Pesadelos
22 Canções
Notas iniciais
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"Tenho medo do escuro..." Foi a primeira coisa em que Alice pensou ao notar a presença de diversos vultos na penumbra. Mumúrios e risadas alegres, vozes familiares, aquilo tudo a confundia e assustava ao mesmo tempo. Estreitou os olhos na tentativa de ver o que se passava, quando foi surpreendida.
— ♫ Parabéns pra você... — Palmas soavam enquanto a música era cantada. Um "8" se destacava em meio a escuridão, emitindo luminosidade suficiente para que pudesse enxergar a mesa repleta de guloseimas: era uma vela cor-de-rosa, que se encontrava sobre o bolo branco. Só então percebeu o laço vermelho que prendia suas longas madeixas, combinando com o vestido igualmente rubro. Fitou os pés, surpresa, contemplou os sapatos de boneca e meias brancas, os quais não lhe serviam desde que completara seus 10 anos...
— Amor, faça um pedido! — A perplexidade tomou conta de sua expressão ao deparar-se com o sorriso iluminado da mãe, que aparentava estar alguns anos mais jovem.
— É, Bonequinha: apague as velinhas... — Era Robert que segurava uma câmera analógica, das quais não se viam mais desde o lançamento das digitais. A luz que o flash emitiu a fez cobrir o rosto com as mãos e, quando se deu conta, seus pais a abraçavam carinhosamente — Nossa, eu nem acredito que a nossa menininha já está com 8 aninhos! — As palavras ditas pelo pai fizeram com que Alice se afastasse de súbito e corresse até a primeira porta que viu. Tudo se parecia exatamente com o que recordava-se do seu oitavo aniversário...
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Um jardim. Repleto de belíssimas tulipas. Aquela casa... Não lhe era estranha. Mas, seria possível? Quer dizer, já fazia tanto tempo! Foi quando ouviu a música.
♫ "Tiptoe, through the window,
(Na ponta dos pés, perto da janela,)
By the window, that is where I'll be
(Na janela é onde eu vou estar.)" ♫*
Era algo que já ouvira antes mas não estava certa de onde tal som vinha... Então, notou que ele estava parado, a observando de dentro da casa, através de uma das janelas.
— Alice, entre. — Sorriu-lhe. No mesmo instante, ela ficou imovél. Seus olhos levemente arregalados, vidrados na figura já conhecida, que agora se encontrava na varanda, em pé, bem em frente a porta principal — O que foi, querida? Aqueles pesadelos ainda andam te incomodando? — Seu avô era a única pessoa com quem Alice conversava abertamente a respeito dos sonhos. No começo, tentou contar aos pais, porém esses não lhe davam ouvidos. Diziam para parar de ver esses filmes de monstros, que deveriam ser a causa do problema, coisa que esta adorava fazer. Arriscou, no entanto, não teve êxito algum. Sua mãe, como advogada ocupada que era, nunca tinha tempo para ouvir a filha. Robert era um médico, e como tal, estava sempre a lhe falar que seus pesadelos não passavam de imaginação, fruto de algum delírio da jovem. Sendo assim, com o passar do tempo, Alice desistiu de convencer os pais da veracidade de seus relatos e começou a "fingir" que estava tudo bem depois de algumas semanas. Quatro meses pra ser mais exata, quando deixou de ter visões terríveis de um rapaz sendo torturado. Não enxergava o espaço físico em si, apenas a escuridão e, em meio a esta, o sofrimento de Dean Winchester. Era irônico: mal sabia ela que, assim como quando o conhecera, naquele momento, o jovem era torturado... — Está tudo bem, meu anjo? — A voz de Phillip Drummond** a fez "despertar" súbitamente. Podia confiar no avô, isso era um fato. Ele acreditou nela quando mais ninguém acreditava, escutava-a narrar os acontecimentos dos sonhos e, inclusive, fora este que lhe dera a ideia de escrever num caderno tudo o que via. Isso até que viesse a falecer, pouco mais de dois anos atrás. Então, devia estar no Paraíso, certo?
— Estou, vovô. — Disse já o abraçando — É tão bom vê-lo novamente... — Não podia conter as lágrimas — Por favor, não vá embora outra vez!
— Querida, do que está falando? — Parecia confuso — Eu ainda estou aqui. E jamais iria te deixar... Venha, entre, melhor eu avisar a sua mãe que você veio pra cá.
— Vô... — Agora chorava baixinho.
— Alice, o que aconteceu? — Perguntou, abaixando-se para ficar da altura dela — Você é sempre tão segura de si, nunca se permite derramar uma única lágrima... Conte pro seu avô o que houve!
— Eu... não sei... — Falava entre soluços — Me tira daqui, por favor... Eu não aguento mais! — Foi então que a canção que continuava a tocar cessou-se e uma outra música, já conhecida dela, pode ser ouvida.
♫"There is someone who really needs you,
(Há alguém que realmente precisa de você,)
Here's my heart in my hand.
(Aqui estou, com o coração na mão.)
Turn around, (turn around), look at me, (look at me)
[Vire-se (vire-se), Olhe pra mim, (Olhe pra mim)]
Understand,understand.
(Entenda, Entenda).
Vagarosamente, a adolescente levantou o rosto para encarar aquele que tinha as mãos sobre seus ombros. Seu avô havia desaparecido. Seus olhos se encontraram com os azuis profundos, repletos de carinho. Um meio sorriso se formou na face do anjo.
That there's someone who'll stand beside you.
(Há alguém que aparecerá ao seu lado.)
Turn around, look at me.
(Vire-se, olhe pra mim.)
And there's someone who'll love and guide you.
(E há alguém que irá amar e guiar você.)
Turn around, look at me.
(Vire-se, olhe pra mim.)"♫***
- Castiel? — Continuava a fitá-lo, confusa.
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