A prisioneira teve um pequeno ataque de pânico depois que Maximus a deixou sozinha naquele salão com tronos. Ela não sabia o que exatamente deveria fazer, se esperava ou saía daquele lugar tão frio. Bom, se preocupar em estar sozinha sem saber o que aconteceria em seguida era melhor do que lidar com o fato de que estava literalmente no inferno. A prisioneira decidiu que depois se descabelaria com esse pequeno fato, pois se ela se permitisse se partir nesse momento, tinha uma leve sensação de que não conseguiria se reerguer.

Ela tinha que ignorar onde estava para sobreviver, pois o perigo eram as pessoas que habitavam o inferno, não o lugar em si. E sua preocupação no momento era o arcanjo de cabelos dourados que aparentemente, depois de tentar matá-la, iria ajudá-la a voltar para casa. Porém, o que ele pedia em troca era algo completamente complicado.

A prisioneira não conseguia nem sequer pensar que confiaria nele, mas também, ela não tinha outra saída. Maximus, assim como os outros arcanjos, dissera que sua mente era impenetrável e pelo o que ele disse, a única maneira de tornar isso diferente era que ela confiasse nele para que pudesse quebrar todos seus escudos e chegar em suas memorias. E, infelizmente ou felizmente, a prisioneira iria fazer o que ele pediu. Afinal, que escolha tinha? Aceitar a ajuda de uma pessoa, que apesar de ter tentado matá-la, demonstrou que iria levá-la para casa ou fugir desse lugar que todos chamavam de castelo e caiar nas garras de sabe lá o que que existia la fora?

Ela definitivamente ficaria com a primeira opção, pois ela conhecia Maximus somente um pouquinho para saber de que ficar próxima dele era mais seguro do que lá fora. A prisioneira podia até mesmo considerar ele como o inimigo, mas antes acompanhada com alguém considerado assim do que só. Então, ela faria o possível para cofiar naquele anjo arrogante, e caso ele estivesse mentindo e planejando algo diferente do que dizia... Que diferença faria?

A prisioneira, nos próximos dias, iria planejar um plano B para caso sua convivência com Maximus fosse para as ruínas e ele se demonstrasse ser um monstro maior do que aquele cão com doenças. Mas por em quanto, ela não tinha nada além de acreditar nas palavras dele. Seu primeiro passo para a confiança seria acreditar em suas palavras fielmente.

E o anjo podia ser nada diferente de uma pedra quando se tratava de revelar o que sentia, mas naqueles olhos de felinos, ela viu que ele não a machucaria. Não fisicamente, pelo menos, e ela acreditava que isso era o suficiente, pois não existiria outra forma de machucá-la.

Ignorando seus pensamentos por um momento, para que pudesse relaxar, a prisioneira estava pronta para sentar quando as duas portas duplas e grandes foram abertas novamente. Aquela mulher que havia levado comida para ela até sua cela mais cedo naquele dia entrou, seus dedos estavam entrelaçados em frente de seu avental branco em quanto caminha na direção da prisioneira.

— Olá.— Disse ela gentilmente, com um pequeno sorriso.— Imperatore ordenou para que a levasse ao seu novo quarto.—

— Novo quarto?— A prisioneira perguntou surpresa, pois estava ciente de que voltaria para sua cela. Mas era obvio que Maximus falharia rapidamente ao pedir sua confiança em quanto a trancava em uma cela. Aquele anjo era realmente esperto.

— Imperatore deu ordens para que todos os servos passassem a tratá-la como uma hospede.— Ela respondeu a pergunta.— Hospedes não dormem em palhas secas nesse castelo.—

— Certo.— Ela concordou com a mulher estranha, um pouco pensativa.— E Imperatore seria o Maximus?—

— Exatamente.— A mulher falou.— Ele é o imperador dessa dimensão, todos o chamam dessa maneira por aqui.—

— E como você se chama?—

— Marie.— Ela disse com um sorriso ao dizer seu nome.— E eu sou a serva responsável de atender tudo aquilo que desejar e estiver ao meu alcance.—

— Oh... Obrigada, eu acho.— A prisioneira disse um pouco sem jeito, principalmente quando Marie a observava. Para quem não possuía nada além de uma cela e um saco de batatas, estava indo tudo muito bem.

— Você parece tensa.— Para quem acabará de descobrir que estava no inferno e sua única salvação eram suas memorias trancadas a mil chaves, isso não era uma surpresa.— Imperatore é um bom líder, talvez o melhor entre seus irmãos, não se preocupe.—

Um bom líder... E quanto a ser uma boa pessoa?

Marie não disse mais nada além de um simples “vamos” acompanhado de um sorriso, ela não perguntou seu nome como ninguém naquele julgamento, o que fez a prisioneira pensar que as fofocas corriam soltas nesse lugar. Ela, definitivamente, tinha que tomar cuidado com isso.

A empregada a guiou pelo lugar, que realmente era enorme, como se conhecesse cada rachadura que estivesse por perto de seus olhos. E a prisioneira ficou surpresa ao ver que em cada corredor que passava existiam aqueles homens vestidos de soldados plantados em algum canto para nem ao menos serem notados. Mas os olhos deles eram observadores, olhos que estavam prontos para reparar no minimo detalhe de um movimento.

Elas pararam de caminhar assim que Marie se aproximou das portas duplas feitas com madeira, a prisioneira não pode deixar de notar o tamanho delas. Na verdade, tudo era enorme naquele lugar e ela sabia exatamente o porque. Aquelas asas grandes que possuía o anjo precisavam de espaços. Por um momento, ela desejou que sua porta possuísse um tamanho bem menor, pois assim teria a certeza de que Maximus não passaria por ela e teria uma boa noite de sono.

Assim que Marie abriu as portas daquele lugar e passou por elas, o queixo da prisioneira foi parar no chão, a fazendo esquecer totalmente sobre o anjo loiro entrando em seu quarto. Pois aquilo não era apenas um quarto... Simplesmente era o lugar que toda mulher desejava ter para se chamar de seu. O quarto além de ser enorme, cada detalhe dele era de uma cor dourada e até mesmo uma cama de dossel com panos finos e amarelos que lembrava ouro se encontrava naquele lugar. Só possuía uma janela e ela era simplesmente do tamanho das portas que ela ainda estava parada. A prisioneira pensou que fosse portas para uma varanda, mas se enganou totalmente ao ver que não se tinha mais nada além de um abismo em frente, nada de grades ou chão. Ela fez uma nota mental de que ficaria longe dali.

Quando ela olhou para cama seus olhos ficaram presos no que estava a cima dela. Apesar das várias almofadas de cetim que faziam a decoração ser bem chamativa, seus olhos ficaram presos no vestido longo e nos sapatos de saltos agulha. E bem, a prisioneira considerou muito ter aquilo por perto para usar como uma arma caso fosse necessário, mas apenas em vê-los de longe, seus pés ficaram agitados com a provável dor que sentiria.

A prisioneira olhou para os pés de Marie, ela vestia sapatilhas negras e tão simples que não possuía nenhum brilhante pequeno para enfeitar aquele pequeno sapato.— Marie,— Ela disse o nome dela meio sem jeito e quando a empregada desse lugar a olhou, virando seu corpo um pouco em sua direção, voltou a falar.— Você se importaria em me arrumar sapatilhas iguais a sua?—

— Há algo de errado com aqueles?— Ela perguntou ao apontar para a cama, seus olhos escuros estavam cheios de curiosidades.

— Eles são lindos.— A prisioneira disse a verdade.— Mas acho que não combinam comigo.—

— Todas as damas desse castelo usam saltos, pensei que eles fossem ideias para você.—

— Talvez eu não seja uma dama.— Ela sussurrou, se lembrando em como aquela mulher que era parecida com Meridius agia e até mesmo Katherine, que era arrogante, possuía uma postura de quem sabia se comportar. A prisioneira provavelmente nunca estaria perto delas, então não tentaria agir como uma.

— Não se preocupe.— Marie disse gentilmente, não questionando o que ela acabará dizer.— Arrumarei sapatilhas para você agora mesmo. Como eu disse, fui designada para fazer tudo o que deseja.—

— Você pode me trazer uma tesoura também?— Dessa vez ela vacilou. Marie provavelmente estava pensando que ela enfiaria aquela tesoura em sua garganta ou simplesmente lembrando as ordens de Maximus para manter coisas afiadas longe dela. Afinal, ninguém podia imaginar o que uma louca que estava questionou os arcanjos em seu julgamente podia fazer com uma tesoura.— Assim que usá-la, você pode levar embora.— Adicionou.

— Tudo bem.— Marie concordou.— Agora peço que tome um banho, Imperatore me ordenou que a deixasse pronta para o jantar.—

A prisioneira arqueou uma sobrancelha, surpresa com essa pequena revelação. Maximus pedia para que ela agisse como uma sombra e agora a convidava para jantar, com direito a um vestido longo e sapatos bonitos...

Oh sim, ela estaria magnifica nesse jantar, e ele não imaginava o quanto.

Depois que Marie saiu do quarto para pegar as coisas que ela havia pedido, a prisioneira abriu as portas que a levaria para o banheiro e novamente se viu com o queixo em direção do chão. Tudo era dourado e branco, tudo muito grande de uma maneira que ela se sentia como uma criança na casa de gigantes. A primeira coisa que fez ao entrar e fechar as portas de madeira em suas costas foi procurar um espelho, ela não havia esquecido do seu pequeno desejo de descobrir a cor de seus olhos, mas acabou se decepcionando ao ver que o banheiro não possuía nenhum espelho. Nem mesmo na parede a cima da pia branca com uma torneira dourada.

A prisioneira estava pronta para se perguntar que tipo de banheiro não possuía espelho, mas ai ela se lembrou de sua real situação. Ela era uma prisioneira e todos que são considerado desse modo não são confiáveis perto de objetos que podem fazer uma linda cicatriz na pele de um certo anjo loiro. Com raiva, ela considerou ir pra esse tal jantar da mesma maneira que estava, vestida com um saco de batatas e suja de lama, mas aquele saco estava cutucando todo o seu corpo e as feridas que causará a si mesma estavam ardendo e a ponto de se tornarem um risco. Sua birra se tornava pequena quando sua saúde estava em perigo.

Tirando aquela roupa, que nem ao menos podia se chamar assim, ela entrou no chuveiro e ignorou a linda banheira de porcelana que estava aos seus pés. Afinal, ela não se sentia confortável em tomar um banho de banheira com sua mente lidando com o fato de que estava no inferno. Bom, ela estava pensando assim antes de ver que o tampo do ralo havia sido arrancado. Dessa vez a prisioneira não aguentou e revirou seus olhos.

Como se ela tivesse planos de se matar afogada com um monte de gente querendo lhe dar uma morte menos dolorosa e agonizante.

Depois que toda a lama foi embora e seu cabelo já não estava embaraçado, antes de passar a toalha branca sobre seu corpo, ela viu quantos hematomas existiam por todo seu corpo e por um momento desejou não ser tão branca para que eles não ficassem tão visíveis e desse a impressão de que era fraca.

O rosto sorridente de Marie foi o primeiro que encontrou assim que saiu do banheiro, a empregada desviou seus olhos um pouco constrangida quando viu que ela estava apenas com a tolha sobre seu corpo, a prisioneira não se importou, pois se algum dia a vergonha desejasse se manifestar dentro dela, a dura lembrança de que Maximus a viu completamente nua a impedia de sequer pensar nesse sentimento. Mas uma parte dela dizia que não se importava e não via como um problema as pessoas vendo seu corpo nu.

Marie segurava uma tesoura em uma de suas mãos e na outra as sapatilhas que eram iguais as que usava em seus pés. Satisfação percorreu todo o seu corpo ao ver que ela havia feito o que pedia e depois de apertar a toalha ao seu redor para se certificar que ela não cairia na frente da empregada, pois não desejava infartá-la, a prisioneira se aproximou.

Ela pegou as sapatilhas e as colocou em cima da cama ao lado dos sapatos de saltos fino. Depois sua atenção foi para o vestido azul claro feito de um pano leve e com um laço preto para marcar a cintura. Depois da cintura, ele se tornava totalmente solto, então o que ela planejava fazer não ficaria ruim.

Bem, ela mostraria para Maximus nesse jantar como sabia se vestir igual a uma dama.

Estendendo a mão para Marie para que passasse a tesoura, a empregada vacilou por um momento, temendo que ela fizesse algo muito ruim com aquilo em mãos, mas depois de alguns segundos ela cedeu e entregou aquele pedaço de metal pesado e com pontas bem afiadas. A prisioneira assim que encaixou seus dedos na tesoura, não pensou duas vezes se o que estava prestes a fazer era o certo para que não sentisse pena. Esticando o vestido na cama e encontrando a altura ideal para que não ficasse muito comprido ou curto, ela encostou aquelas laminas afiadas no tecido e o cortou.

Assim que terminou aquela artimanha que a deixou um pouco mais feliz, como o combinado, ela se virou para entregar aquela tesoura a Marie. A empregada, no entanto, estava horrorizada com o que acabará de ver. Parecia que um assassinato tinha acabado de acontecer bem diante de seus olhos.— Você pode trazer essa tesoura todas as manhãs se nesse lugar só existir vestidos longos.—

— Hã... Tudo bem.— Ela parecia desconcertada, mas concordou.

— Obrigada.— A prisioneira agradeceu com toda a sinceridade que possuía em seu coração. Apesar de medo e raiva serem as únicas coisas que sentia, Marie estava começando a fazê-la se sentir um pouco feliz e ela achava que no final a empregada se tornaria uma boa amiga.

— O jantar começara daqui 3 horas, quando estiver no horário, voltarei para buscá-la.— Ela explicou.— Por favor, esteja pronta.—

A prisioneira assentiu e esperou que Marie estivesse fora do quarto para começar se vestir, ela não fez nada além do que colocar o vestido e as sapatilhas pretas. Depois que penteou seus cabelos sem nem ao menos ter um espelho para ver a situação dele, ela se sentou na ponta da cama com suas mãos em seu colo e fixou seus olhos nas portas duplas de vidro que aparentemente era uma janela, por mais que tudo dissesse ao contrario. O céu vermelho estava se tornando escuro e isso era o sinal de que uma noite sem lua e estrelas surgiria logo.

Ela esperou sentada, sem ter o que realmente fazer, e espantou todos os pensamentos que a apavorava a ponto de realmente desejar se jogar por aquela janela para acabar com o sofrimento que esmagava seu coração cheio de medo. Mas além de ter certeza de que aquela janela estaria trancada, a prisioneira também não tornaria nada fácil para todos. Quem fez isso com sua vida aparentemente tinha algo contra ela e desejou sua morte, mas o fato era simples, a prisioneira mostraria para essa pessoa que a jogou aqui que não era uma garota fácil de matar. Ela sobreviveria e essa seria sua única vingança contra quem a levou direto para o inferno.

A prisioneira havia sobrevivido a Maximus, então o inferno seria pequeno para ela.

Mais tarde, quando as 3 horas passaram, Marie voltou para buscá-la como havia dito e a levou pelos corredores daquele lugar que parecia um labirinto. Suas pernas protestaram em quanto caminhava, pois havia ficado sentada na mesma posição durante muito tempo pensando em planos para se manter viva e reprimindo seu medo que a ameaçava surtar feito uma louca. A vontade de chorar também chegou em meio desse tempo e ela quase não resistiu a tentação, mas suas memorias foram as únicas coisas que ela perdeu, não sua vida, não havia motivos para chorar. Ainda existia esperanças para tudo se ajeitar, então a prisioneira se agarraria com garras e dentes nela para não perder a linha do raciocínio.

Agora, em quanto caminhava para enfrentar um anjo que estava mais para um grande leão ao invés de algo angelical que oferecia a felicidade, ela deu atenção para os vários fiapos do tecido que faziam cocegas em seus joelhos. E apesar deles incomodarem um pouco, a prisioneira ficou feliz com o resultado do vestido, ele não ficou sem um corte e havia ficado muito mais bonito deixando suas pernas brancas de fora, cheias de hematomas e cortes, por sinal. E ela, definitivamente, não teria problemas em fazer a mesma coisa com os vários outros vestidos que estavam para vir. A prisioneira não era uma dama e nunca seria ao iludir ela mesma de que poderia ser uma, então não havia motivos para usar vestidos ou saltos. A realidade era que não estava contente em usar um vestido, seja ele curto ou longo, mas também não havia nenhuma outra opção.

Marie a guiou pelos corredores com aqueles soldados de guarda por um bom tempo até chagarem diante de outro salão. Esse não havia portas e a prisioneira se sentiu aliviada por não ter que ficar fechada com Maximus em um lugar. O salão que aparentemente era onde todas as refeições aconteciam, possuía um tamanho surreal. Ela nem ao menos sabia porque se sentia surpresa pelo tamanho dos cômodos desse lugar, já que todos aqui chamavam de castelo.

No centro do lugar existia uma mesa de 12 lugares, a mesa estava cheia de comidas e bebidas, mas seus olhos não ficaram presos nelas por muito tempo. Próximo da mesa existia uma lareira com grades detalhadas e logo a cima dela existia um quadro por toda sua extensão de uma pintura que parecia a replica do céu vermelho que existia lá fora durante o dia. O lustre de cristais a cima da mesa e as cortinas nas janelas davam um toque refinado no lugar.

No entanto, havia outra beleza refinada na sala e ela se chamava Maximus. A prisioneira admitia com todas as letras que o temia, pois tudo nele exclamava poder, mas o anjo era muito bonito com aqueles cabelos dourados e olhos de um azul escuro. Seu interior possuía um pequeno desejo de ver aqueles lábios um poucos carnudos sorrindo, mas ela tinha certeza de que isso nunca aconteceria. Do mesmo jeito que tudo que estava ligado a ele exclamava poder, também havia a parte que dizia que ele não demonstrava nenhum sentimento. E a prisioneira concluiu isso quando ele tentou matá-la e seu rosto não demonstrou nada, mas algumas vezes, em momentos raros, seus olhos o traíam e isso aconteceu quando ele falou que não a machucaria.

Ela também não podia acreditar que Maximus era irmão de Meridius e Dimitrius, ambos os anjos eram parecidos, mas aquele que estava diante dela, não possuía nada em comum com eles. Além do mais o anjo mal amado e o entendiado eram simples homens com asas, mas o anjo loiro tinha a aparência que gritava que havia sido criado por mãos preciosas para ser um anjo da guarda de uma garota sortuda. Porém, ele não era nada do que sua imagem dizia.

Maximus virou seu corpo em sua direção assim que ela entrou naquela sala, Marie ainda estava ao seu lado, mas após movimentar sua cabeça em um sinal de respeito ao seu imperador, a empregada gentil se retirou do lugar. A prisioneira quase agarrou o braço dela para que não a deixasse sozinha com aquele anjo, mas antes mesmo que sua mente deixasse de mantê-la congelada e gritar a palavra perigo por diversas vezes, a empregada já estava longe.

O anjo a encarou com aqueles olhos de felino em silencio, observou cada hematoma que estava em seus braços e logo em seguida viu o que ela havia feito com o vestido que havia ganhado. Seu rosto não demonstrou nada, mas ela gostava de imaginar que ele estava tendo um surto ao se negar usar saltos e ter cortado um vestido fino. Ou o arcanjo simplesmente não se importava.

Ela tinha falhado com essa provocação e logo o arrependimento por ter tomado banho e se livrado do sacos de batatas a atingiu.

— Sente-se.— Foram suas primeiras palavras, tão frias quanto esse castelo em geral. A prisioneira podia ter dito que ele não mandava nela facilmente, mas ela não tinha planos de ficar em pé naquela entrada a noite inteira observando Maximus. Deixando a birra de lado para lidar com o obvio, ela caminhou até a ponta de mesa onde possuía um prato e vários talhares ao lado dele, o anjo fez o mesmo que ela, mas se sentando na outra ponta daquela mesa enorme.

Suas asas que estavam quase brancas se movimentaram por um instante para que Maximus pudesse se sentar na cadeira e assim que o anjo estava acomodado, vários empregados entraram na sala e passaram a servi-los, a deixando se sentir totalmente impotente por não poder nem ao menos colocar comida em seu próprio prato, depois que eles terminaram, todos se retiraram em silencio.

A prisioneira encarou seu prato, seus olhos presos na comida bonita que daria água na boca em qualquer pessoa que não fosse insana. Ela também ficou admirada em ver que quando os empregados colocaram a comida no prato, eles não a jogaram naquele objeto de uma porcelana, pelo contrário, aquelas mulheres organizaram sua comida de uma maneira muito impressionante. Parecia que cada coisa possuía o seu lugar.

Ela esperou que aquela sensação gostosa atormentasse seu estomago ao ver e sentir o cheiro das comidas que estavam tão perto dela, mas nada aconteceu.

— Você sabe,— Maximus começou a falar, a fazendo tirar seus olhos do prato para encará-lo.— Esses pequenos objetos ao lado do prato se chamam talhares, caso não se lembre.—

A prisioneira ficou surpresa pela demonstração de um sentimento vindo dele e por mais que seu tom estivesse em uma mistura de ironia e arrogância, o anjo não estava a desprezando.

— Eu me lembro como se come diante de uma mesa, apenas não sinto fome.— Ela disse, mesmo desejando continuar em silencio.

— Você não comeu nada o dia todo.— Uma minima ruga de curiosidade se formou em sua testa.— Humanos costumam ter um apetite bem grande.—

A prisioneira olhou para seu prato novamente, procurando novamente aquele prazer que deveria sentir ao ter essa comida bem diante dela, ainda mais quando ela não comeu nada desde que acordou no pântano.

— Se está preocupada com venenos, eu não me serviria da mesma comida se fosse o caso.— O anjo voltou a falar, novamente a fazendo encontrar seus olhos.

— Você deixou bem claro que não deseja minha morte, Maximus.— Ela cuspiu aquilo, sentindo uma pequena raiva por todas as coisas que foram retiradas de seu novo quarto.

— Apenas estava pensando no seu bem, humana.—

Humana.

Essa palavra, definitivamente, estava a deixando irritada. Da maneira como todos a falavam, parecia ser um pecado ter nascido humana. A prisioneira precisava urgentemente lembrar de seu nome para acabar com isso, pois ela nem ao menos poderia rebater quando a chamavam dessa maneira já que não tinha outra opção.

— Por que acha que eu me mataria?— Perguntou calmamente.

Maximus olhou para seu prato intocável nesse momento, seus olhos azuis encararam sua comida como se nela estivesse escondida as respostas que precisava.— Você está no inferno.— O anjo falou ainda olhando para baixo, mas no segundo seguinte seus olhos se levantaram para encontrar os dela.— Não existe nada bonito aqui.—

Ela viu sinceridade em seus olhos, por mais que seu rosto negasse de mostrar qualquer tipo de emoção, a prisioneira também sabia que uma parte dele, uma bem pequena, sentia pena dela por estar em um lugar que não pertence, em um lugar que ninguém desejava fazer uma visita durante as férias.

Um pequeno arrepio passou por todo o seu corpo em apenas saber que uma pessoa sentia pena dela. Era errado deixar que pensassem assim dela, que a prisioneira estava sofrendo. Tudo bem que podia até mesmo ser um fato que ela estava sofrendo e se afogando em medo, mas ninguém tinha permissão de sentir pena dela.

A prisioneira colocou os talheres dentro do seu prato, pelo menos aqueles que ela realmente conhecia, e pegou seu prato em suas mãos assim que levantou e usou suas pernas para empurrar a cadeira que antes a acomodava. Maximus a olhou em total surpresa quando ela foi até a cadeira que estava ao seu lado esquerdo e colocou seu prato sobre a mesa para que pudesse se sentar.

— Estou curiosa para saber sobre todas as coisas horríveis que existem aqui.— A prisioneira falou ao voltar para o acomodo confortável que aquelas cadeiras macias ofereciam.— Você é a pessoa ideal para me contar sobre tudo isso já que é o imperador.—

— É mesmo?— Sua voz o traiu ao sair cheia de surpresa com a atitude dela, uma de suas sobrancelhas estava perfeitamente arqueada.

— Sim.— Ela disse sem vacilar, mesmo que seu desejo não fosse saber de todas as coisas feias que existiam lá fora para que pudesse dormir a noite.— Não se preocupe sobre eu ser uma traidora com função de passar tudo que me conta para outra pessoa, pois não me lembro nem ao menos meu nome, quem dirá a dessa pessoa que fez isso comigo.—

— Estou preocupado com quem causou toda essa bagunça, não com você.—

— E o que acontecerá comigo se for impossível acessar minhas memorias da sua maneira ou simplesmente não funcionar?— Ela perguntou o que mais importava nesse momento.

— Você retornará para sua dimensão não importa o que aconteça.— Maximus disse com seus olhos presos aos dela.— Eu sempre cumpro com aquilo que falo.—

A prisioneira desviou seus olhos para seu prato quando se sentiu intimidada por aqueles olhos de felinos, ela encarou sua comida como se dessa vez sentisse fome, mas logo se lembrou de que não era correto tentar enganar esse anjo com asas brancas ao seu lado. A confiança nunca começaria se ela tentasse esconder que o temia mais do que qualquer coisa que podia existir, ele tinha que fazê-la se sentir segura e nada disso aconteceria se a prisioneira fingisse que não o temia.

— Então,— Ela voltou a falar e olhar para os olhos azuis do anjo.— Você irá me contar sobre os monstros?—

Os lábios de Maximus ganharam vida quando um sorriso torto surgiu depois de um dos cantos deles se movimentarem para cima, ela sabia que nem ao menos podia considerar aquilo como sorrir, pois aquele canto se elevou apenas um pouquinho, mas a prisioneira estava bem ciente que aquilo era o máximo que o anjo podia fazer quando se tratava de sorrisos.— Sim, eu irei.— Ele disse em uma calma impressionante.

__________

Ela não dormiu naquela noite, no máximo fechou seus olhos por cinco minutos para logo em seguida despertar com seu coração acelerado e cheio de susto. Qualquer barulhinho que acontecia lá fora era o suficiente para que a prisioneira se cobrisse até a cabeça como se o seu cobertor a protegesse de todos os monstros que Maximus fez questão de contar os mínimos detalhes quando ela foi idiota o suficiente para perguntar sobre os monstros. E quando o anjo cretino viu que os olhos dela estavam arregalados e desesperados para que ele fechasse a boca, Maximus fez questão de dizer os detalhes mais apavorantes que podiam existir.

A prisioneira não podia dormir quando sabia que existia um monstro maior do que Maximus e suas asas bem perto dela, no oceano bem a baixo de sua janela. Se algum dia seu plano incluísse saltar daquela janela para cair naquelas águas escuras, isso estava fora de questão agora que ela sabia que uma lagarta gigante e nada gentil morava lá.

Revirando na cama por diversas vezes, ela sentiu um buraco se formar em suas costas de uma maneira quase surreal. Seu cobertor estava todo enrolado ao redor de seu corpo e a prisioneira sentia como se uma cobra estivesse a atacando para quebrar todos os seus ossos, fazendo dela uma gostosa refeição. Chutando o cobertor aos seus pés, e ficando irritada por ter comparado esse pensamento com a lagarta gigante que provavelmente existia no oceano, ela ficou de pé e caminhou até a porta de seu quarto para abri-la e sair daquele ninho que estava a sufocando.

Quando a prisioneira se lembrou que em todos os corredores possuíam guardas, ela quase se manteve dentro do quarto, ainda mais que essa era sua primeira noite nesse lugar sem estar presa, os soldados que ficavam atentos em qualquer movimentos que aconteciam podiam ficar desconfiados com a humana perambulando por ai durante a noite. Porém, ela não tinha medo deles e isso não a segurou mesmo quando passou por um daqueles guardas no corredor que era grande em todos os sentidos.

Ela não sabia exatamente para onde ir, as vezes que caminhou por aquele lugar não guardou nenhum caminho e mesmo que tivesse guardado, a prisioneira não tinha desejo de voltar para o salão que teve um julgamento estranho ou pra sala onde Maximus a deixou aterrorizada. Mas por outro lado, por mais que ela estivesse morta de medo pelas coisas que o anjo loiro deixou claro que existiam la fora, a prisioneira não podia negar certa gratidão por ele ter a recebido em seu castelo e ainda lhe dado um quarto que era um sonho para qualquer pessoa. E mesmo que Maximus tivesse a matado naquele momento no pântano, ela seria eternamente grata a ele, pois as coisas soltas que existiam do lado de fora eram muito mais feias do que o monstro com asas que teria de lidar no dia a dia até que voltasse para casa. Uma casa que nem ao menos sabia se gostava ou não, mas que deveria ser melhor do que esse lugar.

Pelo menos, na opinião dela, qualquer lugar deveria ser melhor que o inferno. Afinal, esse lugar era a casa daqueles que são chamados de assassinos, psicopatas e as pessoas que não possuíam um coração. E desde que a prisioneira acordou no pântano, ela se conheceu o suficiente para saber que não era alguém que pertencia a esse lugar.

Ela não entendia completamente nada quando falavam sobre dimensões e níveis, mas como todos deixavam claro de que ela era humana, seu lugar definitivamente era junto com as pessoas da sua raça. Não onde a desprezavam por pertencer aos humanos.

A prisioneira, em quanto pensava e pensava sobre sua situação infeliz, caminhou por vários corredores e deixou a presença daqueles guardas de lado a ponto de não enxergá-los mais. Ela andou por todo aquele lugar até notar que estava perdida e completamente sozinha. O corredor que ela acabou se encontrando não possuía nenhum daqueles homens que se vestiam de soldados e isso era o mesmo de não ter ninguém para ajudá-la.

Se xingando e ao mesmo tempo fazendo seu caminho de volta, já que aquele lugar não possuía nenhuma outra porta além daquela no final do corredor, a prisioneira saiu daquele lugar solitário e não deixou de estar perdida. A diferença foi que antes de ir pedir ajuda para algum guarda, ela encontrou uma das mulheres que estavam em seu julgamento. E a mulher não era Katherine.

—Hey, você.— Ela disse com um sorriso, tão gentil como fora naquele salão.— O que está fazendo sozinha nesses corredores durante a noite?—

— Estou perdida.— A prisioneira foi sincera, mas curta e grossa. Ela só conhecia Maximus e Marie nesse lugar, a certeza de que essa mulher era realmente gentil não existia. E para falar a verdade, mesmo que odiasse admitir, a única que sabia que estava sendo completamente sincera era Katherine. Aquela boneca de vodu deixou claro que a odiou e não existia teatro quando o ódio estava envolvido. A prisioneira não podia falar o mesmo sobre a gentileza, o que era uma pena.

— Eu a levarei até seu quarto.— Falou depois de observá-la calmamente, talvez a considerando um perigo.

— Como sabe onde é meu quarto?—

— Todos sabem onde reside uma prisioneira que virou hospede.— Revirando seus olhos escuros, ela disse aquilo como se fosse o obvio.— Eu me chamo Diane e sou irmã de Maximus.—

— Irmã?— Isso não era uma novidade, as características dela lembravam muito Dimitrius e Meridius, mas Maximus não se encaixava nessa irmandade e ela nem ao menos tinha asas. Mas nenhuma mulher nesse lugar possuía asas e nem outros homens, talvez os únicos que possuíssem fossem aqueles que sentaram em tronos em frente dela.— Maximus é adotado?—

— Não!— Diane riu docemente e a prisioneira quis morder sua língua por fazer uma pergunta dessas.— Por mais que ele não seja parecido conosco, Maximus tem nosso sangue.—

— Eu não deveria ter perguntado isso.— A prisioneira tentou ser educada para corrigir a pergunta desnecessária.— Pelo menos isso aconteceu com você e não Maximus.—

— Você não precisa temer a ele, Maximus não é tão assustador quanto parece.— Diane falou calmamente.— Na verdade, ele consegue ser bem irritante as vezes.—

— Isso é quase inacreditável.— A prisioneira disse cruzando seus braços, decidindo que Diane podia ser confiável apenas pelo fato de ser irmã de Maximus.— Para mim ele é apenas um arrogante.—

— Mas não como Meridius.— Ela sorriu.

— Definitivamente não.—

— Só faz apenas um dia desde que se encontraram, não existe como conhecer uma pessoa em 24 horas, ainda mais quando se trata do imperador do inferno.— Diane suspirou.— Maximus pode parecer frio e perigoso, mas ele quase teve um surto ao ver que a lama deixou manchas por suas asas.—

A prisioneira sorriu e se deu conta que era primeira vez que fazia isso desde que acordará nesse lugar monstruoso.— Ele mereceu isso.—

Afinal, o anjo tentou matá-la!

Seu desejo era de ter arrancado suas asas naquele momento que apontou uma espada para ela, mas a prisioneira estava ciente de que não poderia fazer isso com uma pessoa maior que ela e com asas gigantes. Sua única opção foi derrubá-lo.

Diane se moveu em sua frente, se colocando em uma posição para que a prisioneira se colocasse ao seu lado para que pudesse levá-la até seu quarto.— Vamos indo,— Ela disse gentilmente.— Já é tarde e imagino que meu irmão irá começar trabalhar cedo com você.—

A prisioneira não discordou, pois Maximus deixou claro que quanto mais rápido resolvesse seu problema, melhor seria. Ela também tinha pressa para que tudo se resolvesse, pois desejava lembrar de tudo sobre a sua vida e seu nome. E mesmo que sentisse uma leve vontade de matar a pessoa que causou tudo isso, ela teria o prazer de deixar esse trabalho para os monstro com asas que fazia um bom trabalho em ser assustador.

Deixando seus pensamentos de lado quando percebeu que Diane ainda esperava, a prisioneira caminhou para ficar ao se lado e deixou que a irmã de Maximus a levasse para seu quarto, já que não possuía muitas opções.

Elas caminharam lado a lado e Diane falou muitas coisas sobre sua vida com seus irmãos, de como tinha vontade de matar Maximus quando ele sujava suas asas, principalmente de sangue. A prisioneira ficou surpresa com a grande capacidade que ela tinha para falar. Afinal, ela mal conseguia abrir a boca já que Diane assim que terminava de falar alguma coisa começa outra ou respondia suas próprias perguntas. No final, a sua companhia não foi tão ruim assim.