Persona
6 Capítulo 3 - Imprevisto
Notas iniciais
Simplesmente apaguei metade do capítulo e coloquei algo completamente diferente no lugar. Se puderem leia esta nova versão, mesmo que apenas a parte modificada (a segunda metade, depois do primeiro lance de XXX indicando lapso temporal).
Gosto bem mais desta nova versão ^__^ O nível de susto e desconforto que o Leo sente na conversa com o Abel ficou bem mais adequado ♥
Imprevisto
Já era quase 12:30h. Os portões da escola abriam quinze para uma da tarde e os alunos tinham meia hora para entrarem em suas salas. Se Alex corresse para pegar o ônibus ainda conseguiria chegar a tempo, afinal ele nem estava tão distante do colégio. O plano original era acordar cedo e ir andando. Ele morava longe, mas algo sobre o que acontecera no dia passado ainda o perturbava, então achou melhor ir caminhando para ter tempo de pensar sozinho e talvez até usar o dinheiro da passagem para comprar alguma coisa bem gostosa e com calorias o bastante para estourar a cota recomendada pelo seu médico por uma semana inteira.
Alex não sabia muito bem o porquê de reencontrar Leonardo ter perturbado tanto o seu emocional. Um reencontro repentino com um velho amigo de infância deveria ser um evento bom! Especialmente levando em conta que Leonardo era um de seus melhores amigos. Alex se lembrava de ter passado dias cabisbaixo quando ele foi adotado e se mudou para outra cidade, então, por que ele estava completamente sem vontade de ir para a escola? Será que foi por causa do “mal entendido” que eles tinham tido quando se encontraram? Bem, isso certamente acabou com qualquer possibilidade de haver um emocionante encontro entre dois amigos que não se viam há anos, mas o problema já tinha sido resolvido e os dois estavam de bons termos.
Talvez o que realmente tenha perturbado Alex fora o fato de seu antigo amigo ser agora um jovem loiro, alto e super boa pinta com aquele jeito de príncipe encantado que fazia enxames de garotas se agruparem em volta dele como que atraídas por um tipo de feromônio. Com aquele jeito de Sr.Perfeição, Alex não se espantaria em descobrir que ele também tirava ótimas notas e era estupidamente bom em esportes ou alguma outra coisa que faz você se tornar instantaneamente a pessoa mais legal do mundo. Enquanto isso Alex era um adolescente bem normal, que gostava de coisas normais como ir ao cinema com os amigos, tirava notas normais e nunca se destacara em nenhum tipo de esporte ou atividade extracurricular. Até que era bonito, ninguém podia negar que ele tinha lá sua fama com as garotas, mas algo em sua maldita composição aparência-personalidade fazia com que, quando ele menos esperasse, olhasse para os lados e se visse na zona do amigo. Conclusão, em seus dezesseis anos de vida Alex nunca tinha tido uma namoradinha se quer. Colocar esse seu perfil ao lado de alguém como Leonardo não é agradável para nenhum homem, especialmente se levar em conta que um dia ele e Leonardo já foram iguais.
É... Talvez fosse isso que tenha feito Alex enrolar tanto em sua caminhada a ponto que, mesmo tendo saído de casa uma hora mais cedo que o habitual, ele teria que pegar um ônibus se quisesse chegar à escola a tempo. Isso se ele ainda fosse para a escola. Estava pensando seriamente em ficar sentado na praça sem fazer nada até dar o horário de saída para ele voltar para casa. Mesmo essa opção que envolvia tédio extremo parecia mais agradável do que ter que ver a cara de Leonardo iluminada por sua aura de perfeição. Alex se sentia um pouco culpado por pensar assim, não só porque fora propriamente educado pelas morais judaico-cristãs e naturalmente reprovasse o sentimento de inveja, mas também porque Leonardo já fora um de seus melhores amigos.
Era 12:46h e os portões da escola já deviam estar abertos. Alex caminhara automaticamente para a praça. Lá tinha como ele ainda pegar um ônibus para a escola, mas também tinha bancos onde ele poderia sentar e ficar se sentindo miserável por horas a fio. Olhou para o banco mais próximo que se encontrava embaixo de uma oportuna sombra de árvore. Até pensou em sentar ali mesmo, mas antes que esse pensamento virasse ação, percebeu que havia um conhecido que aparentemente tiver a mesma idéia.
_ ... Abel? _ Disse Alex automaticamente por causa da surpresa.
O jovem que ocupava o banco virou vagarosamente a cabeça na direção de Alex e fitou seu rosto por alguns segundos, como se não tivesse reconhecido imediatamente a pessoa que chamara seu nome.
_ Oi Alex. _ Respondeu finalmente enquanto um sincero sorriso se desenhava em sua boca. _ Há quanto tempo não?
A pessoa sentada no banco era Abel. Antes da chegada de Leonardo, Abel era indiscutivelmente o garoto mais popular da escola. Todos os garotos queriam ser como ele, todas as meninas suspiravam por ele, até mesmo os professores e funcionários o adoravam. Mas não era para menos, Abel era a pessoa mais simpática que Alex já havia conhecido em toda a sua vida. Era um tipo meio diferente, mas no melhor sentido que essa palavra poderia ter. Tinha a pele morena e um porte atlético, com o físico bem definido e estrutura corporal que se impunha, mas ao mesmo tempo seu ar meio aéreo e o sorriso sempre presente em seu rosto faziam com que qualquer traço intimidador que ele pudesse ter desaparecesse na hora. Os cabelos castanhos e ondulados também suavizavam sua aparência. Apesar da peculiar mania de se sentar afastado dos outros para ficar distraidamente olhando para o céu, seu jeito de performar tal estranheza era o mais charmoso o possível. Era o tipo de pessoa que sempre te ajuda quando você precisa e até mesmo quando não precisa, era só pedir. Abel gostava de todo mundo e todo mundo adorava Abel, até mesmo Alex que, mesmo sem conhecê-lo muito bem, se incluía nesse grupo de quem achava que ele era uma das pessoas mais legais da escola.
_ Você está indo para a escola? _ Comentou Abel do nada, depois de um período de silêncio. _ Se for é melhor pegar o ônibus logo ou o portão vai se fechar.
_ E você não deveria estar fazendo a mesma coisa?! _ Respondeu Alex um pouco mais alto do que queria. É que ele sempre ficava meio nervoso falando com Abel. _ Ou você ainda não está se sentindo bem?
Havia dois dias que Abel não comparecia às aulas. Descobriram que ele estava encamado por alguma doença e nem mesmo podia receber visitas. Mas se ele não estivesse melhor o que o levaria a ficar sentado na praça com o uniforme completo e segurando a mochila no colo?
_ Huummm... Acho que você pode dizer que sim. Bem que eu já poderia ir para a aula, só que... Não estou com vontade nenhuma. _ Terminou a frase abaixando a cabeça e rindo.
_ Ah... Entendo... _ Alex soltou um suspiro. Talvez esse momento de entendimento mútuo permitisse que ele sentasse ao lado de Abel para compartilhar desse sentimento que é querer fazer qualquer coisa que não seja ir para a escola. Ou talvez não... Era melhor continuar em pé, só por segurança.
_ E você? Algum motivo especial para estar aqui?
_ É que... tem umas... bem, uma coisa que... _ Alex balbuciou nervosamente. _ É que é um motivo meio idiota. Muito idiota na verdade.
_ Ah... O meu motivo também é bem idiota. Engraçado como a gente fica se remoendo por dentro por causa das coisas mais idiotas não?
_ E ainda fica se sentindo idiota por se emburrar por causa de uma coisa idiota.
_ Exatamente. _ O sorriso de Abel ficou ainda mais radiante. _ Ei Alex, porque a gente não vai logo pra escola e pelo menos termina com essa agonia? A gente não vai conseguir fugir disso pra sempre, não?
_ É né. Acho que assim é melhor.
Na verdade Alex não tinha certeza se aquilo realmente era melhor. Não fazia idéia de como reagir com Leonardo naquele dia, se ele olharia para ele, se o cumprimentaria ou o que quer que fosse, mas naquela situação não tinha como ele negar sem ficar parecendo um estúpido. E também tinha o detalhe de que era o Abel quem estava pedindo.
Não demorou muito para o ônibus que passava na escola aparecer. Como ele estava vazio, Abel foi logo entrando e se sentando perto da janela, sendo seguido por Alex que se sentou ao seu lado.
_ Foi muito legal eu ter esbarrado com você hoje. _ Disse Abel. _ Acho que se não fosse por isso eu acabaria voltando pra casa e passaria o dia inteiro na cama de novo.
Alex não respondeu. Nunca sabia como reagir quando Abel o olhava com aquela cara de “estou tão feliz por estar aqui com você”. Ta que ele fazia essa cara para mais um monte de gente _ aparentemente ele gostava muito de praticamente todo mundo _ mesmo assim não era algo fácil de lidar. Era bem provável que seu rosto estivesse vermelho por causa do comentário. Mas que puto momento constrangedor. E o pior é que Alex teve a sensação de que demorara demais para quebrar o contato visual com Abel e disfarçar olhando o relógio de pulso. É que era difícil não olhar para os olhos de Abel. E por que nós demoramos tanto para falar dos olhos de Abel? Justamente esta que é a parte que mais chama a atenção nele! Acontece que ele tinha os olhos de um amarelo intenso e meio alaranjado que se realçavam em oposição à sua pele morena de uma maneira que dava a impressão de que eles brilhavam. Por isso não era incomum que até mesmo desconhecidos fossem pegos olhando longamente para aqueles olhos até o momento em que Abel percebe e olha de volta com um sorriso de quem já está acostumado. Mesmo assim aquela encarada naquele momento em especial não pegou muito bem...
_ Ainda dá pra gente chegar a tempo? _ Perguntou Abel tentando olhar os ponteiros no relógio de Alex.
_ Se a gente não parar em muitos sinais e se corrermos para a sala como nunca fizemos antes, sim acho que a gente consegue. _ Alex deu graças pela quebra daquele silêncio constrangedor.
De lá até o ponto os dois foram conversando sobre a escola, trabalhos, amigos, professores e coisas do gênero. Aquele tipo de conversa sobre assuntos coringa que você tem com um colega de sala que não conhece direito, mas o jeito naturalmente agradável de Abel fazia aquele tema banal ficar bem mais divertido. Quando viram que já estavam chegando, deram outra conferida no relógio. 13:11h. Os dois saltaram do ônibus e antes que Alex pudesse pensar em correr para a sala da aula, Abel já havia agarrado seu braço e o puxado em direção do colégio.
Alex não fazia idéia de como estava conseguindo acompanhar Abel em sua corrida, já que este sempre tivera uma aptidão física muito melhor que sua. Provavelmente fora a adrenalina liberada pelo susto que levou quando se viu repentinamente carregado pela rua. Tinha certeza de que suas pernas estavam mais leves que o normal. Seu coração batia mais rápido com o medo de que ele tropeçasse e Abel saísse arrastando seu corpo como um animal desembestado. Olhou para o lado e viu que ele sorria como uma criança que nunca tinha visto tanto espaço aberto na vida. Se não fosse o medo de morrer talvez Alex até visse naquilo um motivo para tentar aproveitar o momento.
Passaram pelo portão tão rápido que nem deu para ouvirem a bronca do inspetor. Chegando dentro do prédio Abel não desacelerou, fazendo que Alex suasse frio com o aumento da possibilidade dele se estabacar no chão agora que estavam sobre o azulejo polido. Seguiram pelo corredor principal, deram uma curva brusca para a direita onde Alex quase que ficou por ali mesmo, mas conseguiu recuperar o equilíbrio se segurando em Abel e chegou até as escadas, que eles subiram em uma velocidade prodigiosa. Chegando ao topo viraram novamente à esquerda e finalmente chegaram à sala 211.
Os dois ofegavam, Abel com um ar de satisfação pelo exercício físico, Alex ainda sem se recuperar do choque. Entrando em sala viram que o professor já estava em sua mesa, olhando os dois com reprovação. Abel não se abalou e sorriu para ele.
_ Muito bom dia professor!
Ao som de sua voz várias pessoas olharam para a porta. A volta de Abel depois de dois dias de ausência nunca seria tratada levianamente pelos seus colegas. Várias pessoas o saudavam, brincavam com ele e perguntavam sobre seu estado de saúde. Sempre sorridente, Abel foi até sua carteira cumprimentando a todos e dizendo repetidamente que a doença não fora nada demais. Enquanto isso, o pânico de Alex se afastava, dando lugar para a completa exaustão. Era uma sensação de cansaço tão grande que ele nem conseguiu pensar no porquê de ele ter hesitado em vir à escola.
Por cinco segundos.
Depois disso ele não resistiu ao impulso de procurar Leonardo na sala. Por sorte ele não estava olhando para Alex naquele momento. Sua expressão era estranha, meio perplexa, meio surpresa, meio intensa. Como se estivesse cara a cara com um fantasma... E aparentemente ele estava olhando para o Abel?
X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X
Leonardo não esperava por aquilo. Estava pronto para todo tipo de experiência nova e emocionalmente forte ao se mudar para uma cidade onde já havia morado há muito tempo acompanhado apenas pelo irmão mais velho, até mesmo tinha tido lá suas fantasias exageradas e gostaria de acreditar que se encontrava com o peito e a mente aberta para qualquer emoção que pudesse vir. Mas aquilo... Aquilo era...
Era o Abel entrando em sua sala de aula.
O Abel. Dez anos mais velho, mas ainda assim, o Abel. A mesma pele morena, os mesmos cabelos ondulados cor de chocolate, os mesmos olhos amarelos como âmbar cintilante, tudo reunido em um jovem dez anos mais velhos para assombrar Leonardo. Porque aquilo só podia ser uma assombração. O Abel de verdade havia desaparecido quando ele tinha uns sete anos e nunca mais iria voltar. Nunca mais deveria voltar. Então, quem era aquela pessoa que agora se sentava do outro lado da sala de aula?
Examinando-o melhor, o moreno podia até se parecer muito com Abel, mas com certeza, não agia como ele. Estava cercado de amigos, conversava abertamente com todos, tinha um sorriso estampado no rosto e um olhar tranqüilo, que se combinavam em uma expressão amigável do tipo que nunca antes passara pela face do Abel que ele conhecera.
Mesmo assim.
Aqueles olhos.
Aqueles malditos olhos amarelos não podiam ser de outra pessoa.
Ele tinha que ser uma alucinação. Um truque pregado por sua mente pelo excesso de nostalgia. Provavelmente ele estava se encontrando com tantas pessoas e lugares dos tempos do orfanato que a memória de Abel acabou escapando de sua cabeça junto das outras e se colocou sob a imagem de um garoto com a idade que ele deveria ter agora. Só podia ser isso. Tinha que ser isso.
Abaixou a cabeça, apoiando-a sob as duas mãos. Tinha que parar de olhar para ele, assim ele desapareceria. Percebeu que o seu coração batia frenético dentro do peito. Respirou fundo, tinha que se acalmar. De repente, sentiu algo encostando seu ombro e estremeceu. Tirou a cabeça de dentro das mãos espalmadas por um momento para verificar o que era. Alex ainda estava com a mão estendida em sua direção e o olhava com preocupação.
_ Leo, você está bem?
Ainda um pouco confuso, Leonardo balançou a cabeça negativamente. _ Eu... Eu tenho que ir ao banheiro. _ Disse em um tom mais baixo que o normal.
Levantou-se e foi até o tablado pedir permissão ao professor. Permissão concedida, saiu de sala a paços largos, lembrando-se de não virar o olhar para o moreno. Percorreu o corredor com pressa, entrou no banheiro e correu para a pia de metal, girando a torneira e deixando a água escorrer. Levou a água ao rosto com as mãos e deixou-as sob a face, demoradamente deslizando-as para baixo. Sentia a água gelada correndo em seu rosto e ouvia o som da torneira ainda ligada, o toque das mãos era familiar e bloqueavam a luz que vinha até seus olhos, isso o acalmava. Molhou o rosto mais uma vez, agora deslizando os dedos até a nuca massageando-a com água fria. Abriu os olhos. Viu o próprio rosto no espelho a sua frente e ele estava pálido, não era de surpreender que Alex houvesse se assustado com sua condição. Enxaguou o rosto uma terceira vez e desligou a torneira. Escorou-se sobre a pia abaixando a cabeça e se apoiando com as mãos na bancada. Respirou fundo.
Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Abel era uma criança morena, magra e de cabelos opacos cor de chocolate que sempre estavam completamente emaranhados em um caos capilar que cobria boa parte de seu rosto, provavelmente por causa do complexo que ele tinha em relação aos grandes olhos amarelos. Ele sempre andava meio encolhido, com a cabeça baixa, o que o fazia parecer menor do que realmente era. Falava muito pouco e quando falava, era quase que um sussurro, como se ele não conseguisse projetar a voz para fora da boca. Abel vivia do outro lado da rua, em uma casa que todas as crianças tinham medo de chegar perto porque diziam que tinha uma bruxa morando ali, mas Leonardo não tinha medo, ele sempre fora o mais corajoso dos garotos. Abel e Leonardo eram amigos e brincavam juntos quase todo dia, até que um dia, Abel foi para o orfanato. Lá ele não fez muitos amigos, era uma criança diferente, calada, que falava umas coisas estranhas... Mesmo assim, Abel e Leonardo ainda eram amigos. Melhores amigos. As outras crianças apenas eram bobas demais para entender que tipo de pessoa incrível Abel era. Os dois moraram juntos por cerca de nove meses, até que um dia Abel foi embora. Assim. De repente.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão.
Leonardo permaneceu estático por um tempo, sentindo as gotas d’água escorrendo por sua face, respirando. Quando já sentia o rosto secar ouviu o som da porta se abrindo, passos entrando e a porta se fechando novamente. Leonardo não se virou para olhar e quem quer que estivesse na porta, não se aproximou. Não foi para um dos boxes, nem para frente do espelho, apenas ficou lá, em silêncio.
_ Ei Leo, a quanto tempo não? _ Disse uma voz que Leonardo não reconhecia.
Não reconhecia, mas sabia exatamente de quem era. Ergueu a cabeça e lá estava ele, o Abel que não era o Abel. Apoiava-se sob a porta, tinha as mãos atrás das costas e o mirava com um suave sorriso em sua boca. A maneira como ele olhava Leonardo como se o conhecesse o fazia parecer mais Abel do que nunca.
Leonardo enxugou o rosto com as mãos e ajeitou a postura. Estava mais calmo. Voltou-se novamente para o par de olhos amarelos que o observavam de longe e perguntou:
_ Você é o Abel que morava na rua do convento, não?
O jovem balançou a cabeça positivamente.
Agora que já resfriara a cabeça, Leonardo estava mais disposto a aceitar aquilo. Sim, era completamente possível que aquela pessoa fosse o Abel, afinal, o garoto não tinha morrido, apenas foi embora sem avisá-lo, acolhido por uma tia que certo dia bateu na porta do convento procurando por ele.
E agora estava lá, na sua frente, olhando para ele.
_ Você... O que você está fazendo aqui? _ Perguntou Leonardo ainda um pouco confuso.
_ Eu moro aqui. _ Respondeu Abel com um sorriso. _ Minha tia foi promovida para um cargo na plataforma de petróleo aqui da cidade e nos mudamos para cá no começo do ano. E você?
Hesitou antes de responder. Tinha algo na maneira simpática e informal de Abel se direcionar a ele que parecia simplesmente errado. Ele estava calmo demais, seguro demais... Mesmo assim, aquela sensação de estranhamento não foi o bastante para fazê-lo ignorar o sorriso educado e paciente no rosto de Abel enquanto este aguardava por sua fala.
_ Meu irmão veio estudar aqui. Eu vim com ele só por querer, moramos só nós dois em um apartamento na Vila Italiana. E... Por que ninguém me contou que você estudava aqui?
_ Porque ninguém sabe que eu sou... Bem, eu.
Leonardo lançou ao outro um olhar perplexo. Abel se aproximou, virando-se para o próprio rosto no espelho.
_ Me responda uma coisa, olhe para mim e me diga se eu realmente me pareço com a pessoa que você conheceu lá na rua do convento.
Ele estava certo. Era uma sensação confusa, mas Leonardo sentia que ao mesmo tempo em que tinha agora a certeza de que aquele era o Abel, a cada momento o jovem ao seu lado ficava mais e mais diferente de seu amigo de infância. Seus cabelos eram macios e graciosamente ondulados, o físico era bem formado, levava a coluna ereta, a voz calma e constante. Embora os dois tivessem certas semelhanças, em termos de personalidade e presença física aquele jovem ao seu lado não se parecia em nada com Abel.
_ Você foi o único que me reconheceu Leo. Todos os outros nem chegaram a suspeitar que já me conhecessem de algum lugar. E para ser sincero, eu prefiro assim. Acho que se eu contasse só serviria para criar uma situação constrangedora, eu não me dava muito bem com as outras crianças do orfanato, mas agora está tudo diferente, todos nós somos amigos e é tudo tão divertido... Acredita que até com Alex eu falo?
_ Com o Alex? _ Leonardo se voltou para o outro. _ Mas você vivia correndo dele. Literalmente.
_ Eu sei. _ Abel riu. _ Ainda é um pouco estranho falar com ele, mas ele até que é bem legal depois que você conhece direito.
Os olhos de Abel brilhavam enquanto ele falava, seu sorriso apenas aumentava e ele ria como se não conseguisse conter tanta felicidade dentro de seu corpo e ela acabasse escapando por sua boca. Aquilo era diferente demais de qualquer memória que Leonardo tinha dele.
Aquela pessoa falando ao seu lado era o Abel, mas não era o Abel.
_ Você... Quer que eu guarde segredo? Sobre você ser o Abel do orfanato e tals?
Abel ficou calado por um instante, apenas olhando o próprio reflexo no espelho, pensando.
_ Humm... Não precisa não. Se você quiser pode falar, eu não me importo. Acho que já fiz o que eu queria, que era mudar a impressão que todo mundo tinha de mim. Na verdade pode ser até engraçado ver a reação deles.
Silêncio.
_ Acho que deveríamos voltar à sala de aula. _ Disse Abel.
_ Concordo. _ Respondeu Leonardo.
X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X
Durante o resto da aula, Leonardo permaneceu bem quieto.
Ouviu a fala dos professores, faz os exercícios e anotou os esquemas do sem questionamentos. Durante o intervalo comprou rapidamente um salgado e um refrigerante na cantina e foi para a secretaria buscando saber sobre as atividades extracurriculares da escola. A segunda metade da aula não foi mais agitada do que a primeira. Quando se deu conta, a aula já tinha acabado.
Recolheu seus materiais silenciosamente e saiu. Queria chegar em casa. Queria jogar sua mochila em qualquer canto do quarto, mergulhar em sua cama e ligar a televisão. Àquele horário provavelmente já estaria passando a novela e não há nada nesse mundo que acalme Leonardo tanto quanto criticar uma novela de baixo custo. Aqueles roteiros misturando comédia escrachada com dramalhão eram de um mau gosto que conseguia fazê-lo esquecer até um elefante sentado no meio da sala, tamanho era o transe no qual ele entrava em sua fúria crítica.
Estava atravessando o pátio quando teve sua fuga interrompida por uma mão em seu ombro. Sentiu um puxão no estômago. Não importava quem fosse aquilo não poderia ser algo bom. Ele apenas queria sair dali o mais rápido o possível, quem é que poderia ter interesse em mantê-lo naquele lugar? Virou-se para ver quem o chamara e pela segunda vez naquele dia seu de cara com o rosto preocupado de Alex.
A o mal estar que sentia em seu estômago desapareceu.
_ Ei, qual é o problema Leo? Você ta agindo estranho dês do começo da aula.
Leonardo sorriu. É sempre bom saber que tem alguém que se preocupa com você. E Alex conhecia Abel, talvez Leonardo pudesse contar sobre o acontecido para ele, talvez colocar aquilo para fora o fizesse se sentir melhor.
_ Você vai ficar o dia todo ai olhando para a minha cara ou vai falar logo?!
Ah... Ele continuava o mesmo esquentadinho de sempre. Aquilo era quase nostálgico. Quase...
_ É meio complicado. Se eu falar pode parecer até maluquice minha. Esquece, só preciso descansar um pouco e já vou melhor.
_ Cara, você está pálido sabia? Me diz logo qual é o seu problema, foi algo que você comeu?
Leonardo parou por um momento, olhando Alex nos olhos.
_ Alex, o que você pensaria se eu te dissesse que eu acho que o Abel da nossa sala é o mesmo Abel que morou comigo no orfanato.
_ Abel do orfanato? _ Disse Alex confuso.
_ Moreno, cabelo embaraçado, calado, andava comigo a maior parte do tempo.
Alex levou a mão ao rosto e fez uma cara de quem tenta de lembrar algo que está na ponta da língua. Depois de certo esforço mental sua expressão muda para uma de esclarecimento e então lentamente toma os contornos de algo próximo à extrema incredulidade.
_ Bem, eu pensaria que você tem sérios problemas e que você realmente precisa voltar para casa e descansar um pouco, porque essa não é uma associação que alguém em pleno domínio de suas faculdades mentais faria.
_ Eu sei. _ Disse Leonardo em um suspiro. _ Eu também pensaria o mesmo se o próprio Abel não viesse me falar que nós já nos conhecíamos.
Alex pareceu ainda mais perplexo, até mesmo preocupado.
_ Você ta zoando.
_ Não, eu não estou.
_ Então o Abel é quem ta zoando!
_ Não, por mais que eu quisesse que ele estivesse ele não está. É ele mesmo, eu tenho certeza.
Aquela afirmação parecia afetar Alex quase tanto quanto afetara Leonardo. Tirou os olhos de Leonardo e moveu a cabeça, desnorteado. Olhava perdidamente para o chão, com a mão sob a boca, ainda processando aquela informação em sua mente. Era um pouco desagradável para Leonardo pensar que ele arbitrariamente disse algo chocante e perturbador para Alex apenas para não ter que guardar aquela informação sozinho, mas ao mesmo tempo era reconfortante saber que ele não era o único abismado com a situação. A volta repentina de Abel não era um acontecimento pequeno, não para eles.
_ Olha. _ Começou Alex. _ Isso que você acabou de me contar é muito louco e eu não sei se eu acredito completamente nisso, mas também não acho que você mentiria sobre isso. Olha, vamos para casa, ok? Isso é muito bizarro.
Juntos e calados, Leonardo e Alex cruzaram os portões da escola, depois, cada um seguiu o seu caminho. Partilhar aquele conhecimento fez Leonardo se sentir mais leve, mas ainda assim não conseguiu dissipar aquela perturbadora nuvem de lembranças que rondava por sua cabeça, sussurrando.
No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos.
Notas finais
Reviews pleeeeeeese???? o(´w`)o
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