Pictures of You
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Pizza, cerveja e fotos. Derek ficou ali, sentado no sofá do apartamento de Stiles ouvindo o rapaz falar das fotos dos vizinhos deles e mostrando algumas particularidades, como a da Senhora Eltman, uma velha alemã apaixonada por sua gata que não tinha uma das patas. Ela resgatou o animal de uma enxurrada há oito anos, quando voltava para casa. Fraulein era uma gata carinhosa e mansa que se sentava em seu colo todas as manhãs para tomar sol. E a foto era desse momento, do banho de sol, com a gata parecendo sorrir.
Derek foi, aos poucos, entendendo a sensibilidade de Stiles. O jeito todo extrovertido por fora, como um escudo para proteger o que ele tinha de sensível por dentro.
Stiles falava sem parar, respondendo as poucas e curtas perguntas que Derek lhe fazia. Até que o empresário se deu conta de um detalhe.
– Stiles, você me disse que sempre faz umas três fotos de cada janela. Mas só me mostrou uma foto minha. Onde estão as outras?
O rapaz parou de falar e de andar, com o prato de pizza numa mão e a garrafa de cerveja na outra.
– Descartei.
– Descartou minhas fotos?
– Sim, você não quis me dar a autorização e pareceu tão irritado que achei melhor descartar as fotos.
– Oh! – sua voz saiu mais aborrecida do que ele imaginou que sairia – Queria vê-las.
Stiles franziu a testa observando Derek. Melhor, tentando decifrar o que Derek estava pensando.
– Posso dar um jeito nisso! – finalmente respondeu, colocando os objetos que tinha em mãos sobre a mesa de centro, limpando as mãos na camiseta.
– Ainda tem os arquivos no computador? – Derek se animou.
– Não. Tenho os negativos. Se tiver paciência posso revelar para você.
– Revelar?
– Derek, para essas fotos, das minhas exposições, ainda gosto de filmes e revelação tradicional. Pode parecer loucura, mas acho que câmeras digitais flagram imagens muito bem, mas deixam a alma de fora.
– Você tem um estúdio de revelação aqui no apartamento?
– Ah, deu um pouco de trabalho para montar, mas ficou razoável. Faço as prévias aqui e depois que escolho as que mais gosto, levo para uma revelação mais profissional. E então, quer mesmo que eu lhe mostre as outras fotos?
Derek abriu a boca para responder, mas a fechou em seguida. Sentia uma vontade estúpida não apenas de ver as outras fotos, mas de ver Stiles trabalhando com elas. Encarou o rapaz novamente, vendo que ele parecia a vontade com ele ali, tomando conta de seu sofá.
Era estranho que se sentisse a vontade também. O empresário não tinha o hábito de visitar pessoas. Encontrava-se com os poucos amigos que tinha sempre em ambientes neutros, nem na casa deles e nem na sua. Mas de um jeito estranho, sentia-se em casa.
– Nunca vi uma foto ser revelada. – ele falou em voz baixa e Stiles compreendeu o que ele queria.
Sem falar nada, se aproximou de Derek pegando sua mão e puxando para dentro do apartamento, por um corredor estreito que dava direto a uma porta de madeira escura. Uma luz instalada acima da porta estava apagada. Ele girou a maçaneta e empurrou uma grossa cortina feita de tecido black-out.
Lá dentro, Stiles acendeu uma fraca luz amarelada e Derek observou uma mesa com tampo de mármore escuro onde três bandejas de plástico branco estavam dispostas. Ao lado da mesa, uma pia de alumínio e um cesto de lixo. Acima de suas cabeças, alguns varais com pregadores de roupa. Do outro lado da sala, uma máquina grande que a Derek pareceu com um grande microscópio e uma geladeira velha.
– Bom, eu tenho que fazer tudo aqui. – Stiles começou a explicar – Porque não consegui fazer um quarto todo escuro para revelar os negativos. Assim fica mais demorado para revelar as fotos. Mas quebra um galho. Aqui eu faço a revelação dos negativos e os coloco para secar na geladeira. Ela não funciona, claro, mas é hermeticamente fechada e protege o filme.
– Uau! – foi tudo o que ele conseguiu dizer, encantado com o que via.
– Depois do tempo certo, eu pego o negativo, o papel fotográfico e venho para cá. Preciso acender a luz vermelha, porque a luz amarela é a que queima o papel e revela a foto nele. Coloco o negativo no ampliador – Derek ergueu as sobrancelhas descobrindo o nome do que achava ser um microscópio – e escolho a parte da foto que quero revelar, o tamanho, a intensidade da luz. Quanto mais luz cair sobre o papel, mais escura fica a foto. Vem cá, olha que legal!
Stiles acendeu a luz vermelha do quarto e apagou a amarela. Então puxou a mão de Derek, colocando-a sobre o papel fotográfico, ligou o ampliador e puxou o filtro vermelho da frente do foco da luz por alguns segundos, desligando em seguida. Tornou a puxar o empresário com ele até as três bandejas e foi explicando o que continha em cada uma: a primeira com revelador, a segunda com interruptor, que para o processo de queima do papel e por fim o fixador, que garante que a foto não fique borrada.
– Depois a gente lava o papel e deixa secar. – ele terminou a explicação, sorrindo, vendo que Derek parecia uma criança, encantado ao ver o papel revelado com sua mão sobre ele.
– Isso é incrível. Quer dizer, eu vejo processos químicos todos os dias, mas isso...
– Parece mágica, né? – Stiles completou, paixão em suas palavras – Imagina ver o seu olhar, o que você enxerga no mundo, nas pessoas, aparecendo num papel?
Eles se encararam sorrindo. E ficaram se olhando até que Stiles se lembrou do motivo pelo qual estavam ali.
– Suas fotos. Venha, vou lhe mostrar.
Ele achou os negativos rapidamente e em poucos instantes queimou três papéis, levando-os para as bandejas. Movia cada papel com cuidado, com a ajuda de uma pinça metálica e aos poucos as imagens iam aparecendo. Na primeira, Derek parecia alongar o pescoço, enquanto desfazia o nó da gravata, em pé, um passo atrás do sofá de sua casa. A segunda foto ele estava abrindo mais as cortinas da sacada, apenas uma calça larga cobrindo seu corpo, os músculos definidos a mostra. A terceira era a foto que ele já conhecia.
Observou o cuidado com que Stiles prendia as fotos ao varal e ficou observando cada imagem com atenção. Até que perguntou:
– Por que escolheu esta?
– É a mais expressiva. – ele respondeu, tirando os olhos das fotos e encarando o rosto de Derek que ainda admirava o trabalho do fotógrafo – Difícil explicar, mas acho que esta aqui mostra como você é bonito, mas que mesmo assim você é frágil. Digo, você está cansado e isso está na cara, no modo como se deixa envolver pelas almofadas do sofá, mas é tão natural... Me dá a impressão de que você está tão esgotado e que chegar em casa e achar tudo vazio, é quase uma sensação de derrota. É um misto de dever cumprido pelo tanto que trabalhou, mas ao mesmo tempo se pergunta “trabalhar para quê?” se vai chegar em casa e ficar sozinho com seu sofá? Mas ainda assim, tem uma beleza quase melancólica.
Stiles então notou que os olhos de Derek agora estavam voltados para ele e sentiu suas bochechas corarem. Riu, sem graça com o que tinha acabado de dizer e tentou consertar:
– Mas não me leve a sério, eu falo demais e as vezes enxergo coisas que não...
Ele não conseguiu terminar de falar, sentindo a boca de Derek sobre a sua num beijo quase urgente. Stiles cedeu não só ao beijo, mas ao calor que sentia emanar do outro, ao se ver envolvido num abraço firme. Até que Derek percebeu o que estava fazendo e deu um passo para trás, desfazendo todo o contato e parecendo sem graça. Olhou ao redor, procurando algo para dizer, ou fazer, mas seu primeiro impulso era sair dali. Andou até a porta e já ia abrir quando se lembrou onde estava e olhou para Stiles, com medo de abrir a porta e estragar alguma coisa.
– Vá em frente. – Stiles sorria, vendo a confusão no olhar do outro.
Derek abriu a porta e saiu pelo corredor, pegando sua pasta e seu casaco e já ia sair pela porta, quando olhou pela sacada e notou que a chuva ainda caía. Voltou pelo corredor, encontrando Stiles no meio do caminho. Sem dar explicação, enfiou a mão no bolso da calça do rapaz, tirando o celular dele de dentro e digitou qualquer coisa rapidamente na tela e só então saiu sem despedir.
Stiles olhou o celular, a sobrancelha erguida e instantes depois, uma mensagem chegou.
Se começar a trovejar de novo, este é o meu número. — DH
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