Pesadelos e Sonhos
3 Como tesouro
Como tesouro.
Os olhos pareciam cansados há muito tempo, mas Jill sabia que precisava se afastar da cidade o máximo que conseguisse. Ela estava se sentindo preocupada com Isabel, sentia muita vontade de ligar para casa, mas resistira a vontade por imaginar que seria mais seguro esperar até o amanhecer, até porque não faltava muito.
Nunca estivera com um bebê sozinha antes e estava agradecida pelo fato de Richard não ser mais um recém-nascido, ou estaria desesperada
Olhou pelo retrovisor e percebeu que Richard dormia tranquilamente. Durante toda a viagem o pequeno acordara uma única vez para mamar. Demorou um pouco para aceitar o leite frio, já que não havia como aquecê-lo, mas acabou tomando-o e adormecendo novamente quando o carro voltou a funcionar. Bebês e automóveis combinam, para sua sorte.
Os primeiros raios solares começaram a estampar o céu quando Jill avistou Baycoast. Esperava lembrar exatamente como chegar ao edifício de Claire... e Chris.
Apesar de estar afastada da BSAA depois de Kijuju, ainda mantinha contato com Chris e Claire, se viam regularmente. Pouco mais de um ano e meio havia se passado desde que estivera ali pela ultima vez junto deles. Um dia que representara férias frustrada para todos. Na tentativa de aliviar um pouco toda tensão dos últimos acontecimentos os três planejaram férias. Uma casa de campo os esperava com animais, arvores, flores e muitos frutos.
Conseguiram descansar apenas por três dias e Chris fora chamado para uma reunião de emergência, convencendo Jill a acompanhá-lo. Jill tentara atender o pedido dele, se esforçando por retornar aos poucos para a BSAA, mas entrou em pânico quando ele estacionou o carro em frente a unidade.
_Jill, Jill.
Jill não conseguia ouvi-lo. Estava apenas presa as lembranças do mal que fizera por suas mãos. Sentia-se suja, má, perigosa.
_Afaste-se de mim — ele o empurrou quando ele tentou abraçá-la.
Chris olhava-a assustado e triste. Onde estava a Jill que conhecia, onde estava sua parceira?
Jill abriu a porta do carro e saiu caminhando sem direção. Chris tentou convencê-la a entrar no carro, mas ela seguiu andando.
Naquele instante o celular dele começou a tocar.
_Não! Tenho que resolver algo — ele conversava enquanto seguia ela — Nada é mais importante que o que estou fazendo. Me esperem ou façam a reunião sem mim.
Ele percebeu que ela não parava de caminhar, então apressou-se até alcançá-la.
_Onde você pensa que vai? Entre no carro.
_Me solta, me solta — ela gritou tentando se desvencilhar daqueles braços fortes que a apertavam. Sentia-se sufocada.
_Jill, escute minha voz. Sou eu, parceira.
Ela relutou um pouco ainda até ouvi-lo novamente.
_Jill, você é minha parceira.
Jill afastou o rosto para olhá-lo e se sentiu confusa.
_Ai Chris, me perdoe — disse abraçando-o. — Não sei o que está havendo comigo. Será que esse pesadelo nunca terá fim?
Ele apenas abraçou-a, amargurado por ver aquela que era seu braço direito tão fragilizada. Pela primeira vez depois de tê-la recuperado ele temeu perdê-la novamente.
_Leve-me para junto de Claire — ela pediu
_Eu vou.
Aquela não fora a ultima vez que vira Chris, ele ainda fora visita-la em Wetland antes de partir para outra missõe, e a ultima notícia que tivera dele é que estava indo para Edonia. Mas antes que Jill pudesse se concentrar nas lembranças daquele ultimo encontro ela alcançou a entrada de Baycoast.
Após vinte minutos dirigindo pelas ruas daquela grande cidade parou em frente ao edifício que acreditava ser de Claire e Chris. Desceu e acomodou Richard em seu baby bag. O silêncio das ruas naquela manhã tinham cheiro de segurança, mas mesmo assim Jill resolveu levar sua arma.
Na portaria identificou-se e percebeu que a deixaram entrar sem ser anunciada. Então olhou para o pequeno Richard. 'Quem desconfiaria de uma mulher com um bebê?'
Aparentemente todo o prédio adormecia. Chegou ao apartamento e percebeu que a porta estava semi-aberta. Pegou sua arma e entrou de lado, numa posição que protegesse o menino. E em um momento como esse, nada apropriado, Richard começou a chorar.
_Shhhhhhh.
Jill não sabia o que fazer.
Tentou chacoalhar o corpo, acariciar o bebê, beijar e nada.
Sem escolha, apressou-se a investigar os aposentos. Algumas revistas pelo chão, alguns talheres espalhados pela mesa e gavetas abertas. No quarto encontrou roupas pelo chão.
Richard continuava chorando.
De repente a estante de livros ao lado do quarto abriu de lado. Jill preparou a arma para recepcionar o recém-chegado. E para sua surpresa, uma mulher de cabelos castanhos avermelhados saiu de lá tropeçando e caindo a seus pés.
_Claire!!!.
Jill olhou para aquela mulher tentando levantar e arrumar sua roupa
Meio desajeitada Claire levantou-se rindo. Não conseguia acreditar que ouvira um choro de bebê. Estava escondida imaginando que tipo de terrorista faria um ataque carregando um bebê, mas reconheceu o barulho da bota de Jill. Só não conseguia entender ainda porque Jill havia imitado um bebê. 'Seria um código'.
Mas Claire interrompeu sua risada quando avistou uma pequena cabeça careca no peito de Jill.
'Um bebê?!'
Totalmente sem voz, Claire fitou Jill. Agora tudo fazia sentido. Conseguia entender o comportamento estranho do irmão quando voltou de Wetland pela ultima vez. Provavelmente sua parceira fiel o havia abandonado para se casar, ser mãe.
'Pobre Chris' ela pensou. Como Jill estava diferente. Sempre pensara que nem Jill e nem seu irmão se casariam, pois combater o terrorismo sempre fora o objetivo de ambos.
_Claire, pare!.
_O que eu fiz? perguntou tentando disfarçar o olhar de surpresa.
_Oras, conheço sua imaginação fértil. Não estou casada e este bebê não é meu.
Com o rosto corado, Claire tentou conter o riso.
_Não pensei nada disso, só estava tentando entender a presença desse bebê por aqui.
_É filho adotivo da Isabel, lembra dela?
Claire balançou a cabeça e foi em direção ao bebê, retirando-o do baby carrier.
_Oh que fofinho que você é!
Enquanto Claire brincava com Richard, Jill olhou para a bagunça do lugar.
_Claire, você acha que consegue fazer alguém acreditar que sua casa foi invadida com algumas revistas e talheres pelo chão.
Claire sorriu antes de dizer:
_Vale tentar, não vale?
Jill sentiu vontade de rir pela primeira vez em muito tempo. A presença de Claire era sempre muito agradável. No intimo ela seria sempre uma criança, não importava a idade que tivesse. Talvez por isso Chris cuidava dela sempre com tanto carinho e se esforçava para tentar afastá-la ao máximo dos conflitos, mesmo nem sempre conseguindo.
Claire percebeu que Jill passou os olhos sobre seus ombros e conseguiu ler seu pensamento.
_Ele não está aqui.
_Ele quem? Não perguntei nada.- respondeu ríspidamente.
Os olhos de Claire ficaram marejados e Jill tentou disfarçar o aperto no coração que sentiu, aquele olhar da amiga a preocupara.
_Ele está desaparecido.
Assim como Claire, Jill lutava para não chorar. Abriu os olhos buscando alivia-los e virou de costas para Claire, tentando aparentar menos preocupação.
_Já tem mais de cinco meses que não temos notícias dele. Membros da BSAA estão procurando-o, mas dizem que não devo me preocupar pois aparentemente ele fugiu do hospital por conta própria. Temporariamente sem memória”
_Espero que ele esteja bem — Jill continuava segurando as lágrimas.
_Eu também. Ele estava muito estranho ultimamente, mas sempre me ligava. Sei que logo vai ligar.
Ao pensar no irmão, Claire olhou para o bebê e sua mente começou a trabalhar como sempre.
_Quantos meses ele tem?
_Sete
Claire sorriu ironicamente enquanto seu cérebro começava a fazer as contas. 'Maldita matemática” pensou enquanto se enrolava com o cálculo e Jill a olhava suspeita.
Balançando Richard, fez as contas três vezes até confirmar que Richard não era seu sobrinho. 'Que pena'. Ele é muito novo'
Os anos estavam passando e se perguntava se um dia o irmão lhe daria sobrinhos ou se dedicaria todos os anos de sua vida lutando contra o terrorismo. Ela gostaria que ele e Jill deixassem de ser orgulhosos e se acertassem, mas já havia perdido as esperanças.
Jill tinha coisas para resolver, como ligar para Isabel, mas antes de sair fitou Claire por alguns instantes.
_O que? Eu não disse nada.- Ambas riram.
Jill olhou para Claire e teve uma grande certeza. 'Amigos são como tesouro. E Claire era um diamante.'
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