Persona 5

1 Capítulo 1 - Mudança


Gritei desesperado. Sentia a espada atravessar minha barriga, e o sangue escorrer pela minha camisa. Olhei para o rosto que eu reconhecia muito bem, distorcido em um sorriso sanguinário. Deixei as lágrimas rolarem, enquanto ele retirava a espada, e me chutava longe. Fui pego por alguém, que começou a murmurar um encanto. Inútil. Já até sentia os últimos meses se passarem pela minha mente, enquanto sorria para meus companheiros...

Nem percebi o que tinha acontecido até o dia seguinte. Sou Kuroi, muito prazer, mas isso não importa. Meu irmão morrera na viajem para Tókio, onde eu e meus pais vivíamos. Logo eu estaria mudando de cidade, pois era algo que o trabalho deles me exigia. A cada ano viajar para outra cidade, para que eles possam estudar as mais variadas espécies e blá, blá, blá... E, como conseqüência, eu não tinha amigos fixos.

E depois da morte do meu irmão, não queria tê-los. Um dia, essas pessoas sumirão certo? Então, ao me aproximar das pessoas, só vai trazer dor para mim. Então eu decidi nunca mais ter amigos enquanto eu vivesse, para não sofrer novamente.

Meu irmão? Gostaria de não descrevê-lo aqui, mas é necessário, certo? Ele era alto, com cabelos cacheados como os meus e olhos verdes. Como os meus. Ele se chamava Kiri, e era o único adulto em quem eu confiava. Tinha 19 anos, e trabalhava como nadador. Ele viajara para tentar a melhor no mundial de natação, mas acabou em 2°. Apesar disso, ele parecia feliz pelo telefone. Lembro-me perfeitamente das ultimas palavras dele para mim...

“Nunca se esqueça que as pessoas importantes para nós são nossa historia.”

Só se for uma história de terror, não é?

No começo de 2010, dia 30/1, às 4 da manhã eu e meus pais chegamos à nossa nova cidade. Chamava-se Kirimi, ou seja, névoa. Apesar do nome meio estranho, é uma cidade bonita. Não tinha o cheiro de morte e fumaça que tinha em Tókio, o que me fez ficar mais feliz do que queria.

Fomos para uma casa no centro da cidade, onde havia uma praça. Do outro lado da rua, havia varias lojas, e, do lado de uma delas, estava minha casa. Era relativamente grande, e até havia uma piscina no quintal. Tinha mais ou menos uns 10 metros, e era bastante funda. Eu estava quase pulando nela, quando meu pai me obrigou a desfazer as malas. Passei pela porta e entrei na casa de ladrilho azul e paredes bege. A minha frente, havia a porta para a cozinha e indo para a direita, havia outra porta, para a sala. Lá, havia a porta da frente, um sofá azul e grande, e uma TV. A esquerda do corredor, havia uma sala de jogos, e uma escada. Subindo, havia outro corredor, onde ficavam os quartos. O primeiro a esquerda seria o do meu irmão. Mesmo assim, fiz questão de arrumá-lo, fazendo a cama e colocando as roupas no guarda roupas verde. Na frente do quarto dele, havia o meu. Coloquei os pôsteres da minhas banda favorita -Linkin Park- e coloquei o lençol vermelho na cama, combinando com a parede, que era a única de cor diferente na casa. Na escrivaninha, coloquei meu notebook, e encostado na parede oposta à porta, a TV, com um poltrona dobrável. Eu mesmo economizei o dinheiro para ela, então achei justo estar no meu quarto. Também havia um guarda-roupa preto, onde coloquei minhas roupas. Eu não quis entrar no quarto dos meus pais, então resolvi ir jogar alguma coisa no notebook. Tinha uma placa de vídeo boa, então resolvi jogar Tales Runner, um jogo de corrida com personagens cabeçudos e armadilhas estranhas, variando de pássaros gigantes usando técnicas de jogos de luta até maçãs gigantes caindo na sua cabeça. Depois de algum tempo, fiquei cansado e resolvi dormir.

-Acomode-se, a ultima coisa que desejo é que você se sinta desconfortável. – Ouvi uma voz a minha frente. Eu estava em pé, ao lado de uma cadeira de madeira em uma sala completamente azul-escura.

Observei melhor, e percebi um homem narigudo sentado atrás de uma escrivaninha. Ao lado dele, havia uma loira bonitona de cabelos cumpridos. Do outro lado dele, do lado esquerdo, havia um menino de olhos muito azuis e pele albina, com um sorriso.

-Quem é você? – foi a única coisa que saiu da minha boca.

-Pode me chamar de Igor – Disse o narigudo – Ao meu lado estão meus assistentes, Elizabeth – ele apontou a mulher – E Pharos – Apontou para o garoto, que deu um risinho.

-Seja bem vindo á Sala da sanidade... Um lugar que vaga entre o consciente e o subconsciente. — Disse a Mulher, Elizabeth.

-Acho que devemos lhe mostrar isso – Pharos puxou um contrato e colocou a minha frente.

-E para que é isso? — Perguntei.

-Não se preocupe. Só diz que você tem total responsabilidade pelos seus atos. Você sabe. O normal. — O menino deu um risinho. Assinei, e olhei para ele.

-E agora? — Perguntei.

-Seu futuro está cheio de sombras, criança – Disse Igor, com olhar penetrante – Nosso propósito é ajudá-lo a passar por cima de seus obstáculos.

-Mas não se esqueça – Pharos pegou o contrato – Você não pode simplesmente cobrir os olhos e tampar os ouvidos

O contrato sumiu, eu me afastei.

-Então... — Disse ele, sorrindo – Está começando.

2010, 1/2

Acordei todo suado. Eram 7 da manhã, e eu estava tremendo por alguma razão. Aquele estranho sonho me fizera pensar em meu irmão, mesmo não tendo nada haver com ele. Levantei lentamente, e desci as escadas. Assei um pão e voltei para o meu quarto. Comecei a ver o jornal, que reportava um assassinato bizarro na cidade.

-A estudante Hanakara Kiwa foi encontrada morta pendurada pelo braço em um poste – Disse a repórter – De acordo com a policia, não há causa de morte aparente, e estão investigando como suicido e assassinato.

-Kuroi! — Minha mãe me chamou da porta – Não quer ir dar uma volta para conhecer a vizinhança?

-Claro... — Falei. Desliguei a televisão e me vesti. Coloquei uma bermuda preta e uma blusa sem manga branca. Sai de casa, e andei pela rua lentamente, olhando as pessoas da cidade. Eram muitas, e pareciam simpáticas.

“Sem amizades” Pensei. Mal tinha pensado isso e ouvi uma voz feminina atrás de mim.

-Novo na cidade?

Virei-me rapidamente. Vi que era uma menina mais ou menos da minha idade, loira. Era bonita, e sorria.

Fiquei em silencio, olhando para ela.

-É tímido? — Perguntou ela – Não se preocupe, eu não mordo.

Depois que ela disse isso eu sai correndo. Ela não me alcançou, e entrei em casa rápido.

-Já voltou? — Perguntou minha mãe, que estava no sofá.

-Já – Falei ofegante. Fui para meu quarto, e lembrei-me do que o garoto dissera no meu sonho.

“Você não pode simplesmente cobrir os olhos e tampar os ouvidos”

Lutei para afastar esses pensamentos da minha cabeça e resolvi voltar a jogar. Fiquei o dia todo tentando passar por um sapo gigante particularmente rápido. À noite, eu jantei e fui dormir.

Sonhei com meu irmão. Sonhei que ele conversava comigo e depois sumia de repente.

O sonho mudou.

Eu estava de novo na sala com Igor, Pharos e Elizabeth.

-Sinto muito pela intromissão – disse Igor – Mas gostaríamos de acrescentar algumas coisas ao que falamos da ultima vez.

Eu me sentei na cadeira, e olhei para Igor.

-Seu poder há de despertar logo – Disse Elizabeth, com calma. — E logo deverá escolher entre o caminho mais fácil e o caminho certo.

-Já me falou isso um monte de vezes – Falei.

-Creio que tem razão – Disse Pharos – Um dilema será posto a sua frente. Sua escolha definirá seu futuro e de seus amigos.

-Não tenho amigos – Falei, irritado – E nem pretendo ter.

-Ah, pode apostar que logo terá – Disse Igor – Pode acreditar.

O sonho mudou novamente. Era um cubículo mínimo, onde não havia nada. Só um vulto a minha frente, que não se mexia.

-O que... — Comecei, mas despertei em seguida.

2010, 2/2

Novamente, estava todo suado e cansado, como se não tivesse dormido. Levantei, e escovei os dentes no banheiro. Eu ainda estava irritado com o que Pharos me disse, sobre amigos. Não os quero, são fontes de dor, e nada mais!

Depois disso, comecei a questionar minha sanidade. Foi um sonho, não algo que uma pessoa falara para mim!

Desci as escadas, bocejando. Deitei no sofá para relaxar e ver TV. Comecei a ver algo parecido com um programa de perguntas, em que os participantes sofriam torturas enquanto tentavam responder. O programa se chamava distraction, e parei de ver no momento em que eles deveriam responder as perguntas enquanto eram esmagados por lutadores de sumô. Ouvi a campainha, e resolvi voltar ao meu quarto. Minha mãe deve ter atendido a porta, mas não queria pensar nisso. Deveria ser o advogado do meu irmão, então não dei muita bola. Kiri...

Ao chegar ao meu quarto, deitei na cama de deixei as lágrimas rolarem pelo meu rosto, molhando o travesseiro. Abafei um grito de dor, enquanto imaginava meu irmão. Ouvi alguém batendo na porta, e enxuguei minhas lágrimas.

-Tem alguém que quer vê-lo! — Ouvi minha mãe. Falei um “entre”, e entrou um rosto conhecido. Eu reconheceria aquele sorrisinho e a pele albina em qualquer lugar.

-Olá – Disse ele – Meu nome é Pharos.

Notas finais
Reviews (: