Pesadelos
16 Inferno no Paraíso
Notas iniciais
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Prisão Celeste: um termo mais elegante para se referir ao Inferno no Paraíso. A cela se encontrava mal iluminada. Em meio a penumbra, a figura debilitada do arcanjo destacava-se, caída ao centro. Descrever sua forma divina seria algo impossível. No entanto, os cortes que as Armas do Céu e as correntes que o aprisionavam haviam deixado permaneciam visíveis. Ao invés de sangue, água escorria de seus ferimentos. Samuel estava morrendo. Porém, pior castigo que a Morte era sofrer as constantes torturas às quais era submetido. Solidão: algo com o que se habituara durante os últimos três anos, quando tentou impedir que Miguel desse início à Guerra.
— Olhe só o que o General fez com você, meu irmão. — A voz soava-lhe familiar.
— O que faz aqui, Raphael? — Balbuciou, levantando os olhos, onde um misto de curiosidade e perplexidade se formava com a presença súbita do outro.
— Venho em nome de Lucífer, para lhe propôr um trato.
— Suas palavras me surpreendem. — Sorriu sarcástico — Pensei que servisse à Miguel.
— Na verdade, as coisas mudaram desde que eu assumi o posto de Líder durante o último ano...
— Então decidiu se rebelar também?
— Antes tarde do que nunca, não concorda?
— De fato. — Suspirou — Entretanto, suponho que nosso irmão não faça favores sem cobrar um preço. O que ele deseja?
— A Trombeta que você possui.
— Hum... Entendo. — Pareceu refletir por um instante — Estão tentando reunir as Sete. Quantas possuem?
— Até agora, três: a Quarta, a Quinta e a Sexta.
— Creio que obter a Sétima não será um problema, já que Ezequiel sempre "joga no time vencedor". Mas ainda precisam das de Miguel e Jofiel. E eu, de um receptáculo.
— Posso interpretar isso como um "sim"?
— Depende: pode me tirar daqui?
— Fez a escolha certa, irmão. — Pouco depois, ouve-se um ruflar de asas: Raphael havia partido, e levado consigo Samuel.
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Miguel descansava sobre a relva verdejante de uma das clareiras do Éden. Contemplava a natureza magnífica do Paraíso, enquanto pensava sobre o rumo que a Guerra estava tomando... De repente, ouve-se uma grande confusão. Seus irmãos diziam coisas sem sentido, todos discutiam ao mesmo tempo. Era impossível entender. Concentrou-se, fechando os olhos, afastando os muitos pensamentos que inundavam sua mente.
— General? — O Arcanjo chamou-o, hesitante.
— O que está havendo, Jofiel? — O mesmo surgira a sua frente, fitando-o pouco nervoso.
— Meu irmão, temo em ser o portador de más notícias. — Respirou fundo antes de prosseguir. Estava ciente de que a notícia enfureceria o mais velho — Raphael libertou Samuel da Prisão Celeste. Segundo o que soube, ambos se rebelaram e juntaram-se a Lucífer.
— O QUE? — Trovões e raios se propagavam, incessantes, acarretados pela fúria do Príncipe, que transformara o dia calmo, numa tormenta tempestuosa. Os ventos sopravam forte, o céu se tornava escuro — COMO ASSIM ELES FUGIRAM? POR QUE RAZÃO ESSES TOLOS RESOLVEM SE REBELAR NUM MOMENTO TÃO DECISIVO COMO ESTE? SE PREFERIAM LUCÍFER, DEVIAM TÊ-LO SEGUIDO DESDE O INÍCIO! COVARDES!
— Controle-se, Miguel! — Pediu, sereno. Aos poucos, a chuva parou de cair, e as nuvens foram deixando o céu nublado — Acho que sei o porque de Lucífer precisar de nossos irmãos.
— E qual seria? — Perguntou, mais calmo.
— Ele está reunindo as Sete Trombetas. Ao que sabemos, já conseguiu quatro.
— Não importa: elas não tem valor algum se não estiverem junto das outras três. São como uma escala musical — Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si. Sete notas. Sete Instrumentos. Uma completa a outra. Sem todas, ele jamais poderá entoar a melodia. E eu posso afirmar com absoluta certeza que eu jamais me renderia a essa aberração.
— Eu também não. Sabe que eu nunca deixaria-o, meu General. — O Arcanjo fez uma pequena reverência perante este.
— Sim, você é de minha confiança, Jofiel. No entanto, Raphael também já foi meu soldado mais confiável e veja o que aconteceu. — Proferindo tais palavras, desapareceu.
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Samuel trajava agora um elegante terno negro. Sua casca estava impecável. Ele e os outros dois conversavam num luxuoso salão de uma mansão.
— Devo admitir: esse lugar é bem melhor do que aquela maldita cela.
— Problemas no Paraíso? — Lucífer gargalhava — Bem, de qualquer forma, fico feliz que tenham resolvido se juntar a mim, irmãos.
— Penso que esta era a escolha mais favorável que tinha no momento. Era isso ou continuar sendo o bode-expiatório daquele cretino. — Os meses de tortura pelo qual Samuel passara na Prisão Celeste o fizeram odiar ainda mais seu "ex-General".
— Sim, as ordens de Miguel já estavam mesmo me aborrecendo. — Raphael bufou — Ele mudou muito desde que retornou, Lucífer. Está mais... cruel. Eu nunca o vi assim antes. Aconteceu algo lá embaixo, General?
— Não... — O comentário o fez engolir em seco: a verdade é que muito havia ocorrido durante os anos em que ficaram presos no Inferno. As discussões, as torturas as quais submetiam as almas de seus receptáculos, e um fato em especial do qual nunca se esqueceria.
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