Phaeleh I

14 Capítulo 14 - Aviso silencioso


Notas iniciais
Miky-san: Olá queridos e queridas *-* Desculpe a todos pela demora, não tem sido fácil conciliar tanta coisa pra fazer e ainda dar conta de postar tudo certinho... Ontem eu teria postado, mas aproveitei que hoje estaria em casa para fazer isso com mais calma. Desculpem qualquer errinho, ok? Espero que gostem do capítulo! Obrigada a todos por ler ♥ Boa leitura!

–- Então – Wray pressionava firmemente os lábios para não rir – Está me pedindo conselhos sobre uma forma de seduzir Meine sem assustá-lo?

Svan semicerrou os olhos ameaçadoramente, aborrecido com o quanto seu amigo parecia divertido com sua situação. Se não precisasse seriamente de Wray, já o teria calado à base da força.

Ninguém precisava saber que aquela reunião estava ocorrendo. Nem mesmo seu irmão – era constrangedor demais para o seu ego.

–- Quer parar de parecer divertido? – rosnou.

Wray negou com a cabeça, levando o cálice com hidromel aos lábios, tentando esconder seu sorriso. Svan aprumou os ombros, empinando orgulhosamente o queixo. Fazia algum tempo que estavam bebendo e conversando na sala de seu amigo enquanto Aricin preparava o almoço na cozinha. E até então, Wray ouvira seu desabafo sobre o desejo compulsivo e ascendente que possuía de tocar Meine, de estar em sua companhia. Inicialmente, Wray se mostrou consternado, inclusive muitíssimo preocupado, o que encheu a cabeça de Svan de indagações a respeito de sua reação, entretanto, ao final de tudo, quando Svan lhe perguntou formas menos agressivas de sedução, Wray assumira aquela expressão de quem queria gargalhar descontroladamente.

Não era engraçado. Não era divertido.

Os dias passavam, sua viagem ao além-mar se aproximava, e sua ânsia por Meine apenas crescia e crescia, até que um dia, tinha certeza, enlouqueceria. Ele passava as noites se contendo – não unicamente pelo sexo, mas porque queria abraçar Meine. Tocar em seu corpo, em seus cabelos. Vê-lo com aquela adorável expressão de curiosidade e carinho outra vez.

–- Sinto muito – Wray riu brevemente – É muito divertido – e riu outra vez, sorvendo outro gole de sua bebida.

–- Estou falando sério.

–- Eu sei, por isso é engraçado – Wray colocou o cálice sobre a mesa e um lento sorriso repuxou as comissuras de lábios – Vejamos... Repita seu maior problema.

–- Já lhe disse isso! – Svan rosnou, batendo o punho na mesa por sua impaciência. Quantas vezes Wray lhe faria repetir a mesma coisa?

Wray sequer se alterou ante sua explosão.

–- Diga outra vez – falou com gentileza.

Svan bufou, resmungando.

–- Meine repudia meu toque. Desde... Desde o meu descontrole, ele se afasta de mim cada vez que lhe estico a mão. – Svan passou a mão pelo rosto, em conseguinte pelo cabelo, jogando as mechas para trás – Estou sendo bastante paciente, mas...

–- E vai continuar sendo – aquele tom gentil de Wray dissimulava a ameaça implícita em seu olhar de ferro – Afinal, a culpa é sua.

Svan rosnou.

–- Você não está me ajudando.

Wray deu de ombros sutilmente.

–- E você quer que eu lhe diga como fazer o corpo de Meine não se assustar com o seu?

–- Sim.

Wray o olhou com seu carinho habitual e suspirou por entre os lábios.

–- Você sabe, o medo é a memória mais forte do nosso corpo. Mesmo que Meine deseje estar bem com você, enquanto seu corpo se lembrar da dor, não vão conseguir avançar nesta relação. É instintivo para ele.

Svan franziu o cenho.

–- Fala como se tivesse passado por isso.

–- Todos já tivemos alguma experiência traumática – disse com simplicidade – Você quer ter intimidades com ele porque deseja seu corpo ou porque anseia por ele?

Aquela pergunta o pegou totalmente desprevenido. Ele não esperava que Wray fosse ser tão direto, mas também não deveria se surpreender – Wray era dolorosamente franco quando queria ser. Svan não tinha uma resposta imediata para a indagação – sentia que havia afeto, que... Uma emoção estranha se agigantava em seu âmago, mas não fazia ideia do que era e procurava não se aprofundar em pensamentos emocionais. Não queria admitir em hipótese alguma que Meine era algo além de seu escravo sexual. Admitir era sinônimo de abrir seu coração, o que significava que pudesse vir a ama-lo. E Svan não podia ter ainda mais trabalhos e problemas do que os que já possuía.

–- Não quero falar sobre isto – grunhiu.

Wray assentiu pacientemente com a cabeça.

–- Se quer reatar com Meine, precisará de ainda mais paciência, Svan.

–- Por quê?

Os olhos de Wray escureceram subitamente, o que só acontecia quando seu amigo estava muito sério a respeito de um assunto que lhe punha em tensão.

–- Não é apenas Meine que deve perder o medo do seu corpo. A sua besta deve se acostumar com Meine também. Seu lado agressivo tem que se acalmar.

–*-*-

Rurik não podia se aguentar em seus próprios pés. A felicidade que o embargava parecia ser maior do que seu próprio corpo e ele se sentia em constante erupção emocional.

Anos de amor reprimido agora se convertiam em dias calorosos ao lado de Niels. Bom, não necessariamente ao lado, mas ele sentia que havia certo grau de simpática entre eles. Rurik, por ser humano e escravo, sempre estaria atrás de Niels, como seu animal de estimação. Buscava não transformar isto em preocupação, pois lhe agradava conhecer o alvo de sua admiração. Niels era bastante calado às vezes, e tão antipático quanto Svan, mas era completamente diferente de seu irmão mais velho.

Rurik carregava toras de madeira cortada para o quarto de Niels. O estoque de lenha para as noites frias havia acabado na lua anterior e ele deveria estará atento às necessidades do seu amo. Ele pressionou os lábios com força para não sorrir – enquanto era escravo de Svan, só podia observar Niels de longe. Agora que estava sendo castigado por um crime que não cometeu, seria capaz de sequestrar Meine apenas para ter mais uns momentos tão agradáveis com Niels.

Não que fosse, de fato, sequestrar Mei. Seu amiguinho era adorável demais para que lhe fizesse mal.

Rurik também não se via muito capaz de ser intimidante com qualquer um, por mais que não fosse esquálido ou baixo. Sua estatura era mediana – diante dos Berserkers, ele era realmente pequeno, apesar de não tanto quanto Meine – e, por mais que não fosse tão robusto quanto Niels, ele possuía sua quota de músculos.

Portas de madeira estavam sendo instaladas em todas as casas em substituição das peles, para aumentar a segurança das famílias. Svan estava sempre pensando no melhor para o clã, principalmente naqueles tempos de guerra. Rurik tinha muito medo das batalhas – ele sabia o que acontecia com os perdedores. Se não eram agraciados com a morte, eram feitos de escravos. E agora que conhecera o bom de estar com Niels, ele não... Ele não queria servir a ninguém mais. Não queria voltar àquela vida infernal, quando sua personalidade era suprimida em prol da submissão.

Rurik parou diante do quarto de Niels, encarando a porta de madeira. Seus braços estavam todos ocupados com a lenha e seria uma tarefa bastante complicada entrar na habitação daquela forma. Com um suspiro resignado, colocou sua bagagem no chão e abriu a porta. Então, voltou a pegar a madeira e caminhou para dentro da habitação. As lascas arranhavam seus braços e o peito nu, mas ele já estava acostumado com o trabalho pesado.

A lareira ficava ao lado da cama, e estava cheia de cinzas. Mais tarde ele teria de limpar aquela bagunça, realmente. Ajoelhou-se diante da lareira, largando a lenha no piso para poder iniciar o processo de organização. Empilhar uma a uma seria bastante dificultoso.

Quando terminasse de organiza-las, cortaria mais. Niels costumava sentir bastante frio enquanto dormia, por mais que não se desse conta desse fato. Rurik não tinha sonos bons há muito tempo – tirava cochilos intermitentes, o bastante para não ficar exausto demais – por conta de pesadelos que retratavam seu passado, o que lhe garantia muitas horas com os olhos abertos encarando o teto. Ele via Niels tremer e falar enquanto dormia e isso lhe fornecia a distração necessária para não ser engolido por seus medos.

Nunca se perdoaria se um dia despertasse Niels com um de seus gritos aterrorizados. Sabia que Niels lhe perguntaria o motivo e a última coisa que desejava era ter de revelar o quão sujo e usado ele era. Não quando Niels não queria corrompê-lo, não quando Niels o impedia de ver qualquer outro além dele mesmo nu para mantê-lo puro.

O conhecimento da imundície de Rurik jamais deveria lhe chegar aos ouvidos.

–- Rurik?

Ele esticou a coluna em tensão ante a voz de Niels. Era incrível como, sempre que pensava nele, Niels aparecia subitamente, surgindo do ambiente como se tivesse estado camuflado até então. A alegria que o embargou o fez sorrir, incapaz de conter sua satisfação.

–- Sim, Niels.

Niels se apoiou no marco da porta e um meio-sorriso quase imperceptível repuxou seus lábios.

–- Pare o que está fazendo.

Rurik arqueou as sobrancelhas ruivas em surpresa.

–- Por quê?

Rurik pressionou os lábios quando se apercebeu de seu deslize. Estava para se retratar, quando Niels entrou e fechou a porta atrás de si com o pé. Começou tirando sua camisa, expondo o peito largo e adornado por músculos retesados. Niels era todo um guerreiro, em qualquer parte de seu corpo. Rurik engoliu em seco e cravou os olhos na madeira, empilhando a última lenha.

Deuses... Não podia ficar admirando o corpo do seu amo. Não enquanto ele estivesse olhando.

Rurik lançou um olhar de esguelha, apenas para pular de susto e virar a face quando notou que Niels o encarava fixamente.

–- Preciso de uma massagem – Niels disse sem muita emoção, caminhando para a cama. Rurik o viu se deitar de bruços, o rosto repousando sobre os braços cruzados. – Agora, Rurik.

–- Sim, Niels.

Rurik se ergueu, limpando as mãos na calça surrada que vestia e rumou para onde estava seu dono. Colocou um joelho na cama, olhando para a extensão das costas musculosas e marcadas por antigas cicatrizes. Rurik particularmente achava cada uma delas muito bonita. Ele passou o outro joelho por sobre Niels, até estar sentado escarranchado sobre o traseiro macio. Engoliu em seco, sentindo o coração se acelerar no peito. Sabia que Niels o olhava pelo canto do olho, então teve de reprimir suas expressões embevecidas e carregadas de desejo.

E evitar se sentir excitado estando no local no qual estava, de fato, seria a maior provação de sua vida.

Molhando os lábios, dirigiu seus dedos trêmulos aos ombros tensionados de Niels, apertando os nós rígidos. Um gemido de prazer escapou do homem abaixo de si e Rurik tentou não permitir que a descarga de emoção que o percorreu o afetasse. Se seu corpo reagisse ao de Niels, sabia o quanto ele ficaria enojado com ele. Rurik poderia se tornar um depravado aos seus olhos.

Ele apertou a curva entre os ombros e o pescoço, então os ombros propriamente ditos. Desceu a massagem por suas costas sobre a linha da coluna, exercendo pressão sobre a espinha, vendo Niels se esticar abaixo de si. Rurik teve se mover, realocando-se sobre as coxas de seu amo para que pudesse pressionar a base da coluna, sobre as nádegas. Molhou os lábios novamente, sentindo-os estranhamento secos.

–- Está do seu agrado? – perguntou, lutando por se distrair do corpo viril abaixo de si.

A voz rouca e baixa de Rurik fez Niels olha-lo com maior atenção, notando o quanto o pequeno ruivo estava corado. Niels poderia jurar que seu escravo estava se excitando com a massagem e, por algum motivo, ele também sentiu que estava reagindo aos toques do menino.

Fazia algum tempo desde que ele havia sentido a ânsia de sentir prazer, de ter um orgasmo poderoso a ponto de querer rugir. Atribuiu as sensações à carência por alguns dias sem sexo. Não era necessariamente por Rurik. Ah, não, impossível. Por mais adorável que Rurik fosse, não passava de um escravo.

–- Sim – grunhiu.

Rurik usou os polegares de ambas as mãos para pressionar a base de sua coluna enquanto os outros dedos acariciavam suas laterais. E, ah, doce inferno, aquilo era uma delícia. Ele nunca recebera nada mais delicioso. E quando Rurik deslizava aquela pressão por toda a sua espinha, não podia se evitar de se esticar.

Sentiu quando o ruivinho se realocou sobre seu traseiro, movendo-se constantemente, debruçando-se sobre suas costas até seus polegares estarem pressionando sua nuca. Niels não desviou o olhar dele um único segundo e, pela proximidade de Rurik agora, podia ver o quão vermelho estava seu rosto. Rurik começou a massagear sua nuca e Niels gemeu prazenteiramente mais uma vez.

Foi quando ele parou de se mover repentinamente.

–- Rurik? – não houve resposta. Não houve movimento. Niels se apoiou cuidadosamente sem seus cotovelos, olhando por sobre o ombro para a figura pálida do garoto. Sempre considerou Rurik naturalmente corado, portanto, vê-lo lívido como se fosse tão alvo quanto Meine o preocupou.

E se sentiu irritado com sua própria preocupação. Ainda assim, lá estava Rurik, com os olhos perdidos, fitando o vazio, como se estivesse presente sem estar de fato.

–- Você sabe – e lá estava novamente aquela assustadora voz imparcial que fazia um calafrio lhe eriçar todos os pelos do corpo. – Está seguindo pelo caminho errado. – os dedos que habilmente trabalharam em sua nuca agora se entrelaçaram em seus cabelos, enquanto a outra mão caía sobre suas costas. A pele de Rurik estava apavorantemente gélida – Vai perder o que é seu para pertencer. E quando eles chegarem, os Berserkers ruirão.

Niels sentiu as garras do medo arranhando sua alma.

–- Quem são eles? – perguntou o mais gentilmente possível.

–- Eles são os que estão despertando as criaturas que nunca deveriam estar despertas. – os lábios de Rurik se entreabriram. Uma única lágrima escorreu por sua bochecha e Niels desejou estar deitado em outra posição mais cômoda para que pudesse lhe infundir alguma força, algum consolo – Estão se fortalecendo.

–- Quem, Rurik?

–- Copule com o Phaeleh, e ele lhe trará prosperidade. Coma de sua carne, e terá vida eterna. Devore sua alma e a luz findará.

–- O quê?

Rurik desabou sobre suas costas, o rosto afundado em seu ombro. Niels o empurrou para a cama a fim de virar em sua posição, de forma que pudesse olhar para o garoto. Ele estava desacordado, respirando rapidamente pelos lábios entreabertos, o cabelo em desordem caindo por sobre o rosto. Niels estendeu a mão e tirou uma mecha ruiva de sua face.

Rurik estava sempre cuidando dele com um sorriso no rosto. Ele não entendia isso. Não compreendia de onde vinha tanta alegria. Se o garoto estivesse conformado, era compreensível. Mas satisfeito? Por quê? Por que Niels era alvo de tanta atenção?

–- Ei, garoto – murmurou, um tanto quanto incerto de como agir. Estava bastante inseguro desde que descobrira que ele era um Oráculo.

Niels afagou inconscientemente o cabelo macio e acobreado. Rurik gemeu, as pálpebras tremulando antes de se erguerem. Rurik pestanejou, um pouco confuso de início. Quando a consciência de onde estava o abateu, ele se lançou para trás como se tivesse sido esmurrado, afastando-se rapidamente de Niels.

–- N-Niels – gaguejou, os olhos aumentando tanto de tamanho que pareciam prestes a cair das órbitas – E-Eu...

–- Volte.

–- M-Mas...

–- Volte.

Rurik pressionou os lábios com força, arrastando-se de volta ao local onde estivera anteriormente. Deitados de lado um de frente para o outro, passaram um longo tempo apenas se olhando aos olhos. Niels o achava bastante bonitinho e...

O quê?

Rurik, bonito? Com o diminutivo empregado à palavra para lhe dar uma característica fofa?

Mas que merdas divinas havia de errado com ele?

–- O que foi? – Rurik sussurrou. Ele parecia um pouco receoso – Eu fiz de novo, não é?

Ele mordeu o lábio inferior, o que atraiu o olhar de Niels. O lábio cheinho parcialmente sugado para dentro. Podia imaginar os dentes brancos mordendo aquela carne macia...

Niels se aproximou, incapaz de desviar o olhar daquela boca tão bonita, tão irresistível.

–- Niels?

Antes que percebesse, sua mão pousou na cintura nua de Rurik. Ele o puxou para si, colando seus corpos. Sentia-se estranhamente hipnotizado, atraído irrevogavelmente. Rurik parecia se encaixar em Niels como se houvessem sido moldados à perfeição, em formas que se completavam. Ele gostou de sentir a pélvis do garoto colada à sua, os membros se tocando. Isso enviou uma descarga elétrica ao seu baixo-ventre, endurecendo algo ali que Niels não esperava que fosse novamente despertar para um escravo.

Não após tudo pelo qual já passara.

Ele não teve poder sobre si mesmo quando ele e Rurik inspiraram ao mesmo tempo, os peitos se roçando. Sua libido se acendeu naquele momento e ouviu Rurik gemer quando sua ereção pressionou o membro do garoto. O contato fez o próprio Niels gemer, pois desejava muito mais além daquilo.

–- Niels...

Foi quando ele se lembrou de que estava deitado na cama com um escravo. Apartou-se, largando-se sobre a cama e inspirando bruscamente.

Que merda se passara em sua cabeça?

Olhando para baixo, arregalou os olhos ao ver seu membro rijo, crescendo dolorosamente, ansiando pelo ruivo ao seu lado. Sua boca estava seca pelo desejo.

Não posso cometer esse erro outra vez.

Inalou audivelmente, consciente de que seu sangue não esfriaria tão cedo.

–- Rurik – grunhiu, estendendo a mão e afagando os cabelos ruivos do menino ao seu lado.

Rurik parecia bastante atordoado e seus olhos estavam tão malditamente cravados em sua ereção que ele se sentiu ainda mais incontrolavelmente excitado. O pênis inchou, latejando, dando seu infeliz olá para a vida.

–- Niels, eu...

–- Não se preocupe com isso – Niels disse rapidamente. Por que Rurik ainda olhava para sua ereção? Merda, isso estava deixando-o ainda mais... animado. – Vai passar.

–- Mas...

–- Você não tem trabalhos a fazer? Algo como cortar lenha ou capinar, ou que for?

De repente, Rurik pareceu se fechar em si mesmo e Niels instantaneamente se arrependeu de suas palavras. Não havia sido sua intenção dizer algo tão ríspido, simplesmente saíra. Rurik se arrastou para fora da cama – foi quando Niels notou que ele estava arranhado e superficialmente ferido no tórax, nos braços e nas mãos.

Rurik estava sempre se esforçando por ele.

–- Não ocuparei mais seu tempo, meu senhor.

–- Rurik...

Não, não, não! Não queria ser chamado daquela forma, não quando já tinha se habituado à forma íntima com a qual Rurik lhe falava.

Rurik não disse mais nada, apenas se retirou silenciosamente, fechando a porta sem bater.

–*-*-

O tinir do metal contra metal fazia Meine estremecer pelo som estridente que retumbava pelas paredes da ferraria pequena. A fornalha estava acesa, o que justificava o calor que banhava o lugar, fazendo-o transpirar como se tivesse acabado de sair de um banho sem se secar devidamente. O ferreiro martelava com força uma lâmina em brasas recém-tirada da fornalha monstruosa sobre uma mesa de pedra. Todos os músculos de seu corpo se enrijeciam pelo esforço empregado no trabalho bruto.

Meine estava encantado com o ofício de Syn. O homem era o único no clã de Svan que possuía cabelos profundamente negros – tão negros que possuíam reflexos azuis. Três cicatrizes em forma de garras rasgavam sua face da têmpora esquerda ao lado direito do maxilar, deformando sua bela fisionomia e lhe conferindo um aspecto selvagem e perigoso.

Fazia algum tempo que Meine o observava trabalhar, esperando que lhe desse um segundo para lhe falar. Mas Syn estava muito envolvido com a tarefa de martelar a espada, moldando seu formato com força bruta. Quando o último golpe atingiu o metal, o ferreiro pegou a espada que forjava e a mergulhou em um recipiente com água fria. O chiado subiu com a fumaça pelo choque térmico.

Era a primeira vez que via como se faziam as espadas. Era incrível. Se possuísse força para erguer aquele martelo, Meine com certeza adoraria ser ferreiro.

–- Quanto tempo ficará aqui, garoto? – disse Syn de forma mordaz. Meine apenas lhe sorriu.

–- Tenho um pedido.

–- E pode me pagar?

Não, ele não podia.

–- Conseguirei uma forma.

Os olhos pálidos de Syn se cravaram nele como se pudessem atravessa-lo.

–- Escravos não encomendam nada, garoto.

Um baque estridente ecoou pela ferraria quando algo de metal caiu bruscamente no chão. Meine estremeceu pelo susto, esticando o pescoço para ver o que era. Syn reagiu mais rápido que ele, voltando-se para trás a tempo de ver uma pequenina criança brincando com uma adaga longa, que encurvava levemente em sua extensão. Syn rapidamente ergueu o garotinho e lhe rosnou algumas palavras entre dentes. O menino assentiu com a cabeça e correu para dentro, desaparecendo por uma porta.

Syn recolheu a adaga e a colocou sobre uma mesa de madeira abarrotada de aparatos que Meine jamais saberia nomear.

–- Seu filho? – perguntou, curioso.

Syn franziu o cenho.

–- Não é da sua conta. – rosnou. – E dê o fora daqui.

–- Mas eu preciso de um favor.

–- Não faço nada se não me pagar.

–- Então... Ensine-me a fazer.

A expressão de Syn se tornou jocosa.

–- É um escravo. É que ainda não se deu conta disso?

Ah, como ele odiava ser escravo!

Estava começando a lhe aborrecer não poder fazer nada por causa de seu status.

–- Se eu não fosse escravo, faria o favor?

–- Não.

Foi um tom tão brusco que deixou bastante claro o descontentamento do homem e a sua enfática negação. Meine grunhiu, hábito este que estava aprendendo muito bem com os Berserkers.

–- Por quê?

–- Porque eu não quero.

–- Mas eu preciso...

–- Está tentando me vencer em uma discussão pela exasperação?

Meine fez uma careta.

–- Funcionaria?

–- Não.

–- Então tentarei com mais empenho.

O homem resmungou e passou a lhe ignorar no tempo a seguir, fingindo que Meine não estava lá observando seu trabalho. Mas Meine estava e se sentia cada vez mais curioso. Ele fora ali horas atrás para pedir ao ferreiro que lhe construísse um arco.

Meine nunca fora um lutador e ninguém realmente levava fé nele nesses quesitos. Mas ele não era idiota – sabia que uma guerra estava eclodindo com o clã de Svan no meio e não pretendia ser um empecilho. Ele queria defender a si mesmo e ser capaz de proteger seus amigos. Ser um peso morto não estava em suas intenções e, se era para entrarem em guerra, ele iria junto. Nunca deixaria Svan sozinho.

Mas o ferreiro não compreenderia suas intenções. Na verdade, Syn sequer parecia inclinado a ouvi-lo. Meine queria lhe pedir o arco para que começasse a praticar desde já como atirar flechas. Como sua força física não era uma característica sua, assumir um posto onde lutava ao longe não era má ideia.

Não queria dizer seu desejo a Svan. Sabia que ele lhe diria que estava sendo tolo e que não era necessário que se envolvesse em seus problemas. Svan o protegeria com a própria vida se fosse necessário, não por ama-lo, mas porque fazia parte de seu clã, e ele se sacrificaria por qualquer um deles. Ele amava seu povo.

O sol estava se pondo, tingindo o céu em cores ternas. Estava ficando tarde e Meine não poderia ficar ali por muito mais tempo. Aborrecido, porém não menos determinado, decidiu que admitiria a derrota naquele dia, mas voltaria futuramente para um novo embate. Rumou na direção da habitação principal do clã. O vento frio da noite que chegava agitou seus cabelos, trazendo consigo o cheiro estranho de...

Do quê?

Meine não reconhecia aquele aroma, mas lhe pareceu bastante familiar. Ele olhou ao redor, erguendo o rosto para farejar melhor o cheiro, buscando em sua mente uma memória que lhe dissesse ao que pertencia, mas nada lhe veio. Um corvo pousou sobre uma das casas, olhando-o com aqueles profundos olhos negros e brilhantes.

Não, o cheiro não era dele.

O que estava cheirando?

Seu coração começou a bater rápido no peito. A expectativa de algo o estava aterrorizando. Ele não sabia por que começou a se sentir observado. Era como se olhos estivessem fixos em sua pessoa.

Estou paranoico.

Não havia ninguém lhe observando furtivamente. Svan saberia se houvesse um invasor e cuidaria dele – afinal, Svan estava patrulhando com Sky e Wray agora. Eles não permitiriam que mal algum se abatesse sobre o clã, e Meine confiava neles cegamente quanto a isso.

Balançou a cabeça como se assim pudesse se desvencilhar de suas inseguranças. Quando o corvo grasnou, ele disparou a correr na direção da casa. Todavia, antes de alcançar seu porto-seguro, o corvo alçou voo e passou diante dele como um raio, forçando-o a parar bruscamente para não se chocar contra a criatura.

A ave voou em torno dele, impedindo sua passagem. Meine sentiu seu sangue gelar. O cheiro que sentira ainda não pertencia ao animal, mas, por algum motivo, estava apavorado. Ele não entendia o que era isso. A ave, em um revoo de sombras sibilantes e frias, que arrepiaram Meine até a alma, pousou diante dele. As sombras se ergueram em uma espiral selvagem, como um furacão. Quando se dissiparam, havia um homem com um joelho no chão e o outro dobrado, tocando o coração com um punho. Estava cabisbaixo, mas Meine podia ver suas orelhas pontudas e os arrepiados cabelos brancos como a neve. Uma capa negra pendia sobre seus ombros, presa por um broche prateado com o formato de uma rosa. Vestia uma diáfana túnica negra e transparente, com um cinturão na cintura e calças apertadas e escuras, igualmente transparentes. Ele era alto e musculoso, mas não no perfil encorpado de Svan. Ah, não, o desconhecido era mais longilíneo.

E ele era um corvo.

Álfa ljóði.

Meine abriu a boca para falar, mas a voz não lhe chegou. O homem lhe tinha falado, mas... Meine acreditava não ter visto sua boca se mover. Seria apenas impressão sua?

–- Quem é você?

As poucas pessoas que ainda transitavam pelo clã já estavam se dirigindo às suas casas, ignorando qualquer passatempo relacionado ao escravo. Ninguém ligava para escravos, afinal.

Sou um svartálfar.

Meine fez uma careta, recuando um passo.

–- O quê?

Você está onde não deveria estar, Álfa ljóði. Com alguém que não deve lhe pertencer.

Continua...