunto por demais pesado e doloroso, pelo que ela entendia, e não sabia realmente como a outra se sentia ao tocar nele... Mas parecia que as feridas abertas no passado ainda lhe causavam imensa dor... — ...Seu povo está prosperando; mesmo que não tenham aparentemente preparo nenhum, as batalhas que lutaram e o modo como sobreviveram são intrigantes, e hoje ainda conseguem sobreviver todos os dias e ter vontade de lutar...
– Nem todos eles têm...
– Mas você tem. ...Você é a líder deles, Karma. E se eles acreditam e estão com você até hoje, é porque você tomou as decisões certas. Podem até não ter sido as melhores, mas foram certas... Ainda há um povo para você liderar. Agora, dos meus... — interrompeu a fala, não ousando ir em frente... O silêncio repentinamente tornou-se insuportável para ela, permitindo ecoar aqueles fantasmas macabros que atormentavam-na...
...Simplesmente deixou a sala.
– Anala, algo aconteceu à Karma? — Irelia aproximava-se com alguma preocupação, quase sendo deixada no vácuo pela pressa com que a moça passou.
– Desculpe; ela está ali dentro. — avançou para as escadas que levavam ao andar superior e sumiu.
Fechou a porta do quarto atrás de si com força e ficou ainda um tempo segurando-a.
...Correu e puxou, de baixo da cama, um saco de estopa velho e surrado, de onde tirou vários pedaços de pano... peças de roupa sujas e estraçalhadas, que ela puxou com violência e abriu sobre a cama, diante de si...
...Túnicas.
Algumas peças que se costumava usar junto com a armadura. Capa, estandarte, coisas assim, que soldados carregam consigo para a guerra...
...Completamente cobertas de sangue.
Manchas, manchas diversas, enormes; grandes borrões vermelhos das últimas investidas, asquerosas cascas negras de sangue velho coagulado no tecido enquanto mais manchas, mais lama, mais mortes acumulavam-se naquela tenebrosa tela pintada in natura, gota sobre gota, rastro sobre rastro...
...e um odor azedo, pungente, vindo das bordas corroídas e tingidas de verde e marrom onde o ácido — aquele que ela mesma aspirara no último dia e que matara toda a vila de camponeses já rendida, assim como seu próprio pelotão — havia tocado...
– AaaaaAAAARGGHHHH!!!!!!
Com fúria, tomou as peças nas mãos nuas e começou a rasgá-las com um ódio envenenado; por que não conseguia se livrar de uma vez por todas daquela merda de culpa e simplesmente voltar ao seu posto, à sua soberania em Noxus?!! Por que sentia aqueles grilhões prenderem sua alma, quando já havia antes destruído tanto, causado tanto caos e dor? "Eles não são gente, é só passar a lâmina no pescoço; eles não são gente, é só passar a lâmina no pescoço; ELES NÃO SÃO GENTE, É SÓ PASSAR A LÂMINA NO PESCOÇO!..." NÃO! Não era assim, não era aquilo; não conseguia mais pensar naquele mantra com indiferença; sentia ódio, sentia nojo ao pensar naquilo saindo de sua própria boca e ensinando aos outros soldados... Demorou tempo demais para descobrir que não lutavam contra exércitos, mas que estavam promovendo uma carnificina de gente inocente, gente como as pessoas do campo em Valoran, de onde veio; e todas aquelas noites de horror, todo o medo que a fizeram sentir antes de extirpar toda a humanidade de si e finalmente tornar-se General, líder de tropas de cadáveres que marchavam para criar mais cadáveres... DROGA; ODIAVA AQUILO, ODIAVA...
– Senhorita Anala?! — toc-toc-toc — Senhorita Anala! — uma voz abafada soava do outro lado da porta fechada. Imediatamente, sentindo-se exatamente como a víbora que descrevera, escondeu seu segredo venenoso mais uma vez e tratou de fazer com que as coisas voltassem a transparecer a maior normalidade — Senhorita, o jantar já está servido; estamos esperando lá em baixo!
Olhou-se no espelho uma única vez para certificar-se de que tudo estava em conformidade e então abriu a porta. Do lado de fora, um dos acólitos residentes no templo esperava-a com um sorriso amigável, mesmo recebendo apenas o total descaso por parte dela. Desceu as escadas direto, sem pronunciar absolutamente nada, e o acólito acompanhou-a logo a seguir. Na sala de jantar, grande o suficiente para dez ou doze pessoas, duas cadeiras vagas aguardavam Riven e o rapaz que fora chamá-la. O lugar da noxiana ficava a uma das pontas da mesa, acompanhada pelas duas governantes de Ionia. Seu estômago estava revirado com aquele frenesi que não pôde evitar, com aquelas malditas lembranças... E agora, sentada justamente ao lado delas, sumia completamente toda sua vontade de comer.
O jantar não fora silencioso. Ao contrário: uma felicidade efusiva parecia permear as conversas dos monges e acólitos ali presentes. Karma interagia um bocado com eles, rindo e fazendo rir das coisas que diziam, com um ânimo renovado como se os eventos da tarde não tivessem nunca ocorrido. Como era possível relevar tão rápido assim? As duas outras encontravam-se numa mudez confortável; Irelia respondendo o pouco que lhe perguntavam e Riven simplesmente calada, como preferia que fosse. Às vezes, sentia um olhar da mulher da outra província recair sobre si com algum julgamento que a deixava irritada, mas o máximo que fazia era ignorá-lo.
– E vocês, como vão? Não deram um piu a noite inteira... — Karma recostava-se em sua cadeira com o copo de chá fumegante, assoprou levemente o vapor e bebeu o líquido, enquanto referia-se às duas outras ali presentes.
– ...eu só costumo ficar em silêncio. Acho que ele é tão presente em casa que simplesmente me acostumei a me entreter apenas com os sons à volta... — depois de uma pausa muito longa em que ninguém respondia, Irelia decidiu dar algum apoio à conversa que Karma tentava iniciar ali sem muito sucesso, fazendo um comentário simples.
– Você deve nos achar barulhentos então — riu.
– Não, não... Hah, um pouco "animados", sim, mas faz lembrar como costumava ser antes com meu pai e Zelos em casa.
– Conheci pouco do Placídio além de escassas visitas à Escola do Transcendentalismo, mas sempre imaginei as festas de ano novo feitas por lá... Dizem que era magnífico! Os fogos de artifício, as comidas típicas...
– As danças, as exposições de luta, os Dragões Gêmeos flutuando pelas ruas... — Irelia sorriu nostalgicamente, seu olhar perdendo-se em memórias doces de um passado que parecia muito distante... — ...nós prometemos que faríamos outra festa dessas assim que Zelos voltasse da missão...
– E sobre ele? ...Alguma notícia? — a moça dos longos cabelos negros apenas meneou a cabeça negativamente com relutância e um ar de desesperança... Karma via aquilo e sentia-se mal com a incapacidade de ajudá-la naquele aspecto... — ...Não desanime, Irelia. Não brilharia estrela sem noite por detrás. Lembra-se? A parcela de mal em tudo que é bom e a parcela de esperança em tudo que é trevas... Nós aprendemos o mesmo tanto que sofremos, e acho que tudo isso já foi o suficiente para começarmos a obter nossas vitórias.
– Você já conhece minha resolução sobre isso, Karma. Só espero realmente que o Conselho ouça com a mesma compreensão.
– Mesmo as províncias mais longínquas estão alerta. Eu creio que contaremos com o máximo de aliados que pudermos contatar... — vira-se após um instante, pegando a mulher que prestava uma atenção inerte à conversa de surpresa — ...isso inclui você, Anala.
A ioniana sorriu, e Riven quase engasgou com o único pedaço do pato assado que colocara na boca, mas conseguiu ser discreta o suficiente apenas para engolir com um pouco de dificuldade a comida. Continuou na mesma postura marcial com que sentara-se à mesa.
– Meus serviços estarão a dispor da forma como decidirem.
– Não, eu não quis dizer apenas isso, monja! — Karma riu, imaginando ter sido entendida como se falasse de um contrato carimbado — Anala, eu quero que você saiba que é bem vinda aqui. Por favor, não se sinta somente como a espada, mas também como o braço que a conduz; você também faz parte daqui... Se quiser... "Ionia é como uma mãe", como bem diria Soraka. E não nos importaríamos em ter mais uma pessoa na família!
Riven separou ligeiramente os lábios, como se cogitasse dizer algo, mas então parou atônita por alguns instantes...
– A SOBREMESA CHEGOU!!! — um dos acólitos anunciou esfuziante, e então a faladeira de costume intensificou-se ligeiramente mais enquanto todos aprontavam-se para o fenomenal creme gelado de manga com pêssego em calda.
– Obrigada. — Riven exclamou em tom normal, que fora quase inaudível em meio à confusão e comilança. Levantou-se calmamente, fazendo uma pequena mesura, e caminhou até a sacada um tanto à distância, para trás da cadeira de Karma e fora da iluminação alaranjada das velas que tingia o salão. A noite era clara devido ao brilho da lua, mas ainda assim o céu escuro como breu evidenciava a verdade dita por Karma: "não brilhariam as estrelas sem noite por detrás". Entendia um básico de navegação, então passou a entreter-se levianamente tentando reconhecer os padrões dos astros no céu.
– Não vai comer nada?
?
Tirou os olhos das constelações enquanto ainda se indagava se havia mesmo encontrado o chifre do cordeiro que apontava a direção leste, só para ver aquela moça das lâminas vindo com a mesma feição inexpressiva e irritante de todo o jantar e um prato e uma colher nas mãos. Revirou os olhos e retornou à sua observação.
– Você disse que estava esperando a sobremesa.
– Eu acabei de comer e tô dando um tempo... Depois eu pego.
– Não vai admitir nem sob tortura que perdeu a fome com o que quer que tenha acontecido à tarde...
Incomodada, Riven finalmente virou-se.
– ...Não sei você, mas eu acho bem chato se intrometer nos assuntos de outros.
– Engraçado, porque você mesma me parecia bem interessada de manhã quando veio atrapalhar meu treino. — Irelia ignorou o cenho franzido da tal monja e aproximou-se também do parapeito da sacada. Depositou o prato com a sobremesa entre elas e apoiou-se na mureta, fitando o nada no horizonte — Eu não gosto de "bisbilhotar" a vida de ninguém, só fiquei preocupada com a forma que a Karma agiu quando nos viu lutando... Quer dizer, muitas pessoas ficariam realmente impressionadas, mas nós sabemos que ninguém aqui vai se matar de uma forma tão estúpida... — Riven apenas manteve um silêncio pensativo. "Sim, havia a possibilidade de alguém morrer de forma estúpida..." Parecia que a moça da província esperava algo; alguma manifestação, alguma explicação... Mas, não obtendo nada como resposta, apenas continuou rumo ao ponto em que queria chegar — Quando eu cheguei no templo, deu pra ouvir que vocês discutiam. Inevitável, pelo tom com que vocês estavam falando, alto, mas não me prestei a saber do que se tratava. De toda forma... Se está acontecendo algo que eu não estou sabendo, eu gostaria de saber.
A noxiana deixara de observar as estrelas e mirava o olhar para o horizonte infinito também, alheia ao que acontecia em volta... Mas ouvia o que a ioniana tinha a dizer. Suspirou, como se seu corpo dissesse "tudo bem então...", e começou a falar, ainda voltada para a paisagem à sua frente.
– Ela se preocupa com a forma como eu luto... Acho que ela pensa que, qualquer hora, eu vou me descontrolar e acabar "ferindo" alguém. Pra falar a verdade, eu às vezes também me preocupo com isso...
– Entendo. — Riven desviou o olhar para ela ao ouvir aquilo — É assim com qualquer um que lute. Eu tento treinar o estilo Hiten como uma arte, mas é inegável que é uma técnica de batalha. De matar na batalha. Às vezes a vontade das lâminas me surpreende... É por isso que treinamos sempre o autocontrole.
– Humpf, é... — a exilada lançou, em tom sarcástico, lembrando de como avaliara o treino de Irelia em uma palavra: limitado– Eu nunca vejo as coisas assim. Se você entra, você entra de corpo e alma, ou então fica de fora se não quiser se f...
– Haha! É por isso que te chamaram de Anala? — Irelia interrompeu, rindo — Afinal, é seu nome de nascença ou um que ganhou?
Riven estava contra a parede. Espera, "Anala" tinha algum significado? E agora? Que história haviam inventado sobre ela? Karma havia sequer inventado algo sobre ela caso perguntassem? O que ela ia responder?! "Aaah, buda, sua filha da..."
– Ganhei. Mas... uso há tanto tempo que já se tornou meio que oficial.
– Faz sentido...
Tranquilamente, o silêncio reinou enquanto as duas guerreiras, tão aparentemente diferentes, dividiam a visão do mesmo horizonte, as mesmas planícies verdejantes ao longe, os resquícios do bosque e, no céu, a escuridão do Universo todo servindo de moldura para as estrelas que vinham brilhar todas as noites...
– ...O que que é isso mesmo? -Riven apontou o prato.
– Creme gelado de manga com pêssegos em calda.
A mulher pegou a colher que jazia esquecida sobre o prato e provou um bocado do creme.
– Céus, isso é muito bom... — Irelia riu ao ver a reação da outra, como se fosse um ultraje descobrir só agora aquele sabor.
– Espera; você nunca tinha comido isso antes? Pelos deuses, de onde é que você veio? — a outra continuou em silêncio — ...A região que hoje é controlada por Noxus costumava fazer uns desses muito bons no verão, de todos os sabores imagináveis.
A que comia de repente parou, olhando de esgueira para a que falava e, sutilmente, apoiando a colher novamente sobre o prato.
– Que péssimo.
– Sim, mas de toda forma, existem muitas outras pessoas por aí que saibam fazê-lo; não é uma receita incomum. Isso me admira em Ionia: por mais que tentem aos poucos apagar nossos traços culturais, nossas tradições são muito fortes e enraizadas no povo.
– Menos o estilo Hiten.
A expressão da ioniana subitamente mudara. Aquilo não fora ao acaso, aquela mulher sabia do que estava falando e usara daquilo... para que? ...Estava realmente dialogando ou havia tentado atingi-la propositalmente? Porque, se não tivesse dito aquilo sem querer, o que definitivamente não parecia ser o caso, então havia alguma intenção muito pontual por trás...
– Por que esse interesse tão intenso nisso?
– É uma técnica difícil de se acreditar, com um potencial poderoso. Vocês podiam ter se saído muito melhor na guerra; se as tradições são tão fortes, como o estilo não se estabeleceu?
– Porque todos que o conheciam morreram. — sua voz fora severa e sem emoção. Como ela não sabia daquilo? Que, quando os exércitos chegaram, ninguém escolheu lutar. Que os poucos grupos que fizeram resistência seguraram a invasão de Noxus, mas foram dizimados até o último membro vivo. Ela mesma, Irelia... Sua história ecoou por Ionia ao serem as únicas a retornarem vivas, ela e Soraka, de um embate direto com as tropas nas primeiras investidas da invasão... Naquele momento, Riven percebera que talvez tivesse ido mais fundo do que pretendia na questão, mas uma vez lá, não fazia sentido desculpar-se e dar a volta.
– Nem todos. Você está viva. Devia ensiná-lo.
– Meu próprio pai demorou uma vida para aprender...
– Tem um monte de crianças órfãs por aí. Dê uma espada a elas e comece a treinar; já que demora uma vida, é bom começar cedo.
– Jura que você pensa assim?
– Não acho que seria mais sensato pensar de outra forma...
Irelia observava ela dizer aquilo, como se tratasse de algo do dia a dia, com um desprezo incrédulo. Como podia...? ...Argh! Apenas meneou a cabeça e saiu dali. Vendo-a partir, Riven tinha noção de ter falado talvez um pouco demais, mas não havia mentira nenhuma no que dizia. Estava convicta daquilo. Recolheu o prato e voltou para dentro, depositando-o na mesa que alguns acólitos limpavam, e então retirando-se para seu quarto.
– ...Ah, Karma! ...O que significa exatamente "Anala"?
A monja riu.
– "Besta". — e foi embora.
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