Picture Perfect
1 Prólogo
Notas iniciais
Música: https://www.youtube.com/watch?v=NTxt7rERzm8 (Airplanes - B.O.B. feat. Hayley Williams)
Nico espreguiçou-se. Pela primeira vez desde que voltara ao acampamento, não teve pesadelos. Olhou no relógio na mesa de cabeceira e viu que ainda estava no meio da madrugada.
Ah, sim, pensou. O melhor momento do dia.
Levantou-se da cama devagar e passou a mão pelo cabelo. Bocejou e se espreguiçou mais uma vez. Viu seu reflexo no espelho quebrado, mas ali estava um vulto negro. Tentou não se assustar dessa vez.
Estava com muita dor na cabeça. Talvez fosse consequência da falta de sonhos. Ainda assim, conseguia lembrar-se dos anteriores. Mas, naquele momento, preferia não pensar muito neles. Colocou seus jeans e a camiseta do acampamento, vestiu um casaco de malha preto, botou os tênis e embainhou a espada de ferro estígio. Então saiu do chalé.
Sabia do risco que estava correndo, mas nem se preocupava com isso, dentre todas as outras coisas estranhas que tinha para pensar. Como, por exemplo, a marca feita na parede do seu chalé logo ao lado da cama que parecia não ter explicação lógica. Ou o problema que estava tendo com a espada nos últimos dias.
Caminhava no meio da noite, sentindo o vento frio no rosto pálido. O céu estava lindo, mas não se importou com isso também. Ultimamente, vinha perdendo o gosto pelas coisas legais que lhe aconteciam. Podia culpar Kayla, claro, mas deixava o peso sobre seus próprios ombros.
Não conseguia pensar em nada que pudesse lhe animar e talvez nem queria ficar animado. Com mais frequência ouvia rock pesado e lia mais coisas depressivas do que o normal. Até começava a gostar de histórias sobre transtornos psicológicos.
Sentiu a brisa na sua pele e a areia sob seus tênis. Fez pegadas até chegar perto do mar e ali sentou-se. Ficou encarando o horizonte e a lua e as estrelas e os seus reflexos na água azul. Mas seus pensamentos estavam bem longe dali.
***
Pelo que parecia, ele tinha uma nova maldição. Mas não fazia ideia de qual era, nem como. Antes, achava que sua vida já era uma, e das grandes. Quando Bianca morreu, Percy começou a namorar Annabeth, Will mostrando-se ausente. Tentava não pensar dessa forma, mas parecia estar bem ruim pro seu lado, mesmo o Acampamento mostrando-se fora de risco por ora.
Gostaria de que a maldição fosse suas atuais dificuldades com a espada, mas duvidava demais disso. Imaginava também que os rabiscos na sua parede tivessem alguma ligação, mas também poderiam envolver Kayla.
Ela parecia estar ficando cada vez mais forte em seus sonhos, mas achava que seria melhor deixar isso em oculto. O que Leo Valdez pensaria sobre Nico estar sonhando com uma garota? Nossa, cara, mas e o Will? Não queria nem imaginar.
Até que estava aprendendo a gostar desse cara. Não do Leo, do Will. Ele parecia ser bem simpático e respeitava o fato de Nico amar demais ficar sozinho. Pegava bastante no seu pé, mas isso nem o incomodava tanto.
***
Nem percebeu como estava mudando de pensamentos tão rápido. Da maldição à Kayla e de Kayla até o Will. Sentia-se como aquelas garotas que gostavam de espalhar pra todo mundo que eram bipolares sem nunca terem ido ao psicólogo. Mas, bem, ele não era uma garota.
“Mas eu sou”, disse a voz na sua cabeça.
Sentiu arrepios ao ouvi-la de novo. Pelo menos com aquilo ainda não havia se acostumado. Mas recuperou-se respirando fundo e respondeu, sussurrando:
- O que você quer, Kayla?
“Bem, meu caro, você sabe o que eu quero. Desejo seus preciosos poderes no meu exército para que possamos derrotar os olimpianos e tirá-los do poder. Você pode não conhecer sua maldição, mas adivinhe! Eu sim. E tenho o poder de não apenas revelá-la a você mas também de destruí-la completamente. Sabe, maldições são muito chatas. Você está ciente de que eu já tive algumas. Quero te livrar disso, meu filho. Para isso, só precisa jurar fidelidade a mim e eu prometo que cumprirei minha palavra. Mas um precisa ter confiança no outro, não é, amorzinho?”
Nico sentiu seu coração acelerar. Ficar sem maldição parecia uma coisa muito... legal. Sua vida já era ruim, não queria nada que a piorasse.
Mas ainda assim... Não parecia certo. Ele estava ali porque era um herói, precisava agir como tal.
- Recuso de novo, Kayla.
“Mas tão cedo? Bem, você está prestes a conhecer sua maldição mesmo. Acho que depois disso aceitará minha proposta sem nem ao menos hesitar.”
- Já vai?
“Ah, me desculpe, amor. Tenho mais o que fazer. Mas, para que você não fique com saudades, deixo meu amiguinho querido com você. Adeus.”
E houve silêncio na sua cabeça novamente. Ele ficou um tempo, esperando para ver se ela estava mentindo, mas parecia não ter mais ninguém ali.
Contudo, ouviu um ruído atrás de si e por pouco não foi atingido por um machado. Era um bizarro meio aterrorizante, um cão infernal empunhando um machado. Mas era real.
Nico desviou rapidamente do segundo ataque e puxou sua própria espada. Respirou fundo, como se temesse ser derrotado, e tentou acabar com aquele cão. Mas parecia impossível, ele não conseguia atingi-lo. Estava mais na defensiva do que no ataque. E, se continuasse assim, não ia ficar de pé por muito tempo. Também não era capaz de controlá-lo, como se ele já estivesse sob controle. Sentia seus dedos formigarem e cada parte do seu corpo começar a doer. Alguns minutos depois, sua visão já estava desfocada e seu coração parecia bater com dificuldade. Com um golpe, o cão infernal o derrubou e ficou por cima de Nico.
Ele percebeu que já não importava a maldição pois estava morrendo mesmo. Pensou em quem ficaria com suas coisas preciosas, mas lembrou que não tinha nenhuma então não faria diferença mesmo. Tocou no bolso do casaco e sentiu ali o dracma de emergência. Estava tudo pronto.
Então deixou-se morrer. Até chegou a ver uma luz, mas pensou que não era assim que se morria. Viu que o cão infernal não tinha lhe golpeado e seu corpo doía como antes, sem nenhuma diferença enorme. E a luz não era branca e sim vermelha.
O cão caiu pro lado repentinamente e começou a gemer baixo, em agonia. De repente, começou a se desintegrar e enfim sumiu.
Bem, pelo menos posso morrer muito devagar, com todas essas dores.
Um vulto surgiu na sua visão e ele tentou nem pensar muito nisso. Cantava um pouco e, argh!, o tocava muito. Nico não gosta que lhe toquem.
Mas suas dores iam se extinguindo a cada toque e uma onda de alívio surgiu. Depois, sua visão já estava boa, mas ele não queria olhar para seu curador ainda.
Até que não teve escolha. A cor vermelha lhe chamou muito a atenção e ficava muito bem naquela garota?!
- Olá – ela disse, estendendo a mão – Meu nome é Sara.
Nico apoiou-se na areia e levantou-se sozinho.
- Não gosto de que me toquem – ele falou.
- Bem, acho que você vai precisar aprender a gostar, ainda mais depois de...
- Não fale mais nisso – e ergueu a mão, pedindo silêncio.
Tudo o que ela fez foi rir.
- Olha, não faço ideia de onde estou. Minha mãe só me disse que ela é uma deusa maluca aí e que tenho que aprender a ser boa. E eu te salvei, senão, pelo seu estado, você morreria ali mesmo. Acho que o mínimo que pode fazer é me explicar que lugar é esse e que que eu tô fazendo aqui.
Nico suspirou. Virou-se e a encarou naqueles olhos azuis. Azuis muito bonitos, bem realçados na sua pele branca atrás do cabelo super vermelho. Nossa, ele nem quis olhar para as sardas. Nico a-m-a sardas. Eram ainda mais bonitas que as de Will e chamavam ainda mais a sua atenção. Ele não era de se sentir muito atraído por garotas, mas aquela ali sabia como atraí-lo.
Tirou aquilo da sua mente.
- Então – ela falou.
- Esse é o Acampamento Meio-Sangue. Para filhos de deuses, como eu e você. Melhor ficar por aí por enquanto porque ninguém vai te ouvir agora, é o toque de recolher.
- Nossa, rebelde você, hein? Na praia depois da hora – e riu baixo.
- Isso não tem graça. A madrugada é o melhor momento do dia. Enfim, preciso ir agora. Tchau!
- Espere!
Ela segurou o braço dele, impedindo-o de ir. E como aquela garota era forte!
- Não tenho aonde ir agora. Por favor, deixe que eu fique com você.
Nico suspirou com raiva.
- Está bem, mas não pense que serei seu amigo.
- Isso nem passou pela minha cabeça!
Começaram a caminhar de volta para o chalé 13.
- Esse lugar é meio sombrio – ela comentou.
- Porque é noite. Te apresentarão tudo amanhã.
- Ah, sim.
Ele não sentia-se muito bem na presença de uma garota, principalmente Sara. Como se ela atraísse a atenção para si, e era meio estranho. Ele estava esforçando-se para não olhá-la de novo.
Chegaram então ao seu chalé. Ele abriu a porta , deixou que a garota passasse e, já dentro, a fechou.
- Eu vou dormir aqui?
- Se não for filha de Hades, não.
- Ah, que bom. Achei meio obscuro. Ainda bem que sou filha de Hécate.
- H-Hécate? Já sabe?
- Sim, ela falou comigo. Então você é de Hades? — e riu novamente.
- Isso não é engraçado.
- Beleza. Bem, aja como se eu não estivesse aqui. Já acostumei a dormir no chão.
Sem saber como, aquilo tocou o coração dele. Tirou o casaco e o jogou dentro do guarda-roupa. Por alguns motivos desconhecidos, o chalé 13 estava com apenas uma cama.
- Não se preocupe – ele disse – Pode ficar na cama.
- Ah, não, tudo bem.
- Eu insisto.
- Ahn, obrigada. Mesmo.
No escuro, Nico não viu sua expressão. Talvez quisesse, não tinha certeza. Mas deixou pra lá.
Já com os olhos fechados, ouviu uma última vez a voz de Sara.
- Qual o seu nome, garoto-obscuro?
- Durma, Sara.
- Injusto. Você sabe o meu nome, mas eu não sei o seu. Qual é?
- Se eu te contar, você cala a boca?
- Sim.
- Nico.
- Obrigada.
- Cala a boca.
- Cansei de ficar calada.
E riu. Demais.
E Nico percebeu que não era Sara. Era de novo a voz de Kayla na sua cabeça.
“Afrodite mandou bem, hein?”.
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