Pieces Of A Broken Heart
1 Pieces Of A Broken Heart
Notas iniciais
Observar o céu de New York traz lembranças dela, mas, afinal, o que não traz?
O dia está excepcionalmente bonito hoje, acabei de deixar Eli com Kathy e agora estou em frente ao seu apartamento. Observo toda a movimentação de entra e sai procurando um rosto, somente um rosto.
Eu sei que já faz três anos, mas eu não pude evitar voltar, não depois de saber de tudo o que aconteceu.
Talvez seja tarde demais, talvez ela me odeie demais pra me aceitar de volta.
Mas, eu espero até a raiva passar, porque por ela eu faria qualquer coisa, esperaria quanto tempo for preciso.
Será que ela está em casa?
A janela frontal de seu apartamento parece silenciosa e vazia.
Sinto um aperto no coração.
É agora ou nunca mais.
Subi os poucos degraus que me separavam do lobby confortável. Toquei o interfone para o 4D, mas não obtive resposta alguma. Ela, ou não estava em casa, ou não queria atender.
Vi um homem baixo, gordo e com cabelos grisalhos sentando na cadeira giratória do local e bati no vidro.
Ele me olhou incrédulo. Fiz o mesmo. Como ele mudou.
Foram só três anos!
Ele sorriu para mim, enquanto destrancava a porta gigantesca.
– Olá! Já soube do que aconteceu com a...
– Já. Agora, preciso subir. Ela não vai me deixar entrar, mas eu preciso mesmo saber se ela está bem. Por favor, se ainda tiver a chave extra do apartamento, entregue-me. — disse, completamente desesperado. Ele assentiu, entregando-me o molho.
Eu agradeci, e corri escada acima.
••
Nas escadas, deparei-me com um menino brincando com um trenzinho de plástico. Baguncei o cabelo dele, e ele sorriu pra mim.
Continuei subindo, vendo como as coisas mudaram ali.
O menino devia ter uns quatro anos, e eu me lembro de um bebê chorando no andar debaixo.
Céus, como mudou!
••
A cada passo que eu dava, a cada diminuição da distância, meu estômago embrulhava mais e mais.
Seria certo?
O que eu estava fazendo, afinal? Indo vê-la, depois de ela ser atacada?
Eu deveria estar lá, porque, ela já foi tão machucada... A vida dela é tão bagunçada... Eu deveria ter dado estabilidade à ela! Eu deveria ter sido melhor!
Aproximei-me ainda mais do 4D, e bati levemente.
Não obtive resposta, e fiz o mesmo.
Sem resposta nenhuma.
Certo, coloquei a chave na fechadura e ouvi gemidos amedrontados. Girei a chave, fazendo o mínimo de barulho possível.
Quando consegui abri-la, o escuro tomou conta de minha visão. Ouvi palavras amedrontadas vindas de detrás do sofá.
Ela provavelmente havia se escondido ali. Será que...?
Meu estômago embrulhou mais ainda, enquanto eu fechava a porta.
– Liv, vou fechar a porta, ok? — indaguei, falando calmamente. — Vou ligar a luz, sou só eu.
Mas, será que ela ainda lembrava da minha voz?
– Liv? — chamei. Ela gemeu.
Apertei o interruptor, iluminando a sala. Acho que foi uma das primeiras vezes que vi o local tão organizado.
Talvez ela quisera mudar.
Talvez ela quisera apagar todo o mal que lhe foi feito ali.
Aproximei-me do sofá, agachando-me, quando cheguei perto dela.
Ela fitou-me despedaçada. Eu sorri levemente.
– Está tudo bem, sim?
– Por que voltou? — ela perguntou, gaguejando.
– Eu... — é, como eu explicaria?
– Seus filhos sentiram falta daqui? — perguntou ela.
– Por que o assunto sou eu? — perguntei. Ela soluçou.
– Porque foi você quem sumiu por três anos. — retrucou ela. Eu sorri mais amplamente.
– Certo. — disse. — Eu voltei porque fiquei sabendo o que houve com você.
Ela arregalou os olhos. Afundou a cabeça numa almofada e reprimiu um grito. Ou, quem sabe, ela tenha gritado mesmo.
– Mas, não me contaram por inteiro. Quer me atualizar? — indaguei. Ela negou. — Vamos, Liv. Eu quero ajudar.
Ela retirou a almofada do rosto.
Só então, parei para observa-la. O rosto estava mais magro, muito mais — parecia que não comia há semanas, talvez meses -, estava vermelho, por conta da pressão que ela fez com a almofada e havia mechas de cabelo grudadas ali.
Icei minha mão para retirá-las, e ela se afastou.
– Só vou... — comecei, vendo como ela se aproximava cada vez mais.
Acho que estava voltando a se sentir segura comigo.
Retirei as poucas faixas de cabelo castanho do rosto dela, tendo uma visão mais ampla.
As olheiras estavam enormes, e roxas. Eu nunca a tinha visto com olheiras tão fortes.
– Vai me ajudar? — perguntei. Ela arqueou uma sobrancelha.
– Como posso ajudar você, se não pude nem ajudar a mim mesma? — perguntou ela, reprimindo um soluço.
Eu arqueei uma sobrancelha. Não fazia esse jogo há muito tempo, mas quem sabe eu consigo?
– Como assim, Liv?
– Não fale comigo como se fosse uma vítima em potencial, Elliot. Sou uma policial, sei bem dos truques.
Está bem, não funcionou. Suspirei.
– É, eu quero ajudar, mas se você dificultar, não conseguirei de modo algum.
Ela soluçou, e mais lágrimas caíram de seus olhos.
– Quão bem lhe explicaram sobre... Isso? Sobre o que aconteceu? — indagou ela, fungando. Eu gaguejei.
– Bem, disseram-me que...
••
Ainda estávamos atrás do sofá, e eu já havia dito o quão bem haviam explicado-me sobre o que acontecera, mas eu queria a versão dela.
Ninguém sabia a versão dela.
Eu queria saber a versão dela.
– O que aconteceu aqui...? — perguntei. Ela fungou.
– Bem, eu voltei pra casa, e encontrei tudo bagunçado. Depois, senti alguém atrás de mim, e quando me virei, ele estava ali, parado, apontando uma arma para a minha cabeça. Me rendi, disse que estava tudo bem, mas... Ele não acreditou. Eu... Tentei me defender, e... — ela choramingou. — El, foi tão horrível!
Lágrimas apossaram-se do rosto dela. Ela soluçava cada vez mais alto.
E, foi aí que descobri o que tinha acontecido.
Olivia.
Havia.
Sido.
Estuprada.
Ah, não!
Minha Liv!
Eu não sabia se podia me aproximar, ela talvez pudesse ter alguma reação negativa com tal ato, mas ao contrário do que eu esperei, eu me abraçou forte, enterrando o rosto em meu pescoço e soluçando inconsolavelmente.
Aquele monstro, eu devia... Eu não estava aqui pra protegê-la, eu não fiquei ao seu lado...
Se eu tivesse ficado...
Se talvez tivesse sido mais forte...
Eu nunca mais vou abandona-la.
Peguei Olivia no colo e ela segurou meu pescoço com as mãos trêmulas. Ela estava incrivelmente mais leve, o que esse monstro fez?
Meu estômago estava embrulhado só de pensar.
Coloquei-a no sofá, arrumando algumas almofadas para melhor acomoda-la.
Minha Liv.
Ajoelhei-me ao seu lado, olhando fundo em seus olhos, que agora pareciam sem aquele brilho que sempre existiu.
– Você não vai embora? — Olivia perguntou, com rastros de lágrimas no rosto e com os olhos vermelhos.
– Nunca mais.
Olivia me deu um espaço no sofá. Quando me deitei ao seu lado ela me abraçou forte, começando uma nova onda de soluços que deve ter durado cerca de cinco minutos, até, lentamente, eles irem diminuindo restando só a respiração ofegante de Olivia.
O silêncio que se seguiu contou tudo o que aconteceu nesse apartamento, contou o quanto a minha Liv está apavorada.
Agora eu sei que tinha que tira-la daqui, e eu vou.
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