Notas iniciais
Um pouquinho mais de interação entre nossos dois amores!

Derek chegou mais tarde que de costume na empresa aquela sexta-feira e encontrou Scott e Stiles sentados na sala de reunião, rindo e mexendo em alguma coisa no computador.

– Bom dia! – ele cumprimentou, a voz grave.

– Derek! – Stiles andou na direção do empresário, tirando a pasta de couro de sua mão, jogando de qualquer jeito em uma cadeira e o puxando pelo terno, sem se preocupar de estar lhe amassando – Venha ver o que bolamos.

Ele se deixou levar, já que ficou sem reação com a falta de senso de espaço pessoal do rapaz. Já em frente ao computador, Scott abriu uma apresentação de slides com uma série de anúncios para revista que eles tinham produzido.

Aos poucos as imagens de animais selvagens exibidas no slide mudavam para os funcionários da empresa. Tom, da contabilidade foi flagrado espreguiçando e sua imagem sobreposta a um grande urso com um gesto bem parecido. Louise, a recepcionista foi fotografada com um vestido listrado de branco e preto que, devido a suas curvas, a deixou muito parecida com uma zebra. Newton, secretário de Chris teve uma foto sua no momento em que esticava o pescoço para cima com o telefone pressionado a orelha e foi comparado a uma girafa. Embaixo de cada foto o slogan da campanha “Somos todos animais”.

Derek sorriu. Contido, a princípio, mas depois o sorriso foi se tornando maior e mais sincero. A ideia da campanha era simples, criativa, divertida. Ele sabia bem que uma campanha publicitária para fazer sucesso precisava seguir um caminho: ou da emoção e ou da diversão. Ele preferia o último, sem dúvida!

– Está incrível! – ele elogiou, sorrindo para os dois rapazes que pareciam orgulhosos de seu trabalho.

– As imagens vão veicular basicamente em revistas e na internet. – Scott explicou – E para TV vamos usar o mesmo mote, mas com efeitos visuais mais específicos e uma trilha sonora que vai transformar essas mudanças em algo bem emocionante.

– Mas temos uma ideia um pouco mais ousada. – Stiles se jogou na cadeira ao lado de Scott, colocando os braços atrás da cabeça – Já que vocês ainda não vendem os suplementos alimentares para o público direto, pensamos em criar um meio alternativo de publicidade direta.

– Qual a ideia? – Derek sentou na cadeira quase de frente para os dois, interessado no que eles diziam.

– Queremos criar um prospecto. – Scott se adiantou – Como uma revista interna, com fotos da empresa, do laboratório, da equipe que faz a Banquet para que todos possam ver o que nós vimos esta semana aqui.

– E o que vocês viram? – sim, ele estava curioso. Qual a imagem aqueles dois jovens tinham da sua empresa?

– Humanidade. – Stiles respondeu, com um sorriso torto – Vocês são gente de verdade que fazem um trabalho em que acreditam. Não Peter! Ele pensa nos números. – o comentário fez Derek conter um sorriso ao pensar como seu tio podia ser tão transparente se Stiles conseguiu descrevê-lo tão bem após meia hora de conversa – Mas o resto de vocês, cara! Acho que nem o porteiro reclama de trabalhar aqui! É como um bando de lobos.

– O quê? – Derek balançou a cabeça, achando que o rapaz tinha perdido a própria linha de raciocínio.

– É, você já viu como eles são? Unidos, cara! Unidos pra valer. Existe um alfa, que comanda tudo que o bando faz. E o resto do bando obedece porque sente a autoridade do alfa e entende que cada um tem o seu lugar ali. É lindo!

– Não liga, Stiles tem obsessão por lobos desde a adolescência. Ele já adotou dois lobos numa ONG de preservação ambiental. Mas o que ele quer dizer é que vocês tem uma equipe muito boa e centrada, que acredita que seu trabalho faz a diferença, ainda que seja apenas manobrando os carros na garagem ou fazendo o café na cozinha.

– Você é o alfa, cara! – Stiles falou com ar de brincadeira, mas seu olhar era mais intenso do que pretendia. – Bom, de todo jeito, precisamos de autorização para fotografar os empregados por mais um dia, e as dependências da empresa, incluindo o laboratório.

– Isso não é problema. Posso ligar agora para os departamentos e dizer que vocês dois têm passe livre para todos os setores. – Derek se levantou, para ir até o telefone da sala.

– Os dois não! – Scott falou – Só o Stiles vai ficar hoje. Minha parte é com a diagramação agora e eu sei que Stiles dá conta disso sozinho.

– Ah, ok então!

Ele fez o telefonema enquanto Scott reunia suas coisas e se despedia depois de informar que enviaria as páginas para que todos os sócios aprovassem antes de enviar para as revistas. Stiles abraçou o amigo e saiu da sala, piscando para Derek enquanto falava:

– Hora de flagrar a alma desse povo.

Ele não viu mais o fotógrafo o dia inteiro, só o encontrando no fim do dia quando quase todos estavam indo embora, saindo meia hora mais cedo por causa da tempestade que parecia prestes a cair a qualquer momento.

– Ainda aqui? – Derek não se conteve e perguntou, curioso por vê-lo tão tarde na empresa.

Reparou que o rapaz parecia um pouco cansado, mas tinha aquele brilho satisfeito no olhar ao encará-lo, de frente para o elevador.

– É, queria algumas fotos dos funcionários saindo. Alguém apagando a luz de um setor, talvez apenas as luzes do laboratório, sem ninguém lá dentro. – ele explicou, dando de ombros, esperando a porta do elevador se abriu.

– Esteve no laboratório? – o empresário sentiu o estômago revirar, pensando em Stiles e Danny no laboratório quase às escuras.

– Sim, o pessoal lá é divertido. Você deve sentir falta, né?

– O quê?

– Do laboratório. O Danny disse que você costumava ser um dos caras de branco. – Stiles respondeu, mexendo distraído na câmera e revendo algumas fotos.

O elevador finalmente parou no décimo andar e eles entraram, no instante em que ouviram um trovão e Stiles deu um pequeno sobressalto.

– Algum problema? – Derek não evitou o sorriso.

– Ah, não sou fã desse barulho todo, sabe? Coisa de criança, mas trovões me incomodam demais! – o fotógrafo respondeu com os olhos perdidos no chão, sentindo o elevador se mover.

Um novo trovão, ainda mais forte o fez se encostar nas paredes de aço e apertar a correia da câmera pendurada ao pescoço. A luz piscou algumas vezes e depois de um terceiro estrondo, um baque parou o elevador, apagando as luzes convencionais e acendendo as de emergência.

– Porra! – Stiles escorregou para o chão, esfregando os olhos.

Derek apertou alguns botões inutilmente e depois acionou o de emergência, que ele sabia ser capaz de acionar o pedido de socorro para a empresa que fazia a manutenção e a segurança dos equipamentos do prédio. Logo seu celular apitou com a mensagem da seguradora que dizia: Prazo para atendimento 45 minutos.

Sentou-se do outro lado do elevador, afrouxando a gravata e puxando a pasta para perto do peito, observando Stiles que tinha ficado quieto e de olhos fechados, respirando profundamente.

– Ei, Stiles! Você está bem?

O rapaz ergueu um dedo para que ele esperasse e depois de mais alguns minutos, suspirou, encarando seu “companheiro de cárcere forçado”:

– Pânico sob controle. – balançou a cabeça e tentou sorrir, mas era visível o quanto estava quebrado – Desculpe, eu não gosto mesmo de tempestades. E ficar preso num espaço pequeno enquanto escuto o mundo cair lá fora não é o tipo de coisa que eu gostaria de fazer com você. – Derek ergueu as sobrancelhas, surpreso com a resposta, mas Stiles não se deu conta e continuou a falar – Tipo, eu não te conheço, certo? E eu fico parecendo um moleque de novo, com medo de um barulho que eu sei bem que se trata apenas do choque de massas de água condensadas na forma de nuvens, mas não tenho boas lembranças desses barulhos, quando minha mãe morreu estava trovejando muito e depois disso, uns 10 anos eu acho, meu pai também acabou refém de uma louca justamente no dia em que aconteceu a maior tempestade da Califórnia dos últimos 20 anos, então... Bom, não superei os barulhos. E se quer saber... Se for pra ficar trancado com você em algum lugar, seria melhor no meu apartamento ou no seu ou num bar bebendo cerveja e rindo do que aqui quando você com certeza vai achar que sou um louco.

Ele parecia prestes a hiperventilar no momento que uma nova mensagem fez o celular de Derek vibrar em seu bolso. Ele largou a pasta para longe e puxou o aparelho para checar que o prazo de resgate havia passado de 45 minutos para uma hora e 15 minutos. Nesse ritmo, se ele não fizesse alguma coisa, Stiles acabaria passando realmente mal.

– O que posso fazer? – Derek perguntou, sentando-se mais perto do rapaz – Para você não enlouquecer?

– Converse comigo. – Stiles respondeu rápido – Sobre qualquer coisa. Eu preciso parar de ouvir a chuva lá fora.

Conversar? Derek não era um excelente interlocutor. Costumava conversar com Danny, e antes com Laura. Eventualmente ligava para sua irmã mais nova, Cora, que estava na Itália estudando alguma coisa que ele não se lembrava.

– Qualquer coisa?

– Qualquer coisa... Fale de futebol, de The Walking Dead, de concursos de beleza para crianças ou bichos de estimação, da cotação do dólar na Bolsa de Valores de Bangladesh... Qualquer coisa, por favor!

– Por que me fotografou? – Derek perguntou de uma vez, se arrependendo depois, mas foi a única coisa que passou em sua cabeça.

Stiles franziu a testa tentando assimilar o que ele tinha perguntado. Até que sorriu, estremecendo ainda com um trovão mais fraco e respirou fundo antes de falar.

– Gostei do que vi. – era simples, ele pensava.

Para Stiles fotografia era basicamente isso, registrar pequenos momentos que lhe faziam sentir a alma aquecida. Diferente de outros fotógrafos pelo mundo, que viajavam para os mesmos lugares que ele, muitas vezes países assolados pela guerra, pela fome, pela pobreza, Stiles não gostava de fotografar as tragédias. Ele gostava de fotografar a humanidade, os sorrisos que sobreviviam após uma bomba, a esperança que insistia em se esgueirar pelos escombros de um prédio caído, um jogo de futebol no meio de uma rua marcada por balas perdidas na periferia de alguma cidade. Como explicar para o cara ali, a sua frente, que ele usava a fotografia para não perder a esperança no mundo?

– Comecei a gostar de fotografia ainda na escola. Para o jornal, sabe? Eu precisava de créditos em atividades extracurriculares e só o time de lacrosse não era o bastante, então acabei parando no jornal da escola. Meu amigo, Matt, me ensinou a manejar uns equipamentos e logo eu fui gostando da coisa. Mas enquanto todo mundo levava uma vida de paparazzi, eu ia na contra-mão.

– A foto que fez de mim foi algo meio paparazzo. – Derek comentou, tentando a todo custo evitar um sorriso quando Stiles riu do comentário.

– Errado. Não teve nada de paparazzo naquilo. Eu não lhe conhecia, você não é um cara famoso. E assim, tinha acabado de me mudar para aquele apartamento, olhei a sacada, as inúmeras janelas a minha frente e pensei nisso. Fotos das janelas americanas. O que as pessoas são em suas intimidades. Quando elas entram em casa e tiram as máscaras, sabe? Já tenho nove autorizações. – ele parecia orgulhoso.

– Nove? Não acredito que as pessoas querem ver sua intimidade exposta assim.

– Claro que querem! Todo mundo, tirando você, quer um minuto de fama. Aparecer numa revista, dar uma entrevista para a TV, ter um vídeo bombando no youtube. E se eles se sentem bonitos, se sentem interessantes, com certeza assinam a autorização e ainda colocam a cópia da foto como quadro na parede.

– Essas fotos devem ser interessantes. – Derek comentou.

– Se quiser ver, passa lá em casa. Já revelei algumas e estou avaliando a intensidade da luz e os tons de branco e preto. Ia ser bom ter uma segunda opinião.

Derek concordou com um breve aceno de cabeça e eles continuaram a conversar sobre outros assuntos, como as viagens que Stiles fez pelo mundo e quais produtos da Banquet eram criações de Derek.

Quando a luz do elevador se acendeu, irritando os olhos de ambos, eles já estavam sentados lado a lado, vendo as fotos que Stiles tinha na câmera e rindo de algumas imagens. Derek olhou no relógio e viu que havia se passado quase duas horas. Sentia-se aliviado, pelo socorro ter chegado, mas ao mesmo tempo frustrado por ter que interromper a conversa.

Saíram do elevador e Derek observou que Stiles seguia pela rua, sem buscar nenhum veículo.

– Ei, Stiles! Seu carro está onde?

– Na Califórnia, com meu pai. – ele respondeu balançando uma das mãos – Não tive tempo de ir busca-lo.

– Vai pra casa como?

– De táxi!

– Deixa de estupidez. Vem cá, eu te dou uma carona. Não é como se eu fosse me desviar muito do meu caminho.

Stiles não precisou de um segundo convite, correu e entrou no camaro preto, ficando em silêncio quase o caminho todo. Apenas quando estavam virando a esquina é que Stiles falou:

– Então, quer subir e ver as fotos? Tenho cerveja em casa e pizza congelada. Para pagar a carona.

Notas finais
Pizza congelada, cerveja e chuva... Será que eles precisam de mais alguma coisa????