Pesadelos
15 O Que o Diabo Viu: As Sete Trombetas do Apocalipse
Notas iniciais
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— Não... — Murmurava diante a insistência do outro. Engasgava-se com o próprio sangue, seu corpo inteiro dolorido, repleto de ferimentos. Lucífer parecia não se importar com a criatura agonizando diante de si. Tomou o objeto em suas mãos e andou até onde Kali se encontrava, encostada na parede, mal conseguindo manter-se em pé.
— Gabriel, gabriel... Sempre tão previsível. Ele devia te amar muito pra ser tão estúpido. — Dizia com escárnio.
— Ele era o seu irmão... Por que está fazendo isso? — As lágrimas insistiam em cair. Tentava não transparecer seu sofrimento, no entanto era impossível manter sua máscara impassível perante o assassino de seu herói. O arcanjo salvara-a apesar de tudo e todos. Jamais admitira, mas Gabriel não fora somente um caso: ela o amou e sempre amaria. Mas que a Baldur ou qualquer outro. "Danem-se!"
— O mesmo irmão que me abandonou no Inferno. Tudo que quero é me vingar daqueles que furtaram minha família.
— Lucífer...
— Vou dizer a mesma coisa que disse à Hermes naquela noite: sabe, eu nunca entendi vocês pagãos. Vocês são umas coisinhas tão insignificantes. Sempre lutando, sempre felizes em trair sua própria espécie... - Pronunciou as últimas palavras com enfâse — Vocês são piores que os humanos. Piores que demônios. E ainda sim, se dizem "deuses". - Riu — São apenas os descendentes de um grupo de anciãos revoltados, que perderam o lugar no conselho lá em cima durante a primeira batalha. Tenho pena de vocês.
— Não tanto quanto nós de você... — Debochou. Não se deixaria insultar por Lucífer. Nem mesmo o medo que nutria pelo mesmo a faria calar-se — Vivíamos felizes. Você é a destruição: trouxe o caos, a revolta, o ódio. Um dia já fizemos parte do Conselho Celeste. "Ao redor do trono havia outros vinte e quatro tronos; neles estavam sentados vinte e quatro anciãos, todos eles vestidos de branco e com coroas de ouro na cabeça."* Na verdade, eram trinta: só que ninguém menciona os seis anciãos que você corrompeu. Iludiu, mentiu, persuadiu. Durante a primeira batalha foram expulsos. Caíram na Terra. Depois disso, se auto titularam "deuses". Geraram seus filhos. Pelo menos é a história que meus pais me contavam à dez mil anos atrás. Fomos perseguidos pelo Conselho dos Sete: "Do trono saíam relâmpagos, vozes e trovões. Diante do trono estavam acesas sete lâmpadas de fogo, que são os sete espíritos de Deus."* Miguel liderou a Primeira Batalha. Aquela que você perdeu, se recorda? — Abriu um sorriso triunfante. O sangue escorria por sua boca, conforme pronunciava as palavras — Pobre Lucífer: traído pelo irmão que tanto amava. Gostaria de ter estado lá. Eva era uma dos seis primeiros. É verdade que os Arcanjos são seres cruéis?
— O que me diz de Gabriel? — O olhar frio que lhe foi lançado fez com que uma onda de horror se apoderasse de seu ser — E não se esqueça de agradecer por mim pelo "presente"... Será realmente muito útil pra mim. — O que se sucedeu após a última fala foram gritos de dor, seguidos de um silêncio tenebroso. O corpo que uma vez pertencera a deusa estava agora mutilado. O Diabo andava calmamente, carregando o objeto ornamentado em ouro e prata. Ao todo, eram sete iguais. Duas já estavam em seu poder. Restavam outras cinco. Encontrá-las seria uma tarefa fácil.
Alice acordou no meio da madrugada como à dias não acontecia. De repente, tudo acontecia de uma vez: a conversa dos dois arcanjos naquela praça, o encontro entre Kali e Lucífer... Pelo que percebia, ambos os Generais tramavam alguma coisa terrível.
— Você viu? — Lucífer a fitava vazio. Estava em pé, bem em frente a cama. A menina podia enxergar o rosto em meio a penumbra em que o cômodo se encontrava. Aos poucos, o receptáculo voltava a se deteriorar. Não tornara a ver Miguel, porém, estava certa de que o corpo de Adam também não bastava para contê-lo. Os dois precisavam dos Winchesters — Não vai me responder?
— Embora não seja necessário... Sim, eu vi. — Disse se encolhendo entre os lençois. Encontrava-se sentada, abraçando os joelhos, com a cabeça repousada entre os mesmos - "Os sete anjos com as sete trombetas prepararam-se para tocar."* Você está reunindo as Trombetas dos Sete Arcanjos. Elas irão anunciar o começo do Fim. Assim que a primeira soar, não tem mais volta. Quantas já tem?
— Duas: a Terceira e a Sexta. Encontrei a primeira enquanto escutava uma conversa um tanto quanto interessante. — A oportunidade era perfeita — Estava nas fronteiras do Inferno, quando avistei a Trombeta de Uriel. Ele provavelmente a escondeu antes de ser convocado para consolidar a primeira guarnição de Miguel. Em fim, o importante é que enquanto descansava, ouvi meu irmão falando sobre algo a respeito de você e Castiel.
— Seu irmão vem sendo um bom companheiro pra mim. — Afirmou pouco desconfiada das verdadeiras intenções do caído.
— Não foi isso que eu entendi... — O ar arrogante a irritou.
— Aonde pretende chegar?
— Miguel ordenou a um Cupido que fizesse com que Castiel se apaixonasse perdidamente por você. Romântico, não? — Sorriu — Acho que ele pretende usá-la para derrotar o adversário ao posto de General e a mim, obviamente. Porém, como era de se esperar, cá estou, atrapalhando a armação de meu amado irmão.
— E como fosse de se imaginar, tentando, de forma sútil, fazer com que eu fique exasperada e se junte a você. — O sorriso estampado na face do Diabo, aos poucos, se desmanchou — Quer que eu lhe entregue as demais Trombetas, assim pode começar o Apocalipse! Kali tinha razão: você é um pobre coitado, que se regojiza com a desgraça alheia.
— Cale-se! - Gritou ele, por fim — Quem é você pra me dizer quem eu sou? — Aproximou-se o bastante para erguer o rosto da jovem com violência e a obrigá-la a encará-lo nos olhos — Eu sei muito bem o que eu sou... Eu sou um nada, um nada que se desfaz a cada minuto nas trevas. — A brutalidade com que a soltou, fez com que a cabeça de Alice batesse contra a cabeceira de mármore da cama. Lucífer percebeu que a rispidez com que havia segurado a garota tinha deixado marcas avermelhadas em sua pele, outrora branca e lisa. Voltou a se aproximar e a tocou de forma delicada, fazendo com que a tez da adolescente voltasse ao normal — Me desculpe... Às vezes eu perco o controle. Talvez por isso ninguém goste de mim. – Uma angústia diabólica envolvia o anjo, ele jamais se desculpara e a ideia de estar o fazendo ao ser que mais repudiava o constrangia intensamente. Entretanto, ainda nutria uma afeição por aquela que parecia ser a única a compreendê-lo verdadeiramente. No momento, era a coisa mais próxima de "amizade" que possuia.
— Tudo bem... — Susurrou, afastando-se da mão do outro. Seu rosto ardia cada vez mais — De qualquer forma eu não deveria mesmo ter dito aquilo.
— O que pretende fazer a respeito de Castiel? — Queria esquecer o ocorrido e se concentrar em algo que lhe interessava.
— Ainda não sei. — Suspirou, deitando-se, cansada — É melhor que você vá embora...
— Lembre-se que não estou tentando forçá-la a nada. — Disse já de costas.
— Não é fácil me convencer... — O sono já tomava conta de si, aos poucos cerrava os olhos — Você está dizendo a verdade?
— Por que mentiria?
— ... — Alice já havia adormecido.
— Dessa vez tívemos uma conversa. - Satanás apenas sorriu uma última vez antes de partir.
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