Piltover's Finest
17 Capítulo 16 - Parte I - A Cidade Em Chamas

Deixando o armazém arder em chamas, retornaram, todos, para a casa de Andrès, que tornara-se involuntariamente o "quartel general" não-oficial do grupo. Entardecia, e, logo ao entrarem na casa, Elle foi buscar algo para poder tratar de seu ferimento ainda exposto no rosto. Johan e Andrès sentaram-se na sala de estar, trazendo consigo todo tipo de mapas da cidade e espalhando-os sobre uma mesa de centro. Começaram a discutir táticas e coordenadas para bolar o plano de resistência de Piltover, tornando-a, com muita perspicácia e um pouco de sorte, uma fortaleza quase impenetrável. Caitlyn juntou-se a eles, participando muito ativamente da discussão, ainda com aquela fúria determinada e vigorosa de quando deixara o armazém; utilizando de sua vasta experiência como xerife para pensar no posicionamento de tropas, nos pontos de defesa da cidade, nas possíveis emboscadas que poderiam montar ou nas quais poderiam cair se não se mantivessem atentos a absolutamente tudo ao redor...
Barthrax, logo que entraram no apartamento, começou a cultivar um certo distanciamento; sentia-se... deslocado de tudo aquilo que todos os outros conversavam e pareciam dominar tão bem. Pff... Ele não era um herói, era apenas um simples sobrevivente que conseguira, mesmo através dos revezes, chegar até aquele ponto da vida, e pretendia ainda seguir adiante...
– ...e eles provavelmente irão tentar novos ataques até que Caitlyn seja pega; este é o último objetivo deles, visto que os cristais e os estudos de Jayce Dohran já possui...
– Espera! — a súbita manifestação do homem que, até então, tinha ficado calado em seu canto fez com que todos se voltassem para ele. Barthrax acalmou sua respiração após a repentina intervenção... Mas não, não falaria simplesmente dali de longe, de onde estava. Seu assunto, o assunto de Vi, era diretamente com Caitlyn, e era ela, então, que merecia toda sua atenção naquele momento... Calma, calma; tinha antes que... que trazer os documentos para a xerife. Sim, isso, antes de mais nada; como Vi havia lhe pedido. Todos olhavam para o homem enquanto este refletia, como se encorajando-o a falar ou então ligeiramente intimidando-o para que falasse logo. Barthrax, finalmente, percebeu isso. — Eu... Xerife, eu tenho que lhe mostrar algo... Por favor, me esperem!...
Saindo apressado, sem dar satisfação a ninguém, o velho correu com toda a velocidade que pôde de volta para sua casa para apanhar os devidos documentos guardados sob seu sigilo e proteção. Na casa de Andrès, todos entreolharam-se, confusos... O que acontecia? Mesmo intrigados, relevaram a questão por algum tempo para continuarem construindo seu plano de defesa.
Barthrax tinha que quase atravessar a cidade para chegar à sua casa, longe daquela parte mais refinada de Piltover, e ficava mais tenso e impaciente a cada vez que olhava no relógio, vendo o tempo passar e ele ali, ainda no caminho, ainda longe de seu objetivo... Quando o ônibus finalmente parou em seu ponto, desceu numa velocidade incrível e começou a rumar na direção daquelas singelas e quase escondidas colinas, onde uma casinha ou outra se levantava humildemente. Escancarou a porta de entrada e não pensou duas vezes: virou o sofá da sala de ponta-cabeça e tirou, do fundo dele, os papéis que havia escondido dentro de um zíper, num fundo falso do estofado. Apertou-os contra o peito e saiu novamente correndo da casa, levemente ofegante, lutando contra o relógio para entregá-los à tempo para a xerife...
~¨~
O informante correu das garras daquele trator rosa e de toda a confusão que se formara como se não houvesse amanhã... De fato, para muitos não haveria mais, agora que a paciência de Dohran fora gasta de vez e ele se preparava, junto à sua corja de ladrões, assassinos, estupradores, traficantes e todo tipo de escória encontrada além da fronteira de Piltover, para atacar a Cidade do Progresso e reestabelecer o reinado dos criminosos que fora subitamente aniquilado com a ascensão daquela ordinária mulherzinha como xerife.
Aquele era o nome principal que o rei dos canalhas levava, com fúria, em sua cabeça... Desde que ela surgira, não era possível fechar um acordo, gerir um negócio, sequer colocar o pé na cidade sem ser caçado e punido de acordo com os rigores da lei. Aquilo o cansava... Extremamente. Estava cansado de ser sempre o "prata", de ser um nome conhecido, de ter uma figura respeitada e, acima de tudo, temida por onde quer que passasse, porém nunca tinha real voz, projeção, nem mesmo acesso ao verdadeiro círculo dos gigantes de sua tirania. Flagelos... Terror em forma humana... Poderosíssimos! Isso é o que eram os verdadeiros mestres sanguinários desse submundo; eles eram ouro. E, apesar de estar sempre lá, sempre ousado, sempre grande, sempre temido, Dohran tinha as entranhas reviradas e o sono perturbado todas as noites devido à sua inalcançável obsessão... Ele seria sempre prata....Porém não mais. Agora ele já não mais arquitetava, ele partia para o momento da execução de seu maior plano, algo que iria definitivamente tirá-lo de seu laguinho e colocá-lo no tanque dos peixes grandes: dominar. Destruir. E subjugar completamente Piltover.
Finalmente, o informante retornou ao esconderijo, trazendo consigo o monte de papéis que havia roubado da traidora vira-casaca filha da puta da Vi. Quando adentrou o local, agora apinhado de gente como um formigueiro, todos munidos até os dentes de armas, bombas, facas e toda sorte de objetos que pudessem causar algum estrago, percebeu Dohran, visivelmente ansioso, porém calado e pensativo, conversando com Novak e um homem bigodudo baixinho no canto mais afastado possível daquilo tudo. Rumou até eles.
– ...não há por que não funcionarem, teoricamente, embora eu não entenda completamente como é que essas porcarias brilhantes aí funcionam... Pff. Pra mim, são pedras e só; é a Mecânica quem vai decidir se isso vai dar certo ou não.
– Você está dizendo então que você, que se gaba de ser considerado o "melhor mecânico do mercado negro", com toda a sua "experiência", não consegue copiar o que aquela sucateira fez em questão de minutos?
– Ora, ela pegou um dispositivo pronto e apenas utilizou-o para...
– EU NÃO QUERO PORRA DE DESCULPA NENHUMA; POR CAUSA DE DESCULPAS JÁ PERDI MUITO TEMPO NESSA GUERRA!! ...A vadia não era nada mais que uma sucateira que "brincava de montar" dispositivos com essas... essas merdas dessas tecnologias cheias de magiquinhas firulas aí... Hah, se bobear a imbecil não sabe nem escrever direito; mas entende os INFERNOS dessa PORCARIA que vocês chamam de HEXTECH!...
– Dohran, me desculpe, mas acho que não é conveniente começar uma confusão agora; prove essas luvas logo e vejamos se funcionam!! — finalmente, Novak interveio, colocando panos quentes na exaltação furiosa de seu chefe, sendo que ele mesmo começava a ficar profundamente irritado com tudo aquilo.
Ofegando de raiva, o homem lançou um olhar duro para seu subordinado, depois outro ameaçador para o mecânico que fizera-lhe o que havia encomendado meses antes. Entretanto, apenas respirou fundo, aplacando sua fúria, e então tomou uma das gigantescas luvas de ferro, cheia de engrenagens e pistões, girando e soltando vapores quentes, e vestiu-a em uma de suas mãos. Por dentro, cada um de seus dedos encaixava-se numa série de anéis de ferro, todos presos em sequência por um grosso fio de cobre que ligava os dedos do homem aos da luva mecânica, fazendo com que se movessem conforme a mão do rapaz puxava os anéis; impulsos transmitidos por energia elétrica gerada pela ativação das engrenagens auxiliavam na movimentação do aparato... Não era nada confortável. E era extremamente pesado... Com visível esforço, Dohran levantou o braço. É, aquela coisa pesava demais. Hah, mas quem se importa. Ele era grande. Ele era o líder temível e enforcer daquele grupo desde sempre; aquela cadelazinha desobediente podia equiparar-se a ele, mas não seria nunca capaz de superá-lo... O peso daquele material, para ele, não era nada. Era isso que Dohran imaginava.
– Quanto tempo isso aqui dura ligado sem os cristais?
– Não tenho certeza do tempo, Dohran, mas diria com muita segurança que aguenta horas de muito trabalho pesado sem nem dar sinal de cansaço.
De repente, surge naquele canto em que eles conversavam o rapaz magricela que correra a madrugada toda para trazer os estudos roubados de Jayce para Dohran. Bem... "Roubados"... Era um termo meramente representativo na ocasião, huhum... Mas não é hora de discutir isso. O informante arfava.
– Se... Senhor!... Aqui estão... Aqui estão os documentos... que o senhor queria.
Naquele momento, o rosto duro e fechado de Dohran pareceu iluminar-se. Observando aquela reação, o rapaz, ainda que exausto, até ajeitou melhor sua postura, regozijando-se do grande feito que havia cumprido em nome do bando e que certamente lhe renderia alguma boa recompensa depois que tomassem aquela merda daquela cidade... Quem sabe o controle monopolizado sobre qualquer espécie de tráfico num bairro... O chefe da corja tomou os papéis nas mãos avidamente... Hah... Haha... HAHAHAHAHAHAHAHA!!!!! Com aquilo; com aqueles projetos que ele havia discutido amplamente várias vezes com Jayce, tinham a resposta para aquele monte de cristais do caralho que estavam com eles! Saberiam como utilizá-los e, de quebra, tinham ali as plantas de um arsenal letal quase completo para uma iminente guerra... HAHA!!!
– HAHAHA!!! Ei, sucateiro, você faz serviço express? Porque agora você pode desmontar a PORRA dessas luvas E FAZER TODO O CIRCUITO PRA INTEGRAR O USO DOS CRISTAIS! HAHAHAHAHAHA!!! — o canalha ria, ria, ria descontroladamente como se tivesse o rei na barriga, como se absolutamente todas as chances tivessem virado a seu favor naquele exato momento, e então ele começou a abrir os rolos de papel... mas... eles... — ...O que é isso aqui? — Dohran começou a ler, sem entender nada, o conteúdo daqueles documentos... Largou um rolo e abriu outro... E outro. E outro. E o outro, nervosa e apressadamente, com uma careta de confusão que aos poucos migrava para a mais frenética raiva... — MAS QUE MERDA É ESSA?! O QUE É TODA ESSA PORCARIA AQUI?!!!
– São... São os documentos, senhor. — o informante, estremecido e abandonando completamente sua postura confiante, gaguejou, confuso, ao responder para o seu chefe.
– POIS PODE ENFIAR ESSA PORRA TODA NO MEU RABO COM AREIA QUENTE SE ISSO FOREM AS MERDAS DOS DOCUMENTOS QUE EU PEDI! ISSO É SÓ UM MONTE CARTAZES INÚTEIS DA POLÍCIA!!!! — ouvindo aquela preocupante discussão, todos involuntariamente pararam o que estavam fazendo e voltaram sua atenção para o canto em que o chefe berrava, porém dessa vez infinitamente mais nervoso do que nunca, de uma forma que, temivelmente, os outros homens nunca o haviam visto... Estava extremamente vermelho, com as veias do pescoço e da testa saltadas, suando enquanto berrava com todas as suas forças na cara do rapaz. — AQUELA VADIA DO INFERNO TE TAPEOU QUE NEM UM RETARDADO, SEU BOSTAA!!! OLHA A MERDA QUE VOCÊ FEZ! OLHA. A MERDA!!! O PIOR É QUE EU TENHO QUE CONCORDAR COM AQUELA PUTA DESGRAÇADA: VOCÊS SÃO TODOS UM BANDO DE INCOMPETENTES, ACÉFALOS, NÃO CONSEGUEM FAZER DIREITO PORRA NENHUMA DE TAREFA SIMPLES QUE EU MANDO!!! ELA PELO MENOS PRESTAVA!
– Mas, senh...
– AAAAAAAAAAAARRRRRRRRRRRRRRRGGGGGGGGGGHHHHHHH!!!!!!
Completamente irado, sem mais um pingo de paciência, Dohran levantou a mão que ainda vestia a colossal luva de ferro e desceu-a pesadamente direto sobre a cabeça do rapaz, fazendo com que seu pescoço se afundasse entre os ombros e quebrando uma série de ossos enquanto descia como uma tonelada esmagadora, deixando fraturas expostas e espirrando sangue. Ainda não satisfeito, vendo o moleque no chão ainda conseguindo — dificilmente — respirar, Dohran utilizou a luva e deu repetidos socos no oponente caído, fazendo terríveis sons estalados de que algo se quebrava, até que os estalos cessaram e só se ouvia o barulho molhado de algo gigante esmagando inutilmente uma pasta vermelha e viscosa, com pedaços de carne e osso voando pelas paredes e banhando sua cara furiosa no sangue daquele idiota incompetente do inferno. Os outros assistiam àquilo estupefatos, alguns até com o estômago retorcido... E olha que estavam acostumados a ver coisas muito piores em suas vidas... Outros se deliciavam com a sanguinolência, com a dor, o desespero... Psicóticos.
Ao finalmente decidir que não queria mais perder tempo terminando de eliminar pra sempre aquele filho da puta desgraçado, Dohran levantou-se, deixando, contudo, a mão com o maquinário exorbitantemente pesado de ferro caída, com a luva apoiada no chão. O mecânico, que assistiu a tudo atônito, perplexo, sentiu uma quentura no meio das pernas enquanto líquido escorria por ela, manchando vergonhosamente sua calça e deixando-o com um cheiro horrível de mijo, quando Dohran olhou-o com uma fúria gélida após terminar com o rapaz.
– ...Sai daqui... Sai daqui agora, que eu não preciso mais de você. Sai da merda da minha vista antes que eu canse dessa sua cara de trouxa também e faça o mesmo... — a voz do homem era fria como gelo, com um ódio imensurável em cada palavra, e não havia dúvidas de que o mecânico estaria fodido se decidisse passar sequer mais um segundo ali... O homenzinho tremia, querendo correr com todas as suas forças, mas suas pernas pareciam chumbadas ao chão! — SAI DAQUI!!! — com o grito colérico de Dohran e um chute no lado do corpo que doeu como o inferno, o mecânico foi finalmente capaz de sair de seu estado de choque por alguns segundos, e então correu loucamente, desaparecendo do lugar para nunca mais sequer imaginar em voltar. O chefe, então, virou-se para todos. — Vai ter que ser assim então, seus merdas... VAI TER QUE SER NA RAÇA! ...É bom que estejam todos prontos. A gente vai partir pra Piltover agora. E ai de quem me decepcionar...
~¨~
Ela ria... Ria como se aquele inferno caótico que ela mesma proporcionava fosse a mais fantástica das diversões, tendo as cidades ao seu redor como seu mero playground para que fossem explodidas, derrubadas, queimadas, aterrorizadas, lavadas, varridas, jogadas em completa algazarra enquanto ela se deliciava com o calor dos prédios em chama, a sinfonia dos gritos desesperados das pessoas e o espetáculo particularmente maravilhoso que eram as bombas quando explodiam no entardecer, tingindo o céu levemente azulado de um enérgico e impetuoso laranja com rasgos dourados e brilhantes... Era assim que ela via o mundo: imerso em caos, bombas e balas. Sem nenhum traço de esperança ou vontade de que aquilo mudasse e deixasse de ser daquele jeito. Ora... Havia se acostumado tanto daquela forma, os "fogos de artifício" em sua vida eram tão daora!!!! Por que mudar pra chatice daquele mundinho insosso, no estilo mais chato de Chatover, com todas aquelas regras e blábláblás e mimimis... Haha! Que bando de otários; até a Vidiota tinha caído na deles e virado uma preguiça gigante e gorda que não fazia mais nada de legal!... Humpf! Jinx tinha certeza que seria muito mais legal elas destruírem tudo! E que se dane o que aquela Mãozuda trouxa pensasse; ela tinha argumentos irrefutáveis (e um monte de granadas sobrando!) pra mostrar pra ela e pra aquela "Moça da Cartola" (blergh! :P ) que estava certa e que era assim que as coisas tinham que ser.
Dessa forma, a garota distribuía seus "doces" através de todo o caminho, que claramente seguia em direção a Piltover, deixando um rastro de destruição que Vi seguia avidamente, com uma fúria implacável que a fazia correr numa velocidade incrível para o suposto peso das luvas que carregava consigo. Bando de filhos da puta, todos se juntando pra mirar em seu ponto fraco em Piltover!!!... Correndo até muito mais do que podia, forçando todos os seus músculos a trabalharem em sua potência máxima, finalmente conseguiu avistar aquela cachorra de cabelo azul no meio de seu festivo pandemônio, perdendo tempo enquanto parava para destruir uma estátua gigante, já na proximidade dos portões da cidade, com sua metralhadora. Com os dentes fortemente cerrados de raiva, quase trincando a mandíbula com a intensidade que os apertava, o cenho franzido e os olhos completamente focados naquela terrível trilha aberta à força à sua frente, Vi canalizou todo seu esforço num único letal e extremamente rápido soco.
– HHHAAAAAAAAAAARRRR!!!
Voando, praticamente, metros à frente, com o punho gigante estendido na direção daquela escrota miserável raquítica, Vi ignorou o choque pesado que tivera contra a própria estátua, reduzindo-a a pó como se simplesmente não estivesse ali, e avançou ainda com força total, acertando a menina e fazendo-a voar como um cascalho inútil chutado longe. Jinx aterrissou forte e dolorosamente contra o chão, sendo ainda arrastada por metros até que o atrito com o solo, que havia formado um rastro pelo caminho onde ela fora lançada, a fizesse parar, dolorida, no meio de uma pequena cratera.
– AAAAI... AAUUU... — ela resmungava com o corpo contorcido de dor, apoiando as mãos na beira da pequena cratera formada para conseguir levantar-se, toda suja de poeira, um pouco de lama e arranhões vermelhos que começavam a brotar algum sangue.
– VOCÊ AINDA QUER DESTRUIR PILTOVER, IDIOTA?! — Vi gritou, furiosa, enquanto andava pesadamente na direção da garota, pronta para pegar-lhe pelo pescoço e dar a surra da vida daquela menina, ensinando alguns modos àquele pedaço de merda e mostrando como é que funciona a lei por parte dela. Estava prestes a alcançá-la, ainda enfraquecida e retomando o equilíbrio ao levantar-se, quando reparou algo familiar que a mocinha de cabelos azuis acabava de tirar de sua cintura e imediatamente atirava em sua direção.
– VOCÊ AINDA QUER BRINCAR DE MANDAR EM MIM E PROTEGER PILTOVER, OTÁRIA?!!!! — Vi só teve tempo de se jogar para o lado, esquivando-se mais uma vez daquelas granadas com dentes, enquanto Jinx gritava com uma ira peculiar na voz, quase como... quase como uma criança entristecida e furiosa, fazendo birra e recusando-se, indignadamente, a obedecer às ordens de alguém mais velho que não lhe dá um pingo de atenção.
Apoiando uma das gigantescas luvas no chão e levantando-se de imediato ainda com aquelas chamas coléricas no olhar, Vi o observou a garota virar-se para fugir e não quis dar-lhe chance de trégua nem por um milésimo de segundo: partiu para cima dela com ímpeto mortal mais uma vez; uma leoa prestes a abater sua presa. Jinx, sentindo um dos lados de seu corpo doer intensamente, em pontadas que pareciam flechas queimando entre suas costelas, reuniu toda a força que pôde e, com sua destreza invejável, saltou para fora do trajeto do golpe de Vi no exato momento em que receberia o poderoso soco que muito provavelmente significaria seu fim. Rolou em sua aterrissagem, possibilitando que se colocasse de pé mais rápido para poder fugir, contudo o ferimento invisível em suas costelas ardeu como se a queimassem com um pedaço de ferro em brasa, e Jinx foi obrigada a colocar uma das mãos sobre o lado de seu corpo, apertando-o e fazendo-o latejar. Era a única forma de, muito ligeiramente, aplacar um mínimo da dor que despontava naquele momento e poder continuar sua surpreendente fuga.
Vi praticamente comeu poeira quando aquela meliante desgraçada fugiu de seu golpe e pôs-se a correr novamente, mas agora ela havia feito um bom estrago naquela filha da puta... Não ia demorar até que a pegasse de jeito, mas... ...merda! Percebeu somente agora que acabavam de entrar em Piltover, com toda aquela confusão rolando e as duas, num embate épico, destruindo sem pensar tudo o que estava ao redor delas. A garota magricela, mesmo fugindo, um tanto mais longe já, virou-se para sua nêmesis e pareceu perceber exatamente aquilo que se passava na cabeça dela, com aquele olhar de repentina surpresa e leve pânico que tomava agora conta de sua face. A menina sorriu, até interrompendo sua fuga para apreciar um pouco mais aquela cara de paspalha que a Vidiota fazia... Hah... Haha... HAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHUHUHUHUHUHHAHAHAHAHAHAHHEHE!
– Ei, Mãozuda! — ela até mesmo ignorou a dor naquele momento, colocando uma mão atrás de si, já pronta para sacar o lança-mísseis de suas costas... — É aqui que estão seus novos amiguinhos nojentos?! HAHA! Eles vão te dar boas-vindas com bolo só porque você voltou ou vão te caçar que nem o cachorro vira-lata velho raivoso e sarnento que você é pra eles? Hein? HEIN?! HAHAHAHA!!!
– Cala a boca, garot...
Sem hesitar, a menina puxou o lança-mísseis e, subitamente, disparou-o contra a base de um prédio que se encontrava quase exatamente entre o caminho das duas, fazendo-o estremecer e desmoronar completamente, levantando no ar uma poeira terrível de respirar. Vi colocou a luva gigante em frente ao rosto, evitando que escombros que voaram enquanto o prédio tombava atingissem sua cara. Inevitavelmente, um ou outro menor conseguiu acertá-la, deixando arranhões em sua pele suja de suor misturado com terra e poeira. Tossia devido a toda aquela sujeira inalada, e não era possível enxergar direito o que acontecia com toda aquela quantidade de partículas suspensa no ar... Entretanto, apenas instantes depois, quando a poeira começara a baixar, pôde enxergar apenas o contorno daquele vulto esquálido... A longa trança... O contorno daquele arsenal temível que ela carregava consigo... O vulto estava mais próximo. Parado. Apenas virado em direção a ela, observando-o... Apenas uma sombra difusa, negra, em meio à nuvem amarronzada e densa de poeira que tomava conta de toda a atmosfera do lugar... Quando parou de tossir e virou-se completamente, agora realmente olhando para o vulto, não apenas uma visão periférica, aquela forma macabra... pôde vê-la abrir um enorme sorriso claramente ensandecido... Sádico...
Um calafrio, repentinamente, percorreu o corpo de Vi, enquanto flashes de imagens incrivelmente rápidos passavam por sua cabeça ao perceber o formato daquele contorno; o cenário parecia girar, as imagens passavam como um carrossel alucinado e macabro por sua mente; a poeira tomava seus pulmões, um sentimento estranho sufocava sua mente; uma menina; a casa em escombros; coberturas de prédios; duas trancinhas; o tapa, o tapa, aquele tapa; aquela cara de ódio, um grito de ódio; uma criança ferida atirada no chão; os becos; as crianças correndo por aqueles becos; a polícia correndo atrás daquelas crianças naqueles becos; as brincadeiras e os risos naqueles becos; a briga, a partida de todos, todos menos uma; ela queria ficar; ela não queria que ela ficasse; aqueles olhos vermelhos... Aqueles cabelos azuis presos em duas inocentes tranças... O sorriso dela... Vi... Brinca comigo...
A enforcer perdeu todo o ar de seus pulmões, expelindo-o devido à quantidade insana de memórias que repentinamente foram descarregadas e liberadas novamente em seu cérebro, mesmo que em pequenos fragmentos corrompidos, e também para livrar-se da maldita poeira que dificultava sua respiração, fazendo-a tossir e quase engasgar. Seus olhos quase saltaram das órbitas com a... a semelhança... Ela... Aquele sorriso insano... Aqueles... detalhes... Eles já existiam... Sim, eles já existiam em sua vida, e naquele momento ela tinha quase certeza, eles só não eram... assim... repletos de puro ódio. De escárnio. De loucura... Levantou lentamente o tronco que estivera curvado, tossindo a poeira até então. Virou-se, ainda incrédula, para aquela medonha sombra negra envolta pela poeira...
– Qual... Qual é o seu nome?...
O sorriso afiado, mortal, brilhou completamente satisfeito no meio do escuro...
– Hoje, irmãzinha, me chamam de Jinx...
E o vulto negro simplesmente sumiu, antes mesmo que a implacável demolidora pudesse imaginar perguntar qualquer outra coisa... Droga... DROOGAAA!!!!... A poeira baixou mais um pouco, e já podia-se ver, então, novamente, o horizonte da grande cidade que se erguia à sua frente... Um horizonte tomado por chamas... Ela havia recomeçado sua sinfonia de destruição. No fundo, já era possível ouvir as sirenes convulsas da polícia se aproximando em desespero. Vi olhou novamente na direção em que estivera aquele vulto sombrio...
Franziu o cenho, enraivecida, e recomeçou também, então, a mais uma vez correr para aquela interminável briga.
"Eu te conheço, Jinx... Mesmo que não consiga lembrar de tudo, eu te conheço, desgraçada... E quer saber de uma coisa? Eu não dou a mínima pra qualquer que seja sua historinha triste de vida, ou o que quer que tenha sido a merda que te fez ficar assim. Eu vou te alcançar, canalha, e quando eu te pegar, você vai se arrepender até o último fio desse cabelo azul tosco por ter tentado bagunçar a minha cidade. E eu vou arrancar esse seu sorriso idiota da sua cara de trouxa... Permanentemente."
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No apartamento, todos tinham a atenção intrinsecamente focada naquela complicada e importante discussão, e pareciam já ter chego numa espécie de acordo sobre o que deveriam fazer.
– ...sem dúvida, devemos nos preparar desde agora para um difícil e muito provável confronto aberto, porém, antes de mais nada, é imperioso que Caitlyn retorne, mostrando ao povo que tudo o que Jayce disse foram grandes mentiras forjadas por ele, para então conseguirmos enfraquecê-lo, tirando-lhe o apoio da população.
Enquanto deliberavam sobre aquele último assunto, Caitlyn ouvia a tudo calada, sentada numa das poltronas da sala, com um cotovelo apoiado sobre o encosto de braço e tapando a boca enquanto seus olhos fitavam o nada; o rosto era inexpressivo e sua mente vagava sobre algum lugar distante... Completamente alheio a tudo o que acontecia naquela sala. ...aquele encontro no beco... Esfregou a mão sobre a testa, querendo afastar aquele pensamento terrível que a acometia desde o momento em que seu celular tocara, trazendo aquela maldita notícia na madrugada anterior... Ela já sabia que, infelizmente, não podia confiar no oficial que antes fora seu parceiro e grande amigo na gestão da Patrulha de Piltover... Somente aquilo já era algo arduamente difícil de suportar... Mas então... ... ...suspirou, apertando com os dedos o canal lacrimal nos olhos... Sua cabeça doía terrivelmente... "Eu poderia suportar muito bem qualquer tipo de ataque contra mim, Vi... Mas não um seu. Nunca um seu... No que eu devo acreditar então? Alguma coisa realmente significou algo pra você... ou foi tudo apenas um plano desde o mais precoce começo?..."
Barthrax saíra já fazia um bom tempo, mas só agora estranhavam a duração de sua ausência. Ainda assim, estavam todos concentradamente imersos em seus planos, tanto que, quando Barthrax abriu a porta de súbito, precipitando-se para dentro do local, todos tomaram um enorme susto, imaginando paranoicos, talvez, que um inimigo os localizara e agora atacava-os de surpresa. Caitlyn, especialmente, sentada de costas para a porta e perdida em pensamentos, quase deu um salto na cadeira em que se encontrava, virando-se para o homem que entrara, com uma mão repousada sobre o peito, acalmando-se.
– CÉUS! O senhor podia não nos matar de susto? Já estamos em número bem reduzido aqui...
Ignorando aquela sentença, o homem caminhou até a xerife, numa seriedade que muito mal escondia seu nervosismo, ansioso. Parou frente a ela, respirando devagar e controladamente, e engoliu em seco. Havia um monte de rolos de papel em seus braços... Ele agachou-se, ficando com o olhar sério e pesado na altura do da xerife, que estava sentada, e olhava-a fixamente nos olhos...
– Senhorita Caitlyn... Xerife. ...Existe algo que eu preciso lhe mostrar... Mais que isso. É algo que preciso devolver-lhe; pertence a você e mais ninguém. Mas não sou eu quem está fazendo isso... Eu apenas... — ele fez uma pausa, analisando o olhar confuso e agora também relutantemente ansioso da xerife. — Eu apenas estou atendendo a um pedido de Vi.
A xerife, repentinamente, sugou uma pequena quantidade de ar numa expressão da mais pura surpresa; havia sido pega desprevenida para falar naquela... naquele assunto. Imediatamente, de forma involuntária, sem pensar, levou uma mão à boca, cobrindo-a como que para conter sua expressão. Ficou muda...
– ...O que ela quer? — retrucou numa voz vacilante, tentando ser ríspida, porém sem consegui-lo. Céus, haviam pego-a...
– Xerife... Se não quiser tratar disso em público...
– Não há nada sobre eu ou ela que não possa ser dito a todos. — replicou, quase nervosa. Barthrax percebera que seria esta uma situação delicada, e deveria tomar todo o cuidado para proferir aquelas palavras para Caitlyn...
– Está bem... — o grande e velho homem respirou fundo. — Eu absolutamente não sabia o que acontecera com ela. Deixei de visitá-la na prisão desde que me contou a ideia que tivera, pedindo minha ajuda para executá-la, e então eu definitivamente não tinha mais notícias de Vi... Eu... — ele suspirou. — ...eu havia decidido apagá-la de minha vida; mais uma dor decepcionante, como todos os outros que passaram e não ficaram... Neste momento, percebendo tudo o que se passou agora... Sinto remorso por não tê-la ajudado antes, quando pude, da primeira vez que me pediu... Teria poupado tanto dessa confusão...
– O que ela contou pra você? — ela cortou-o, dura.
– Calma, xerife... Tentarei explicar com a maior veracidade possível, mas para isso preciso que tenha paciência e me escute... Ela queria que eu desse um jeito de roubar os estudos de Jayce para mantê-los em segurança enquanto as coisas com Dohran não se resolviam, mas eu neguei. Ela estava segura na cadeia, mesmo que fosse desconfortável, e isso, de certa forma, me deixava feliz ou então minimamente aliviado sabendo que ela não estava por aí, nas ruas, voltando para aquela maldita gangue e colocando sua vida em risco... Estava protegida daqueles... Monstros que poderiam, a qualquer momento, irritar-se e matá-la. Além disso, eu estaria cometendo também um crime, e isso, senhorita, em meu código pessoal de moral, é inaceitável. Ainda assim... Vi me implorou, de todas as formas, para que a ajudasse pois não se tratava simplesmente de acertar as pendências dela. Ela queria, a todo custo, era proteger você da maldade de Dohran.
Ouvindo aquilo, a xerife lembrou-se da última oportunidade que tivera para estar com... Vi. De como a outra havia sido lacônica em seus relatos, mas como também paradoxalmente, ao mesmo tempo, o coração dela falava, triste e diretamente, ao seu: "Adeus". Fechou os olhos. Sua respiração havia parado ao longo do relato daquele homem, sem que ela percebesse, mas agora sentia a agonia de faltar-lhe o ar. Controlou-se e respirou fundo... "Ela já havia indicado que iria embora...". Abriu os olhos e fez sinal para o velho.
– Continue. — falou, extremamente baixo.
– Eu me recusei a ajudá-la, esperando que ela desistisse da ideia ao ver que teria que agir sozinha, mas, no fundo, uma... tristeza... me envolvia... Eu sabia que Vi estava acostumada a viver daquela forma, apostando no "tudo ou nada"... Eu... Eu deveria ter previsto... — aos poucos, a voz grave do homem ficava cada vez mais pesarosa, com uma dificuldade imensurável para continuar...
– ...Não foi culpa sua. — a xerife, mantendo a falsa postura implacável, procurou confortá-lo ligeiramente... "Mas... Por que? Por que, céus, você decidiu fazer tudo sozinha e dessa maneira...?" Ela também partilhava, no fundo de seu ser, aquela peculiar culpa pelo fato da rebelde ter fugido e as coisas terem chegado a este ponto. Havia... Havia cometido alguma negligência para com ela; havia talvez algo importante que ela tivesse deixado passar despercebido?... Não sabia. Mas aquela enorme interrogação, sem justificativa alguma, pairava sobre sua mente... "Por que?". O homem sugou o nariz, tentando evitar aquela expressão de angústia, a vontade de desabar...
– Na noite em que Vi fugiu da delegacia, eu absolutamente não tinha como saber o que acontecia. Como eu disse, eu havia rompido meus vínculos com ela... Mas eis que, no meio da madrugada, surge aquele ser, batendo desesperadamente à minha porta, quase derrubando minha casa, implorando para que eu a atendesse... Entenda, senhorita Caitlyn; qualquer... pai ou mãe iria sentir-se extremamente mexido se visse o filho aparecer-lhe assim, naquela situação, com aquele desespero por ajuda... Acredite, eu conheço muito bem esse sentimento. Quando abri a porta... Foi como se eu tivesse restaurado toda a esperança de uma causa já quase perdida para ela. Vi sorriu para mim como se tivesse acabado de ser salva da fora, e então começou a tagarelar mais uma vez sobre tudo o que tinha em mente... Ela havia mudado o plano. Mudado-o de uma forma perigosa, porém de modo que eu não tivesse mais argumentos para não ajudá-la. "Eu roubei os documentos, eu sei... Mas quero, então, que você os devolva pra Caitlyn na primeira oportunidade que surgir; somente nas mãos dela! Viu só? Absolutamente não é nada contra a lei ajudar a polícia, a não ser que todo mundo tenho ficado pirado de vez mesmo. Hah... Te peguei, velhaco!" foi exatamente o que ela disse. — imaginando a forma com que Vi dissera aquilo, Caitlyn, involuntariamente, soltou um breve riso discreto. — ...E então ela partiu. — o pequeno acalanto que Caitlyn havia encontrado em toda aquela situação sumiu repentinamente junto com seu sorriso...
– Sim... Ela partiu... — seu peito parecia sofrer uma compressão súbita, um aperto que doía e se estendia para a garganta... A xerife apertou as mãos fechadas com força e desviou-se do olhar do velho, fitando o nada com uma profunda... Não sabia discernir. Raiva? Saudade? Angústia? Indignação?...
– Esse era o novo plano que ela havia imaginado: não iria mais esperar pacientemente, conforme pedia a lei, para que as coisas se acertassem sozinhas... Desconfiada de que alguém dentro da própria polícia tivesse o dedo metido naquela confusão, e sabendo que Dohran queria os estudos de Jayce para algo e que os tais documentos já haviam quase sido roubados por homens dele uma vez, ela mesma decidiu tirá-los da delegacia para escondê-los das pessoas erradas. Ela sabia que isso sujaria profundamente sua imagem, e não que ela desse a mínima para o que a polícia pensasse... Mas ela não queria parecer uma pessoa suja para você, xerife. Por isso... — ele afastou os papéis do peito, olhando pensativamente para eles... E então entregou-os solenemente nas mãos da xerife, como se entregasse a ela toda a sua esperança, como se entregasse-lhe uma frágil criança, como se desse em suas mãos... Seu próprio filho. — ...por isso ela me pediu que eu os entregasse diretamente para você. Para que você soubesse que ela não era o inimigo, e para que você não imaginasse, de forma nenhuma, que ela havia lhe traído, mas, principalmente... Para que ela tivesse ao menos uma frágil certeza de que, sem que Dohran conseguisse ter estes documentos, você estaria mais segura, não importa o que acontecesse a ela no meio do caminho.
Com a respiração funda, descompassada, a xerife olhou para aqueles papéis que pesavam sobre suas mãos... Desenrolou-os e percorreu seu conteúdo, analisando-o.
– São... Realmente, são as plantas dos últimos projetos de Jayce!... — ela constatou, um tanto quanto incrédula... Não. Não incrédula. Ela observou-os... arrependida.– Senhor...
– Barthrax, senhorita.
– Barthrax... — ela não... Ela não conseguia, ela não... sabia como prosseguir dali... O que falar? O homem percebeu aquilo, e logo deu continuidade à sua fala, antes que o momento se perdesse no ar.
– Xerife, o que ela levou para o negociante... Eram papéis sem valor nenhum, não continham nada de importante; ela só queria uma oportunidade de chegar a Dohran para descobrir onde os cristais estavam, revelar a localização à polícia e então, talvez... Até matar Dohran. Ela só queria que aquilo, toda aquela confusão que ela havia trazido consigo... acabasse.
Sentindo o ar faltar-lhe, a xerife levantou-se de sua cadeira, de súbito, e foi até a janela, ficando de costas para todos na sala, que acompanhavam aquela conversa tão pasmos quanto ela... Não... Nunca conseguiriam estar tão pasmos quanto ela; nunca imaginariam como ela se sentira naquele momento... Vi... Sua... Sua descabeçada, sua... teimosa! Por que arriscou tudo dessa forma, ao invés de... ... ...sentia o peito apertar-se.
– ...Ela era inocente... — falou baixo, a voz trêmula, numa angústia sensível por todos os outros à sua volta, fazendo-os também ficarem nervosos, perdendo a respiração. — Ela era inocente! - seu tom, nervoso, repentinamente aumentou, carregando uma ira contida consigo...
– Ela só quis te ajudar, xeri...
– ELA SABIA QUE NÓS ÉRAMOS UMA EQUIPE; ELA PODIA TER PEDIDO AJUDA A MIM! — gritou, fazendo todos estremecerem, surpresos e tensos, na sala.
– Seria a última coisa que ela faria, xerife: colocá-la em perigo!
– E POR QUE ELA NÃO ME PERGUNTOU ANTES SE EU ME IMPORTAVA COM AQUILO; POR QUE ELA FOI TÃO EGOÍSTA A PONTO DE DECIDIR SOZINHA, SEM AO MENOS PROCURAR SABER SE EU TAMBÉM NÃO AGUENTARIA PASSAR PELA POSSIBILIDADE DE PERDÊ-LA?!! — Caitlyn gritava com uma fúria mista de tristeza, inconsolável, não mais aguentando aquela confusão de sentimentos que a açoitara impiedosamente por todos aqueles dias, quando imaginava que aquela... aquela... idiota de cabelo rosa talvez nunca tivesse... realmente sentido tudo o que ela pareceu sentir. Vi... Sua trouxa! Ela era... Ela era uma egoísta, ela era impulsiva¸ ela era inconsequente... Ela era... ela era... ela era seu amor. Única, acima de qualquer coisa... Sua respiração estava difícil, entrecortada.... Mesmo entre todas as pessoas que ela conhecia e que a apoiaram por toda a sua vida... Aquela louca de cabelo rosa, que surgira do nada, um dia, em sua vida, revirando tudo e tirando tudo do lugar, mas trazendo para ela algo completamente novo... Vi era aquela pessoa da qual mais o sorriso, era quem ela torcia para ver no final de um dia difícil, e com quem desejava também dividir todas aquelas manhãs de sábado... Era de quem mais sentia falta; cuja partida havia tornado tudo mais triste e estranho depois Dela ter passado, trazendo tanta cor, tanta energia, tanta vida por ali... Mas agora... Todos aqueles sonhos... Tudo parecia tão distante de se tornar real...
Inconsolavelmente, sem conseguir mais conter toda a saudade e a dor que pulsavam desesperadamente dentro de si, a xerife começou a chorar, sentindo aqueles sentimentos ferirem sua garganta, rasgarem sua alma, seu coração, enquanto tentava esconder as inevitáveis lágrimas e manter-se firme diante de todos os oficiais sério que presenciavam aquela cena... "O pilar de Piltover". Tinha que continuar sendo a força inabalável que sustentava a cidade; "o pilar de Piltover"...
Levantando-se do lugar onde estivera agachado até então, Barthrax seguiu lentamente até a janela onde a xerife se encontrava, sozinha, em pé, fitando o nada através daqueles vidros embaçados pelo frio e a chuva lá fora, tentando lutar discretamente contra toda aquela dor que lhe feria terrivelmente, todas aquelas... lágrimas... O homem aproximou-se, receoso a início... Suspirou... Ele também precisava lidar com tudo aquilo, e, deuses, como ele passara noites insones tentando expurgar-se de seu próprio luto e pedindo aos céus que poupassem sua menina; que não o atirassem naquele inferno de dor e morte mais uma vez...
Com uma expressão dura, pressionando fortemente a boca fechada, segurando com força aqueles olhos pétreos para que não lacrimejasse, ele chegou a onde a xerife estava e então tomou, de uma peculiar forma serena, uma das pequenas mãos da xerife entre as suas. O rosto do velho, agora que a moça reparava-o mais de perto... Não era uma expressão dura, nem de desprezo por ela, muito menos com raiva, como ela imaginara que seria... Era um rosto... um rosto envelhecido e extremamente cansado, pedindo que não mais o castigassem com outro daqueles golpes ingratos da vida... Tinha uma expressão que tentava fortemente conter aqueles intensos sentimentos, toda uma história triste que parecia se repetir aos olhos dele, dia após dia, ano após ano... Mas o que ele sentia... Aquele afeto, aquela súplica, aquela angústia que ele carregava consigo transbordava dele, e era inútil tentar contê-los. A mulher olhou para ele, completamente desarmada, completamente sem saber o que fazer diante daquilo... Ela também queria uma resposta... Ela também queria Vi de volta... Os olhos do velho homem... Era como se, apenas por eles, aquela figura gigante se curvasse por completo, fazendo-se o mais suplicante e submisso dos seres, muito apesar de sua postura titânica manter-se imutável. O senhor... Aquele velho mineiro que parecia também compartilhar de uma ligação tão forte com... com Vi... olhou para a mão da xerife, tão pequena entre suas velhas mãos enormes, ásperas e calejadas... Ele suspirou profundamente mais uma vez, olhando-as... Um suspiro sôfrego... E então olhou firmemente nos olhos dela.
– Não existe... nada... que ela se importe mais no mundo... do que você. — ele não conseguia articular as palavras direito... Sua voz tremulava. — Você... não faz ideia de quantas... intermináveis horas nós conversamos, e sempre que ela pensava em quanta sorte tinha por sua vida ter mudado, sempre que se permitia... sonhar com um futuro... sempre... em todos os pensamentos dela... — a voz do velho já não conseguia prosseguir. As lágrimas, enormes, profusas, pesadas que escorriam por seu rosto, e o aperto que sentia na garganta... — ...em todos os pensamentos dela, lá estava você. E ela não duvidou de que a amava por um. segundo. sequer. – não aguentando mais, o senhor soltou uma das mãos que segurava a mão da xerife e cobriu o rosto, desabando completamente; sucumbindo à sua dor...
Sem conseguir mais manter-se firme como quando começara tudo aquilo, Barthrax soltou de vez a outra mão da mão da xerife e caminhou rapidamente para a poltrona vazia onde ela estivera sentada, largando-se nela; o cotovelo apoiado em um dos joelhos e o rosto escondido por trás da enorme mão, enquanto chorava convulsamente, soluçando e tremulando com espasmos de dor...
– Xe...rife... — seu choro inconsolável ecoava por toda a sala, mexendo profundamente com todos presentes ali. — Por favor... Eu não sei o que você sente quanto à minha menina... Mas eu te peço... Eu te suplico... Na condição de pai... ...Caitlyn... Salve a minha menina.
A xerife envolveu os dois braços em volta da própria cintura, apertando a si mesma com força como se precisasse daquilo para não desmanchar-se... Vi havia ensinado a ela aquela habilidade tão especial... Não significava fraqueza se quisesse chorar. Não significava incompetência se precisasse de ajuda... Lembrando-se daquilo, e de todas as outras dificuldades que conseguiram atravessar, juntas...
– ...Eu a amo... Eu a amo, Barthrax, e eu nunca conseguiria deixar de amar a sua filha, nem se eu tentasse! — largando o próprio corpo e avançando na direção do enorme senhor exausto, curvado na poltrona, Caitlyn envolveu-o e apertou-o contra si, partilhando de sua mesma súplica, seu mesmo choro... — Eu... — ela pensava em tudo o que queria ter dito a Vi antes que partisse, mas que ficara preso em sua garganta na única oportunidade em que tivera para falar... Aquela mesma em que quase havia batido nela, completamente perdida e confusa quanto ao que sentir, no que acreditar, o que fazer... — Há tantas coisas que eu queria ter dito a ela para que ficasse!... Tantas coisas... que ficaram perdidas no meio daquela situação... Barthrax... — ela soluçava. — Eu amo a Vi... Mas não consegui responder isso a ela quando ela me perguntou... — a xerife apertava o velho com força, sem sequer perceber que o fazia...
Céus... Ele era, naquele momento... A coisa mais próxima de Vi que ela tinha, mas ainda assim... Não era ela. Não era aquele humor debochado, não era aquela ousadia carinhosa, não era aquele desafio brincalhão, ou mesmo aquela tristeza velada, escondida no silêncio... Não era a imprudência, nem o carinho dela... Não eram seus braços, seus lábios, não era seu corpo que ela apertava contra o seu, nem com quem desejava segredar suas noites... Ela estava ali, presente, em todas as falas, em todos os pensamentos, em todos aqueles detalhes quase descartáveis, mas que faziam toda a diferença aos olhos saudosos e incondicionalmente encantados da xerife... Tudo que a lembrava estava ali... Menos Ela.
– Barthrax... O que eu faço?
– Faça-a saber. O que você queria dizer a ela... Dê a si mesma mais uma chance de poder fazê-la saber...
Levantando-se enxugando o rosto, determinada, a xerife observou os planos desenhados sobre a mesa, os papéis de Jayce, agora jogados no chão, o rosto de todos, que se perguntavam o que viria a seguir, o que fariam após tudo aquilo... Ela não sentiu vergonha alguma de olhar dentro dos olhos dos outros, mesmo tendo os seus ainda inchados e vermelhos... Exibia aquilo, aquela dor e aquela força, como honoráveis cicatrizes de guerra. Era sua guerra particular que lutava... Mas também era a guerra da cidade, que era confiada em suas habilidosas mãos, que estava prestes a começar.
Logo, do nada, Elle, que estava com um fone no ouvido, com a atenção dividida entre o que acontecia na sala de Andrès e o que ouvia na rádio de notícias, subitamente arregalou os olhos, em silêncio, porém com uma expressão de quase completo pavor... Aquilo era verdadeiramente peculiar para a cientista de ceticismo férreo, que pouco se surpreendia com as coisas... Dessa vez, Elle parecia realmente apavorada.
– ...Atacaram brutalmente Zaun. As regiões mais importantes da cidade foram reduzidas a cinzas...
– Oh não... Não... — Johan começava a ter sua respiração descontrolada, sentindo uma crescente vertigem, enquanto se negava a acreditar que aquilo poderia ficar ainda pior...
De repente, do lado de fora do apartamento, ouve-se um poderoso barulho abafado, agora familiar a todos na cidade... Entreolharam-se, todos receosos de que fosse aquilo mesmo... E então Andrès levantou-se de sua poltrona, apressadamente, e foi até a janela, desembaçando-a com as mãos e olhando para fora...
– Céus... — o resto do grupo, nervoso, olhou na direção em que o ex-oficial observava. Ele puxou a cortina para o lado, revelando todo o enorme vitral transparente e, no fundo, ali no horizonte... Fumaça. Uma coluna gigantesca de fumaça. Mais à frente, outro estrondo e um novo brilho flamejante lançado contra o céu escurecido do início da noite, e os prédios caíam enquanto outra coluna de fumaça subia e a poeira tomava conta da atmosfera. Do outro lado da cidade, começaram também a surgir tumultos e explosões; os tiros de balas e granadas surgiam enquanto os gritos de desespero da população começavam a ser ouvidos no ar... — ESTÃO ATACANDO PILTOVER!
– OH, NÃO...
Caitlyn ficara atônita por alguns instantes, expelindo todo o ar de seus pulmões... Já seria difícil simplesmente restabelecer a ordem na cidade após a gigantesca bagunça causada e as baixas sofridas pela polícia... Tinha que lidar ainda com Jayce, prendê-lo antes que fizesse mais besteira ainda... As gangues começavam a aproveitar as brechas na segurança para invadir Piltover, e Dohran estava vindo junto... Agora, aquela já preocupante cidade-estado vizinha, Zaun... Provavelmente declararia guerra... E, no meio de tudo, tudo isso... O que ela mais queria era reencontrar Vi, ajudá-la e trazê-la de volta... Sua mente ficava extremamente agitada. "Mas agora... Todos aqueles sonhos... Tudo parecia tão distante de se tornar real..." A xerife fechou os olhos e respirou fundo.
O caos era como um veneno volátil e inodoro, sutilmente distribuído no ar, que adentrava o corpo sem ser notado e intoxicava aos poucos a mente de todos que se deparavam com ele, tornando-os insanas pilhas de nervos, desorientados combatentes desesperados, sobreviventes do inferno e do medo, convulsos e semi-hiperativos, semi-mortos. O caos começava a penetrar aquele ambiente também, discretamente, começando a mexer com os sentidos dos oficiais, da cientista e do mineiro reunidos naquele grupo, levando-os a uma crescente tensão e tirando-lhes o autocontrole, como animais acuados ameaçados por um predador que começavam a espernear para tentar fugir... Mas a xerife tinha um faro apuradíssimo para essas situações, e conseguia sentir que a situação começava a escapar ao controle... Não podia deixar que aquilo acontecesse, a balbúrdia e a desorganização já imperavam demais na cidade naqueles últimos tempos... Estava na hora de dar um basta imediato nisso.
– CALMA AÍ, TODO MUNDO! Ninguém aqui pode se desesperar, ou então já podemos considerar a batalha perdida! Se vamos fazer algo, precisamos fazer certo e precisamos fazer agora! Já pra delegacia! ...Passou da hora de eu retomar as rédeas da Patrulha e colocar alguma ordem nessa situação...
~¨~
– ATENÇÃO, MAIS UMA OCORRÊNCIA NO BAIRRO DE SUNDBURG; UMA ONDA DE CRIMES ESTÁ SE ALASTRANDO RUMO AO CENTRO DA CIDADE...
– ...ASSASSINATOS DE CIVIS ABERTAMENTE, SEM MOTIVO ALGUM; ESTÃO TAMBÉM SAQUEANDO AS LOJAS DE...
– OUTRO PRÉDIO FOI INVADIDO NO FINAL DA RUA GUERSHACK; ATEARAM FOGO EM OUTROS TRÊS E ESTÃO SE APROXIMANDO!
– SOCORRO! SOCORRO! ESTÃO ATIRANDO PARA TODOS OS LADOS NA AVENIDA... AAAGGHHhhh...
A própria delegacia tinha mergulhado no caos que já havia sido lançado quando Jayce revelara que a xerife fora sequestrada e decretara sua busca ao longo da cidade e nos arredores, mas agora, com a nova violenta e aparentemente incansável onda de ataques à cidade, parecia que a instituição tinha, afinal, ruído completamente... Os casos que surgiam eram tantos, tão terríveis e tão espalhados pela cidade que a força da polícia já não parecia conseguir dar conta daquela insurgente guerra relâmpago que engolia Piltover com voracidade... Quando os carros de Johan e Andrès estacionaram no pátio interno do prédio, várias outras viaturas deixavam apressadamente a delegacia, soando suas sirenes loucamente e saindo a velocidades alucinantes. O terror era visível nos rostos daqueles oficiais que partiam para a luta contra um inimigo que nada tinha a perder...
Nada mudara naquele lugar quando o grupo adentrou a porta, parados ainda na recepção e observando a desorganização desesperada em que os policiais se encontravam, tentando desempenhar, ao mesmo tempo, milhões de tarefas para poderem atender aos incontáveis casos que apenas surgiam, mais e mais, naquele fatídico dia. Entretanto, um ou outro que passou e percebeu aquele rosto... Aquela peculiar expressão, gentil porém soberana... Foram parando, sem acreditar naquilo que seus olhos lhes mostravam... E, no meio dos gritos, das sirenes e dos irritantes telefones soando sem parar, começou a surgir um burburinho, inicialmente leve, mas que depois tornou-se um verdadeiro zumbido intenso, como o de uma colmeia em plena atividade.
– A xerife!
– Caitlyn retornou!
– Céus; o que fizeram com ela?
– A xerife está de volta...
Com uma expressão extremamente séria, a xerife tomou a dianteira, colocando dois dedos na boca e assoviando o mais alto que pôde, chamando a atenção de todos ali.
– EI, EI, EI; OFICIAIS! TODOS... Escutem bem o que eu tenho a dizer... — mesmo com os telefones tocando, alguns ainda atendendo os chamados, que não podiam ser negligenciados, a atenção de seus oficiais voltava-se para ela. Os olhos eram incrédulos, e simultaneamente suplicavam por uma saída, um norte... A Patrulha, em geral, era capaz de se autogerir muito bem... Mas o core de suas operações fora corrompido e dissolvera-se, ao mesmo tempo em que a cidade sofria ataques por todos os lados... Caitlyn tentava segurar as pontas juntas, mas Jayce, por suas costas, já havia começado a montar aquele circo todo, desestruturando a organização de dentro para fora, de forma que, quando Caitlyn foi tirada de jogada e Johan fora obrigado a se retirar também para ir atrás dela, a corporação simplesmente ruiu como se todos ali fossem meros novatos, ainda tremendo ao empunhar uma arma ou carregando, alheios ao seu significado, um distintivo da Patrulha no peito... E ninguém, por mais que tentasse com toda a frieza e sobriedade de pensamento, conseguia consertar ou ao menos explicar como haviam chegado a este ponto...
...Mas não mais. A xerife havia retornado, e talvez, mais do que sua competência extraordinária que já salvara mais de uma vez a cidade, a crença de seus subordinados e amigos de que ela era a pessoa capaz de trazer uma solução para a cidade seria a força que guiaria seus soldados por aquela guerra como legionários de aço, varrendo o campo de batalha até que o último inimigo caísse e Piltover pudesse retornar à sua aura de paz e progresso...
"Você pode pagar um soldado para atirar, Caitlyn... Mas não pode pagá-lo para acreditar. Isso, essa confiança incondicional que eles construirão... Isso só pode vir diretamente de você".
Com aquelas palavras ecoando por sua mente, a xerife fechou os olhos e respirou fundo.
– ...Eu não vou te decepcionar, pai... — sussurrou para si mesma, e então abriu os olhos. A atenção de todos estava voltada para si, ansiosos... — OFICIAIS! ...Jayce enganou vocês. — pela delegacia inteira, como num coro, pôde-se ouvir os silvos de um suspiro indignado dado em uníssono. — Não só a vocês, mas a todos nós. Enganou a mim, que depositava toda a confiança nele e em seu papel de honra na instituição, e além de tudo virou-nos contra alguém que nada tinha de sujo ou indigno quanto a este caso. Não bastasse isso, sua obsessiva busca por "Justiça", que se revelou na verdade apenas o desejo mesquinho de vingança, colocou toda a cidade em grave risco... Não apenas uma guerra civil começa, obrigando-nos a digladiar, de uma vez só, com todas as inúmeras e preocupantemente perigosas gangues criminosas que já expulsamos da cidade... Hoje, aos olhos do mundo... Piltover atacou abertamente Zaun.
Com aquela fala, todas as vozes elevaram-se ao mesmo tempo em volumes e tons contrastantes, todos emitindo alguma opinião, fazendo algum comentário raivoso ou indignado ao mesmo tempo; Jayce havia falado sobre Piltover levantar-se e declarar guerra a Zaun em seu discurso no início da manhã, e a possibilidade era plausível, mas efetivamente ouvir aquilo... Saber que realmente havia acontecido, e pensar agora nas consequências que esta ação poderia trazer à cidade... Céus. Era... era medonho. Eles já experimentavam, todos, naquele momento, um pedaço do inferno... O povo e as autoridades enlouqueciam tentando achar uma maneira de conter aquela onde de caos e terror que assolava a cidade com a chegada de seus filhos proscritos... Casa queimavam, pessoas queimavam, os prédios caíam, explodiam, as casas eram invadidas e civis eram brutalmente violentados, mortos... Mas isso não era nem uma fração do horror que seriam aqueles tempos se Zaun decidisse considerar aquele ataque como guerra... De repente, o zumbido infernal que tomou conta da delegacia enquanto todos comentavam o ocorrido começou a evoluir para uma inquietação incomum, e os rostos antes enraivecidos agora começavam a tornar-se apavorados... Via-se nas pessoas o olhar injetado, a respiração ofegante, descompassada, as mãos trêmulas, a desorientação geral sobre como agir, as expressões do pânico surgindo e aflorando nos corações e mentes lentamente...
Caos...
A xerife não podia deixar que ele se instalasse.
Vendo que o controle começava a escorrer-lhe por entre os dedos e sentindo um peculiar calafrio... Caitlyn agiu rápido, tentando recuperar as rédeas daquela carruagem desgovernada para si novamente.
– Oficiais! ...Ei, ei, EI, OFICIAIS! PATRULHAAAA!!!! — só com um grito verdadeiramente forte e exasperado a xerife conseguiu um pouco da atenção para si. — OUÇAM AQUI; VOCÊS QUEREM PERDER ESSE CASO INTEIRO APENAS PARA UM TRAIDOR, OU VOCÊS PREFEREM SAIR VITORIOSOS DAQUI; VIVOS, E FAZENDO NOSSOS ADVERSÁRIOS SE ARREPENDEREM AMARGAMENTE DA ESCOLHA QUE FIZERAM?! — ao terminar a fala, seu rosto era puramente vermelho e quente, fios de cabelo caíam desgrenhados sobre sua face, os quais ela arrumou com uma passada rápida e nervosa da mão por eles, e sua respiração era audível a todos, agora que haviam se calado completamente. Ela olhou em volta... Seu batalhão. — Vocês já ouviram, nestes dias, mais de um discurso... Palavras nobres tocaram os ouvidos de todos vocês, apenas para persuadi-los a ATIRAR-SE por VONTADE PRÓPRIA no meio de um campo de guerra que SÓ nos trouxe DOR E HORROR... ESSA é a verdade, e não tenho por que escondê-la de vocês! O pedido que lhes faço agora... É só mais um desses! — os policiais que a ouviam movimentaram-se inquietos, um tanto nervosos... Ora, se era então só mais um pedido para que morressem, que se dane! Bela solução que a xerife trouxera! — Mas eu queria lembrá-los, meus amigos, do juramento que nós todos fizemos ao sermos agraciados com a glória de recebermos o nome e o distintivo da Patrulha: A CADA CHAMADO QUE ATENDEMOS, sabemos que pode ser nosso ÚLTIMO. A cada VIDA que salvamos e respiramos aliviados, temos a CONSCIÊNCIA de que poderia ter sido "eu ou o outro", mas ainda assim optamos pelo bem estar do PRÓXIMO, mesmo em detrimento do nosso próprio. Nossa grande missão é assegurar que as gerações futuras vivam numa Piltover que siga prosperando rumo a um futuro pleno de PAZ E SEGURANÇA; NOSSA LUTA NÃO É POR NÓS, E NEM TERMINA HOJE. E, céus, se Piltover precisar de soldados, ENTÃO NÓS SEREMOS SOLDADOS!... — os olhares voltavam-se para ela, estupefatos... Simplesmente não havia o que dizer frente àquilo... — Só o que eu peço, oficiais... Amigos... É que acreditem mais uma vez em sua xerife... Amigos com os quais tive a honra de partilhar minha vida e meus jovens anos de serviço... Bravos soldados pelos quais eu não teria medo de MORRER! SIRVAMOS AO NOSSO POVO MAIS UMA VEZ! ELIMINEMOS QUALQUER MAL QUE OUSE AMEAÇAR PILTOVER! QUE O UNIVERSO CONSPIRE POR NÓS, AMIGOS... — ela fez uma breve pausa, respirando... De repente, os olhos da xerife pareciam adquirir um brilho diferente... Ela olhou em volta... Sua Patrulha. Seus homens. Seus amigos. — ...E que nos reencontremos para celebrar a vitória, onde quer que estivermos.
Ao terminar de falar, a xerife ofegava. Seu coração batia em disparada como se tivesse corrido sem parar por dias. Sentia-se cansada e seu coração estava apertado, porém não sentia mais medo ou angústia. Um peculiar desejo voraz por "liberdade" apoderava-se de seu ser, sua essência, e rugia ao chamado de todo seu bando para que seguissem bravamente naquela direção com ela...
...Mas, durante alguns instantes silenciosos, incertos, a respiração de todos pareceu estar presa, enquanto os olhos ainda focavam-se nela... Logo, um oficial foi à frente, olhando diretamente para o rosto da xerife com uma expressão séria... Fechada... O bigode do homem estava virado para baixo, numa expressão aparentemente brava... Caitlyn, muito discretamente, apertou as mãos fechadas mais forte, um tanto apreensiva, porém sem mover-se um milímetro, nem deixar sua postura altiva. Segundos depois, Diana, a oficial que sobreviveu ao primeiro ataque à cidade, também surgiu, saindo do fundo da multidão e ficando visível à xerife, porém sem aproximar-se. Os olhos de ambos os oficiais fixavam-se nela. "Céus..."
Eis que o policial ergue uma mão e pousa-a no ombro de Caitlyn.
– Já nos provocaram demais, xerife... — o homem disse a ela numa voz fria, baixo... e então virou-se para os outros que tinham a atenção completamente presa por aquele pequeno diálogo que se desenrolava ali na frente. — ...EU ESTOU COM A NOSSA XERIFE! CAITLYN NUNCA DEIXOU QUALQUER UM DE NÓS, SEUS OFICIAIS... SEUS AMIGOS... NA MÃO. NÃO HÁ EXPLICAÇÃO PLAUSÍVEL, MUITO MENOS ACEITÁVEL, PARA NEGARMOS AGORA ESTE CHAMADO. NÃO SE TRATA SOMENTE DE HONRAR ALGUÉM QUE SEMPRE NOS GUIOU, NEM DE EXERCER UM PAPEL REVERENCIÁVEL COMO OFICIAIS... TRATA-SE DE PROTEGER NOSSA CIDADE E TODAS AS PESSOAS COM AS QUAIS NOS IMPORTAMOS NELA! E, MESMO QUE SEJA SOMENTE EU, SOZINHO, NO CAMPO DE BATALHA... EU LUTAREI SOB O BRASÃO DE CAITLYN E DE PILTOVER ATÉ QUE MEUS OLHOS SE FECHEM, SE ISSO SERVIR PARA QUE MINHA FAMÍLIA TENHA A CHANCE DE UM FUTURO MELHOR QUE O DIA DE HOJE E MAIS SEGURO!
– Você não vai lutar sozinho, Marcus... — Diana, quieta até então, pronunciou-se firmemente e então, com decisão, tomou a frente junto a seu colega. — Nós pedimos por sua volta, Caitlyn, esperando que você trouxesse uma solução mágica para nós. A verdade é: não existe solução mágica. E, em nossa situação, não existe sequer uma solução fácil... Mas existe esforço. Existe abnegação e existe trabalho duro. Eu vi o que é o sacrifício de alguns por algo... O quanto é difícil aceitar isso... Mas também presenciei inteiramente o que é o sopro da esperança na vida de tantos outros... E eu digo, se não é por isso que vale a pena lutar, se não são esses os nossos ideais... Então não sei qual é o propósito de vida da Patrulha... — a policial, vencendo o próprio medo de expor-se, terminou com um forte olhar determinado para seus amigos. — Oficiais! Nós estamos nessa ou não?!
Naquele exato instante, como uma lufada de vento revigorante numa noite quente, um ânimo incomparável subitamente tomou conta dos oficiais na delegacia e, gradualmente, uma onda de gritos e gestos exaltados de comemoração ergueu-se entre os policiais, dispostos a mergulhar de cabeça naquele chamado. Caitlyn soltou um suspiro aliviado, finalmente, e sorriu. Uma outra mão tomou-lhe o ombro, e ela virou-se para ver de quem se tratava...
– Parabéns... Você sabe que nós estamos no fio da navalha, não? — Johan sussurrou, complacente e, por que não, até com um ligeiro traço de felicidade.
– Eu sei... E eu me preocupo com o que pode acontecer... Mas eles não precisam saber. Enquanto mantivermos esse fio de esperança é que Piltover irá resistir.
– Você está com medo?
Caitlyn riu levemente.
– Que palavra é essa, Johan?
~¨~
"AVISO A TODOS OS CIDADÃOS DE PILTOVER! AQUI É O PREFEITO TRANSMITINDO DIRETAMENTE DO PRÉDIO DO CONSELHO. APESAR DA VISÍVEL GRAVIDADE DA SITUAÇÃO, PEDIMOS QUE NÃO TENTEM SAIR DE SUAS CASAS PARA PROCURAR REFÚGIO NOS PRÉDIOS-FORTE DA CIDADE! REPITO: NÃO TENTEM SAIR DE SUAS CASAS! AS RUAS DE PILTOVER JÁ ESTÃO SITIADAS; O RISCO DE MORTE É IMINENTE. TRANQUEM AS PORTAS E JANEL..."
A mulher, apavorada, imediatamente baixou o volume do rádio e voltou a abraçar seus filhos, duas crianças em pânico que afundavam o rosto aterrorizadamente no colo da mãe.
– Calma, meus anjos, ca-calma... Mamãe está aqui, sim? Shhh... Shhhhh... — uma janela que fora esquecida aberta, de repente, bateu com o forte vento gelado que soprava. As rajadas de chuva vinham e iam, aleatoriamente, naquela noite terrível em que o céu tingia-se de laranja. — Céus! — a mulher, assim como as duas crianças, com os olhos saltados, deu um pulo nervoso de susto ao ouvir a janela bater. Ela então levantou-se para fechá-la.
– N-não, m-mãe... Não vai!...
– Querido, eu preciso fechar a janela, ela não pode ficar aberta, é perigoso...
Conseguindo momentaneamente acalmar um pouco a criança mais velha, que soluçava e gaguejava enquanto lágrimas solitárias, gordas, escorriam de seu rosto ao falar, a mulher conseguiu levantar-se e foi até o cômodo anexo do pequeno apartamento, puxando a cortina que esvoaçava para dentro e cerrando as duas abas da jan...
– MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEE!!!!!!!!!
Um estrondo violento foi ouvido na entrada do apartamento, junto com o grito desesperado de seu filho, e a mulher, com a velocidade de um raio, correu, apavorada, para ver o que acontecia com suas crianças.
– NÃÃÃÃÃÃÃÃOOO!!!!!!!!!
O cômodo onde eles se encontravam ardia em chamas que se alastravam rápido pela casa e impediam a passagem para fora do apartamento. A porta de entrada fora violentamente derrubada à força e não era possível enxergar direito através da densa fumaça negra que corroia os pulmões da mãe e das crianças, nem através das ofuscantes labaredas douradas que crepitavam e brilhavam, cegando à vulnerável família ali. Desesperada, a mãe tomou as duas crianças no colo, tentando correr para outro cômodo; nos fundos do prédio havia uma escadaria velha de incêndio, bastava alcançar a lavanderia no fundo do apartamento que teriam acesso a ela... Ela começou a correr, ainda em pleno terror, rumo àquele cômodo no qual pensara, mas então o homem maldito com um sorriso sádico que atirou a primeira bomba para dentro da casa apareceu novamente na porta, rindo freneticamente no mais puro deleite ao observar a completa agonia na qual a pobre mãe se encontrava. Sem um pingo de piedade, atirou outra bomba caseira na direção em que via que a mulher se dirigia. Ela já conseguia enxergar a escada velha de ferro lá fora, pela janela; bastava atravessar o curto corredor e estariam salvos, mas eis que BOOOOOOOMMM!!!...
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A bomba explode e as chamas beijam calidamente o rosto da mulher, fazendo com que ela caísse com as duas crianças no colo enquanto gritava com aquela dor insuportável de ter seu rosto queimado na explosão.
– AAAAAAAAHH!!! AAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!!
– AAAAAHH... BUÁÁÁ! AAAAH! MÃÃÃÃE!!!!
Quando consegue abrir os olhos, a mãe vê sua menina, sua querida filhinha mais nova, com a barra da camisolinha em chamas e o fogo alastrado por suas costas, pegando-lhes os loiros cabelos...
– MÃÃÃÃÃEEEE!!!! AAAAAAAAAHH!!!!!
O filho mais velho estava em choque, absolutamente traumatizado por aquelas cenas horrorosas que presenciava ao vivo com o sofrimento agonizante das pessoas que amava! Mas mesmo assim, tentava de algum modo ajudar a irmã a livrar-se das chamas... Porém não obtia sucesso nenhum; não conseguia chegar perto dela com ela... ela... pegando fogo!
– NÃÃÃÃO!!
A mãe gritou em pleno terror, presa naquele inferno, enquanto via sua menina... Sua menininha...
– AAAAAHH!!!
Ela berrava pela intensa dor e o medo indescritível, e a mãe não pensou duas vezes em envolver completamente a filha com o próprio corpo, tomando a própria dor ardente daquelas chamas infernais para si enquanto tentava abafar o fogo para salvar sua criança. De fato, o fogo extinguiu-se, mas a menina caiu desacordada nos braços da mãe, e as chamas ainda alastravam-se pela casa, consumindo rapidamente tudo o que havia ali no apartamento... A mulher, com um esforço incrível e ignorando quase que completamente sua própria dor, tomou as duas crianças novamente e correu na direção oposta, para o cômodo onde havia acabado de fechar a janela.
Abriu-a novamente. Segurou suas crianças no colo com força. Apoiou os pés na beirada. Olhou para baixo, a gigantesca queda.
– Feche os olhos, meu amor...
~¨~
O terror e o desespero apoderavam-se dos corações e mentes da população completamente. Não parecia existir no mundo qualquer salvação possível entre o fogo e os escombros; não havia lugar seguro quando aqueles monstros horrendos e desprezíveis arrombavam as portas das casas e regurgitavam seu ódio pestilento ali dentro, assassinando pais e mães, torturando e espancando filhos e irmãos, traumatizando eternamente jovens com toda uma vida pela frente no simples e extremamente revoltante e nojento ato de tomar-lhes pela força... AARGH!!!
Era com um ódio cego e com vontade de ferro que a Patrulha se reestruturava e tomava agora novamente as ruas. Aquele levante criminoso em Piltover tinha que acabar; AQUELA ALGAZARRA DO INFERNO PERTURBANDO NOSSO POVO TINHA QUE ACABAR!
– SOLDADOS! EVITEM ANDAREM SOZINHOS E PEGUEM PRIMEIRO, PREFERENCIALMENTE, OS INCENDIÁRIOS PARA QUE PAREM DE EXPLODIR OS PRÉDIOS! — a xerife gritava com firmeza as ordens daquela missão praticamente suicida para a qual rumava junto com toda, absolutamente toda a sua equipe. Tinham preparado-se especialmente para enfrentar aquilo, com coletes reforçados, capacetes espessos, armas de grosso calibre ou de infinitos tiros, munidas para durarem uma eternidade naquela batalha incerta. A própria xerife vestia-se como uma guerrilheira, pronta para enfrentar o pior que sua mente pudesse imaginar que estivesse por vir...
– XERIFE, QUAIS AS ORDENS ESPECÍFICAS PARA CASO ENCONTREMOS JAYCE?
– OU DOHRAN?
A mulher, sentindo que o camburão reforçado que os levava acabara de parar, indicando que haviam chego ao meio do campo de guerra, não pensou duas vezes para dizer-lhes.
– A ÚNICA ORDEM PRIMORDIAL DE HOJE, INFELIZMENTE, MEUS AMIGOS, É ESSA: ATIRAR. PARA. MATAR. ...AGORA VÃO, VÃO!!!!
De repente, de uma série de camburões e carros-forte da polícia, começavam a sair em profusão soldados da Patrulha de Piltover, mal deixando a suposta segurança dos carros e já puxando com vontade o gatilho, mergulhando diretamente em um tiroteio, sem ao menos terem tempo de avançar ao menos um pouco. Caos; caos e horror por toda a parte; ameaças de todos os lados! Enquanto descia do camburão no qual viera, a xerife já abaixava-se para fugir dos projéteis desgovernados que rasgavam o campo sedentos por sangue. Mal tocou o pé no chão e já teve que atirar-se para trás do pilar semi-destruído de um prédio para que não fosse alvejada. Cinco. Cinco... Eles eram cinco. Sua mente funcionava numa velocidade feroz, assimilando toda aquela explosão de estímulos que seus sentidos recebiam, enquanto o corpo respondia insana e ansiosamente rápido com a descarga de adrenalina que a tomava. Uma bala veio alojar-se no lado esquerdo da pilastra na qual ela se escondia e, aproveitando aquele sinal, a xerife rapidamente virou-se, saindo de sua cobertura, mirou imediatamente o novo e robusto rifle e atirou sem sequer pensar duas vezes; era imprescindível que fosse rápida, rápida! Sem saber se tinha acertado ou não, se o campo estava limpo ou não, ela, já fora de sua cobertura, só tinha a opção de correr para encontrar um outro ponto de...
MERDA!
Quando corria para encontrar outra cobertura "segura", outro ponto do qual pudesse atirar, um assovio estridente e insuportável aos ouvidos subitamente ergueu-se nos céus, e granadas caíram sobre dois camburões e um carro-forte da polícia, fazendo o metal dos dois primeiros automóveis contorcer-se em chamas enquanto os camburões explodiam e lançavam enormes pedaços afiados de metal em brasa, imediatamente ceifando a vida dos oficiais que ainda se encontravam próximos a eles. O céu brilhou terrivelmente pelas costas de Caitlyn, e ela desequilibrou-se com a magnitude da energia dissipada com a explosão próxima a ela. Foi por pouco, muito pouco... Seu joelho e uma das mãos chegaram a encontrar o chão coberto de fragmentos de concreto e vidros estilhaçados, esfolando e rasgando impiedosamente sua pele, mas não havia tempo para pensar naquelas idiotices; tinha apenas que levantar-se — sequer chegara a cair — e continuar se movendo, continuar lutando.
Vi perseguia aquela tal de Jinx filha de uma puta em estado de plena fúria, ainda mais agora que tinham adentrado a cidade, e era só uma questão de tempo entre aquela menina escrota começar a destruir absolutamente tudo ou Vi dar-lhe uma surra e acabar com a raça daquela desgraçada. Enquanto Jinx abria o caminho por entre paredes e prédios usando seu "pequeno" arsenal de guerra, a enforcer voava atrás dela com as gigantescas luvas de ferro, numa ira titânica que a impulsionava cada vez com mais força e vontade por sangue, ignorando completamente qualquer obstáculo que houvesse no caminho e até causando estragos por si mesma devido à raiva cega que a fazia perseguir a menina sem importar-se com o mundo. Entretanto, quando as explosões e gritos de desespero começaram a soar do outro lado da cidade, ainda assim próximo dali, aquela infernal perseguição tomou ainda um ritmo mais frenético.
– HAHAHAHA!!!! OLHA SÓ, O SHOW JÁ COMEÇOU!!!! ...espera... QUE INFERNO; POR QUE ESSE MALDITO SHOW JÁ COMEÇOU SEM MIM?!?!?!?!!!!
– TÁ A FIM DE UM SHOW? TOMA ESSE SOLO, VADIA!!
Num salto colérico, finalmente aquela cachorra desgraçada foi pega de surpresa, sentindo toda a dor e a fúria de uma tonelada de ferro atingindo-lhe em cheio o estômago e levantando-a e atirando-a no chão até que quicasse como uma bolinha de brincar com o cachorro. Aliás, até ficar destruída e estraçalhada como uma bolinha de tênis inútil para brincar com o cachorro.
– HAHA!!! Uma tonelada de PURA JUSTIÇA, IDIOTA!!
Neste momento, vendo aquela sua maldita adversária estatelada no chão, tentando juntar seus pedaços novamente para fugir, um sabor agridoce de vingança fez os olhos de Vi brilharem e sua boca encher-se de água, como se a implacável caçadora estivesse a ponto de abocanhar sua presa e saciar seu desejo por morte... Um jeito quase bestial que não parecia típico da atitude de Vi... Ao menos... não que se conhecesse... Aquele ser gigantesco e sombrio, com as ameaçadoras luvas de ferro, caminhou avidamente até a derrotada louca de cabelos azuis. Pegou-lhe no chão pelo tronco, com um dos enormes dedos dando a volta por seu pescoço, e começou a cerrar a mão lentamente com vontade, deliciando-se como uma serpente sufocando sua presa num derradeiro abraço mortal. Quando Jinx viu-se suspensa no ar, já dolorida pela porrada que levara e agora com aquela prisão inescapável comprimindo-a até que sentisse doer seus ossos, num movimento pura e sinceramente natural, quase infantil, ela choramingou com dor e uma tremulação vulnerável e de sofrimento na voz.
– AAi, não, VI! Você tá me machucando!... — ela chorou.
Subitamente, aquele terrível olhar bestial sumiu do rosto de Vi, dando espaço a uma surpresa incauta e um tom perdido que tomaram-lhe repentinamente o coração e o rosto. Um flash sobrepôs a realidade aos seus olhos: "Aaaaai, Viiii!!! Você tá me machucandoo... Buu..." Uma criança, muito pequena, chorava e se debatia, numa careta feia coberta de lágrimas, com sua voz estridente e trêmula pelo choro, enquanto seu braço era segurado de uma forma raivosa e desleixada, machucando-a no caminho para a rua que aquela outra menina, um pouco mais velha e estúpida, a puxava. "EU JÁ TE FALEI PRA IR EMBORA COM ELES; EU NÃO QUERO NINGUÉM MAIS AQUI!!!" "Não, Vi... Mas eu..." "SAI!" E então, a valentona, com o já não mais infantil coração afogado em ódio e solidão, empurrou a menininha das trancinhas azuis contra o chão com força, machucando-a mais ainda com o choque de seu frágil corpo com o insensível solo... No momento em que a garota chocou-se contra o chão e a valentona percebera o que fizera, já não tinha mais volta. Ela levou uma mão à boca, com uma expressão de surpresa e de medo que algo... algo ruim pudesse ter acontecido à outra por conta do que ela tinha feito... A menina passou alguns instantes caída; sua cabeça, contundida, latejava... Até que ela encontrou forças, mesmo em meio à dor, e levantou vagarosamente o corpo, ficando de quatro no chão... E então virou-se, em completa desolação, com a boca tensa e os olhos repletos de lágrimas... Mas não deixou nenhuma cair. Era assim que Vi era. Era assim que ela também teria que ser. Sem choro. Sem dó. Com um turbilhão de coisas girando em sua mente, a pequena valentona de cabelo rosa enorme e desgrenhado sentiu pela primeira vez verdadeiro medo. Não dos perigos que podiam sondar uma criança completamente sozinha lá fora; eles, crianças da rua, sabiam muito bem como se virar. Ela sentiu medo de si mesma. Daquele monstro que poderia se tornar com aquela força incomum que sempre teve... Ela estava com raiva dos outros. E ela não sabia ainda controlar aquela raiva que sentia pelos outros, e isso a levou a machucar alguém que ela gostava, alguém que havia se disposto a também largar o grupo que foi embora pra ficar com ela... ... ...Não podia deixar que ela ficasse. Vi era o verdadeiro perigo. "Sai..." Suprimiu qualquer sentimento que tivera naquele instante e tornou a falar com uma expressão séria, implacável. A menina ainda olhava-a com aquele rosto indignado e inconsolável, pedindo que não fizesse aquilo... "Sai. Agora. Senão, quando eu te olhar, eu vou te matar." Apertando os lábios com força, a menina de trancinhas azuis sentiu, pela primeira vez, algo muito ruim. E, olhando Vi com firmeza, levantou-se do chão e atravessou a porta daquela casa de dois andares abandonada pra nunca mais voltar...
..."nunca", até aquela semana.
Perplexa e completamente... completamente humilhada, envergonhada de sua própria atitude no passado após o reavivamento daquela memória, Vi involuntariamente afrouxou o aperto da garota entre seus dedos... e isso deu a ela a oportunidade única de desprender uma de suas granadas da cintura. Não foi necessário nem mesmo lançá-la; nem teria como, a prisão inviolável de Vi ainda a envolvia, apenas não mais apertava... Mas quando a lutadora percebeu que a granada caía exatamente entre elas, seu reflexo foi de apenas atirar Jinx para longe, em uma direção, enquanto ela mesma pulava para se esquivar, na outra. O mecanismo explodiu; uma pequena parede de fogo entre elas... No caso de Vi, a granada estava mais próxima, e ela pôde sentir o fogo beijando suas mãos gigantes enquanto ela cobria o rosto para se proteger. Uma de suas pernas acabou recebendo uma queimadura na altura da coxa quando as labaredas se alastraram momentaneamente no ar, no momento da explosão. Jinx estava longe... Vi atirara-a longe... para... ela não queria aquilo. Mas ela acabou salvando-a. Mas não era seu intuito salvá-la. Definitivamente. Quisera destruí-la, desde o início; pegar a cara dela e enfiar sua fuça no chão até que visse o osso do crânio. Mas numa fração de instantes desesperado...
– Aaagh...
Quase milagrosamente, Jinx levantou-se, ao longe... E tratou de desaparecer. Tratou de desaparecer, mas deixando um recado claro, pixado apressadamente no chão, para a idiota... para a... desgraçada da Mãozuda.
"Você nunca vai me pegar."
Levantando-se e sentindo a ardência infernal na perna, Vi correu até o local onde julgara que Jinx havia caído com seu lançamento, apenas para chegar e encontrar a pixação ainda fresca no chão...
– AAAAAAAAAAHHHHH!!!! — ela gritou, tentando livrar-se do peso que carregara a vida toda, escondido e esquecido, no coração, e então socou o solo, sujando suas luvas de tinta rosa e abrindo no chão uma cratera...
...mas Dohran já estava na cidade, uma explosão a alertou. Acabara definitivamente o tempo para desculpas. Era hora de lutar.
– ESPALHEM-SE PELAS LATERAIS E PEGUEM ELES PELOS FLANCOS! VÃO! — a xerife gritava para o grupo de oficiais-soldados que a acompanhava, agora todos tomando cobertura atrás de vasos que um dia foram cheios de vida e fenomenais em seus arranjos florais, ou atrás de muretas e pilares... Eles mergulhavam na escuridão tenebrosa do que um dia foi o shopping da Avenida Sunset, parcialmente destruído no atentado à lanchonete dias antes, mas agora em absoluta desgraça; basicamente só o térreo e o segundo andar, muito mal, sobraram. Era possível olhar para cima, naquela galeria escura e sombria, e observar o céu estrelado tomado pela fumaça. Era aquilo. Destruição total. Sem vencedores ou perdedores. Aquilo era a guerra. E, dentro daquelas ruínas macabras, com encanamentos estourados, sem nenhuma luz, com água tomando todo o chão e as paredes despedaçadas, a Patrulha de Piltover batalhava contra um grupo de criminosos encurralados.
Ao comando da xerife, o grupo de dividiu em três, e duas das partes deram a volta pelas laterais da antiga praça de alimentação, enquanto a linha de frente, a qual Caitlyn acompanhara, se arriscava como isca, atravessando o pátio em linha reta na direção do grupo criminoso. Andavam a passos rápidos, nervosos, convulsos, com as armas empunhadas e atirando na gangue com fervor para chamar a atenção dos inimigos para eles, dando a chance de que os dois outros grupos pegassem-nos de surpresa.
– Hora de sacudir um pouco isso aqui... Cobertura! — saindo de trás da mureta que a protegia, a xerife atirava e corria com uma maestria inigualável, abatendo inimigos antes mesmo que conseguissem assimilar a beleza e a letalidade daquela forma que percorria o salão como se dançasse com seu rifle. Um de seus oficiais dava-lhe cobertura, atento a possíveis investidas sorrateiras que pudessem tentar contra Caitlyn, que se expunha completamente naquele momento. Ela, contudo, parecia finalmente encontrar algum pingo de esperança enquanto contabilizava as baixas no exército inimigo, conseguindo até rir no meio da ação. — Haha!!! Tantos bandidos; tão pouco tempo... — ela se regozijava a cada tiro disparado e cada acerto perfeito. Céus, poderiam até virar aquele jogo se mantivessem uma estratégia perspicaz! A xerife já observava, com o canto do olho, seus homens surgindo das sombras, pelos lados... Iam pegar aqueles malditos bandidos, e iam pegá-los de jeito! — AGORA!
As duas outras partes da equipe atacaram o grupo criminoso de surpresa pelos lados, conseguindo ainda mais baixas num tempo inacreditável! Um, dois, três, quatro, CINCO caíam de uma vez, e a proporção entre policiais e bandidos finalmente começava a se inverter, pelo menos naquele campo... Só que...
TZZIIIIIIIUUUUUUMMMMmmmmmm... BOOOOM!!
– CUIDADO!
Foi só o que Caitlyn pôde fazer quando percebeu o sinalizador disparado na direção da aglomeração onde encontravam-se seus policiais: gritando, esquivou-se miraculosamente, mas assistiu do chão seus homens serem acertados pelo estouro, acertando o rosto de um e arrancando-lhe uma orelha, um olho, ao atingir a lateral de sua cabeça e explodir. O mesmo disparo pegou no braço de outro oficial, fazendo-o em carne viva; um cheiro horrível de carne e gordura humana queimados empesteou o ar enquanto os gritos, tanto de bandidos quando de policiais atingidos, erguiam-se, enlouquecidos de dor, no ar. Mal pôde recuperar-se dessa terrível cena, a xerife já viu no ar uma garrafa com um pano em chamas vindo precipitar-se sobre o lugar onde estava, então rolou imediatamente para o lado, fugindo da explosão e das chamas que se alastravam rápido, mas então outras duas explosões vindas sabe-se lá os deuses de onde repentinamente pegaram-na incauta enquanto tentava levantar-se para fugir. As chamas de uma dessas enamorou-se de sua roupa, começando a se alastrar pela veste de Caitlyn. Em pura descarga de adrenalina, a xerife cobriu o rosto e deu um impulso fantástico, saltando e atravessando a muralha de chamas que havia se formado à sua volta. Ela caiu dolorosamente fora daquela área ligeiramente mais alta da antiga praça de alimentação, rolando entre fragmentos de concreto que a machucaram, mas conseguindo chegar na área cujo chão havia sido alagado antes que o maldito fogo tomasse sua roupa de forma irreparável.
Os tiros podiam ser ouvidos de todos os lados; aquela interrupção por parte de um incendiário havia sacudido os planos da equipe, que agora dividia-se entre a gangue de criminosos atirando e o homem com as bombas, ameaçando a todos ali.
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