Philia
4 1965
Notas iniciais
Janeiro e Junho de 1965
Se houve uma tradição que se manteve inalterada todos esses anos, principalmente depois que ele conseguiu um emprego, foi a de que Yakov sempre dava os melhores presentes.
Todo aniversário e Ano Novo ele tinha alguma coisa nova e Lilia queria morrer de vergonha. Porque não só ela era péssima com presentes, como sua mesada era muito pequena para coisas elaboradas. E não importava o quanto o patinador dissesse que as tentativas dela de cozinhar doces eram suficientes, ela se sentia culpada. Muito culpada.
(Afinal, ela provavelmente fez quinze gerações de mães judias se revirarem no túmulo com seu rugelach de chocolate vergonhoso. Yakov e sua colega Tamara disseram que estavam bons, mas ela não arriscaria mais.)
Por isso, quando Yasha mencionou sua apreciação por óperas e um especial gosto por um disco raríssimo, ela soube o que dar em seu aniversário de 20 anos.
Primeiramente, vale mencionar que ela não roubou nada. Ela foi educada e pediu ao seu pai se ele estava disposto a abrir mão de um dos vinis de sua coleção, um que ele nem gostava tanto.
— Por que você quer Trinus? — Vasiliy perguntou lendo o jornal no sofá da sala. Era o recesso de janeiro e ela estava em Ekaterinburgo, de forma que não havia oportunidade melhor para perturbar o seu pai.
— Quero dar de presente. — ela respondeu calma e sincera, mas por dentro repetia o "por favor" infinitas vezes.
— Hum. É uma obra muito cara, principalmente a versão remasterizada. Não sei se estou disposto. — ele disse ainda sem levantar os olhos do jornal.
— Quem merece esse presente tão especial, Lilenka? — sua mãe, Kristina, perguntou da cozinha.
— É pro Yakov. — ela disse esperando uma reação normal e contida.
Sua mãe apareceu à porta do cômodo com um sorriso não muito natural, seu irmão Gavriil magicamente largou o desenho que estava fazendo sentado no chão da sala e seu pai baixou o jornal, olhando-a como se ela anunciasse um aumento salarial.
— Feltsman? — ele perguntou.
— Você quis dizer "cunhado"? — Gavriil disse mexendo as sobrancelhas.
— Cala a boca. — ela fez careta. — É, ele sim. Ele disse que gosta muito da ópera, mas só pode ouvir quando visita uma tia ou algo assim. Ele faz 20 anos em junho.
É interessante salientar que, se fosse para qualquer outro amigo de Lilia, Vasiliy provavelmente diria "não". Mas Yakov conquistou um lugar cativo entre os Baranovsky quando eles viajaram para Moscou no último aniversário de Lilia. O comandante encheu o pobre rapaz de perguntas sobre política, cultura e, o mais importante de tudo, futebol. Ao final da conversa, Vasiliy confidenciou à filha que o rapaz foi "aprovado", seja lá o que aquilo significasse. Yakov confessou, depois, que nunca sentiu tanto medo de gaguejar em sua vida. O pai de Lilia podia dar medo quando queria.
Assustador ou não, ele gostava de Yakov, provavelmente enxergando um casamento para a filha mais nova que nem ela queria. Mas isso não significa que ele daria Trinus de mão beijada.
— Feltsman é um bom rapaz. — ele disse polido como sempre, dobrando o jornal e olhando para Lilia. — Ele continua na faculdade?
— Sim. Já vai pro segundo ano. — ela disse se lembrando das conversas sobre o curso de Educação Física.
O que isso tinha a ver com o disco, ela não entendia.
— Hum. Ele continua patinando pelo Exército, não?
— Sim, pai. — a menina respondeu suprimindo um suspiro. Teria mesmo que pensar num presente alternativo?
— Querido, não atormente a menina. Você nem tem tempo para ouvir os vinis. — Kristina foi em sua defesa.
— Os planos dele sobre você pareceram... nebulosos em nossa última conversa. — o mais velho disse semicerrando os olhos verdes idênticos aos dela. Apenas aquilo estragava a imagem perfeita do patinador na mente do militar: o fato de que ainda não pedira Lilia em namoro.
A garota sentiu o rosto corar, mas apenas suspirou em cansaço.
— Porque não há planos, pai. Nós somos só amigos.
— Ora, eu sei. Você acha que eu vi a sua mãe e pensei logo em casamento?
— Foi exatamente isso, Syura. — Kristina disse segurando um riso.
— De qualquer forma, — Vasiliy ignorou o comentário da esposa apesar dele próprio ter ficado um pouco vermelho. — eu ainda estou esperando um noivado. Nenhuma perspectiva? Nada a que eu possa me apegar?
— Tem que ser muito homem pra casar com a Lilia. — Gavriil disse voltando aos seus rabiscos. — Ela mesma já é mais homem que metade dos caras que eu conheço.
— Olha como fala da sua irmã. — a mãe disse se aproximando do marido e pousando a mão em seu ombro. — Syura, dê tempo às crianças. Os jovens esperam mais hoje em dia.
Lilia queria dizer que nem dez anos seria tempo o suficiente, mas resolveu ficar quieta. Uma meia defesa era melhor do que nada.
Vasiliy ainda parecia contrariado. Ora, ele queria um bom genro! E não qualquer tranqueira que a filha achasse naquele balé. Ele até engolia o fato de que o garoto não era cristão.
Mas se precisava esperar, ele esperaria. Lilia só tinha 16, afinal de contas. Ele era ansioso por natureza.
— ...Pode levar o disco. — ele falou finalmente, recuperando seu folhetim de notícias. — Mas irá ajudar sua mãe nas tarefas até voltar pra Moscou. Nós só conquistamos as coisas dignamente com trabalho.
A garota suspirou aliviada e sorriu, chegando ao exagero de caminhar toda dançante até o pai e abraçá-lo mesmo sob protestos.
— Obrigada, papai. — ela disse após estalar um beijo na bochecha do mais velho, antes de seguir para o sótão e procurar os vinis.
Agora junho chegou, junto com o aniversário de Yakov. Lilia levou um tempo maior que o necessário para, na noite anterior, cobrir a capa do disco com papel de seda reciclado das caixas de sapatilhas. Era o que tinha para papel de presente hoje.
No dia seguinte, os amigos mais chegados estavam todos amontoados no dormitório dos patinadores, com Beatles tocando ilegalmente no gramofone e petiscos sendo compartilhados. Havia também certa quantidade de vodca diluída na limonada que causou um conflito no assunto "Efimiya e Lilia não têm idade pra beber". Mas era da boca pra fora e logo todos estavam erguendo copos e dizendo "saúde!" antes de esvaziarem o conteúdo. Mas eles tinham o mínimo de juízo, considerando que ainda eram atletas e tinham treinadores em seu encalço. Lilia jurou silenciosamente que seria apenas um copo, porque não tinha certeza do que era capaz de fazer sob efeito de álcool. Melhor deixar pra outro dia.
Considerando que eram sete adolescentes de classe média e apenas três com um emprego efetivo, já se esperava uma quantidade pequena de presentes. Foram ao todo três, um sendo uma piada. Yakov já estava agradecido, de qualquer forma.
— Eu só perdoo isso, — o aniversariante apontou o novíssimo dicionário de inglês por cortesia de Irina. — porque gostei muito da minha câmera nova. Do contrário, você pagaria um preço alto, Lagutina.
— Preço alto foi da tal Kodak Super 8. — Efimiya murmurou de braços cruzados. — Seis pessoas para completar a vaquinha e ainda pedimos desconto.
— Seu inglês é tão péssimo, Yasha. — Irina comentou como se sentisse pena. — Estávamos cansados de te ver passando vergonha.
Ele resmungou algo sobre ianques e sua pronúncia confusa de "hole", "hoe" e "whole", finalmente recebendo o presente de Lilia, que com a bebida estava mais ansiosa pela sua reação.
— É um disco? — ele perguntou alisando as pontas da caixa ainda embrulhada.
— Não, Yasha, é uma fotografia de Stalin. — Lev disse sarcasticamente, já no segundo copo. Álcool deixa as pessoas mais corajosas também. — Você já tem 20 anos, pare de nos constranger.
— Alguém cala a boca do Batalov, por favor. — ele disse enquanto tentava retirar o papel de presente de uma forma que não rasgasse tudo. Lilia já estava impaciente.
— Só abre. — ela apressou.
Yakov fez uma pausa quando título no alto da caixa pôde ser lido. Ele não deve ter acreditado no que leu, pois esqueceu qualquer delicadeza de antes para retirar os papeis por completo. A capa amarelada pelo tempo, a gravura de um homem em vestes greco-romanas suplicando perante uma estátua enquanto a lua e o sol se compadeciam com sua dor lá no céu, completando o trio que dava o nome à obra.
— É... Trinus? — ele perguntou descrente no que dizia. Devia ser efeito da vodca, não podia ser verdade. — De 1960?
— Ah, eu lembro dessa! — Irina estalou os dedos se lembrando. — Nós ouvíamos em Leningrado. Eu adorava "Il pianto dell'ultima stella". Yasha sempre preferiu "Stammi vicino".
— Destruíram a maioria dos exemplares por causa do escândalo com o cantor principal. — ele disse em voz baixa ainda chocado com o que tinha em mãos. — É uma raridade.
— Eu sei. — Lilia disse se sentindo orgulhosa. — Papai me deixou pegar da coleção dele. Tudo consentido, não se preocupe. — o nervosismo voltou, pois ela ainda não viu nenhum sorriso, nenhum sinal de apreciação. Apenas choque. — Você gostou?
Yakov olhou pra ela como se acabasse de dizer que os ianques chegaram à lua. É claro que ele gostou, era sua ópera favorita! Lembrava-o de sua casa a 800 quilômetros dali, de uma infância adoçada por caramelos das docerias na Nevsky Prospekt, de um tempo em que a única menina com quem ele conversava era Irina por serem uma dupla. Era um presente cheio de significado e ele não tinha certeza se poderia agradecer o suficiente.
Duas limonadas alteradas mudam um homem, de forma que ele puxou Lilia para um beijo na bochecha que foi recebido com risos da mesma e resmungos frustrados da plateia. Talvez ele tenha ouvido um "Três anos pra um beijo no rosto" de Ganshin, mas ele estava muito afobado para dar atenção a qualquer outra coisa que não fosse Trinus e a pessoa que lhe deu.
— Lilia, não tem nem "muito obrigado" para dizer sobre isso aqui! — ele disse gesticulando animadamente, o maior dos sorrisos no rosto. — É um dos melhores presentes que eu já ganhei. Obrigado. Muito, mas muito obrigado.
— De nada. — ela respondeu ainda tocando a região beijada. Em três anos, era a primeira vez que Yakov usava desse tipo de contato físico. Olha o poder da vodca.
— Nerds. — Lukerya disse com uma careta de seu lugar cativo ao lado dos salgadinhos. Como alguém come tanto sem engordar? — Nerds se casam com nerds, sabiam?
Yakov apenas se levantou com seu inseparável vinil para colocá-lo no gramofone. Danem-se os Beatles e seu I Want To Hold Your Hand, era aniversário dele e ele queria Stammi vicino.
— Minsk, fuck off. — ele disse parando a música.
— Oh, Yasha sabe mesmo inglês! — Dimitri comemorou erguendo o copo. — Mais um brinde!
Stammi vicino foi responsável pelo primeiro beijo que Lilia ganhou de Yakov.
Não seria o último.
Agosto de 1965
Há um programa padrão de verão para o jovem moscovita.
Sair com os amigos, tomar sorvete, andar de bicicleta, ir para a sua datcha no final de semana se sua família tiver dinheiro, cair na piscina...
Ah, sim. A piscina.
A Piscina Moskva era a maior piscina a céu aberto do mundo após os planos soviéticos de construírem o maior edifício do mundo irem por água abaixo. Então eles encheram os planos de água e fizeram uma piscina. Ha ha.
Lilia não podia dizer que amava a ideia de nadar com todo o seu coração. Mas ela gostava de sol e uma desculpa para ficar deitada na praia artificial se bronzeando. Então quando seus amigos a convidaram para um encontro lá no domingo, ela aceitou.
E como uma boa Lilia, ela chegou atrasada.
Quando ela chegou à ala combinada da piscina, já trajada no seu novíssimo maiô azul-escuro liso que ganhou no Ano Novo, o grupo inteiro já estava na água, as meninas com suas toucas de banho cafonas e os meninos com as sungas provavelmente constrangedoras, jogando uma espécie de vôlei.
Dimitri perdeu uma bola por perceber sua chegada e assoviou após recuperar a postura.
— Olha se não é a Miss Moscou 1965! — ele disse fazendo todos a notarem. — Lilka, cadê sua touca de banho? Precisamos de um membro a mais no time!
— Não vou entrar na água. — ela disse dando de ombros. — Vou ficar aqui fora, linda e seca.
— Mas é uma piscina! — Irina reclamou com um bico.
— Eu sei. — ela disse colocando os óculos escuros que ganhara de aniversário. — Eu vim pelo sol.
— Aff, você é muito estraga prazeres, Baranovskaya. Lukerya nos trocou pelos mergulhadores. — Batalov reclamou.
— Talvez eu faça isso. — ela disse se afastando da beirada e procurando um lugar vago para colocar suas coisas e apenas relaxar.
Era um dia movimentado, mas ela ainda conseguiu um espaço aberto para se sentar nas pedras (que talvez não fossem tão confortáveis quanto a areia, mas eram mais higiênicas) e passar protetor solar. Ela sabia muito bem como sua pele ficava depois da exposição sem cautela ao sol.
Ekaterinburgo não tinha praias ou piscinas públicas. A última vez que ela usou um biquíni foi quando sua família recebeu a autorização para passar uma semana em Balaton, na Hungria, quando ela tinha 12 anos. E meninas de 12 anos em praias não pensam em muita coisa além de tomar sorvete e fugir de seus irmãos mais velhos que querem te jogar na água.
A puberdade muda apenas alguns parâmetros.
Ela queria sorvete? Sim. Estava evitando a água? Também. Mas agora tínhamos o agravante de hormônios e seus provocadores: garotos.
Lilia era uma garota centrada que vivia para os estudos e cujos namoricos não duravam mais que dois meses porque ela tinha coisas mais úteis para fazer. Mas ela ainda era um ser humano cercado por outros seres humanos na mesma faixa etária e com menos roupas do que ela estava acostumada. É claro que ela ia ficar olhando.
Desde os 14, ela desenvolveu um tipo preferido. Eles tinham que ser altos, de preferência mais altos que ela. Ela gostava de olhos claros. Havia uma magia em poder olhar nos olhos de alguém e imaginar o céu azul ou a relva verde de um bosque. Ela gostava de músculos, mas não exagerados, senão eles pareciam trabalhadores de pedreiras. Ela apreciava uma boa postura e o mínimo de cultura numa conversa. Em essência, ela gostava dos que pareciam dançarinos. Muito criativa, realmente.
Aqui e acolá na piscina ela encontrava alguns rapazes que atendiam aos requisitos. Eles sempre andavam em grupinhos de não mais que quatro e riam falando sobre futebol ou o último filme que assistiram. Não raro eles estavam acompanhados de garotas. Lindas e alegres moças com seus rostos corados e com as curvas nos devidos lugares. Bem diferentes de Lilia, com seu corpo emagrecido por horas de exercício e pouquíssimo busto para fazer volume. Que merda, hein. Ela nem ia tocar no assunto "pés", senão era capaz de ir embora antes que alguém resolvesse olhar demais para seus dedos cheios de calos e marcas de bandagem.
Ela estava prestes a tentar um cochilo sob o sol quando Yakov apareceu para perturbar a sua paz.
Primeiramente, vale dizer que Lilia não é cega e sabe muito bem que Yakov não é feio. Três anos fizeram um trabalho milagroso em acabar com as espinhas, engrossar a voz e melhorar o porte atlético do patinador. Nem ela nem as meninas da CSKA admitiriam a existência da conversa "Em qual tanquinho dá pra lavar mais roupa?" no vestiário feminino, mas existiu. Tudo por causa de uma aposta entre os garotos que visava ver quem aguentava patinar por mais tempo sem camisa no inverno. Ganshin ganhou um almoço e as moças ganharam uma hora de patinadores exibindo bíceps, tríceps e abdômens pelo rinque. A decisão marjoritária entre as meninas foi Ilya Korbut, seguido de Feltsman. Mas estávamos falando de Yasha, o cara que ela conhecia desde que era criança. Ela não tinha interesse em ficar secando com os olhos os braços ainda molhados do mais velho enquanto ele reclamava sobre Dimitri não saber perder. Pelo contrário, ela reclamaria por ele estar fazendo sombra.
— Sempre preferi praia. — ele resmungou se sentando ao seu lado e secando o cabelo com uma toalha. Ele estava deixando crescer, agora.
Só que meninos se secam como cachorros, de forma que pelo menos 20% daquela água foi parar em Lilia, que agora tinha os óculos embaçados pelas gotículas. Tsk.
— Isso, Feltsman, me deixe toda molhada mexendo desse jeito. — ela resmungou no mesmo tom, retirando as lentes e se sentando também.
Yakov parou o que estava fazendo para olhar pra ela de um jeito que gritava "Eu pensei merda, mas se eu falar o que é, você vai me bater."
— Você sabe que isso soou muito errado, não é, Lilia? — ele perguntou com um daqueles sorrisos idiotas dele.
Ela franziu o cenho. O que foi que ela disse de mais? Ela só falou que ia acabar molha-
Oh.
Antes mesmo de seu rosto terminar de corar, o patinador já recebera três tapas na nuca por ter uma mente tão poluída.
— Só fala merda! — ela disse ainda sem terminar a vingança. — Idiota, pervertido do caral-
— Que palavreado é esse, Lilushka? — ele disse rindo enquanto tentava segurar os pulsos da amiga. — Bailarinas não xingam assim.
— Foda-se. — ela respondeu só para frizar o seu ponto de que sim, bailarinas xingam. E o fazem muito bem.
Cansada de defender sua honra, ela parou com os tapas. Mas ele mereceu.
— Não vai mesmo nadar? — Yakov perguntou após um tempo.
— Não. Estou bem aqui. — ela disse limpando os óculos que foram o estopim daquela discussão. — Se vai ficar aqui, deveria usar protetor solar.
Ele fez uma careta.
— Eu não sou tão branco quanto você. Posso passar um tempo sem essa meleca.
— Um patinador do gelo queimado de sol. Isso seria engraçado. — ela disse voltando a se deitar, tentando recuperar a calmaria que tinha antes de Yakov aparecer.
— Você vai dormir e me deixar aqui falando sozinho? — o encosto continuou seu trabalho de perturbação.
— Não dá pra dormir com você falando. — ela disse já de olhos fechados. Aqueles óculos escuros foram um ótimo presente.
— Lilia Baranovskaya: a pessoa que vem pra piscina e dorme. — se ela pudesse ver, o encontraria balançando a cabeça. — Você devia ter ficado em casa se... Oh.
— Hum? — ela abriu os olhos para ver por que ele tinha se interrompido. — Que foi?
Yakov nem se mexeu. Ele continuou com aquela cara de peixe morto olhando para algum ponto no horizonte ignorando a mais nova. Vingança em forma de silêncio é o que há.
Lilia se levantou, contrariada, pronta para dizer que ele não devia guardar rancor porque alguém quer dormir, mas então ela olhou na direção em que ele estava vidrado e entendeu na hora.
Ela também ficou, mas por motivos ligeiramente diferentes. Talvez cinco centímetros de diferença.
O motivo que fez Yakov calar a boca foi uma moça de biquíni. O que já era esperado, pois ele nunca escondeu sua preferência por loiras, se sua lista de namoradas internacionais não fosse suficiente para provar. Mas aquela não era qualquer loira, era a loira. Linda de viver. Se ela não fosse uma atriz, seria um desperdício tremendo. Até o andar dela era bonito, como se ela pisasse nas nuvens a cada passo. E o sorriso dela? Era o sorriso que fazia os proletários trabalharem mais com a esperança de ouvirem um "Bom trabalho, camarada" saído de seus lábios. A menina era uma princesa.
Mas não foi ela que fez Lilia desistir da bronca. Foi o garoto ao lado.
Eles deviam ser gêmeos, pelos traços finos parecidos. E genética é uma coisa muito benevolente, pois se a garota era uma musa de Apolo, ele era o próprio Apolo.
Lilia até tirou os óculos para ver melhor. O cabelo loiro, quase branco, brilhando no sol em cachinhos de luz. O sorriso adorável que se abria quando a menina falava alguma coisa. Ela apostava que ele tinha covinhas (Ela amava covinhas). O corpo, então? Misericórdia, Ilya Korbut não era nada perto daquele deus grego. Ela lavaria roupa naquele tanque dia e noite.
(Oh, Deus, o que ela acabou de pensar?!)
Como se não bastasse, os anjos resolveram que passariam bem na frente deles. A bailarina inconscientemente passou a mão pelo cabelo para arrumar, apenas para encontrá-lo preso num coque frouxo. Quem é a besta que usa cabelo preso na piscina?! Lilia Baranovskaya, é ela! E provavelmente estava bagunçado, para melhorar a situação.
No momento em que eles estiveram mais próximos (não eram russos, pelo visto. A língua não soava como algo que ela conhecia) Lilia pôde confirmar que sim, Apolo tinha covinhas. E olhos azuis. Perfeito.
Mas eles não ficaram por muito tempo, continuando seu caminho sem nem notar o estrago que fizeram. Do nada, pareceu que o ambiente ficara alguns graus mais quente. E não tinha nada a ver com o sol.
— ...Está pensando o mesmo que eu, Lilia? — Yakov perguntou em voz baixa, o rosto vermelho e os olhos ainda fixos no casal que agora havia parado para conversar com outro grupo. A menina recebeu uma touca de banho, então talvez eles fossem entrar na água.
Se Yakov estava pensando em falar um alto e muito indecente "Vkusno" sobre o loirinho estrangeiro, então sim, eles estavam pensando a mesma coisa. Mas esse não era o caso, visto que ele preferia um tipo mais delicado. E com curvas.
Os anjos realmente iriam para a água. E Lilia queria também, se isso significasse ver um pouco mais daqueles músculos e acabar com o calor.
— Eu quero nadar. — ela disse procurando a touca de banho afobada na bolsa.
— Eu, também. — Yakov disse já se levantando e a deixando sozinha para correr atrás de seu interesse de verão.
Mais tarde, depois de Lilia ter tido um curso intensivo de finlandês (se é que você me entende), ela ficaria brava com Yasha por não tê-la esperado. Mas o fato de eles terem se visto novamente só no dia seguinte, com Yakov tendo o sorriso mais canalha da Terra, já dizia que ele não se importava nem um pouco.
Apenas uma palavra sobre a Finlândia:
Vkusno.
Dezembro de 1965
Uma coisa sobre a sorte é que, de vez em quando, ela simplesmente não está ao seu favor.
Durante todos esses anos, Lilia nunca conseguiu ver Yakov competir ao vivo. Por pura palhaçada do destino, a Federação Soviética de Patinação resolveu, de 1962 a 1964, fazer o Campeonato em cidades que não eram Moscou. Isso depois de uma tradição emblemática de sempre fazer na capital.
Dessa vez, seria em Moscou. Só que mais cedo do que o esperado, no início de dezembro por questões logísticas. Não deveria ser um problema, certo?
É um problema. Porque os exames finais de Lilia cairiam bem naquela maldita semana.
Quando ela se deu conta disso e falou para Yakov, o desapontamento dele foi óbvio. Era a primeira vez que eles tinham aquela chance, ele queria muito que Lilia estivesse lá. Mas, como um bom amigo, ele assegurou que não tinha problema e que as aulas dela ainda eram mais importantes.
Lilia não aceitou aquilo de bom grado. Yasha sempre dava um jeito de ir às suas apresentações, por mais insignificantes que elas fossem. Que tipo de amiga ela era se não conseguia nem assistir a uma competição?
Ela decidiu que daria um jeito. Não tinha segunda opção naquilo: ela assistiria àquele Campeonato ao vivo e em cores, torcendo por Yakov que com certeza levaria o ouro.
— Lilia, eu já disse que não tem problema. — Yakov disse duas semanas antes do evento, enquanto a acompanhava no final da tarde até os dormitórios. "Ai" dela se perdesse o toque de recolher. — Já vou ter minha mãe na torcida. Está de bom tamanho.
— Eu vou no programa longo, Yasha. — ela disse convicta. — O curto está fora de questão com as provas, mas se eu for rápida o suficiente na sexta eu ainda consigo te assistir. Você só precisa ser um dos últimos a se apresentar.
— Eu não quero ser a razão de você fazer uma prova mal feita. — ele disse sério.
— Eu não vou fazer uma prova mal feita. E ainda serei parte da torcida. — ela sorriu vitoriosa.
— Está tudo bem se você conseguir ir só na gala...
— Não, Yakov. — ela falou sem um pingo de hesitação, parando assim que alcançaram os portões da escola. — Não é justo. Você veio me ver quando eu fiquei no fundo de cena em "Paganini". Fundo de cena! Eu sou amiga de um dos melhores patinadores da URSS e nunca assisti a uma competição!
— Está esquecendo a vez em que eu perdi sua participação em La fille mal gardée por causa da faculdade. — ele ponderou.
— Foi só uma vez. E a Dança do Tamanco é a coisa mais constrangedora desse mundo, foi bom você não ter visto. — Lilia ainda tinha flashbacks de guerra com aquela coreografia. Mas Danseur Kopolov deve ter mais por usar um vestido.
— Se insiste tanto, vou arranjar um ingresso pra você. — ele deu de ombros, mas apontou um dedo em sinal de aviso. — Mas se eu ouvir sobre notas menores que 8 nessas provas, teremos muito o que conversar, mocinha.
— Já tá parecendo o meu pai. — ela riu. — Bem, já vou entrando. Tenha uma boa noite e treine para eu não desperdiçar o meu tempo naquele campeonato.
— Sim, senhora. — ele disse imitando uma continência militar, mas ainda sorrindo. — Até mais, Lilushka.
— Até, Yasha. — ela disse acenando enquanto subia o pequeno lance de escadas, apenas uma certeza em mente:
Ela assistiria àquele programa longo. E ela torceria por Yakov do melhor lugar da arquibancada.
Lilia estava começando a achar que não conseguiria assistir àquele programa longo.
As apresentações começariam às seis da tarde. Supondo que levasse uma hora até o grupo em que Yakov estava entrar no gelo, ela ainda teria que correr como louca do Bolshoi até o Palácio de Esportes do outro lado da cidade.
Adicione a isso uma nevasca inesperada que com certeza deixaria a rede de ônibus mais lenta. Tudo estava conspirando para ela não ir àquele evento.
Mas ela iria.
Yakov estava em segundo lugar após o programa curto e as figuras compulsórias. Ele era um grande favorito ao ouro e até já estava cantando um pouco de vitória. Das Nacionais iria para o Mundial, o Europeu e a lista continuava... Yakov nunca esteve tão bem numa temporada, principalmente depois do ouro nos Jogos Universitários. Isso ele devia ao aprimoramento da técnica (esse ano teríamos um triple lutz. Era questão de honra.), treinos mais rígidos e a opinião de uma certa bailarina na coreografia. Digamos apenas que ele deixaria a interpretação de algumas patinadoras no chinelo depois daquelas aulas de teatro quase forçadas de Lilia. A música é muito bonita pra você estragá-la com essa expressividade fajuta, foram as palavras da garota depois da terceira vez assistindo ao programa.
E agora, enquanto ela olhava acusatoriamente para o relógio no estúdio, Lilia imaginava se conseguiria ver finalmente os frutos de seu trabalho de perto.
As últimas provas eram as de pas de deux. E porque ela tinha a melhor sorte, seu grupo também seria o último a ser julgado. Se pelo menos ela tivesse um par só pra ela, quem sabe ela pudesse trocar de lugar com alguma dupla. Mas Danik já estava sendo dividido com outras duas meninas pela falta de garotos. Seu dia estava ótimo.
Quarenta minutos. Ela tinha quarenta minutos para fazer uma apresentação de sete, trocar de roupa e, de alguma forma, estar num rinque no outro lado da cidade. Como raios ela ia fazer isso?
— Lilia, — a voz de Daniyal a acordou de seus devaneios. — é nossa vez.
Ela piscou algumas vezes, assentindo logo depois. Ok, primeiro a prova, depois ela dava um jeito.
— Está preocupada com alguma coisa? — seu par perguntou enquanto se dirigiam para o fim da fila.
— Eu tenho que estar no Campeonato Nacional de Patinação em menos de uma hora. — ela acabou dizendo enquanto apertava uma das bandagens em sua sapatilha.
— Hum. — ele disse indiferente com um aceno. — Vai ficar tudo bem. Eu te ajudo.
— Quê? — ela o olhou confusa.
— Começou. — Altin ignorou sua pergunta e apontou a fila andando a sua frente.
Certo, seja lá o que for, teria que ser decidido depois.
Pela primeira vez naquele dia, Lilia se desligou do assunto "patinação" para fazer o que ela sabia de melhor: dançar. O piano tocado pelo novo músico da escola, um tal de Yulian, ressoava pela sala enquanto os pares encenavam a pequena peça que garantiria sua aprovação naquele ano.
O pequeno grupo de professores era o mais próximo que alguns teriam de uma plateia, infelizmente. No ano seguinte, Lilia se formaria junto com Daniyal, Elena e tantos outros de sua turma. E depois daquilo, será que conseguiria sua tão sonhada vaga no elenco do Bolshoi?
Ela mal viu o tempo passar, distraída com seus chasses, fouettés e os ocasionais levantamentos por cortesia de Altin. Até o shoulder sit favorito de Yakov entrou na história. Ela não errou uma vez, não perdeu o ritmo, nem se atrasou. Eles tinham tudo para terem a melhor nota da turma.
Quando finalmente Daniyal a colocou no chão uma última vez e eles foram autorizados a sair, ela olhou para o relógio.
Trinta minutos. Ela tinha trinta minutos pra estar naquele rinque.
A jovem estava pronta para sair correndo pegar suas coisas quando Daniyal segurou seu braço.
— Você vai precisar ir até o dormitório? — ele perguntou com sua usual calma e polidez.
— Não. Eu vou trocar de roupa aqui mesmo. — ela disse um pouco irritada por ele a estar atrasando.
— Certo. Me espere no portão, eu te levo. E dispense a ushanka.
— Como você vai me levar? — ela nunca viu Daniyal de carro. Eles nem tinham idade pra isso.
O cazaque abriu um raro sorriso e respondeu:
— Isso você descobrirá depois. Agora vai, você tem um patinador pra ver ganhando.
Ela realmente queria continuar a conversa e saber o que ele estava tramando, mas seu tempo era curto e ela precisava de um traje mais apropriado que collants e sapatilhas com ponta.
Lilia praticamente voou com sua bolsa até o vestiário mais próximo. Algumas meninas a olharam estranho no corredor, mas ela não podia se importar menos. Ela também conseguiu um novo recorde em troca de roupa. Se com "troca" você considerar colocar um vestido mais quente por cima de seu uniforme e quase arrancar as sapatilhas dos pés para colocar botinas, é claro. Lilia merecia uma medalha.
No primeiro lance de escadas, ela conseguiu retirar todos os grampos do cabelo e parecer uma pessoa normal. No segundo, ela conseguiu colocar as luvas. No último corredor, ela estava se arrependendo por ter esquecido o protetor labial. Estava tão frio lá fora!
Quando ela chegou ao ponto marcado, não havia nenhum Daniyal Altin à sua espera. Chamem-na de chata, mas se ele não estivesse ali com algum veículo muito rápido, ela trocaria de par na próxima semana e...
Um motociclista numa Minsk M1A (Gavriil gostava de motos, então ela sabia um pouco) apareceu em frente à escola. O visual de jaqueta de couro e jeans americano era o combo perfeito de "Meu pai nunca me deixaria namorar você". O desconhecido precisou levantar as lentes protetoras para Lilia se dar conta de que ele era seu colega Danik Altin.
— Sobe aí. — ele disse estendendo um capacete extra pra ela. — É o rinque em Khamovniki?
A garota nem tinha tempo para questionar a segurança da motocicleta, então apenas assentiu.
— Você tem os documentos dessa coisa? — ela disse enquanto colocava o capacete.
— Tenho. Estão em Almaty. — ele sorriu de lado. — Não conta pra ninguém, mas eu só deveria usar isso aqui em público depois dos 18.
Foi só aí que Lilia teve a confirmação de que todos os meninos que conhecia tinham um pé na ilegalidade.
Se ela conseguisse assistir àquele programa longo, ela poderia até ir pra cadeia depois, já que a satisfação seria o suficiente para deixá-la feliz.
— Minha boca é um túmulo. — ela disse enquanto se sentava de lado na garupa e se segurava na jaqueta de seu mais novo motoboy. — Quando quiser, Danik.
Nem bem ela falara, Daniyal já funcionara a moto a uma velocidade que definitivamente não estava nas leis de trânsito, obrigando-a a abraçar o rapaz completamente enquanto temia por sua vida. O bastardo teve a audácia de rir dela. Malditos cazaques.
Em outra ocasião, quem sabe ela teria aproveitado melhor o passeio. Se não fosse a ansiedade por chegar na hora e o vento gelado que machucava seu rosto, ela até poderia rir com o frio na barriga toda vez que Daniyal fazia uma curva fechada. Uma Minsk não deveria ser tão rápida assim. Será que havia peças ilegais naquele motor? Se apenas ela tivesse Gavriil ali para confirmar.
Não demorou para ela identificar a forma opulenta do Palácio de Esportes no final da avenida. Havia vários carros estacionados, então imaginou que seria casa cheia.
Altin parou a moto o mais próximo que podia e ela não tardou em descer e tirar o capacete afobada.
— Você tem como voltar? — o garoto perguntou.
— Qualquer coisa eu volto com a CSKA. — ela disse entregando o capacete e puxando Altin para um rápido beijo na bochecha em agradecimento. — Obrigada, Danik. Muito, muito obrigada.
— Disponha. — ele deu de ombros. — Diga a Feltsman que eu mandei um "boa sorte".
— Eu direi. — ela disse já a caminho da entrada. — Até amanhã!
Os guardas ofereceram pouca resistência sobre a louca descabelada que chegara muito atrasada, ainda mais com um ingresso. Também foram educados em apontar o caminho para as arquibancadas, tendo a polidez de mencionar que ela deveria ser mais pontual na próxima vez. Ela se lembraria disso, pode deixar.
Enquanto corria pelos corredores, uma voz nos autofalantes a obrigou a andar mais rápido.
— ...agora no gelo, segundo lugar após o programa curto, Yakov Eliseevich Feltsman, do Clube de Esportes do Exército de Moscou.
Por que ela sempre tinha que chegar depois de todo mundo?
Ela chegou às arquibancadas junto com os aplausos da plateia. Ela tinha talvez meio segundo para fazer sua loucura.
Subindo alguns degraus entre as filas de cadeiras, ela procurou Yakov no gelo. Ele acabara de terminar a usual conversa com o treinador e agora ia em direção ao centro do gelo. O mesmo terno, a mesma gravata, talvez um broche novo no blazer e um pequeno rabo de cavalo baixo completava seu traje.
E Lilia, com seu cabelo bagunçado por uma viagem de moto, o rosto vermelho de frio e a roupa toda amarrotada, juntou todo o fôlego que ainda tinha para gritar:
— Yasha, davai!
Yakov tinha um plano para aquele dia. Incluía revisar o programa longo, almoçar com sua mãe, descansar durante a tarde, se apresentar, levar uma medalha e esperar Lilia para a apresentação de gala. Porque ele não tinha fé que ela apareceria com aqueles horários horríveis do Bolshoi.
Isso não significa que ele tinha perdido todas as esperanças. Depois da terceira vez que ele rondou os olhos pela arquibancada, Andrei o mandou se sentar e conversar um pouco com sua mãe. Greta Feltsman teria ficado com ciúmes se não soubesse se tratar da "Santa" Lilia do Bolshoi. Ela achava uma graça ter o filho todo ansioso para ver uma menina que nem era sua namorada. Aquela geração não estava perdida.
Por isso, ele só desistiu completamente da ideia de ter Lilia o assistindo no momento em que pisou no gelo para se apresentar. Ele entendia perfeitamente. Ela tinha coisas mais importantes pra fazer, ainda estava no colegial, não tinha tempo para competições bobas e...
— Yasha, davai!
Seu olhar levantou imediatamente, à procura da voz que por pouco não passara despercebida entre as palmas. Talvez fosse coisa de sua cabeça?
Não era. No canto direito do estádio, quase irreconhecível com o cabelo solto (!), estava uma Lilia acenando para ele.
E Yakov não acreditava no que estava vendo, mas acenou também, até mais enérgico que a própria bailarina. Se aquilo estivesse sendo filmado, seria o mico do ano, mas ele estava em choque demais para se importar.
De onde estava, Lilia ergueu os braços em toda sua graça de bailarina e completou com as mãos a única mímica de balé que Yakov memorizou, logo depois de "morte".
Dance.
Ele assentiu. Então se deu conta de que talvez ela não percebesse pela distância, então fez uma pequena reverência que provavelmente confundiria ainda mais a plateia.
Obrigado.
Pelo quê, ele não sabia dizer. Simplesmente havia muita coisa pelo que ele era grato.
Finalmente se recompondo, ele se colocou na posição inicial para começar a apresentação, muito mais calmo e confiante do que antes. Mais uma de suas pessoas favoritas estava ali para torcer por ele.
As primeiras notas do violino tocaram e Yakov se pôs a patinar, marcando o gelo com uma história de emoção, saudade e amor.
Afinal, o que era amor?
O primeiro double loop. Aterrissagem perfeita.
Yakov sempre teve a ideia de amor como nos filmes de romance. O beijo sobre a trincheira em "A Infância de Ivan" sempre foi sua referência para a palavra. Mas ele sabia, inconscientemente, que não era o único tipo de amor.
Delayed axel seguido de camel spin. A velocidade dos giros sempre foi um dos pontos fortes e hoje isso não seria diferente.
Amor podia ser qualquer coisa cuja falta deixa sua vida com menos cor. Ele não conseguia imaginar uma vida sem os seus pais, mesmo que hoje em dia ele passasse a maior parte do ano longe de casa. Ele não via uma vida sem a patinação, seu esporte favorito desde os seis anos. Ele não se imaginava tão feliz sem ter conhecido Irina, Dima, Ganshin e até o espivitado do Batalov.
Ele definitivamente não seria tão feliz sem Lilia.
Mudança de ritmo na música, início da sequência coreográfica. Você tem que sorrir de um jeito menos debochado, a voz de Lilia ressoou em sua memória. Estaria o sorriso bom o suficiente? Conseguiria ela ver da arquibancada?
Podia soar meio piegas dizer isso, mas ele amava seus amigos. Eles apresentavam visões diferentes das dele, às vezes brigavam, mas no final, o apoiavam. Ele gostava de Lilia porque ela não tentava ser outra pessoa para agradá-lo, mas ainda se esforçava ao máximo para fazer as coisas melhorarem. Era uma das pessoas mais incríveis que ele já conhecera. Ele tinha orgulho de tê-la como amiga.
O impulso foi dado e ele girou nas três rotações que lhe custaram o pódio nas Olimpíadas. E na mesma facilidade que ele subiu, ele aterrissou, completando o primeiro triple lutz da história do Campeonato Soviético.
Então, se perguntassem a ele sobre o que sentia, ele podia desconversar, colocar com outras palavras, deixar subentendido, porque sabia que muitos não entenderiam. Mas a verdade era bem simples.
Ele amava Lilia Baranovskaya.
O programa não terminou com o seu usual scratch, pois o ritmo não comportava. Em seu lugar um flying sit com velocidade apenas o bastante para não ter suas notas deduzidas, finalizando com a mão estendida para a plateia e a outra contra o peito como um amante que acabara de apresentar a maior das declarações.
Um dia, ele conseguiria mandar uma mensagem mais clara.
Ele agradeceu aos quatro cantos do Palácio de Esportes, tendo o prazer de identificar Lilia aplaudindo entre a multidão.
Ele foi obrigado a esperar as notas no Kiss and Cry, sua mãe e Andrei talvez mais ansiosos que ele próprio. Yakov só queria encontrar Lilia e saber como raios ela chegara ali tão rápido. Ugh, se aquela menina negligenciasse seus estudos, ele iria...
— Sete notas 6.0!! — Andrei bradou em seu ouvido enquanto Greta gritava fino ao seu lado.
— Hein? — ele se perdeu entre o "sete" e o "seis".
— Você quebrou um recorde pessoal e nacional, Feltsman! — seu treinador disse orgulhoso enquanto dava leves, mas nem tanto, tapas em seu ombro. — Comemore, rapaz! Eles vão começar a olhar pra você agora!
— Urbansky tem que patinar ainda...
— Ora, deixe disso, Yasha! — foi a vez de sua mãe contrariá-lo, puxando-o para um abraço em rede nacional. Mico. — Meus parabéns, querido. Você merece isso e muito mais. — ela tinha os olhos lacrimejados enquanto sorria. — Meu pequeno bärchen é um patinador famoso.
— Mamãe! — ele reclamou em voz baixa enquanto eles saíam da área reservada. — Vai que alguém aqui fala alemão!
— E qual o problema? Está com medo de descobrirem que sua mãe ainda te chama de "ursinho"? — ela cruzou os braços em desafio, mas ainda sorria.
— Shh! — ele olhou ao redor alarmado, temendo que alguém ouvisse aquilo. Uma coisa é a KGB descobrir que você tem contatos capitalistas. Outra é Batalov descobrir que você tem apelidos constrangedores da infância.
— Não acho que Urbansky supera esse programa. — Andrei disse ainda mais orgulhoso do aluno do que ele próprio. — Prepare-se para as entrevistas, Yakov, os repórteres vão querer saber se...
— Eu quero ver a Lilia. — ele disse antes que fosse empurrado na frente de qualquer câmera. Coletivas de imprensa eram um dos infernos de Dante e ele não duvidava disso.
— A Lilia do Bolshoi está aqui? — Greta disse ficando animada também. — Eu quero muito conhecê-la.
— Você não pode esperar só um pouco? Eles vão liberar os resultados finais assim que Urbansky terminar. — seu treinador tentou convencê-lo, já imaginando ter que separar aqueles dois no meio de alguma conversa veladamente ofensiva sobre os patinadores concorrentes. Esses jovens de hoje, só sabem falar da vida dos outros!
— Eu volto logo. — Yakov respondeu saindo pela porta, deixando claro que ele não ia esperar.
Não foi difícil achar Lilia, pois aparentemente ela estava procurando por ele também. Eles se encontraram numa esquina de corredores, quase trombando um contra o outro na pressa.
Lilia parecia ter corrido uma maratona, o cabelo solto bagunçado o fazendo pensar por que ela não veio com ele preso de uma vez. Ele estava grato, de qualquer maneira. Ela ficava ótima sem aquele coque.
— Você veio. — ele foi o primeiro a falar, mal contendo o sorriso no rosto.
— É claro que eu vim. Eu prometi. — ela tentava fazer pouco caso, mas também estava radiante com aquela conversa. — Foi um belo triple lutz. Eu não teria feito melhor.
— Doida. — ele riu, escorando-se levemente contra a parede. — Como você chegou aqui? Pensei que as provas atrapalhariam.
— Danik me trouxe. Ele tem uma moto. — ela parecia indiferente quanto àquilo, mas seu olhar dizia que aquela simples frase tinha muita história a ser contada. — Foi assustador.
Yakov poderia dizer que ela era louca por sair de moto no frio, além de mil outras razões que o tornariam um chato por se preocupar com ela; mas na verdade, ele estava feliz. Porque ela tinha vindo e feito o impossível para estar ali, apenas para torcer por ele. Esse e outra gama infinita de motivos só somavam às razões pelas quais Lilia era a melhor amiga que ele podia pedir.
— ...Obrigado, Lilia. — ele acabou dizendo, a voz baixa saindo quase imperceptível com os auto-falantes do estádio anunciando a pontuação do último patinador. — Significa muito pra mim que você tenha vindo. E eu não teria conseguido aquele resultado sem a sua ajuda. Você é demais, Lilia Baranovskaya.
— Meloso... — a garota cantarolou desviando o olhar, provavelmente para esconder o quanto seu rosto estava vermelho. Ela mentiria que era o frio se a questionassem.
O anunciador comunicou as colocações Yakov Feltsman com o ouro, Vladmir Urbansky com a prata e Valentin Mitrushkev com o bronze.
— Acho que eu ganhei. — ele sorriu e deu de ombros, ouvindo um quieto "Exibido." por parte da amiga. — Vem, eu vou te apresentar a minha mãe.
— Oh, eu posso contar à Sra. Feltsman sobre a Aina da Finlândia? — ela perguntou soando maléfica enquanto o seguia. — E que tal a Erika da Iugoslávia?
— Qualquer uma. Ela vai ficar sabendo sobre o seu rugelach nada tradicional, também. — ele rebateu, muito calmo sobre a possibilidade de sua mãe saber sobre sua longa lista de namoradas de uma noite.
— Cruel, Yasha. É assim que você demonstra o seu amor? — ela empurrou seu braço de leve, numa tentativa propositalmente falha de retaliação.
Yakov sorriu, puxando-a para um abraço de lado enquanto caminhavam a uma provável sala cheia de jornalistas, prontos para falar com o mais novo campeão soviético de patinação artística.
— É sim.
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