Picture Perfect
5 Capítulo 4
Nico percebeu que tinha acordado com um sorriso no rosto. Pensou no quanto sua vida estava bagunçada e desorganizada.
Claro que não podia culpar Sara. Mesmo que ela tenha conseguido fazê-lo se abrir mais, sorrir mais, não era a culpada por todas as coisas. Kayla continuava conversando com ele normalmente, e Nico já até tinha chegado a pensar que talvez essa fosse a sua maldição.
Naquela manhã, quando acordara, lembrou que não tinha visto Sara naquela noite. Mas aquilo não o abateu tanto quanto deveria.
“Você ainda não ligou as peças, né, Nico?”
– Que peças, Kayla?
“Os rabiscos. Não pode ser coincidência, amor.”
– Não me chama de amor.
“Ah, desculpa. É especial para a sua namoradinha, né? Bem, sugiro que saia do seu chalé nesse momento.”
Ele não quis obedecer àquela ordem, mas Kayla parecia determinada quanto a aquilo. Como se a vida dele dependesse disso. Vestiu a camisa laranja, enfiou os jeans e saiu correndo porta afora.
Não soube dizer logo de cara o que devia ver. Não tinha nada de importante acontecendo naquele momento. Só uns campistas correndo, brincando, brigando. Clarisse parecia feliz em ajudar os irmãos Stoll a pregar uma peça numa filha de Atena. Os filhos de Hefesto resolveram pegar um pouco mais de sol e montar um de seus projetos ao ar livre. Um filho de Hermes parecia se divertir enquanto dava uns amassos em uma garota de cabelos vermelhos.
Nico aproximou-se sorrateiramente para ter certeza do que via. Não conseguia acreditar naquilo. Era mesmo Sara; seus tênis azuis, suas calça jeans preta e justa, sua blusa vermelha. As sardas dela, o cabelo dela, as mãos dela.
Mas não, não podia ser Sara. Não podia ser a mente dela, a cabeça dela, a vontade dela e muito menos os lábios dela. Ah, aqueles lábios tão macios que Nico já estava viciado em beijar. Eles estavam grudados em outros, estranhos.
O filho de Hades mordeu os próprios lábios e cerrou os punhos. Deixou que uma fenda se abrisse no chão e saiu de lá o mais rápido possível.
***
Nico nunca tinha ligado muito pras náiades. Elas não lhe chamavam a atenção de jeito nenhum. Por isso, às vezes ficava sentado na margem do riacho, observando a água cristalina. Não se atrevia a tocar nela; vai que aquelas garotas tentam levá-lo à força.
Decidiu esquecer um pouco Sara e focar no que realmente importava: sua maldição. Ela ainda não havia se revelado, e isso o destruía.
Mas não conseguia pensar muito naquilo. De qualquer maneira, voltaria à filha de Hécate pela qual estivera apaixonado, e isso não era mais tão legal.
Então ouviu alguém cantarolar baixinho atrás e notou uma sombra. Sentiu braços finos o envolverem e aquele cheiro único invadiu suas narinas.
– Nico di Angelo – a ouviu dizer – O que fazes sozinho?
– Tava tentando me afastar de você.
Ela sentou-se ao seu lado e pela primeira vez não o chamou tanta atenção.
– Você viu, né?
– O quê? Você agarrando um cara lá do 11? Um outro garoto pendurado no teu pescoço, beijando os teus lábios? Não, não faço ideia do que está falando.
Sara riu. Mas não era aquela risada linda, era uma forçada. Estava tentando achar graça, mas não conseguia.
– Nico di Angelo está com ciúmes?
– Olha só, Sara – ele ergueu um dedo e então olhou nos olhos dela. Estavam... azuis. Ela estava tão perfeita quanto no dia em que se conheceram. Isso o enfraqueceu. Deixou-o completamente sem palavras, e não conseguiu deixar de demonstrar isso.
– Fala, cara.
– Você acha que é assim? Fica comigo por uma semana e depois simplesmente sai com outro cara? Isso... isso não tá certo.
– Sabe o que não tá certo? Você aí, fingindo que eu não existo por uma semana e me encontrar na madrugada. O Will Solace? Ele falou comigo. E disse que nunca você citou meu nome. Então não venha se fazer de bonzinho, de vítima, porque eu sei que o Will era seu foco antes de eu aparecer.
Uma onda de raiva lhe subiu pela cabeça.
– Para, Sara. Chega.
– O quê? A verdade te machuca?
– Não – ele suspirou – O que dói é te ver assim, com o cabelo daquele jeito, essa blusa vermelha e estar discutindo assim. Quer saber de uma coisa? Você é linda, atraente e totalmente louca, mas de um jeito incrível. E eu te...
– Cala a boca – ela disse, colocando o indicador na boca dele. Não exibia nenhum traço de loucura nos seus olhos. O mandou fazer isso como se... como se... previsse suas palavras, e elas pudessem te machucar de alguma forma.
– Nico di Angelo, você não faz o meu tipo. Sério, eu gosto de nerds, não de emos. Mas, ainda assim, sei o que sinto. O que rolou com Kenny não foi nada comparado ao que tem entre nós dois.
E o beijou. Mais uma vez. Como se tentasse fazer com que rolasse de alguma forma, mas fosse obrigada a fazer isso. Sara não parecia mais aquela garota maluca e feliz que Nico tinha conhecido e amado. Ela estava distante. Muito distante.
Ele não retribuiu o beijo.
***
Estava no meio de um aposento escuro. Não conseguia ouvir nem ver nada, então optou por ficar parado no mesmo lugar.
Por um tempo, esperou que algo acontecesse, mas nada surgiu. Continuava escuro e ninguém falava nada. De tão entediante que estava, deu um passo e todas as luzes se acenderam.
Estava em uma espécie de caverna. As paredes e o teto eram rochosos e umas velas brilhavam nos cantos, deixando todo o espaço iluminado.
Viu uma mulher de longos cabelos escuros que iam até a cintura olhando para algo na parede. Sua silhueta era alta e esguia e o rosto, fino e frio. Era bonita, mas de uma beleza cruel. Usava roupas escuras que lhe caíam perfeitamente bem e valorizavam suas curvas.
Contudo, não foi isso que chamou a atenção de Nico. Foram os seus olhos, azuis, exatamente da mesma cor dos de Sara quando se conheceram.
Mas não eram iguais. O brilho era diferente, como se suas intenções fossem opostas. Ele percebeu então quem era.
Tentou chamar Kayla pelo nome, mas som algum saiu da sua boca. Fez um grande esforço, mas isso destruía ainda mais sua garganta. Então, ela disse:
– Precisamos acabar com isso logo. Nico di Angelo está prestes a sofrer e ainda não entendeu isso. Os olimpianos vão me pagar por cada crime cometido contra mim e esse pobre garoto.
Não soube com quem ela falava. Agia como se ele não estivesse ali, e imaginou que talvez fosse isso. Então uma voz grossa soou distante:
– Pare com isso, Kayla. Você age como se esse garoto tivesse mais importância do que de verdade. Até parece que está apaixonada por ele.
O olhar da feiticeira ficou duro enquanto encarava a parede de pedra.
– Você nunca entenderá isso.
E todo o sonho desvaneceu.
***
Estava novamente no seu quarto, com todas as luzes apagadas. Levantou-se num salto, com o coração acelerado. Percebeu que sua blusa estava grudada no peito de tanto que suava.
Ouviu batidas leves na porta, como se não tentasse chamar muita atenção. Olhou no relógio e notou que ainda era de madrugada, então só poderia ser uma pessoa.
Respirou fundo e ficou de pé, caminhando lentamente até lá e abrindo a porta. Sara usava uma camiseta azul e parecia nunca largar aquela calça jeans.
– Me deixa entrar – falou – Por favor.
Nico saiu do caminho e depois fechou a porta. Ela acendeu uma luz fraca e ficou parada de pé, olhando para ele.
– Sei que não me perdoou ainda, mas é que... Foi mal. Não vou falar que foi acidental e tal, mas é que não vi problema.
– Como você não viu problema? A gente fica há uma semana e você simplesmente achou que eu fosse aceitar te ver com outro cara daquele jeito?
– Amor, nós não estamos namorando.
Aquilo o atingiu como um soco no estômago. Porque, por mais louco que fosse, era verdade.
– Você tem razão – ele disse – Me desculpa.
– Tá, tudo bem.
– Mas olha, não quero mais ver isso, okay? É chato.
– Me obrigue – e começou a rir.
Era tão bom vê-la de novo daquele jeito, com seu riso estranho. Ela se jogou no pescoço dele e o beijou, desesperadamente. Nico a pegou no colo e a deitou na cama, ficando por cima. Acariciou o rosto dela com leveza e sentiu suas mãos no peito, mais uma vez.
– Namora comigo, Sara – ele sussurrou – Por favor. Seja a minha namorada. Eu te...
Ela mandou que ele ficasse quieto, colocando o indicador nos seus lábios e então o beijando.
– Cala a boca, di Angelo, e me beija.
E ele a beijou.
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