Pesadelos
27 Este é o Fim: Meu Último Pesadelo
Notas iniciais
●๋•..●๋•
O dia mal amanhecera e Sam já havia preparado as armas e tudo mais que julgava necessário para levar consigo. Bobby também terminava de arrumar suas coisas, quando foram surpreendidos com a chegada de Castiel e Jofiel.
— Está tudo pronto? — O arcanjo encarou o rapaz que simplesmente assentiu com um meneio de cabeça — Ótimo. Nós falamos com os nossos irmãos e, felizmente, nem todos concordam com Lucífer e alguns acreditaram no que contamos sobre Miguel. — Sorriu, aparentemente satisfeito — No entanto, a maioria acha que nós dois — Se referia a Cass e ele mesmo — somos uns safados mentirosos que só estão conspirando contra o justo General pra que a anarquia se instale novamente e que uma nova Guerra Cívil tenha início.
— Isso aí é culpa sua. — Singer fitou Castiel como se dissesse que os anjos o enxergavam como caído por ter firmado uma aliança com Crowley.
— É, eu sei. — Parecia arrependido — Mas não importa agora: ainda podemos vencer. — Olhou para Sammy, que ouvia sem nada dizer — E salvar Dean e Alice. — Ambos tinham algo em comum: amavam o loiro e a menina, e fariam de tudo para tê-los de volta — Eu só preciso que confie em mim.
— Hm. — O mesmo hesitou. Aquela pressão à qual estava sendo submetido pelo anjo o incomodava. Não tinha resposta. Só o que sabia é que seu irmão se arriscara por si da mesma forma antes, assim como Alice, e não poderia deixar por menos: precisava retribuí-los — Acho melhor irmos agora. — Foi o primeiro a deixar a casa, rumando até o pátio onde as carcaças de velhos automóveis situavam-se. Bobby o seguiu. Uma despedida muda, do cenário que fora a coisa mais próxima de um lar que tiveram em toda vida. Um sorriso. Haviam partido, deixado todo o passado para trás, e com este as esperanças de um dia regressar. Se agarrado às incertezas do futuro — se é que teriam um.
●๋•..●๋•
Uma trilha de sangue ia se construindo pelo caminho em que o corpo era arrastado. A visão turva impossibilitava-o de enxergar a relva com clareza. Não tinha ideia de onde encontrava-se. Beirava a inconsciência, porém tentava permanecer acordado. Como fora tão tolo? Medo. O pavor da ira de Lucífer recaída sobre si bastou para se entregar às promessas do lado inimigo. Sempre fora um bom negociador. Talvez devesse ter avaliado melhor suas propostas. Jamais temera o Diabo, à ponto de iniciar uma rebelião contra o mesmo. Tomou o lugar de "Rei", pertencente à este, surrupiou o trono do verdadeiro soberano e não se arrependeu; iludiu até mesmo os que salvaram sua vida, talvez o mais próximo de amigos que tivera em muitos anos. Os enganara, mentira, tramara contra suas vidas e agora se perguntava: valera a pena? Quem sabe, se tivesse mantido-se fiel aos Winchesters como Castiel fizera-o não continuasse contando com seu apoio e proteção... Ao invés disto, com a volta daquele que causara a desgraça, procurou por Miguel, na falsa esperança de que este aceitasse sua oferta e o escondesse de seu irmão caçula. O retorno de Lucífer significa sua ascenção no Inferno mais uma vez, o que queria dizer a punição dos desertores. Sem nenhum aliado, Crowley fora consumido pelo desespero. Agarrou-se a única oportunidade plausível que vira, de vender informações ao General adversário. Tudo isso por que? Orgulho. Nunca se submeteria a humilhação de admitir seu erro. Fora preferível ser enganado por Miguel ao recorrer aos Winchesters."Justo." Pensou "Afinal, o feitiço se virou contra o feiticeiro: eu minto, ele mentiu; sempre trapaceei, fui passado pra trás. Este é o fim: o meu fim." O olhar frio do próprio Satanás fez com quem sentisse ainda mais medo do que viria. Frente à frente com aquele que ousara ludibrirar, este com certeza não teria misericórdia.
— Boas notícias: você vai viver pra sempre. - Lucífer sorria: sua expressão sádica típica, a mesma que esbolçava quando estava prestes à cometer uma barbária.
— Você... sempre... soube? — As palavras cortavam sua garganta, para sair quase que num sussuro inaudível. Voz fadigada. Estava muito ferido. Miguel descontara toda sua frustração em si. E agora, vendo este junto do Diabo, tinha uma ideia do que se passava.
— Estou um passo a frente de você, coisinha insignificante. — Debochou.
— Se fosse realmente assim... Dean Winchester... não teria... derrotado-o tão... facílmente... — Num esforço sobre-humano, sorriu. "Meu último sorriso." Ainda não reconhecia o lugar para onde fora levado, mas distinguia perfeitamente o ódio na face do Diabo.
— Olhe pra mim, Crolwey! — Miguel o encarava aborrecido — Estou pagando caro por minha interferência, quer acabar como eu? — Falava como se fosse mesmo o loiro.
— O que... está acontecendo? — Lutava para colocar-se de pé, porém esta era uma tarefa que soava quase que impossível.
— Ele tem razão, Lucífer. — Uma quarta voz fez-se presente, e só então o demônio notou a presença de um terceiro elemento ali, junto de seu carrasco — Por que me pediu para acompanhá-lo? O que Miguel faz aqui com essa... coisa? — Completou para Crowley com repulsa.
— Vamos fazer uma troca. - Respondeu simplesmente.
— Uma... o que? — O arcanjo o fitava de esguelho sem compreender.
— Você pelo bastardo aqui. — Miguel falava de um modo diferente, era como se sua personalidade tivesse fundido-se à do primogênito dos Winchesters.
— Não seja ridículo: Lucífer nunca... — Antes que pudesse prosseguir, foi surpreendido pelo mesmo, que feriu-o profundamente sem sequer aproximar-se ou mirá-lo — Argh... O que você fez?
— Estão punindo os desertores... você e eu... — Crowley agora enxergava o plano todo: o conspirador pelo traidor. Parecia tão óbvio!
— Já chega. — Miguel ergueu o antigo tenente no ar — Vamos nos livrar da escória o mais breve possível.
— Meu irmão é sempre tão violento... — Lucífer se dirigia a Crowley, que o encarava visívelmente assustado — Ele acha que ameças funcionam melhor do que manipulação. — Suspirou — Bem, cada um tem seus meios. Não que eu discorde dele, pois às vezes... Uma boa surra faz bem às crianças. — Sorriu. Gritos estridentes podiam ser ouvidos ao longe. Durante exatos quarenta e três segundos ecoram sem parar. De repente, silêncio. Estavam mortos.
●๋•..●๋•
Era uma linda manhã. O tempo não estava fechado, como era de se imaginar. Em verdade, não existia uma nuvem sequer presente no céu límpido, onde o Sol resplandecente iluminava as ruas pacatas dali. Porém, diferente do que os irmãos chamariam de "normal", as ruas estavam desertas. E não havia crianças brincando ou pessoas conversando na cidade; vitrines quebradas, árvores que tinham tombado; veículos destroçados... Isso lembrava muito o "primeiro encontro" oficial que haviam tido com Lucífer. Demônios possuindo a população local, terror, pânico... mortes. Sim, a própria Morte. Mas havia algo diferente. Desta vez, sem sobreviventes escondidos. Sem dois Exércitos se enfrentando com fúria. A garota não estava lá.
— Tem certeza? — Castiel o encarou, preocupado.
— Sim, está escrito bem aqui, olha... — Disse, mostrando o caderno que passara a carregar consigo — Era pra ela estar bem aqui. Eu não entendo! — Bufou — Não conseguem nem sentir a presença dela? — Fitava os dois anjos com um olhar suplicante.
— Lamento. — Jofiel negou.
— Mas, daquela vez, com os ceifadores... — Tentava criar argumentos em vão.
— Foi diferente. Ela é diferente. — Todos calaram-se. O pequeno grupo voltou-se para ver a cena mais chocante e deplorável até o momento: Dean (Miguel), banhando em sague, com uma expressão fria de escárnio que o caçula jamais vira anteriormente, junto de Lucífer, ainda mais repulsivo do que da última vez que fora visto, carregando as carcaças de Raphael e Crowley, respectivamente — Como pode? — O arcanjo de dirigia ao irmão mais velho, com um olhar decepcionado.
— Pensei que nunca fosse me deixar. — Falou de forma fria, atirando o cadáver desfigurado de encontro ao asfalto.
— Isso foi quando eu ainda acreditava que fosse nobre. — Respondeu, com certo rancor — Quando os outros souberem...
— Eles nunca irão saber. — Lucífer cortou-o — Vamos aniquilá-los, e depois...
— Vai ser como se jamais tivesse acontecido. — O modo como Miguel falava denotava toda a sua indignação e temor caso alguém mais soubesse do que se tornara capaz.
— Sammy, é bom vê-lo. — O Satã agia como se não fosse nada de mais, e ambos estivessem apenas tendo uma conversa amigável — Diga de uma vez, acabe com isso de uma vez e evite ver seus amigos perecerem. Faça como seu irmão.
— Não. — Recuara um pouco. O jovem engolira em seco. Era como se todos os seus medos súbitamente houvessem se tornado reais.
— Não é à eles que vocês desejam, mas sim a mim, não? — Castiel avançara alguns passos. Seus irmãos se olhavam, intrigados com sua atitude. A verdade era que as palavras de Alice ainda estavam vagando em sua mente...
— Não. Não faz ideia, não é? - Dizia, visívelmente alterada — O Apocalipse, Destino, no final, vocês mudaram TUDO! E se agora os dois estão mais furiosos do que antes é porque VOCÊ — O apontava acusadoramente — e o IDIOTA do Crowley refizeram todo o Paraíso e o Inferno, numa conspiração inútil contra Raphael. Tentaram reescrever a História. "Um novo Deus e um novo Diabo", não era isso que Crowley dizia? — Riu — Quanto vale uma vida? Qual o preço de uma alma? Dez anos? Quer saber, isso tudo é culpa MINHA: Eva tinha razão, se eu não tivesse interferido, o que aconteceu não teria acontecido, meus pais ainda estariam vivos, você não estaria pensando que sente alguma coisa por mim, Lucífer e Miguel não estariam trabalhando JUNTOS! Este é o Fim, e não tem mais volta... — Sussurrou, antes de desaparecer diante dos olhos do anjo que, sem sucesso, tentou segurá-la.
— Já o matou uma vez. Me dê esta satisfação agora... — Miguel sorria para Lucífer, que retribuia-o com um olhar malígno de aprovação — Imagine o quanto não vai ser doloroso para Dean assassinar o melhor amigo com as próprias mãos. — Riu. Agarrou-o pelo sobretudo, porém, antes que pudesse ferí-lo, alguém o impediu de prosseguir.
— Por favor, parem! — Alice surgira do nada entre os dois Generais e tentava afastar as mãos de Miguel de Cass — Eu faço qualquer coisa, só... Deixa ele em paz. — Estava aturdida.
— Alice? — Sammy tentara se aproximar, porém Lucífer o cessara prendendo a garota, segurando-a pelo ombro com certa agressividade — Solta ela! — Rangeu os dentes. Não ia permitir que também machucassem Alice, isso nunca.
— Você sabe o que tem que fazer! — O Diabo provocava-o.
— Não! — Alice falou com convicção — Vocês ficam aí. — Se referia a Sam, Bobby e Jofiel, que concordou — Miguel, larga o Cass. — Ambos a fitavam estupefados, sem nada compreender.
— Como escapou? — O tom do arcanjo soara-lhe confuso.
— Isso é impossível. — Castiel silabou.
— Faz o que eu mandei, droga! — Berrou, alterada. Estranhamente, o loiro obedeceu — Tire suas mãos de mim. — Sussurrou ao caído, que também tomou distância.
— O que está acontecendo? — Encarou o outro, que igualmente não sabia responder.
— Eu cansei de vocês, é o que está acontecendo. Eu odeio TUDO em vocês! Esse jeito de agir, essa maneira de pensar... Inescrúpulosos, cruéis, estou cheia! — A ira se apossara da mesma.
— O que vai fazer? — Miguel a fitava cético e, diante do silêncio da adolescente, prosseguiu — Dean é meu, Castiel também. Em breve estarão todos mortos!
— Você fala como se eles fossem coisas! — Gargalhou, irônica.
— E você é muito petulante. Merece um castigo... — Ódio. A humana que, para ele, era o símbolo do descaso de Deus consigo, junto daquele que tomara o seu posto de General. Primeiro tivera que lidar como irmão caçula sendo o preferido do Pai e agora, quando finalmente obtinha a chance para provar seu valor, Castiel era visto como "escolhido". Sem pensar duas vezes, acometido da cólera que Alice o causava e o desprezo que nutria por ele, atravessou com sua espada o peito de Castiel, perfurando sua essência divina, fazendo com que a vida do anjo aos poucos se esvaísse.
— NÃO! — Ela gritou, quando o corpo dele foi de encontro ao solo, num baque surdo.
— Se eu amar,... irei me desfazer aos poucos... e virarei pó... — O anjo levantou o rosto pra encará-la. Ela limpou inutílmente a face, pois as lágrimas insistiam em cair — Eu... Sinto muito. - Incapaz de suportar o peso daquele olhar, cerrou os olhos. Doía tanto... — Acho que agora... não faz diferença.
— Cass... — A menina chamava baixinho — Cass...
— O trato terminou, Lucífer. — A voz de Miguel parecia-lhe distante — Agora devolva.
— Eu não sou tão burro assim, irmão. — Retrucou.
— Não me obrigue a... — Ameaçou.
— Tarde de mais! — Puxando a Primeira Trombeta, tocou uma melodia maravilhosa, que bastou para fazer com que Miguel se contorcesse de dor — Agora é cada um por si.
— Vai pagar! — Vociferou.
— Alice, vem! — Sammy se aproveitara da distração momentânea dos anjos que discutiam para aproximar-se da jovem e tentar afastá-la dali — É muito tarde pro Dean e... pra ele. — Se referia a Cass.
— NÃO! — Ela berrou, distanciando-se do toque dele, como se implorasse para ficar. Ignorou-o — O que eu disse... Me perdoa... Foi culpa minha...
— Tudo bem... — O sangue jorrava de seus lábios, escorrendo por sua pele alva, pálida, quase sem vida — Eu... nunca vou me esquecer...
— Não... Por favor... — Em meio aos lamentos, Lucífer já estava entoando o Quarto dos instrumentos. Era uma música triste. Miguel continuava gritando algma coisa incompreensível e tentando impedir o irmão, porém Alice não se importava — Fica comigo.
— Não posso...
— Não vai...
— Sinto muito... — A luz começava a brotar do seu interior. Ela sabia o que aquilo significava: era adeus. Um beijo: não o primeiro, mas o último. Não havia doçura, nem mesmo paixão. Era desespero, pura tristeza e sofrimento... Os lábios frios dele... A mão macia dela repousada sobre sua face. Bem ao lado, Sammy e Bobby a encaravam com pêsar. Jofiel prestava atenção à Sétima das canções que o Diabo tocava. Muito linda. Representava a destruição. Miguel continuava a perseguí-lo, sem obter sucesso. A menina chorava desolada sobre o cadáver de outro de seus irmãos. Não havia nada que pudesse fazer. Por isso, limitou-se a contemplar a cena. Era o fim.
— O dia está tão lindo... — Murmurou para ela — Acorde!
●๋•..●๋•
Bip... Bip... Bip...
Estava deitada. Mesmo sem enxergar, podia sentir que o local estava bem iluminado. Aliás, que lugar era aquele?! Mesmo hesitante, decidiu-se por abrir os olhos.
Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.......
O aparelho apitou, súbitamente, a assustando. "Estou morta." Foi o primeiro pensamento que passou por sua mente. Sentou-se na maca e olhou ao redor do cômodo. Estava sozinha. O quarto branco, o soro, a roupa de enferma... Estava num hospital.
— Ela acordou! — Robert abrira a porta de supetão. Vestia o jaleco e as luvas que compunham seu uniforme de médico. Mirava Alice com surpresa e admiração — ELA ACORDOU! — Bradou, em meio a alegria de ter sua filha de volta. Mal podia acreditar, estava em choque. Seria mesmo verdade ou apenas outro de seus sonhos?
— Pai? — Ela o chamou, desnorteada.
— Eu estou aqui, Bonequinha... — Abraçava-a com intensidade — Papai está aqui...
— Alice! — Suzanne se juntara aos dois no abraço, e entre sorrisos e soluços, acariciava as madeixas da filha — Pensei que nunca fosse acordar... Graças a Deus!
— Mamãe? — Confusa, tentava entender o que de fato se passava — O que foi? Por que estou num hospital?
— Querida, você esteve em coma... Por semanas! — Completou, após um suspiro de alívio — Mas agora está tudo bem... Você está aqui! — Sorriu, segurando seu rosto entre as mãos.
— Não... Foram vocês que morreram... — Nada fazia sentido.
— Não, não querida: foi você partiu por alguns minutos. — Ainda trêmulo e em choque, tentava explicar o que se passara — Sua mãe estava te levando pra escola com a Sophie, quando um caminhão desgovernado bateu no carro... Tudo bem, tudo bem, a sua amiga não se feriu gravemente, sua mãe também não. Só que você... — Fazia um esforço para conter as lágrimas que insistiam em correr pela face agora sorridente — Você ficou em coma, filhinha. Durante semanas papai tentou te trazer de volta... Só que ele não conseguiu.
— Não importa, Robert. — Sua esposa o consolava, também abalada — Ela acordou. Vai ficar tudo bem... Tudo bem...
— Mas... e os garotos, o tio Bobby, os anjos, Eva e... — Não conseguia formular um argumento coerente.
— Eu sei, filha. É muita coisa, você está confusa. Nós entendemos. Vamos te deixar descançar, logo você vai voltar pra casa e ficar boa... — Sua mãe tentava tranqulizá-la, quando...
♫ "I've waited, but i'll wait forever for you to come to me.
(Eu já tinha esperado, mas esperaria para sempre que você viesse para mim.)
Look at someone (look at someone)
[Procure por alguém (Procure por alguém)]
Who really loves you, yeah, really loves you.
(Que realmente ame você, yeah, realmente ame você.)
Turn around, look at me.
(Vire-se, olhe pra mim.)" ♫
— A mesma música... — Balbuciou, olhando o rádio ao seu lado, sobre a mesinha junto da maca.
— Sim; — Robert percebeu ao que o olhar perdido da filha se dirigia — Sua mãe e eu achamos que seria bom pra você ouvir um pouco de música enquanto estava... dormindo. Se lembra?
— Acho que sim... — Assentiu, ainda pasma — E o meu diário?
— Está aqui, querida. — Suzanne puxou uma mochila de onde tirou o caderno e entregou-o a filha — Trouxemos roupas, seu celular, e como eu sei que você adora escrever e desenhar, pensei que seria uma boa ideia trazer ele também. Assim você não ficaria entediada quando acordasse. — Sorriu.
— Vamos, amor. A Alice precisa descansar um pouco; e falo como médico. — Dizia enquanto conduzia a esposa até a porta, que o acompanhava à passos hesitantes — Tudo bem, tudo bem. Ela vai ficar muito bem. — Repeita baixinho.
Mais uma vez sozinha, Alice folheou o caderno sem compreender. As anotações que fizera, era como se nunca houvessem existido. Ao invés disso, um texto, que não era de sua autoria:
"As horas não passam e eu me sinto só... A chuva molha meu corpo... Na garganta se forma um nó... Sentada nesse balanço velho, onde apenas o ranger do ferro me faz companhia... Meus sapatos sujos de barro... Meu vestido branco da Eucaristia... Um laço vermelho em meus cabelos, mudando o contraste do puro... Daqui, vejo pessoas andando em minha volta, ninguém realmente me vê... Ninguém está seguro... Meu sangue foi rejeitado... Minha familia não tem origem certa... Incerteza é tudo o que tenho de meu... Verdade para mim é uma droga que se compra em festas... O relógio da Igreja mostra que a noite logo chegará... Mas por que devo retornar? Para que vou me prender a tortura das perguntas infinitas? Não... Vou apenas ficar aqui vendo a noite chegar... Perdida nesses pensamentos... Perdida no meu mar...
No céu, pequenos pontos de luz começam a se formar... As pessoas ainda passam a minha volta e o barulho do ferro ainda me faz companhia...
"Preciso de você"... Sussurro... "Quero você comigo"... Imploro...
Não tenho respostas: apenas deixo as lágrimas molharem meu rosto... Uma pessoa me olha de longe, em minha face apenas desgosto... Sinto medo do que pode acontecer... O mundo é perigoso, e eu estou aqui apenas com o barulho do ferro... Ele dá um passo a minha frente... Mas recua... Fecho os olhos e respiro fundo... Eis que vejo meu salvador... Sobre a luz da lua, vejo sua face alva... Meu anjo bom... Você vem me salvar... Paramos no meio da rua. A chuva nos molha agora e eu olho para a lua... Agora vejo seu olhar...
A lua se fez presente nesta noite de salvação... Você me estende a mão como num gesto de paz... Para mim, apenas a palavra "amor" pode ser usada em momentos iguais... Você sorri para mim com uma inocência tão grande que me faz emocionar a alma... Tudo de puro reluz em teus olhos... Tudo de mais santo ilumina seu sorriso... Só pode haver paz dentro de ti... Mesmo assim, eu tenho medo... Medo de ser apenas humana... Medo de ser feliz....
"Eu escolhi você"... Ele diz, com seus olhos azuis... Sua voz macia como música ao vento.
"Então fique aqui comigo"... Eu digo com toda minha incerteza.
"Sou anjo, sou de Deus"... Sua voz é grave agora... Perfeita, cheia de sentimentos.
"Sou humana, também pertenço a ele"... Ele aperta meus dedos em contração a seu peito...
Paramos no meio da rua... A chuva nos molha... Olhamos a lua... O ranger do ferro já não me incomoda mais, penso em tudo o que vivi e penso em meus pais... Penso em Deus, que me vê nesse momento ao lado de um soldado seu... E me sinto perfeita por ser dona do amor do anjo... O anjo que sabe amar... Agora é inevitável — Vou aprender a voar..."**
— Foi tudo real... — Sorriu — O meu pesadelo.
●๋•..●๋•
Fale com o autor