Pesadelo

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura!

Aquela já era a terceira psicóloga que Matsumoto Rangiku ia naquela semana. Todas disseram-lhe a mesma coisa: isso é normal. Sonhar todos os dias com a morte do seu noivo era normal? Todos os dias, até mesmo antes de conhecer Ichimaru Gin, a mulher já sonhava com ele.

Conheceu Gin na época do colégio. Quando viu o menino pela primeira vez, Rangiku ficou assustada. Os cabelos prateados, os olhos muito puxados, de um brilho azul intenso, a pele clara... era ele, o homem do seu sonho. Apesar dos sentimentos ruins que envolviam a garota, ela sentiu-se extremamente atraída por ele. Acabaram se envolvendo, e Rangiku não pôde evitar se apaixonar.

Quanto mais o tempo passava, mais ela sentia que precisava de ajuda. Aquele sonho estava ficando cada vez mais perturbador. Quando olhava para ele, imaginava seu corpo caído em uma cidade destroçada. Vestido de branco, com um corte profundo no peito, sangue por todo o lado. No sonho, ela gritava e chorava... Era assustador. Tinha medo do que aquele pesadelo constante poderia significar. Não acreditava em premonições, mas mesmo assim temia. Quando estava com Gin, os pensamentos sobre o sonho não a atormentavam. Sua mente esvaziava de pensamentos ruins, focando-se apenas na presença dele, seus beijos, toques e palavras doces. Contudo, quando a noite chegava, as imagens dolorosas vinham antes mesmo de o sono bater. Já passara noites em claro, com medo de fechar os olhos e ver o corpo de Gin, sem vida no chão.

Rangiku chegou em casa e encontrou seu noivo sentado no sofá. Seu corpo todo ficou arrepiado ao ver os olhos extremamente azuis semicerrados fitando-lhe. Esboçou um sorriso largo e verdadeiro ao ouvi-lo dizer “bem vinda de volta”. Era apaixonada por aquela voz suave. Sem demora, a mulher jogou-se ao lado do noivo e o beijou.

— Como foi com a doutora? — perguntou Gin enquanto brincava com os cabelos loiros dela.

— Nada bem — respondeu, suspirando. — Ela disse o mesmo que as outras.

Rangiku contara a Gin que sonhava com ele na época em que começaram a namorar. A mulher teve medo de assustá-lo com aquela revelação, contudo, sentia que precisava expor aquilo a ele. Não podia esconder algo tão importante para alguém que amava tanto. Ichimaru se mostrou surpreso, mas não deu importância ao sonho em si. Ele só temia o efeito que o pesadelo poderia causar na mulher. Foi ele quem recomendou as sessões com psicólogos e, na época, pensou que seria a solução para os problemas de Matsumoto.

— Rangiku... — sussurrou ele, chamando atenção. — Talvez você deva mudar sua perspectiva.

— O que quer dizer? — Ela franziu as sobrancelhas, mostrando-se confusa. O sorriso que Gin mostrou em seguida deixou-a ainda mais intrigada.

— Por que não começa descrevendo o sonho para mim?

Rangiku sentiu as pernas tremerem. Já descrevera o pesadelo às psicólogas, a alguns amigos e até aos pais, porém nunca a Gin. Não podia dizer a ele os detalhes de tal cena tão dolorosa. Mas por algum motivo, ela achou que devia finalmente expor ao homem amado o que sentia, detalhando o sonho. Algo lhe dizia que ele tinha uma ideia.

— Eu abro os olhos e vejo um céu extremamente azul. Olho em volta, notando que estou rodeada de edifícios altos, alguns parcialmente destruídos...

Rangiku descrevia a cena perfeitamente, pois não conseguia tirá-la da memória. O coração já estava mais acelerado, e os olhos começaram a marejar. A voz enfraquecida continuou, com dificuldade:

— Eu começo a correr por entre os prédios. A maior parte da cidade está destruída. Escuto sons de lâminas cortando... e então, eu vejo você, caído. Seus olhos me lançam um olhar melancólico, e eu começo a gritar. Seu rosto parecia cansado. Escorria sangue de sua boca. O quimono branco manchado de sangue... Um corte longo e profundo destacava-se em seu dorso.

As lágrimas vinham intensamente. Odiava pensar naquela cena, e no que a fazia sentir. Parecia tudo tão real. Como se já houvesse vivenciado aquele acontecimento. Era como uma lembrança distante e dolorosa...

— Eu tenho medo, Gin — confessou, abraçando seu noivo. — Sinto medo de te perder pra sempre... Não quero viver em um lugar onde você não está!

O desabafo veio junto a um choro intendo. Ela se agarrou ao corpo dele como se fosse a última vez que o fazia. Desde quando começaram a viver juntos, Rangiku tentava aproveitar o máximo de tempo que podia ao lado dele, agindo como se nunca mais fosse vê-lo, tocá-lo, beijá-lo. Gin costumava dizer que nunca iria deixa-la, independente do que acontecesse. Ele dizia sentir que devia isso à ela. Aquelas palavras causavam felicidade, mas não afastavam o medo. Rangiku desejava que alguma coisa que ele, ou qualquer outra pessoa dissesse à ela algo que afastasse aquele medo. Estava perdendo parte de sua vida por conta dele.

— Você está presa à esse sonho, Rangiku. — Gin falou após um tempo em silêncio. Encarou os olhos chorosos, sem desfazer aquele sorriso largo de sua face. Os dedos longos acariciavam o rosto dela, utilizando uma gentileza imensurável. — Está tão imersa nesse sonho recorrente que acabou se esquecendo de algo muito, muito importante.

Rangiku fez uma adorável expressão confusa, ocasionando uma risada aguda de Gin. Ele a olhava como se a resposta para seus problemas fosse simples e estivesse diante de seus olhos o tempo todo.

— Minha amada Matsumoto Rangiku, você ainda não percebeu? Isso é apenas um pesadelo.

Os olhos da loira se arregalaram.

— Seus belos olhos não conseguem enxergar que eu estou aqui, ao seu lado, fora de perigo. Não consegue aproveitar nosso relacionamento por conta do medo, muito menos pensar no futuro. Eu quero que entenda de uma vez por todas que eu amo você, e quero passar o resto de minha vida ao seu lado.

As doces palavras de Gin eram como um balde de água fria. Ela percebeu ali, naquele momento, que estava se esquecendo das coisas importantes por conta de um pesadelo. Estava esquecendo que aquele homem também a amava, e que estava preocupado consigo. Havia focado tanto no medo de perdê-lo, que não percebeu que Gin estava sofrendo por conta daquela situação.

A partir daquele dia, Rangiku não temeu mais as noites. Dormia agarrada à Gin com um sorriso no lábios, pois tinha a certeza de que ele estaria bem ali quando acordasse. Mesmo que o sonho a atormentasse, ela não viveria mais presa à ele.

Afinal, era só um pesadelo.

Notas finais
Obrigada por ler e até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!