Phaeleh I
39 Capítulo 39 - De irmão para irmão
Notas iniciais
Svan não possuía mais paciência para lidar com a reunião infeliz em seu escritório. Skoll estava parado, recostado à parede com os braços cruzados e o cenho franzido, enquanto Niels andava, irrequieto, de lado a outro, ao tempo em que Ragnar, o humano mais velho do clã, estava sentado em uma banqueta de madeira do outro lado da mesa de Svan, olhando-o com olhos pequenos e estreitos como se não o visse com exatidão.
–- Então, você deu o meu escravo ao Rei Darius? – Niels disse friamente, e Svan cheirava seu ódio como algo pungente e intenso. Todos, exceto Ragnar, podiam sentir a ira de Niels, e Svan seriamente se perguntou por que seu irmão estava tão controladamente furioso se odiava escravos tanto quanto dizia – Por uma proposta de paz?
–- Darius me propôs uma união – explicou novamente Svan pacientemente. Antes de entrarem naquela saleta, ele havia se desculpado com seu irmão, mas a trégua parecia estar se desfazendo rapidamente ante seus olhos – Ao que parece, os fae celtas também querem reivindicar Meine. Eles são muito mais poderosos do que todos nós. Ele não quer ceder o Phaeleh tanto quanto eu.
–- Apesar de eu ser seu amigo, também estou disputando o Phaeleh, Svan dos Ursos.
Svan assentiu com a cabeça, mostrando que entendera e que não se esquecera desse fato.
–- Os Oráculos são tão importantes para os elfos quanto o Phaeleh. – explicou Ragnar – Eu compreendo – sua voz era tão antiga e trêmula que Svan se perguntou quanto tempo mais o homem viveria – É natural que ele queira preservar e desenvolver a vidência do garoto.
–- Por que ele não exigiu o Phaeleh? – disse Niels mordaz.
Svan suspirou.
–- Ele exigiu. Disse que treinaria nosso Oráculo e que durante este tempo eu aproveitasse o Phaeleh, pois quando as lições de Rurik se encerrassem, ele o levaria, independente de eu aceitar ou não. Ao que parece, ele e Meine conversaram e ele decidiu que não entraria em guerra contra o meu povo enquanto pudesse evitar. Mencionou algo sobre destinos cruzados.
–- Ah – a expressão do humano se suavizou e ele sorriu, mostrando sua estranha ausência de dentes. Ele parecia incrivelmente sonhador e Svan uniu as sobrancelhas – Destinos cruzados. Há quanto tempo não ouço isso?
–- O que significa? – Svan grunhiu.
Ragnar estendeu a esquálida mão por sobre a mesa e cobriu o punho de Svan com a pequena mão enrugada e muito fria.
–- É um termo muito antigo, Chefe Berserker. E também muito óbvio. Tudo o que você precisa saber é que os elfos também respeitam o amor, porque também é uma boa energia que eles absorvem. Alegria, amor, altruísmo, carinho... Eles prezam isso tanto quanto vocês, Berserkers, acreditam que a caça é um ritual sagrado. Eles se fortalecem nesse ambiente.
–- Por isso ele não levou Meine à força?
Ragnar deu de ombros.
–- Não sei. Não penso como o Rei Darius, não sei como ele pensa.
Svan estava se irritando com o tom enigmático do homem.
–- De todo modo – rosnou – Darius pretende levar Meine posteriormente por não acreditar que somos capazes de protegê-lo contra os elfos escuros e os fae.
–- Ele está certo – Skoll disse subitamente, olhando-o de esguelha – Mesmo se eu e você forjássemos uma união, não poderíamos proteger o Phaeleh do poderio deles. Principalmente contra os fae.
Svan não gostava de ouvir aquilo, principalmente por se sentir fraco perante os outros. Entretanto, ele sabia que era verdade – mesmo que os Berserkers fossem ferozes e implacáveis em batalhas, não poderiam se equiparar à magia dos fae e à arte das trevas de Yusuf. Ele tinha de ser realista quanto a isso para que pudessem se preparar.
–- Darius pediu os mais fortes guerreiros Berserkers para seu exército em troca de treinar o Oráculo. Rurik... – neste momento, Svan olhou para Niels, que parara abruptamente de andar pela sala e seus olhares se fixaram um no outro – Rurik decidiu partir. Ele sentiu que era correto. Eu falei com ele antes que partisse.
–- E então? – Skoll instigou.
–- Rurik teve uma visão. Antes de partir, tudo o que ele me disse era que Darius era sincero em suas palavras e que estávamos destinados a nos unir. Que... – o nó em sua garganta o fez pausar por um momento na tentativa de desobstruir a garganta e prosseguir – Ele e Meine estavam destinados a ir para o reino dos elfos de luz. Eu não tive como discutir com isso. – outra pausa – Darius deixou seus guerreiros para protegerem Meine até que o tempo de ele partir chegasse. Até lá, Rurik se desenvolverá como Oráculo.
Niels cerrou os punhos.
–- E assim, estamos em paz com Darius?
–- Temporariamente – disse. – Todos ainda queremos o Phaeleh.
–- O que garante que ele manterá sua palavra? – Niels esbravejou – Ele pode matar nosso Oráculo para nos enfraquecer.
–- Os elfos de luz não quebram suas promessas, jovem – Ragnar disse serenamente naquele semblante sonhador – Se quebrarem, os deuses os amaldiçoam.
Niels grunhiu.
–- Certo – bradou – Ele quer um punhado de soldados nossos em troca de treinar nosso Oráculo e te deixar curtir seu amor com o precioso Phaeleh?
Svan não estava gostando daquele tom debochado. Irritado, bateu o punho com tanta força na madeira de carvalho que ela rachou, fazendo todos estremecerem pelo ruído.
–- Eu também não acreditei. Ainda estou desconfiado. Não faz sentido em minha cabeça, não quando todos querem tirar Meine de mim! – rugiu, levantando-se abruptamente, usando seu tamanho descomunal para intimidar quem quer que o contrariasse – Mas Rurik me disse para acreditar, porque era o certo a fazer! Eu confiei em sua palavra como Oráculo e como homem!
–- Rurik é apenas um escravo!
–- Ele é a porra de um Oráculo, Niels! – o rugido de Skoll fez todos se voltarem para ele, principalmente quando seus dourados olhos de lobo olhavam de volta – Sua palavra é o bastante!
–- Mas ele é muito jovem – rebateu Niels – Ele não...!
–- Meu jovem – mesmo falando baixo, a voz de Ragnar foi o suficiente para silenciar a todos. Ele se mostrava completamente alheio aos urros e rosnados na sala – Diz isso por realmente desconfiar da veridicidade das palavras do rapaz ou porque está incomodado porque ele partiu e ninguém impediu?
Silêncio.
Niels, repentinamente, ficou lívido. Seus olhos se arregalaram, e ele nada disse. Parecia que alguém o tinha atingido com um aríete no estômago, pois ele se mantinha paralisado e perplexo, tão perdido e tão confuso que Svan se condoeu. Ele nunca viu seu irmãozinho tão sofrido, tão desolado. Niels abriu a boca para responder, mas logo pressionou os lábios com força, desviando o olhar e cerrando os punhos.
Então Svan compreendeu – ele estava passando pela mesma fase na qual Svan esteve preso durante tanto tempo antes de resolver confrontar seus sentimentos. Niels estava exatamente naquela tênue borda que parecia puxá-lo para o chão e empurrá-lo para o abismo do desconhecido ao mesmo tempo. Era aterrador. O que você quer entre em contraponto com o que lhe foi ensinado a não fazer. Svan viu nos olhos raivosos de seu irmão aquela mesma luta infindável na qual se metera após conhecer Meine. Seu irmão estava simplesmente jogando tudo para o alto e gritando de frustração por não entender.
Respirou fundo.
–- Continuamos a reunião em breve – disse, contornando a mesa. Todos, exceto Niels, arregalaram os olhos em surpresa. Svan se aproximou de seu irmão e o segurou pelo braço, puxando-o para a porta – Venha comigo.
Largou-o e passou a caminhar sem se voltar para conferir se era seguido. Ignorou chamados e olhares de outros, rumando para o exterior da casa. Assim que esteve fora, ouviu os passos de Niels. Eles tinham muito a dizer um ao outro. Eles tinham muito a resolver. Svan ainda não aceitara que o irmão surrara Meine, mas se sentia muito pior por sua besta ter assumido o controle de sua consciência e machucado sua família. Seu sangue.
A reunião era muito importante, mas sua família era muito mais. Niels era o único que restara para ele e ele o amava muito, muito, muito. Eles nada disseram, apenas caminharam no mais sepulcral silêncio. Niels estava aborrecido e mal-humorado e Svan estava tenso, pois não sabia, ao certo, como abordar o assunto. Ele nunca foi conversador e, ao contrário de Wray, era péssimo para aconselhar. Svan não sabia nada sobre sentimentos, sobre o que seria errado ou certo quanto a isso. Não era delicado tampouco.
O que faria para ajudar seu irmão?
O que Wray diria em meu lugar?
Svan tinha vontade de arrancar os cabelos da cabeça em frustração. Não era sábio. Ele podia ter boa lábia para negócios e uma boa oratória quando se tratava de falar com o clã, mas... Coração? Esse tipo de tema sentimental era para mulheres. Homens guerreavam, não falavam de amores e se aconselhavam sobre isso. Eles não eram menininhas apaixonadas.
Foda. Eram homens apaixonados por outros homens.
Lidar com isso apenas por isso já era bastante difícil, anda mais quando o outro homem envolvido era um escravo. Meine poderia facilmente se passar por uma garota por seus traços andrógenos, mas Rurik? Rurik podia não ser como Svan, mas não era delicado e suave como Meine.
Como poderia falar daquilo com seu irmão?
Eles seguiram por entre as árvores, embrenhando-se na floresta e perdendo-se em sua imensidão densa. Svan foi assaltado por dúvidas e inseguranças – ele realmente não fazia ideia de como falar com Niels.
Eles costumavam brincar naquela floresta quando meninos. Svan, Wray, Niels e Sky. Corriam, escondiam-se, perseguiam um ao outro, exibiam seus membros tão imaturos para saber qual era o maior e competiam para saber quem conseguia atirar o jato de urina mais longe. Eram travessos, intratáveis e insuportáveis. A mãe de Svan tentava ser paciente, mesmo quando eles se mostravam irascíveis. Ela lhes contava histórias de grandes guerreiros do passado e narrava os feitos heroicos dos guerreiros das lendas.
Pela primeira vez, Svan pensou em sua mãe sem sentir a dor da perda de tantos anos. Ela sempre foi uma mulher amável e foi a única para quem contou que preferia homens a mulheres quando sua sexualidade começou a amadurecer na adolescência. Apesar do choque e da repulsa, ela não o rechaçou. Ela tentou entendê-lo, tentou se mostrar sua amiga. E protegeu esse segredo de seu pai até sua morte prematura. O pai de Svan morreu sem saber que ele gostava de homens – e foi melhor assim.
Olhando para a cercania das árvores, ele se sentiu aliviado. Tranquilo. Aquele lugar lhe transmitia boas lembranças – de anos e anos de brincadeiras com seus irmãos de coração. Ainda podia se recordar de Skylar com seus cabelos ruivos e sujos de lama e de Wray, com cabelo curto e postura arrogante, como se fosse um rei.
Svan parou de andar quando chegaram ao limiar de um córrego. As águas cristalinas corriam com força, rolando pedrinhas, com peixes pequenos nadando contra a correnteza. Era um lugar agradável para se estar. Eles nadaram muitas vezes nu naquele lugar.
–- Sente-se – ordenou. Niels se sentou na terra, cruzando as pernas em posição de lótus e apoiando os cotovelos nos joelhos, encarando fixamente a água corrente abaixo no diminuto declive. Svan, por sua vez, ocupou o lugar em uma rocha achatada ao lado de uma árvore cujos galhos se debruçavam sobre o córrego em um arco. As sombras dançavam em tornos deles, bailando com os feixes de luz que perpassavam as copas das árvores, salpicando o chão e a água serpenteante. Eles ficaram em silêncio por um longo momento. Niels não sabendo por que a reunião fora interrompida para que eles conversassem e Svan sem saber como iniciar o assunto.
Svan encarou o horizonte, lutando por articular as palavras na mente, mas nada lhe vinha. Todo o seu conhecimento verbal se extinguira como se tivesse se esvaído em fumaça, desaparecendo no ar. Inalou fundo várias vezes para se serenar, mas era inútil.
O que Wray diria em seu lugar?
O que Wray faria?
Ele não sabia. Não fazia ideia.
–- O que há? – Niels perguntou, quebrando o silêncio estabelecido entre eles.
Bom. Svan tinha muito a dizer, no entanto, nada a falar, ao que parecia.
–- Costumávamos vir muito aqui, não é? – disse, ao invés de dar procedência ao que preenchia sua mente. A brisa suave da manhã acarinhava seus cabelos, agitando as mechas. Niels parecia totalmente perdido em pensamentos.
–- Sim – murmurou – Eu, você, Wray e Sky.
E fim do assunto para Niels.
–- A mãe não gostava quando vínhamos para cá – comentou Svan – Ela tinha medo que nos afogássemos.
–- E fôssemos arrastados pela correnteza – acrescentou Niels – Eu me lembro.
Silêncio. Os sons da natureza os envolvia – o farfalhar das árvores, o cantar das aves, a água da corredeira, animais se movendo ao redor, o vento assobiando. Svan tentava se concentrar nos ruídos para desopilar a tensão crescente em seus ombros enquanto a mente trabalhava em uma forma de abordar o assunto. Antes que percebesse, o tempo estava passando naquela calmaria estabelecida pela floresta que os abrangia.
–- Sabe – ele murmurou, erguendo o rosto para ver a teia de galhos sobre suas cabeças, vendo frestas de um céu azul. Pensou em Meine e no quanto seu albino apreciaria estar ali também. – Quando eu conheci Meine...
–- Não quero saber – cortou rispidamente Niels – Você sabe que não gosto do seu escravo. E agora o detesto ainda mais.
Svan tentou não se aborrecer com aquilo. Ele tinha de tentar ser paciente.
–- Você acha que ele é culpado por toda essa catástrofe de guerra e desastres naturais.
–- E não é? Veja a merda que ele causou desde que ele chegou.
–- Veja o quão feliz estou desde que ele chegou. Meine me acalma. Ele me faz sorrir, Niels.
Niels lhe lançou um olhar ácido e bélico, dizendo silenciosamente que desse o assunto por encerrado. Bom, Svan ignoraria sua repreensão.
–- O pai nos ensinou muitas coisas certas, mas também muitas erradas – disse. Deixou as palavras penetrarem na mente teimosa de seu tolo irmão, fazendo o silêncio se estender entre eles – Muitas vezes, estive em guerra dentro de mim sobre o que eu senti que deveria fazer e o que eu achava que deveria ser feito.
–- Você é um bom líder, irmão.
–- Imagino que sim – Svan murmurou, novamente optando pelo silêncio pelo tempo que achou necessário para seu irmão se sentir confortável – Muitas vezes, eu me deparei com situações que me fizeram parar e olhar para frente como se tivesse batido em uma parede. Sem saber como prosseguir. Sem saber o que fazer.
Niels olhou para suas próprias mãos entrelaçadas e uma expressão enigmática surgiu em sua face.
–- Sei como é.
–- E então, eu fui forçado a rever meus conceitos.
Niels ergueu o rosto para ele, os olhos... suplicantes. Como se buscasse uma resposta.
–- E então?
–- E então – Svan quase sorriu. Quase. – Eu concluí que deveria fazer o que senti ser correto, e não o que me diziam para fazer. O pai nos criou sob um punho de ferro e nos nutriu com preconceitos e agressividade. Isso não resolve todos os nossos problemas, Niels. Eu revi meus conceitos e debati incessantemente o que fazer. Evitei pensar sobre certos assuntos que me incomodavam e que eu não entendia. Ignorei e desprezei o desconhecido exatamente por não saber lidar com ele. Era um desafio que me assustava, algo que me ensinaram a tratar com irrelevância. A evitar. A repudiar. Eu fui feito um homem bruto e hostil e não sabia disso até ser forçado a encarar esses desafios.
Niels, àquela altura, parecia desesperado, como se estivesse se afogando e buscasse algum ponto de apoio. Svan esperava estar servindo de alguma ajuda.
–- Me dê um exemplo – pediu, agoniado.
–- Meine – Svan disse então e a careta de seu irmão demonstrava desprezo – Apenas ouça. Eu ainda sou o que meu pai me fez para ser, mas... Meine me ensinou muitas coisas. Nós dois mudamos juntos, acredito. Wray muitas vezes teve de me bater na cabeça por ser tão estúpido e creio que ainda serei. Eu feri Meine em mais ocasiões do que posso contar. Eu achava que escravos eram criaturas sem valia, que deveriam me obedecer e se sentir felizes por fazê-lo. Eu lhes dava ordens porque acreditava que eles gostavam delas. Que apreciavam a vida de servidão, de exploração. Eu não os via como mais do que merda de cavalo subserviente.
Niels franziu o cenho.
–- E isso mudou por Meine?
Svan deu de ombros.
–- Um pouco – admitiu – Ele me mostrou mais do mundo do que eu já vi em minhas excursões. Para me adaptar a ele, eu tive de... Olhe, não diga isso a ninguém – ralhou – mas eu tive de ser um pouco mais... – delicado não era a palavra certa. Não era másculo – compreensivo. Ele abriu minha mente. E eu evitei minha afeição crescente por ele porque me disseram que era errado.
–- Por que está me dizendo isso?
Porque você está passando por essa fase de aceitação e não percebeu.
–- Porque eu preciso desabafar. – mentiu.
–- Então diga tudo isso a ele.
Svan negou com a cabeça.
–- Homens não falam de sentimentos – grunhiu – Estou dando a você um relato de uma situação difícil. Meu maior desafio no momento.
Niels lhe lançou um incrédulo e jocoso olhar.
–- Certo – e revirou os olhos com um bufar desdenhoso – E como você descobriu que amava a coisa pálida?
Calma. Respira, Svan.
–- Eu... – ele não sabia como prosseguir. Ele não sabia como explicar. Sequer sabia de como se dera conta de que amava Meine. Em sua mente, as palavras simplesmente fluíram no momento de tensão e, aos seus ouvidos, pareceram certas. Assim que as disse, sentiu-se satisfeito e em paz, principalmente ao ver seu garoto sorrindo e chorando de emoção para ele. Svan realmente não teve palavras para falar. Ele nem sabia o que dizer. Aquela era uma pergunta em resposta, como algo terrivelmente inexplicável. Ele não tinha aceitado completamente seus sentimentos, mas já partira para o nível de se acostumar com a crescente emoção que o embargava sempre que pensava ou via Meine. Ele não tinha certeza se as sensações eram as mesmas para todas as pessoas. Seria ele o único a ser assim, tão estranho? Niels estava ali, esperando uma resposta, e esta parecia ser uma das questões mais importantes para ele. Amor era... um tema muito difícil. Svan abriu e fechou a boca incontáveis vezes, incapaz de articular frases floreadas e bonitas que apaziguassem seu irmão. O que poderia fazer? Era seu dever cuidar de Niels e fazê-lo entender seus próprios sentimentos, fossem importantes ou não por Rurik. – Amor é... Amor é...
–- Amor é...?
–- Amor é comer.
Niels franziu profundamente o cenho.
–- O quê?
–- Sabe... Amor é como comer. Veja assim. Nós amamos comida. E quando não comemos, sentimos falta. E dói. E você enfraquece e se sente mal. E pode morrer por não comer. Comer é uma necessidade vital. Isso é... amor.
Niels estava tão boquiaberto que parecia estar vendo algo sobrenatural sentado na rocha no lugar de Svan.
–- Está dizendo que Meine é comida? – Niels disse incrédulo
Ah, sim, eu amaria devorá-lo pedaço por pedaço.
Svan estranhou sua própria reação ao corar e pigarreou, tentando disfarçar.
–- Você... – ele ponderou a respeito de suas próprias atitudes com relação a Meine, fazendo uma retrospectiva dos seus mais profundos anseios ocultos – Você quer vê-lo sorrir acima de tudo. Ou vê-la – deu de ombros – Independente de ser homem ou mulher. Sua felicidade é a coisa mais valiosa. Suas lágrimas doem e você sente a sua dor e quer que passe. – Svan ergueu o rosto, fechando os olhos para a brisa que afagou sua face – Mesmo quando está com raiva, você cuida e não lhe deseja mal.
–- Eu sinto isso por você, Wray e Sky. Então, qual é a diferença, irmão? Como vou saber?
–- Aplique a lei da comida – Svan olhou para seu irmão com bom humor – Se você sente falta quando não está. Se dói. Se há a necessidade de estar perto, de garantir que está bem. Que as necessidades dele ou dela vêm antes das suas. Se você aprecia seus defeitos tanto quanto suas qualidades. E – Svan se debruçou na direção de seu irmão como se fosse lhe confidenciar um segredo, apesar de ainda estarem separados por uma considerável distância – Se há uma ânsia sexual que te faz querer ser melhor que todos os parceiros do mundo.
Niels fez uma careta, mas logo riu.
–- Você quer ser o melhor amante de Meine, então?
–- Óbvio. Satisfazê-lo deve ser tão prazeroso quanto me satisfazer. Você já sentiu isso tudo, irmãozinho?
Niels puxou os joelhos para o peito, abraçando-os e encarando a água com certa melancolia.
–- Então, não é errado sentir isso? – sussurrou quase inaudível. Mesmo Svan não tinha certeza do que ouvira. Então, Niels agitou a cabeça de lado a outro violentamente – Agora é tarde, irmão. É tarde demais para eu ter certeza de qualquer coisa.
Svan saltou da pedra e se colocou ao lado de seu irmão, pousando uma mão em seu ombro e lhe dando um reconfortante aperto.
–- Só vai ser tarde para fazer algo quando a vida findar, Niels. Pense nisso – ele fez uma pausa para que Niels absorvesse tanta informação. Ele ainda parecia confuso, debatendo valentemente o que queria fazer e o que ambos foram ensinados a fazer – Vamos voltar para casa, já é hora do almoço.
Continua...
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