Piltover's Finest
20 Capítulo 18 - Santuário
Notas iniciais

Os oficiais retornavam com mais uma leva de sobreviventes resgatados do meio daqueles escombros terríveis nos quais quase toda a cidade havia se tornado. Pessoas feridas, sujas, com o pavor ainda estampado em seus rostos; crianças sozinhas, sem pais, mães ainda em choque, atônitas, sem conseguir acreditar que nunca mais veriam seus filhos... Sobreviventes que traziam consigo só o estritamente necessário e o que haviam conseguido recuperar em meio ao fogo e à desolação: um colchão um pouco estragado, algum tanto de comida...
– Xerife?
Caitlyn ocupara-se, desde que voltara a Piltover, sem trégua, com a ajuda no acolhimento daquelas pessoas e com encargos diplomáticos para tentar obter alguma ajuda, qualquer que fosse; um milagre para a cidade... Sua tempestade, no entanto, parecia muito mais longe de se acabar. Tinha já perdido a noção das horas, desprezava o fato de ser dia ou noite... Desde que deixara Ionia e... Vi... lá... desde aquele momento, ela vivia numa eterna noite sombria sem Lua. Ainda estava suja e deveras ferida, suas roupas rasgavam-se cada vez mais, ela verdadeiramente fedia e não comia absolutamente nada nem descansara um segundo sequer desde que deixara Ionia, cerca de três dias atrás... O quarto já estava se completando. Estava presa num modo automático de agir. Pensar em Vi a matava por dentro, mas era uma dor que ela queria preservar; à qual voltava correndo, mesmo voluntariamente, todas as vezes em que parecia que ia deixar que as águas se acalmassem... Não podia deixar de pensar nela, nunca! ...Era como se ela simplesmente fosse desaparecersem deixar nenhum rastro de sua existência se Caitlyn fizesse aquilo. Mas, ao mesmo tempo, ela precisava ocupar-se de outras coisas para que sua mente não se prendesse tão irreversivelmente naquela angústia. Ela precisava de outras coisas que tomassem completamente seu tempo e sua atenção para que não caísse em completa depressão. Então ela trabalhava. Verdadeiramente como louca. Sem trégua. Sem pensar. Como um autômato.
– Xerife!
O oficial chamou novamente sua atenção; estivera ali plantado, esperando que ela o visse, há um bom tempo. Tinha acabado de voltar da rua para reportar-se a ela, e vinha com um ar altivo de autoridade, com seu uniforme quase perfeito... Porém espantou-se, e a realidade deu-lhe um forte tapa na cara, ao ver o estado de todas aquelas pessoas abrigadas ali e, principalmente, ao ver o estado em que a xerife, aquela autoridade tão exímia, se encontrava. Aquilo não era um jogo de aparências. Aquilo era sobrevivência.
– Diga, oficial.
– ...Desculpe-me, senhorita... — ele disse após segundos de um silêncio pasmo um tanto envergonhador, ao ficar observando, reflexivo, o estado da xerife. — Vim para me reportar sobre a última patrulha do dia. Dividimo-nos em três grupos de quinze oficiais, a fim de cobrir uma maior área de busca na cidade. Duas horas de ronda ininterrupta após o término das buscas do grupo anterior ao nosso. Realmente, xerife... acho que as buscas terminaram. Não há mais sobreviventes nas ruas. — o homem viu o olhar da xerife vagar por alguns segundos, pensando com um rosto completamente desprovido de expressão...
– Está bem. Dêem as buscas por encerradas então... E venham ajudar no prédio do Conselho.
O oficial assentiu com a cabeça e fez uma mesura respeitosa à xerife, que respondeu apenas com um singelo movimento de cabeça e então retornou ao cuidado das pessoas resgatadas. Não havia tempo para chá ou descanso; cada tarefa completada significava apenas que já se podia iniciar a próxima. Trabalhar. Tinham que continuar trabalhando... Sobrevivência...
Retornando ao saguão, parado nas portas de entrada deste, esticando o pescoço para observar sobre aquele mar de gente, Johan buscava definir o paradeiro de Caitlyn. Vira-a saracuteando para lá e para cá o tempo todo, subindo e descendo escadas, entrando e saindo de dezenas de salas no prédio do Conselho, falando com oficiais, com autoridades, com os cidadãos... Mas, ao mesmo tempo em que via-a por aí o tempo todo, nunca conseguia realmente parar para vê-la, saber como estava, conversar com ela... O episódio em Ionia havia abalado-a notavelmente, mas em momento algum depois daquilo havia conseguido saber como ela se sentia. Agora, o velho homem caçava-a em meio àquele formigueiro.
– Caitlyn!
Exclamou ao vê-la conversando com uma mulher e seus filhos, mas ela pareceu não ouvi-lo. Virava-se agora para um oficial que passava por perto, segurando-o pelo braço e quase surpreendendo-o. Nesse momento, a expressão torpe que tomava conta da mulher até agora pareceu finalmente dissipar-se por completo, dando lugar a um olhar ansioso, ávido. Johan podia inferir, só pela expressão de Caitlyn, que o coração dela havia disparado naquele exato momento. Ela perguntou algo ao oficial, que levantou as mãos ao lado do corpo e fez um sinal negativo com a cabeça, como se se desculpasse por não possuir a resposta à pergunta que Caitlyn queria. A ansiedade no rosto dela quebrou-se como uma frágil peça de cristal que encontra a frieza do chão... Ela retornou um sorriso esmaecido para o oficial, que retomou seu rumo, e então virou-se, claramente entristecida. Johan aproximou-se.
– Cait...
– Johan! Graças aos céus! — ela interrompeu-o com um novo fulgor, como se tivesse acabado de encontrar o mais procurado dos tesouros. — Johan, por favor, me diga: vocês já conseguiram notícias de Ionia?! — o oficial prendeu sua respiração. Céus, ela havia pego-o com a guarda baixa agora... Observava o estado de completo abandono no qual ela se encontrava, e desejou de fato trazer-lhe alguma notícia boa, algo que renovasse-lhe as esperanças... Mas o que? Não podia mentir. Não tinha nada a lhe falar... O homem, então, respirou fundo.
– Me desculpe, Caitlyn. Nenhuma notícia ainda...
Ele a viu expelir dos pulmões todo o ar que tinha, desapontadamente. Os olhos esperançosos da xerife perderam completamente o brilho, e fitavam, perdidos, o nada. Estavam vermelhos e inchados, tanto pela infindável insônia quanto pelas seguidas noites sombrias em que ele a ouvia chorar sozinha, escondida. Ela passou a mão no rosto, como se tentasse afastar dele, junto do suor, uma dolorosa tristeza... Deteve a mão por mais tempo sobre os olhos quando passou por eles, tampando-os.
– ...Ainda não sabem nada sobre ela? — sua voz era trêmula e oscilante. Johan sentiu o peito apertar com a inevitabilidade horrenda da resposta que tinha que dar a ela.
– ...Não.
O rosto da mulher contorceu-se e pôde-se ver escorrer, por debaixo da mão que tapava seus olhos...
Lágrimas.
Lágrimas gordas. Lágrimas silenciosas.
– Céus... — ela respirou fundo, e pôde-se ouvir o silvo molhado do choro em sua respiração. — O que eu vou fazer, Johan, se ela não... — ela não conseguia terminar aquela frase horrível. Não ousava sequer pensar em...
– Não, Caitlyn, não pense nisso. Vai acabar dando certo. — o velho não podia aguentar vê-la daquele jeito. Lembrou-se do desespero com o qual ela se prendera a ele em Ionia, da preocupação que sentira com aquela vida que fora confiada a ele tão cedo, tão despreparado... Pensou no que seu grande amigo, o xerife, poderia fazer por ela naquela hora. O oficial suspirou, com os olhos marejados. "Eric... Você nos deixou muito cedo... Caitlyn ainda precisava de você.". Ele observou o desconsolo no qual se encontrava a menina... E então abraçou-a. Estava suja. Podia sentir o suor grudado em sua pele. Ao aproximar-se, percebeu que cheirava mal... "Céus, Caitlyn... O que você está fazendo consigo mesma?!". Afastou-se dela, ainda segurando-a pelos ombros e tentando olhá-la nos olhos, os quais ela insistia em desviar para não deparar-se com o olhar de piedade de ninguém. Ela não precisava de piedade.
– Caitlyn... Apenas me ouça. Você não pode ficar assim. Pelos deuses; você não pode se descuidar desse jeito! Você não come. Não dorme. Não te vejo parar nem por um minuto desde que retornamos, e isso apenas vai te deixar cada vez mais exausta e debilitada demais para poder lutar, justamente no período em que mais precisamos um dos outros aqui! ...Veja... — ele não sabia ao certo o que dizer... — ... — realmente, não sabia! Aquela situação... Tudo aquilo... Era delicado demais para se tocar, como se estivessem presos num castelo de vidro com previsão de terremoto. — ...Caitlyn... — ele ofegou. As batidas do seu coraçao começavam a se descompassar. Não. Seu peito se apertou demais, aquela dor era insuportável! O homem largou uma de suas mãos do ombro dela e apertou-a sobre seu peito que doía, cravando os dedos nele com força e chegando a inclinar-se sobre o corpo, enquanto não conseguia esconder uma careta de pura dor.
– Johan? Johan! — Caitlyn se desesperava. Nunca o havia visto assim!
– Aargh!... Eu... só... preciso de um pouco de água.
– GUARDAS!
Mais oficiais assomaram-se para ajudá-la a escorar Johan até um local mais arejado, para onde ela já o levava, praticamente sozinha, lutando para carregar o peso do corpo do homem com seu esforço preocupado. Saíram do saguão e Johan tentou respirar fundo, mas aquilo só o fez sentir como se sua caixa torácica fosse recoberta de espinhos por dentro. Voltou a ofegar para conseguir oxigênio.
– Aqui, sente-se. — a xerife amparou-o para que sentasse numa cadeira que um oficial havia trazido, enquanto outro já vinha com um copo de água. Johan bebeu-o; o velho suava e seu rosto ainda estava marcado por aquela dor súbita... Respirou mais alguns instantes; todos ali apreensivos com o seu estado, principalmente Caitlyn. Aos poucos, a dor ia se dissipando, e seu coração começava a retornar ao normal.
– Johan, o que é isso?
– Me desculpe, Caitlyn... Não era para você saber dessas coisas; agora dei apenas mais uma preocupação sem necessidade para sua cabeç...
– Johan... DROGA; por que você não me contou antes que era cardíaco?!!
– Você já tem muita coisa martelando na sua cabeça, menina! Mas olhe aqui: eu prometo que tomo meus remédios e cuido disso... se você fizer uma pausa para tomar banho, comer e descansar um pouco.
– Injusti...
– Shh! É isso ou nada. — ele a cortou, bravo, antes que pudesse fazer qualquer objeção. — ...Prometo que tentaremos novamente obter notícia de Ionia.
Caitlyn deu um levíssimo, quase indetectável sorriso... Mas seu velho guardião pôde finalmente ver nele alguma alegria verdadeira por parte da menina. A xerife então virou-se e seguiu na direção dos vestiários do Conselho.
Despiu-se e ligou um dos chuveiros. O vestiário, desnecessariamente enorme, estava escurecido e vazio, salvo por ela ali. Havia trancado as portas do aposento. Não queria que ninguém mais a encontrasse.
Entrou debaixo da cascata expelida pelo chuveiro. A água quente escorreu pelo seu corpo, por sua pele, trazendo uma sensação quase divina de tranquilidade e alívio... Varria de si todo aquele terror, todo o caos que presenciara e ficara aderido à sua pele... Um simples e reconfortante banho de água quente parecia agora o maior luxo que a humanidade poderia adquirir. A última vez em que água havia tocado seu corpo fora aquela insensível chuva fria que caíra quando esteve pela última vez com Vi... Aquela chuva que gelara-lhe até os ossos... A água quente ainda escorria sobre si, molhando o cabelo perfeito, deslizando por sua pele agora mais alva... Pensou em Vi. ...Ela gostaria de partilhar um banho quente como aquele. Lembrou de como ela puxara-a para aquele canto escondido nos escombros de um prédio, e de como aproximara o corpo do seu, prendendo-a contra a parede... Inevitavelmente, suas mãos deslizaram em direção às suas coxas molhadas... Vi... Aquele olhar penetrante... O rosto e o jeito ousados... E o corpo que ela já conhecia, com o qual se enroscara, inúmeras vezes, na delegacia...
...Sentia falta dela. De tudo que era ela; até das decisões idiotas e da teimosia...
– Vi... — prendeu o fôlego por um minuto... E então foi como se seu coração voltasse a bater de repente. Recolheu as pernas e abraçou-as, sentada no chão do vestiário, deixando a água quente ainda escorrer sobre si... Sentia falta dela. Queria encontrá-la do nada, com aquele jeito todo errado que ela tinha, e ouvir que tinha sido "só um arranhãozinho"... Sentir o aperto dos seus braços e os lábios macios nos seus...
Desligou o chuveiro, secou-se e vestiu-se com roupas novas.
– Notícias de Ionia? — disse ao retornar e entrar na sala onde o prefeito e outras autoridades se reuniam, buscando contato com outras cidades-Estado para pedir ajuda. Johan estava lá e ficou feliz ao ver que ela afinal tinha aceito a sugestão e voltava ligeiramente renovada, mas não expressou nada. Apenas apontou para Andrès, sentado em um dos enormes e antiquados comunicadores.
– Andrès conseguiu estabelecer contato agora há pouco.
– E estão conseguindo falar com alguém?
– Veja por si mesma, senhorita... — Andrès disse, chamando sua atenção e levantando-se com um sorriso educado e um tanto ansioso, cedendo o lugar no comunicador para Caitlyn. Hesitante, ela olhou para ele... então respirou fundo e sentou-se. Colocou o grande fone de ouvido e puxou o velho microfone para mais perto...
– ...Alô?
– Boa noite, senhorita xerife. Minha sincera alma deseja que vocês encontrem paz de espírito. — o som vinha com uma qualidade não muito boa; barulhos de estática ouviam-se junta à voz, e um incessante chiado baixo vez ou outra atrapalhava a audição... Mas pôde perceber que tratava-se da voz de uma mulher. Uma voz que ela já ouvira, mas não se lembrava.
– Eu... agradeço. — com quem ela estava falando? — Bem... — Caitlyn prendeu a respiração por alguns instantes, mergulhando no que parecia ser um infinito silêncio entre as duas partes que se comunicavam... e então soltou aquilo tudo como se fosse um náufrago almejando desesperadamente por ar. — Me desculpe a falta de educação, mas é que eu... Eu não consigo aguentar; pelos céus, você tem alguma notícia sobre Vi?! Algo daquela curandeira?! Qualquer coisa!
– Compreendo sua ansiedade, xerife, mas tenho que desapontá-la: há dias Soraka bloqueou completamente qualquer forma de acesso para seu santuário, até mesmo para a Escola do Transcendentalismo... Nem mesmo nós, de Ionia, sabemos o que se passa agora por trás daqueles muros.
– Como assim, "ninguém sabe o que se passa"?!! O que é que vocês têm?! Eu fui obrigada a ir embora; eu quero saber o que há com ela, o que está acontecendo, eu...
– Xerife, peço amigavelmente que baixe seu tom e acalme-se. — a voz do outro lado da linha era gentil, porém de uma serenidade fria. Caitlyn, em seu nervosismo, mal percebera que começara a inquirir de forma rude sobre o estado de saúde de Vi... Mas aquela pessoa, mesmo com aquele momento de repreensão, buscava confortá-la. — Acredite no que digo: se Soraka isolou desta forma o santuário, é porque está concentrando toda sua energia e atenção no ritual e não quer que absolutamente ninguém interfira neste fluxo. Dou minha palavra em nome dela de que sua amiga está em mãos confiáveis que não a deixarão. Só o que podemos fazer agora é esperar pelo resultado e direcionar todas as nossas preces a elas.
– Todas as nossas preces... — a xerife baixou a cabeça... — Está bem. Obrigada.
Ela desligou o comunicador e retirou o fone, abatida, e que estranha vergonha sentiu ao perceber que, quando tirou os olhos da mesa, todos disfarçaram, fingindo não estarem prestando atenção nela, em seus movimentos, no que falava, no que fazia... Estava se sentindo um lixo. Achou que o banho tivesse ajudado um pouco... Mas aquela angústia, aquela angústia que havia se instalado tão fundo dentro dela, ainda não havia sido lavada dali, e nada em Piltover parecia capaz de fazê-lo...
– Xerife, trouxe algo para você comer... — Elle aproximou-se com um pequeno embrulho em mãos, olhando curiosa como sempre, mas também encarecidamente para a xerife.
– Eu... perdi a fome. — Caitlyn disse, levantando-se e afastando o embrulho de si, numa voz baixa e cansada, contrastante com seus movimentos rápidos e tão determinados.
Ela saiu quase correndo da sala e subiu as escadarias do prédio até que não houvesse mais para onde subir. No último andar, peculiarmente vazio, abriu uma porta que dava para o terraço e avançou em direção a ele. O céu ainda estava negro com a tempestade que passara mais cedo e agora se estendia para além das fronteiras de Piltover, mas o vento que sobrara e batia naquele espaço aberto ainda era o mesmo carrasco impiedoso e frio. Seus cabelos esvoaçavam, serpenteando no ar e atingindo-lhe, como pequenos chicotes, o rosto, enquanto ela abraçou a si mesma e tornou a verter suas lágrimas inconsoláveis...
...o vento soprava em direção ao mar.
Além do mar.
Lá estaria ela.
Caitlyn sentou-se com a vista mirada na direção em que o vento soprava, mesmo que não fosse capaz de enxergar aquela ilha à distância. Mas seu olhar perfurava o céu revolto, atravessando a escuridão, atravessando os escombros, atravessando o oceano, além das ondas e além de toda a água... Como se pudesse alcançá-la.
– Por favor... Por favor, Vi, fique bem... Por favor, volte... Por favor... — repetiu aquele mantra, com os olhos molhados, durante quase a noite toda, até que ficassem pesados o bastante e ela caísse ali mesmo, a dormir.
~¨~
Tu... Tu...
"VI, POR FAVOR, NÃO!!!"
Tu... Tu...
"...fala comigo..."
Tu...
"Aterrissaremos em poucos min..."
...
"Vão embora!"
"...A VIDA DELA É..."
...
...tu-tum.
~¨~
...Desde que caíra no chão duro e desconfortável da cidade destruída, só o que conseguia ver eram borrões de imagens; uma frase ou outra que pairava no ar e era capaz de atingi-la, tornando-se uma mensagem inteligível. Morrer sem poder enxergar o rosto Dela seria o maior dos castigos por todos os crimes que cometera ao longo de sua inevitavelmente tortuosa vida, mas um toque de piedade do Destino permitira-a focar uma última vez aquele rosto que a confortava...
Caitlyn...
Ela chorava com seu corpo no colo. "Não... Não chore... Eu quero guardar comigo o seu sorriso e saber que eu pude te fazer feliz, cupcake...". E então tudo se tornou escuro...
...até sentir novamente aquele batimento, que parecia ter a força e a magnitude de um vulcão, despertar-lhe mais uma vez. Sentia cada pulso estremecer seu corpo todo... Sentia seu corpo. Não mais aquele vazio eterno. Mas ainda não tinha forças para se levantar e sair para procurar a cupcake. Será que ela estaria na delegacia? Ou ficara ali, o tempo todo, ao lado dela, no quarto do hospital? Céus, aquelas dúvidas a enchiam de ansiedade, mas não conseguir mover-se era... agonizante!! Finalmente... Com indescritível esforço... Conseguiu abrir um pouco os olhos...
– Aah! — CÉUS! Um ser que estava... estava curvado sobre ela assustou-se e prendeu a respiração, mas ela também havia se assustado e tudo voltou a ficar escuro e desfocado, mas antes de apagar ela pôde ver... ...o que era aquilo?!! ...roxo... e... UM CHIFRE! Mergulhou na escuridão de novo...
...
Conseguiu, enfim, depois do que pareceu uma eternidade, recobrar a consciência novamente. Tentou abrir os olhos... Agora estava mais fácil. Uma melodia triste e doce, belíssima, tomava conta do ar. Era relaxante... Ela olhou em volta, com a visão ainda um tanto turva, buscando encontrar a imagem de Caitlyn parada em algum canto do quarto do hospi...
Espera. Aquilo ali não era o hospital.
...DROGA!
– Não... Não! O que aconteceu?! — ela dizia freneticamente, olhando ao redor sem entender nada, pasma, estranhando tudo aquilo ali, toda aquela arquitetura, a falta dos sons mecânicos dos aparelhos que ela lembrara ter ouvido quando ficou com Caitlyn no hospital; estava numa cama, no meio de uma sala desconhecida, estava sem Ela, estava... Completamente confusa e apavorada. O céu noturno brilhava fracamente lá fora, naquele lugar estranho e desconhecido... Ela tinha... morrido? Ou então... Piltover fora destruída? — Não! NÃO!
– Acalme-se, humana. Está tudo sob controle; essa sua birra é desnecessária
A melodia que tocava havia cessado. Vi virou-se subitamente e olhou, ainda estupefata, na direção de onde fluía aquela voz e deparou-se com uma mulher belíssima, vestida em trajes um tanto peculiares, porém que inspiravam alguma nobreza, como se fosse alguém importante por aqueles lados... Onde quer que fosse "aqueles lados". Seus cabelos negros como a noite eram extremamente longos e tão escuros que pareciam até refletir um brilho azulado quando tocados pela carícia luminosa da Lua. Em suas mãos, havia uma flauta. "Então era ela que..."
– O... O que tá acontecendo? Onde eu estou, isso não é Piltover; onde está a Caitlyn?! ARGH!! — sentiu o braço esquerdo, cujo ombro havia sido brutalmente apunhalado, queimar como fogo ao fazer um movimento para levantar-se, enquanto algum lugar acerca de seu peito latejava em espasmos doloridos, uma dor pungente. Percebeu as ataduras que envolviam-na apertadamente nessa região do corpo.
– Céus, vocês todos têm essa mania de imediatismo e de não dar ouvidos aos outros... — a mulher parecia mal-humorada e impaciente. Levantou-se da mureta na qual se encontrava sentada, numa fantástica varanda com vista para um jardim existente somente nos sonhos da maioria das pessoas, e caminhou, a passos duros, até o leito em que estivera esse tempo todo Vi. — Venha. Se quer levantar, levante-se. Vamos ver se está boa o bastante. — a mulher, com seu aspecto quase divino, estendeu-lhe a mão para apoiar-se. Vi segurou-a e pôs-se de pé sem muita dificuldade, apenas uma leve tontura.
– Uooou! Hah... Acho que já dá pra distribuir mais uns tapas. — a mulher revirou os olhos e fez um singelo sinal negativo com a cabeça para aquele comentário leviano, afastando-se em direção a um armário ricamente adornado numa das paredes mais distantes do quarto. — ...Que lugar é esse? — inquiriu, ainda observando o espaço ao redor, a peculiar e graciosa arquitetura, a aura de harmonia que parecia permear tudo ali...
– Você está em Ionia, mais precisamente dentro do local mais reservado da Escola do Transcendentalismo. Meu santuário. ...Sugiro que guarde respeito por essas paredes.
– Com certeza; a pintura delas deve ter saído uma nota. — displicente, a rebelde de cabelo rosa observou a misteriosa mulher puxar o ar e prender a respiração por um instante, lançando-lhe um olhar torto misto de perplexidade, reprova e uma pitada de braveza. — Ok, desculpa! Era pra descontrair...
A mulher então voltou-se novamente para o armário. Abriu-o e começou a mexer em seu interior, retirando, daqui e dali, alguns pedaços de pano. Vi, em pé ao lado do leito, observava com curiosidade o que ela estava fazendo, e só então percebeu que estivera coberta o tempo todo pelo lençol enquanto inconsciente, mas, fora isso, vestia apenas as ataduras que envolviam as lesões em seu corpo. Nesse momento, percebendo sua exposição quase completa, mesmo vendo que aquela mulher não parecia dar a mínima para nada daquilo, ela corou intensamente, envergonhada. "Puta que o pa..."
– Onde estão as minhas roupas?
– Aqueles trapos velhos, fedorentos e rasgados, todos cobertos de sangue e sujeira que já estava infectando seus ferimentos, em estado deplorável? Melhor queimar. — a tal mulher falou despreocupadamente, sem sequer desviar os olhos dos itens que buscava no armário. A enforcer, surpresa com a reação, respirou fundo e fechou a cara. Tudo bem que fosse verdade e que suas roupas muito provavelmente tivessem ficado assim. Mas...
– Nossa, tudo bem; mas não precisava falar desse jeito das minhas coisas...
– Tome estas. Acredito que sirvam.
Vi tomou nas mãos o conjunto de tecidos que a mulher lhe dava. Eram incrivelmente macios ao toque, de um branco puro com detalhes em vermelho vivo e dourado nas barras. Cada adorno era perfeito, olhando daquela forma. Entretanto, Vi começou a desdobrar e tentar vestir aquela profusão de panos e braceletes e peças e...
– AH, QUAL É?! Tá brincando que alguém consegue vestir isso e sair por aí?!! — exclamou, puxando aquele monte de... coisas com as quais ela se sentia enrolada, numa careta de revolta e completa desorientação cômica. A mulher à sua frente suspirou e levou uma mão à testa.
– Sabe, me custou três dias e uma quantidade incrível de energia para fazer seu coração voltar a bater, mas tem momentos em que eu não me importaria nem um pouco em desperdiçar o trabalho e fazer ele parar de novo...
Voltou-se para a mulher, olhando-a firmemente com toda sua teimosia inata, enquanto ela retribuía seu olhar com uma austeridade implacável... Depois de segundos daquela singela medição de forças, Vi virou-se, dando de ombros e terminando de vestir-se, batendo aquelas roupas peculiares contra o corpo, como se tirasse pó delas. Terminou de arrumar também aquelas peças que lhe caíam estranhamente...
– Meu pai; isso porque ela é de Ionia, o lugar mais tranquilo de Runeterra; imagina se fosse de Noxus... Tô parecendo um faraó com isso... — resmungou, baixo, para si mesma enquanto ajeitava as peças e era supervisionada pelo olhar mais uma vez sereno e distante da outra. Aos poucos, muito lenta e gradualmente, algum pensamento aparentemente longínquo começou a retornar-lhe à mente... — Está bem. Ionia. Ainda assim... O que é que eu tô fazendo aqui? Como vim parar neste lugar; onde Caitlyn está; que bicho roxo estranho com um chifre era aquele quando eu acordei da primeira vez?
– O bicho roxo estranho com um chifre sou eu.– ela respondeu enfática, com uma expressão não muito animada. Mas então aquela mulher tão peculiar simplesmente relevou aquilo. — Um grupo de Piltover te trouxe para cá já praticamente sem vida, esperando que eu pudesse fazer algo para salvá-la. Eu quase julguei ser um caso perdido, não fosse aquela determinação notável de sua amiga...
– Caitlyn...– Vi sussurrou para si... Então Caitlyn havia feito tudo aquilo? — E onde ela está agora?!
– Perguntas demais para pouquíssimo tempo acordada... Você não se cansa? ...A verdade é que eu não sei. Mandei que trancassem o santuário para o ritual e há três dias estou dançando e orando para as estrelas em seu nome, sem parar para nada nem ter contato com o resto do mundo. Estou exausta e ainda continuo gastando a energia que me resta para manter essa forma mais... "normal" para você não se assustar de novo com o "bicho roxo com um chifre".
A mulher lhe falava com um certo desdém na voz, porém era como se o usasse apenas para manter distância dos outros, para que não lhe perturbassem a vida. Vi captou aquela mensagem imediatamente; conhecia muito bem aquele tipo de estratégia de sobrevivência. Entretanto, justamente por aquela aparente severidade e distanciamento de tudo... Ela sabia, havia algo mais naquela história...
– ...Tudo bem, pode voltar ao normal. — não tinha motivos para forçar a barra com ela... Aquela mulher que ela sequer conhecia havia se esgotado para salvar sua vida... É normal que as pessoas tenham dias ruins e acabem em mau-humor; é algo com o que se tem que lidar. Um discreto e complacente sorriso de canto de boca se delineou nos lábios de Vi, como se dissesse que fosse em frente com aquilo, sem problemas.
Dando poucos passos curtos para trás, a mulher afastou-se ligeiramente e puxou o ar, lenta e calmamente, até preencher por completo seus pulmões... e então soltou-o num suspiro quase aliviado. Vi assistiu uma peculiar aura dourada envolvê-la e a pele alva da mulher aos poucos adquirir aquela peculiar coloração roxa, enquanto os cabelos, tão escuros, perdiam a cor, tornando-se de um branco brilhante e puríssimo. Em sua testa um grande e imperioso chifre ergueu-se, e seus pés tornaram-se como os cascos de um boi. Ela abriu os olhos, e sua íris continha a mesma cor do âmbar que flamejava no meio das piras celestiais... As luzes douradas e púrpuras que a envolviam lentamente esmaeceram no ar, anunciando o fim do encanto, e a atmosfera, que parecia ter sido tomada por uma sensação peculiar de tranquilidade, voltou ao usual. A mulher então caminhou para um dos cantos do aposento e depositou sua doce flauta sobre o que parecia ser um altar, trocando-a por um cetro de ouro com uma lua crescente na ponta.
– ...Uau. ...Se não for indelicado perguntar... Quem é você?
– Se você quer saber o que eu sou, pode perguntar diretamente: não sou deste plano. Mas, para todos os efeitos, meu nome é Soraka.
– "Soraka"... — Vi repetiu como se refletisse acerca do nome, como se tentasse lembrar se já o havia ouvido em algum lugar ou não... Porém, analisando toda aquela situação... Toda a estranheza que, ainda assim, era fantástica (qual é; chifre, roxo!) naquela situação, chegou à conclusão de que nunca havia visto nada parecido em sua vida. A mulher a observava pacientemente, porém seu rosto parecia estar se perguntando o que a rebelde pensava tanto naquele momento. Vi então olhou para ela, meio de esguelha, mantendo ainda sua pose durona... Coçou a cabeça, um tanto contrariada... Pigarreou, preparando-se para falar... — ...É. Acho que eu tô te devendo uma... bem grande... — proferiu num tom que parecia carregar um fundo de preocupação, mas também, em sua humildade velada, mostrava-se agradecido.
– Não há nada que você possa fazer para retribuir, se é nisso que está pensando, a não ser viver honradamente para que meu esforço não tenha sido em vão. — a curandeira falou solenemente. ...Parecia... Não. Era muito cedo para dizer isso, e Soraka sabia muito bem o que o julgamento precipitado sobre as pessoas era capaz de causar. Mas, como uma intuição distante... Como se a distante voz de suas queridas estrelas, que há tanto tinha saudade de ouvir novamente, fosse capaz de sussurrar-lhe algo... Não iria se iludir, obviamente; não era uma criança estúpida. ...Mas surgia-lhe, no meio de um caminho de escuridão, um pequeno ponto de fé na bondade dos seres humanos.
Vi não expressara nenhuma surpresa com aquela fala. Era justo... Era justo. Viver "de forma honrada" não era assim tão ruim... Lembrou-se da vida transviada que abandonara nas ruas e que, apesar daquela adaptação mostrar-se bem mais difícil do que parecia, vira-se feliz trabalhando ao lado daqueles manés da polícia, mesmo que não gostassem muito assim dela... Lembrou-se de como era reconfortante não ter mais que fugir após uma longa batalha... A não ser se fosse fugir... para os braços dela. Nesse instante, seu coração bateu mais rápido, e ela sentiu uma lufada de vento roubar-lhe o ar quando pensou novamente em sua amada xerife. A "cupcake", haha... ...Caitlyn... Ela povoara todos os seus pensamentos desde que caíra, fatigada, no chão. O carinho expresso nas palavras dela obliteravam toda a dor que acometia seu peito rasgado pela bala que finalmente dera um fim ao pesadelo de Dohran... Ela tinha atingido o ponto fundamental de seu objetivo: livrar Caitlyn do perigo que ela mesma havia atraído para a xerife. Ver Caitlyn livre e segura; aquilo já era o suficiente para ela... Mas já que havia ganho inesperadamente a oportunidade única de poder voltar, revigorada, e finalmente viver ao lado dela...
– Me desculpe, Soraka, mas tenho que ir embora... Tenho que voltar pra Piltover, o mais rápido possível! Caitlyn deve estar preocupada; caramba; ela ia querer saber que eu estou aqui! — falava numa impaciência e numa exaltação mal contida inigualáveis! Ela... Ela estava viva, estava bem, queria voltar para Piltover, queria rever Caitlyn, o guardinha, tudo aquilo, ela...!!! ...Entretanto, observou a mulher de repente arregalar levemente os olhos ao ouvir aquilo, como se tivesse sido pega de surpresa, e então desviar o rosto para o lado, tentando não transmitir o que parecia ser uma espécie de "não quero te decepcionar, mas..."
– ...Lamento, humana... Mas o santuário está fechado. — viu o espectro da dúvida pairar sobre o rosto daquela mulher de cabelo rosa. — ...É a tradição. O Santuário muito raramente se fecha; ele é como um pulso de vida no coração sereno de Ionia. Todos buscam a paz e o conhecimento interior maior aqui, neste solo divino, e então a Escola do Transcendentalismo está sempre pronta a recebê-los, de portas abertas... Mas os últimos acontecimentos nos forçaram a mudar isso... De toda forma, o costume diz que, quando o Santuário e a Escola são fechados, qualquer que seja a ocasião, só podem abrir-se novamente cinco dias depois. ...Estamos encerrando o quarto dia.
Sentindo o ar lhe faltar por alguma razão, Vi olhou para fora, para o horizonte além daquele jardim bonito que estendia-se na frente delas, sob a varanda... A aurora se manifestava, anunciando a breve chegada do Sol. ...Cinco dias?!
– Mas não há como abri-lo antes?! Não tem como chamar alguém, forçar a porta, dar um jeito de virar o trinco... Sei lá; pular o muro!
– Isso seria um tanto desrespeitoso de se fazer, em primeiro lugar. — as sobrancelhas de Soraka franziram-se para Vi, que respondeu num suspiro bravo indignado. — E também não seria de muito proveito. Você não estava acordada para ver a Escola por fora, mas, basicamente, trata-se de uma construção fortificada. ...Você não está vendo a linha do horizonte à altura do chão, como acha que está. Estamos mais próximas às estrelas do que às perturbações mundanas.
Vi ofegava, caminhando a passos curtos e apressados para lá e para cá, sentindo-se nervosa, presa... Não... De novo separada por mundos de distância de Caitlyn...
– Não... — sentou-se, sentindo um peculiar sentimento pesado de derrota, na mureta da varanda, como a curandeira antes o fizera. Seus ombros caíram e ela afundou o rosto entre as mãos. Sentia um enorme cansaço...
A curandeira observou aquela reação por alguns segundos... Então caminhou em direção à beira da varanda também. Acercou-se do local onde a enforcer estava, recolhida, desgastada, mirando o chão... A filha das estrelas então apenas apoiou no chão seu cajado e lançou seu olhar para além daquela linha do horizonte que viam. Altiva. Soberana... Porém igualmente serena, de forma a emitir uma aura invisível de paz e contentamento.
– ...De todos os lugares para se estar presa neste mundo... Com certeza, Ionia é a melhor prisão. — aquela frase, proferida naquele tom calmo e amável, fez com que Vi prestasse atenção e mirasse seu olhar para ela. A curandeira não se moveu um milímetro para qualquer lado. Continuava a contemplar os belos muros da Escola, a arquitetura magistral do Santuário; passava seu olhar com carinho sobre o jardim do qual ela mesma se ocupara de cuidar... E mirava a luz branda do Sol aos poucos banhar o horizonte. Para um ser tão fechado e austero, aquela pequena demonstração permeava-a com uma aura extremamente... Feliz. Após segundos de um silêncio contemplativo, a mulher respirou fundo. — Venha. Deixe-me guiá-la...
Virava e já caminhava em direção à escada em semicírculo na extremidade esquerda da varanda, andando despreocupada e sem olhar em nenhum momento para trás. Vi, curiosa com aquilo, levantou pouco depois e correu para alcançá-la, descendo também ao jardim e sentindo uma leve tontura devido ao repentino esforço... É, ainda tinha que recuperar-se mais um pouco... A mulher de pele roxa passava por entre pilares ricamente adornados que serviam de apoio para plantas de uma beleza exótica e inacreditável; tocava seus exemplares, cada um deles, com um carinho cuidadoso, observando as necessidades de cada folha: uma em perfeito estado. Outra um pouco doente. Uma ou outra comida por algum inseto que fizera sua habitação ali... E, ao seu toque, o jardim revigorava-se, adquirindo nova vida. Em serena harmonia.
– Antes de Noxus invadir Ionia e destruir muito da beleza que tínhamos, um noxiano veio me procurar aos prantos... Trazia sua esposa desfalecida em seus braços e implorava para que eu a ajudasse, de qualquer jeito... — ela falava com os olhos ainda focados nos detalhes das plantas, mas na verdade não estava desatenta à conversa... Era algo que ela guardara com remorso para si, e não se sentia confortável em olhar para os olhos de nenhum humano ao falar disso... — Não havia o que eu pudesse fazer para salvá-la. Ela já tinha partido. Mas meu coração encheu-se de pena e tentei confortar o homem. Ele foi gentil... Porém estava completamente tomado pelo sentimento de vingança. Ele queria caçar e matar cada um dos homens responsáveis pela morte de sua esposa; eu não podia deixar que fizesse aquilo, seria arriscado demais, e o ódio não é a resposta para o luto... As estrelas tentaram me avisar. E eu, sinceramente, deveria tê-las ouvido... Mas, para aquele mundo, eu era jovem e inocente. Inconsequente. Eu então desci do meu lugar junto a elas para me firmar aqui e segui-lo, mesmo contra os avisos delas. Eu não podia deixá-lo sofrer daquela forma, muito menos arriscar-se daquele jeito, lutando sozinho contra um bando de assassinos inescrupulosos!... As estrelas mais uma vez me avisaram. "Não siga adiante, Soraka. Não seja desobediente." Eu as ignorei. Ele havia achado os criminosos. E estava lutando com eles. E estava morrendo para eles. "Se você ousar usar nosso poder para isso, criança, nunca mais deverá voltar para nossa morada... Nem sequer ouvir nossos sussurros..." Mas eu...
– Você estava "encantada" por ele... — Vi completou, com um eufemismo gentil, a frase que a mulher não ousara proferir. Soraka suspirou e baixou seu olhar.
– ...Sim... "Encantada"... — ela deixou de mexer em suas flores e virou-se para o lado, fitando o nada. — Eu desobedeci minhas guardiãs e fui até ele, com os olhos repletos de lágrimas ao vê-lo fatalmente ferido... E eu usei o poder das estrelas, ignorando qualquer aviso. A cada novo ferimento de faca, eu o curava e lutava também para ajudá-lo. Eu ouvia minhas irmãs gritarem em desespero para que eu parasse e fugisse, mas não me importava. Nossa luta se estendeu até que eu estivesse exausta e igualmente ferida... E foi então que a realidade chocou-se comigo como um meteoro impiedoso caindo sobre um inocente jardim: era uma emboscada. Tudo aquilo, desde o início, apenas uma armadilha. Um plano de um general de Noxus para que Ionia perdesse a proteção da estrelas e se tornasse vulnerável a um ataque... — ela finalmente olhou para a mulher de cabelos rosa, com firmeza, e seu olhar era de um arrependimento e raiva imensos, mergulhados numa profunda tristeza que ela se negava a admitir. — Ionia era um lugar pacífico. Apesar de algumas famílias dominarem as artes da luta, o povo, em geral, é de um temperamento modesto e sereno. Muitos vilarejos são de monges e camponeses; não existe um exército. Ionia era protegida pelo divino. ...Era... ...Até este movimento frívolo e idiota que eu fiz. — ela então calou, numa dureza de coração mortal, e levantou-se, retirando-se dali sem dar mais explicações a Vi. A enforcer, presenciando tudo aquilo, ficou perplexa.
– Espere! — ela correu atrás da curandeira.
– Não há nada mais para ser dito...
– Tem sim; a história não termina aí! Senão você não estaria aqui, na Escola do Transcenden...isso. — ela falava, firme, fazendo com que Soraka se virasse para ouvi-la, mesmo que com severidade.
– E de que adianta contá-la?! Ainda mais a vocês, humanos?!
Um silêncio constrangedor se fez... Era insuportável aquele sentimento de culpa e vazio que Soraka sentia... Um motivo tão estúpido, deuses; um motivo tão estúpido!... E ela tinha colocado um povo todo à mercê de lobos vis e sanguinários, que mancharam as areias brancas e puras da costa de Ionia com o sangue de seus habitantes.
– ...Adianta contá-la. Eu definitivamente não sou um exemplo em relação a isso... Mas contá-la é melhor do que ser consumida por ela... O passado já era, Soraka. A gente só vive o "daqui em diante".
A mulher deixou aquelas palavras reverberarem por sua cabeça... Humanos... Como eram seres impossíveis de se entender! Tinha... Tinha sincera raiva pela grande maioria deles, depois daquilo que fizeram a ela, depois de toda a dor e a solidão que fizeram-na sentir... Porém, ao mesmo tempo... Ninguém nunca fora maldoso com ela em Ionia. Talvez não compreendessem aquele mau-humor e distanciamento que ela cultivava, alguns não assimilavam sua diferente pele roxa, ou os cascos no lugar de pés, ou o chifre imponente que havia em sua cabeça... Mas, em geral, haviam-na acolhido... E ela se tornara parte fundamental da vida deles... E então surgira novamente uma pessoa, com uma mulher desfalecida nos braços, pedindo sua ajuda. Uma brincadeira cruel do Destino.
...Ou então uma chance. De se redimir e fazer as coisas diferentes do que foram no passado.
Ela desviou-se da humana à sua frente e caminhou até a fonte no centro do jardim. Tocou sua água, causando uma leve perturbação... Mas o tempo tratava de sanar todas aquelas imperfeições, e logo a água era novamente um espelho calmo e cristalino.
– ...Aquele homem... Warwick... Eles quase me mataram. Me deixaram à beira da morte para apodrecer numa floresta perdida... Mas, mesmo com a minha desobediência... Não há nada maior do que o amor de uma mãe para com seus filhos... E a última vez que entrei em contato com as estrelas no céu foi quando elas, tristemente, me devolveram minha vida... numa forma mundana. Voltei, destruída, para pedir ajuda em Ionia. Me receberam, mesmo sem saber quem ou e onde eu era. Esta história se fez ouvir e eu ainda tinha uma parte considerável dos meus poderes... "A Filha das Estrelas"... Mas eu nunca mais vi ou ouvi os sussurros de minhas irmãs.
O silêncio novamente se abateu, mas agora não era mais um incômodo vazio... Era um momento de reflexão. Contemplativo.
– Essa história te afeta também. Ionia resistiu com bravura aos ataques de Noxus, e pelo céus, se não temos que agradecer nossos guerreiros! ...Mas a cidade-Estado conseguiu conquistar um bom pedaço da ilha, e agora as fronteiras de Ionia pertencem a Noxus. Uma prisão dentro de nossa própria casa... Sinto dizer, mas você dificilmente sairá daqui cedo.
– Impossível. — aquela afirmação tão convicta fez Soraka virar-se. — Impossível! Como Caitlyn entrou aqui então?! Então por que ela não está aqui?!
– Eu não faço ideia.
– É porque existe um jeito, Soraka! E, caramba, se eu não vou descobrir como sair daqui e voltar pra Piltover! Nem que eu tenha que abrir caminho pelo meio dos assentamentos noxianos na porrada!
O rosto daquele ser divino fora ligeiramente tomado por uma discreta surpresa. Ela e aquela outra mulher de Piltover... Enérgicas. Não existia trégua em suas vidas atribuladas, mas também não parecia existir, naqueles momentos que ela presenciara, nada que pudesse impedi-las. Um furor que poderia, por vezes, estar errado, mas que era tão poderoso quanto a sabedoria convicta de Ionia... Soraka virou o olhar para o lado, observando novamente o Sol que despontava no horizonte do meio de seu jardim.
– ...Prepare-se, então, piltoveriana. Só há mais um dia antes da sua partida.
Vi esboçou um enorme sorriso com aquilo... Então tinha um jeito. E, mesmo que elas não soubessem qual era, iam arrumar uma forma de tirar a enforcer dali.
– HAHA!! — a jovem mulher comemorou, animada, de uma forma quase cômica, numa dança um tanto estranha aos olhos de Soraka... Mas a filha das estrelas, então, mesmo que por um breve segundo e de forma muito discreta... Sorriu levemente por um momento.
...a aventura estava só começando.
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