Phantom Waltz
3 Capítulo III
Notas iniciais
Quando o final da tarde de sexta se aproximou, Maura se encontrava num estado de empolgação beirando o infantil. E a cada volta que o ponteiro maior do relógio completava, isso parecia aumentar ainda mais. Jane não havia ligado para cancelar, o que significava que o encontro de mais tarde ainda iria acontecer. Por mais que a loira repetisse para si mesma que não devia, por mais que seu bom-senso e seus desapontamentos passados indicassem que isso ainda iria acabar mal, ela estava excitada – tanto que não conseguia controlar o sorriso e qualquer coisa não passaria nem perto de afetar seu humor — com o prospecto de, depois de tanto tempo, estar indo a um encontro. Um encontro de verdade. Não com um parente, ou como acompanhante de Collin, mas com Jane Rizzoli.
Era estúpido se sentir assim, mas, por mais que Maura tentasse desviar sua linha de pensamentos desse caminho perigoso, mais acontecia de ela se pegar imaginando e aumentando suas esperanças. Isso começara assim que ela abrira os olhos de manhã cedo, e se arrastara pelo dia, até depois de ela voltar para casa – um pouco mais cedo do que o habitual, visto que dessa vez não se voluntariara para fazer o balanço do caixa como fazia todas as sextas – e começar a se arrumar. Não era todo dia que alguém se dispunha a levá-la a qualquer canto que fosse, e ela pretendia aproveitar ao máximo a oportunidade, mesmo que fosse dessa única vez. Ou, pelo menos, era de que ela tentava se convencer, que não havia nenhuma intenção após essa noite, que seria uma boa memória para guardar – isso enquanto refazia o relatório de sua aparência. O cabelo estava arrumado? E, pela enésima vez, ela se virava na cadeira e corria até o quarto, parando na frente do espelho e se observando de todos os ângulos possíveis. Apesar da dificuldade extrema de conseguir passar as pernas sem vida em uma calça jeans, ainda por cima enquanto se equilibrava numa cadeira de rodas, foi o que ela fizera mais cedo, decidindo de súbito pelo visual cowgirl. Ou algo que se aproximava um pouco disso, visto que seu chapéu e botas de montaria ainda estavam no sótão da casa de seus pais, provavelmente enterrados debaixo de camadas e mais camadas de poeira.
Ela se virou de novo em frente ao espelho, crítica de sua reflexão. Será que a camisa de flanela estava ridícula? Os jeans estranhos demais? Em Blackcrest, a maioria das mulheres seguia um estilo parecido, como de costume. Mas elas não eram paraplégicas como a loira.
Em algum lugar da casa, Bass foi de encontro ao pé de algum móvel. O som oco e grave ecoou pelo lugar, tirando Maura de seus devaneios e quase a fazendo dar um pulo de susto. Quando se deu conta disso, ela se repreendeu mais uma vez – ela não podia se dar ao luxo de ser imprudente consigo mesma e se permitir sequer sonhar que Jane sentisse algo por ela. Apenas cogitar a possibilidade já a assustava e fazia parecer que havia borboletas em seu estômago – o que, além de cientificamente impossível, era ridículo. Uma noite fora, apenas para espairecer e se divertirem um pouco, era uma coisa. Pensar em segundas intenções por trás disso era outra completamente diferente.
Respirando fundo, ela fechou os olhos e balançou a cabeça para os lados, como se isso tivesse o poder de indefinidamente afastar os pensamentos que insistiam em se repetir como um disco arranhado. Ao abrir os olhos novamente, decidiu tentar se concentrar no espelho e identificar sua aparência como algum outro o faria. Ela sabia que era bonita, mas se considerava na média da população, nada muito marcante ou extraordinário. Bem, exceto a cadeira de rodas, claro. A única coisa que fazia papel de constante em sua vida, a cruz de sua existência. Quando Jane – ou qualquer outro, bem da verdade – olhasse para ela, a cadeira seria a primeira coisa a ser notada, e tomaria o lugar da mulher sentada sobre ela como impressão mais forte. Tudo o que Maura era seria adaptado e esquecido, porque, antes de tudo – antes de uma mulher, ou filha, ou pessoa -, ela era uma cadeirante, e isso nunca iria mudar. E era a isso que ela tinha de se ater durante todos os segundos da noite. Ela já acreditara em alguém – já acreditara que, com a pessoa certa, a cadeira seria apenas parte do sonho e a paralisia não iria importar. No final das contas, porém, tudo só acabou machucando com duas vezes mais força. Ao menos ela aprendera sua lição.
Eu vou fingir que é apenas mais um lugar a que Collin me leva. Sem problemas. Não é como se eu fosse vê-la novamente ou com frequência depois de hoje, certo?
Além do mais, eu devo aproveitar a oportunidade de sair de casa, e só. Não há muitas chances que algo assim ocorra de novo, e eu devo aproveitar e me concentrar nisso e nisso apenas. A companhia é só um extra, um que poderia ser trocado e não faria muita importância.
O último adendo dessa linha de pensamentos, porém, foi um quem eu estou tentando enganar?, que escapara dos confins de seu cérebro e fora dito em voz alta.
Ela voltou à sala de estar, intensamente consciente do barulho que a cadeira fazia enquanto rodava sobre o chão de madeira polida. Uma vez chegando, Maura olhou instintivamente para o relógio. Cinco minutos até as seis. Se aproximando da mesa de centro, pegou uma revista médica e abriu numa das matérias que ainda não havia lido, a fim de relaxar um pouco. Nada feito, porém. Sua leitura era marcada pelo impiedoso tick-tack do relógio, que arrastava cada minuto e o transformava em uma pequena eternidade. Até que ela notou que estava relendo um parágrafo pela quarta vez, e desistiu de fazer algum progresso com a revista. Nessa hora, o relógio antigo – herança de sua avó materna – ressoou seis batidas graves, e cada uma parecia atingir o estômago de Maura com uma força cada vez maior. Ela sentou mais ereta, ombros paralelos ao chão, enquanto o barulho rítmico do ponteiro maior levava embora os segundos. Ninguém chegava exatamente na hora, certo? E daí que ela atrasasse um pouco? Sempre havia o trânsito, ou alguma complicação menor. Se Jane realmente não viesse, ela teria ligado... Certo? E, bem... Se ela por acaso não aparecesse, não haveria dano. Maura tinha uma família fantástica, um emprego, atividades interessantes para mantê-la ocupada por dias e dias. Ela não dependia de ninguém para ser uma pessoa feliz e realizada.
Tick-tack, tick-tack.
Maura empurrou a cadeira até a janela, tentando se concentrar no jardim lá fora ao invés de no passar recorrente e pesado dos minutos. Nenhuma de suas flores voltara a desabrochar no jardim, apesar de isso já ser esperado. Por causa da altitude, o inverno se prolongava, atrasando um pouco a chegada da primavera para as pessoas de Blackcrest. Se bem que, para algumas, ela nunca chegava mesmo...
Tick-tack, tick-tack.
Seis e vinte. Bem, isso não era realmente uma surpresa, era? Lá no fundo, ela não esperava realmente que Jane fosse aparecer. Estaria frio nas arquibancadas, de qualquer jeito. E quem, em sua sã consciência, realmente iria querer congelar lá fora enquanto cavalos estranhos montados por jóqueis estranhos corriam sem nenhum motivo definido?
Tick-tack, tick-tack.
Maura fechou as mãos em punho em seu colo, cerrando as pálpebras a fim de lutar contra a avalanche de lágrimas que parecia se formar contra sua vontade. Maldita conexão de amígdala com glândulas lacrimais. Ela não sabia quem odiava mais: Jane, por ter elevado suas esperanças apenas para esmigalhá-las depois, ou si mesma, por ter permitido que outra pessoa fizesse isso. Nunca mais.
Tick-tack, tick-tack.
Talvez fosse até bom isso ter acontecido. Uma daquelas coisas que machuca na hora, mas acaba trazendo ensinamentos que evitam a repetição de atos parecidos. Sim, era bom. Serviria como lembrete: não se deixe levar outra vez. Não havia pôneis, nuvens ou arco-íris para pessoas como ela, e isso era suficiente para a deixar atenta e não se permitir esperar por nada diferente do que sua realidade poderia ser. O melhor era manter seus pés – ou nesse caso sua cadeira de rodas – firmemente plantados no chão.
#
Merda!
Jane voltou a olhar para o relógio em seu pulso, a esperança de que tivesse interpretado errado a posição dos ponteiros se esvaindo como o ar de um balão estourado. Claro que todos os semáforos do caminho tinham de estar vermelhos. Claro que o trânsito de uma sexta à noite fora praticamente dobrado em número de carros para essa em especial. Claro que o dono do carro à sua frente dirigia no mínimo vinte quilômetros abaixo da velocidade adequada. A morena segurou o volante com ainda mais força, os nós dos dedos brancos e tensionados. Então, pela quarta vez em minutos, tateou à procura do celular e repetiu a última ligação feita. Uma vez que o encontro estava marcado, seria aposta certa que Maura estaria em casa. Então por que diabos ela não atendia o telefone? Todas as vezes que ligara, Jane se deparara com o som de ocupado. Talvez a loira estivesse na linha, e as chamadas todas fossem em espera.
Finalmente, a luz do semáforo mudou. Jane queria afundar o pé no acelerador, mas era barrada pelo motorista da frente. Mas ela já estava muito atrasada, de modo que não hesitou em costurar o trânsito e mudar de pista, pegando uma saída lateral mais à frente a tal velocidade que, para ela, os outros veículos pareciam parados. O motor da caminhonete tossiu, mas continuou sem problemas.
Ela provavelmente seria multada por excesso de velocidade – não que estivesse dando a mínima para isso. Maura. Ela não conseguia tirar do pensamento aquelas sombras escuras que apareceram nas orbes verdes quando a loira disse que aceitaria qualquer desculpa para cancelar. Ela tinha esperado Jane aceitar a oferta e sair pela tangente, até que fora convencida – a muito custo – do contrário. E, agora, a morena estava trinta minutos atrasada. Maura com certeza já pensava que ela não ia parecer.
#
A campainha tocou, estridente, em meio aos soluços quase imperceptíveis de Maura, que automaticamente levou as mãos às bochechas úmidas. Ah, deus. Seu rosto estava, com certeza, um bagunça. Ela chegou a cogitar não responder à porta, mas isso parecia infantil. Além do mais, provavelmente era Collin passando para checar se estava tudo bem.
A loira passou os dedos nas pálpebras e abaixo dos olhos, se bem que, caso a maquiagem tivesse borrado, isso não surtiria muito efeito. Ela então correu os dedos pelo cabelo, deixando-o cair por cima dos ombros. Não que sua aparência importasse muito a essa altura, mas ela tinha seu orgulho. Se, por alguma chance do destino, fosse Jane do outro lado, ela não queria que a morena soubesse que a havia feito chorar. Idiota. Já haviam passado quarenta minutos. Ela não iria aparecer tão tarde.
Maura empurrou a cadeira pela sala, parando ao lado do interruptor. Acendeu as luzes da varanda e ergueu o braço para soltar a corrente que Collin havia instalado – mais baixa do que as normais, a fim de que ela pudesse alcançá-la sem muito esforço – e abriu a porta sem pensar duas vezes. A primeira coisa que viu foi um par de botas de montaria, um pouco empoeiradas e com umas poucas folhas de feno presas. Seu olhar então subiu pelas pernas compridas cobertas por jeans e a camisa desabotoada, até chegar ao rosto.
– Oh! Boa noite, Jane. – disse, o coração palpitando de um jeito que a deixava revoltada consigo mesma. Jane se vestia exatamente do mesmo jeito que tantas outras pessoas por aqueles lados. Não era nada de especial. – Pensei que fosse Collin.
– Não. – Jane replicou, casualmente.
Ela parecia mais alta do que da última vez – ou talvez isso fosse só a mudança de perspectiva -, os ombros mais largos e fortes. Parada ali à frente com a luz amarelada sobre si, Jane parecia reluzir. Dessa vez, ela vestia uma jaqueta de couro por sobre a camisa de cambraia. O cheiro leve e relaxante de cavalos parecia ser emanado dela. O chapéu estava na cabeça, como da outra vez, ligeiramente levantado para trás mas ainda fazendo um pouco de sombra sobre os olhos. Olhos que, como antes, pareciam cintilar e resplandecer sobre ela, mas, ao contrário da outra vez, eles pareciam mais escuros, ainda mais marcantes. Deliciosamente perigosos. Jane provavelmente praticava em frente ao espelho, porque esse olhar que era dirigido à loira, esta pensou, não podia ser simplesmente involuntário. Provavelmente, qualquer um a milhas de distância poderia ser rendido ante à intensidade desse olhar. Bem, qualquer um menos Maura. Jane era o tipo de coisa tentadora de se ter ao alcance da mão, mas, bem, torta de maçã também era. E torta de maçã era muito, mas muito mais segura.
– Você precisa de um olho-mágico. – ela disse, voz grave e naturalmente rouca. – Não é seguro abrir a porta assim sem saber quem está do outro lado, especialmente à noite.
A atitude protetora de Jane parecia suficientemente com a de Collin para acalmar as batidas rápidas de seu coração.
– Um olho-mágico da minha altura? Seria um pouco difícil identificar alguém pelos jeans, não acha?
– Depende. Não no meu caso. – ela mudou um pouco o ângulo, de modo que a fivela prateada de seu cinto refletisse a luz, e Maura pudesse notar que era personalizada com suas iniciais e o logotipo do rancho. – Você pode dizer que sou eu, indo ou vindo.
– É o que parece.
Jane apoiou o cotovelo na moldura da porta, um pouco desconfortável com o silêncio que se abatera no lugar. – Me desculpe pelo atraso.
A voz dela exalava sinceridade, e Maura teve de fazer força para não acreditar de imediato. – Tenho certeza que você teve uma boa razão. – mas nenhuma desculpa seria boa o suficiente. Ela atrasara quarenta minutos, e não havia sequer telefonado. Para Maura, isso era imperdoável.
Jane sorriu, como se adivinhasse os pensamentos da outra. – Eu tentei ligar.A linha só dava ocupada.
– Você tentou? – a loira perguntou, ainda descrente. Ela pensou que a outra seria um pouco mais imaginativa. – Que estranho. O telefone não tocou nenhuma vez, e até a secretária eletrônica está programada.
O olhar longo que recebeu de Jane fazia parecer que sua pele estava sendo revirada. Mura tinha praticamente certeza de que a morena percebera que ela havia chorado. Os lábios à sua frente se repuxaram num dos cantos, aprofundando ainda mais a covinha em sua bochecha. Não era realmente um sorriso, mas o olhar não deixava dúvidas da ternura da expressão.
– Eu sei que não estava discando errado. Chequei o número duas vezes.
Nesse momento, a luz da conexão mental acendeu, e Maura relacionou os fatos. – Meu jabuti. – ela disse, mais para si mesma do que para Jane.
– Seu o quê?
– Um pouco antes das seis, eu escutei um ele bater e derrubar alguma coisa. Aposto que ele bateu na extensão do telefone e o tirou do gancho.
– Ah. Mistério resolvido, então. – Jane sorriu satisfeita.
Maura deu ré na cadeira e a manobrou, a fim de arrumar a bagunça que Bass havia feito. – Por favor entre, Jane. Só vou levar um minuto. – ela não conseguiu deixar de imaginar que Collin ou mesmo seu pai iriam aparecer para ver se estava tudo bem se alguém tivesse ligado e ela não atendido o telefone. Apenas o pensamento provocou calafrios. Não precisava ser gênio pra saber que nenhum dos dois aprovaria exatamente Jane estar ali àquela hora.
Uma vez chegando na mesa de centro do corredor, Maura viu que realmente o fone havia sido derrubado do gancho. Enquanto se abaixava para pegá-lo e colocá-lo de volta no lugar, ela dava um sermão em si mesma. Okay, certo, Jane tentara ligar, exatamente como dissera, e fora errado de sua parte pular logo para as conclusões sem ter certeza de todos os fatos. O pensamento que seguiu esse foi o de que a morena provavelmente também tinha uma boa razão para chegar tão tarde, e Maura novamente repreendeu sua estupidez.
Tudo isso, porém, não significava que ela deveria novamente dar ouvidos a seu coração ingênuo, patético e imbecil. Jane a estava levando nesse encontro apenas para ser gentil. Ela iria aproveitar a noite, e se divertir. Só isso. Nada de esperar por algo mais.
Nada de desejar algo mais.
Fale com o autor