Notas iniciais
Me inspirei no bom velinho George R. R. Martin, espero que gostem ^-^

– XV –

Thalia

Logo após Nico se vestir apropriadamente todos foram tomar o desjejum. O filho de Hades sorria para tudo sem motivo, sorria porque o céu era azul, sorria porque respirava, sorria porque sorria, e aquilo estava incomodando Thalia. O tempo no entanto era o primeiro inimigo do dia.

A manhã demorou a se desenrolar, mas enfim chegou a tarde. Manina e Jnël se prontificaram a ajudar, mas Nico achou prudente deixá-las na Arcádia para vigiarem Aggna. Encontraram Elüho perto do portal.

– Avalon está cercada por monstros lupinos, – informou o elfo com os cachos cor de mel reluzentes à luz do crepúsculo – mas não se preocupem! Dezenas de nós estaremos lá se o confronto não puder ser evitado.

Nico agradeceu e junto de Percy e Thalia atravessaram o portal saindo no meio de uma floresta aparentemente comum aos olhos da filha de Zeus.

– Iremos por uma passagem secreta até o Grande Salão – informou Nico de volta ao seu estado normal, frio e pensativo.

Andaram em círculos até Nico finalmente achar a entrada da passagem escondida sob as raízes de um grande pinheiro. Era o lugar perfeito para um filho de Hades, escuro e subterrâneo, o túnel era sinuoso e sem nenhum archote para iluminar o caminho, mas para Thalia era aterrorizante e sufocante. Nico pegou sua mão e a de Percy para guiá-los.

Ouviu alguns uivos e soube de alguma forma que estavam no caminho certo, Thalia não podia deixar de reparar na aura divina incômoda que pairava no lugar, sem dúvidas a aura de Atena, pouco amistosa.

– Chegamos! – anunciou Nico e logo a terra se abriu. Saíram num jardim abandonado nos fundos do templo.

– É enorme – maravilhou-se Thalia com o monumento, várias estátuas de deusas colossais pareciam vigiar o lugar.

– Não podemos ser vistos, – alertou Nico olhando para todos os lados procurando alguma coisa e finalmente caminhando até o desenho de uma porta esculpido na parede de pedra nos fundos do templo, falou algumas palavras que Thalia não entendeu e o desenho criou vida revelando outra passagem – venham!

Percy levava uma espada de aço comum embainhada na cintura e Thalia percebia o quanto o incomodava a falta de Contracorrente. Thalia por sua vez levava um arco com suas flechas de prata e a pulseira que se transfigurava no terrível Aegis. Entraram pela nova passagem e novamente na escuridão andaram muito, subindo e descendo degraus invisíveis. Thalia à certa altura ouviu o som de água corrente.

– Há água aqui? – perguntou Percy aparentemente entusiasmado.

– Sim, – respondeu a voz de Nico num sussurro – mas tome cuidado, assim como o néctar é fatal para mortais a água que entra na Sala Sagrada é fatal àqueles que não são do sangue das fadas.

– Acho melhor não passarmos por essa sala – comentou Thalia.

– Fica atrás do Grande Salão, onde Atena e Éris devem estar agora – explicou Nico e depois mais silêncio.

Pararam de repente e Nico pediu para que não fizessem barulho. Thalia pôde ouvir algumas vozes femininas conversando:

– Quanto tempo ainda falta? – perguntou uma forte e maligna.

– Em breve senhora, em breve – respondeu uma suave. Thalia sentiu Nico ficar tenso.

– Se acalme Éris, – falou uma terceira incrivelmente reflexiva – estamos com a vantagem!

– Minhas Senhoras – avisou a suave – parece que temos três ratos grandes escutando nossa conversa de dentro dessas paredes...

Thalia sentiu um arrepio na espinha. Não pode ser!

Uma luz surgiu ao fim da passagem e um vento forte os puxou para fora, caíram em frente a três mulheres. Thalia levantou os olhos e as encarou. Uma jovem de cabelos cor de palha e olhos castanhos vestia um manto simples de lã não tingida, estava ao lado de Atena que trajava sua armadura leve de guerra com uma coruja cravada em safiras no peitoral, empunhava uma lança longa e seus olhos cor de tempestade contrastavam terrivelmente com o preto de seus cabelos. Mas talvez a pior seria a terceira que só podia ser Éris, a pele muito pálida, os olhos tão negros que pareciam feitos de carvão assim como seus cabelos, e vestia uma túnica escura como a noite bordada com estrelas em fios de prata, Thalia sentiu um vazio se instaurar em seu interior ao perceber que aquela mulher era Annabeth!

– Ora, ora. Que surpresa mais desagradável – resmungou Atena.

Thalia rapidamente se levantou puxando uma flecha em seu arco, Percy desembainhou sua nova espada e Nico invocou das sombras a sua espada de ferro estígio. Estavam em um salão imenso, do outro lado havia para uma espécie de trono esculpido em uma árvore grande. Uma mesa redonda colossal ocupava o centro do lugar com várias cadeiras de espaldar alto circundando-a.

– Mila, leve Éris ao local determinado para a libertação de Zelenna. Eu mesma me encarregarei de eliminar esses três – declarou Atena.

A jovem fez uma reverência e saiu junto de Annabeth. Não, de Éris...

– Como pôde trair os deuses dessa forma Atena? – inquiriu Percy irado.

– É uma longa história... por que não se sentam? – com um movimento da deusa os três foram jogados na imensa mesa redonda do salão e só pararam quando se chocaram cada um com uma cadeira de madeira de espaldar alto, ficando sentados muito próximos daquele trono e de costas para ele.

Atena parou num peitoril florido com uma bela vista para o lago, e começou seu discurso:

– Os mortais de esqueceram dos Deuses. Julgam em sua ignorância que há apenas um Deus a controlar todo o universo – riu como se aquilo fosse uma verdadeira piada. – Sabem o quão ilógico isso soa? Mas a ironia está nas consequências disso. Eu tentei... realmente tentei fazer como que sua raça se tornasse mais que um simples primata mutante. Os deuses acharam que era devido deixá-los evoluir e evoluir... Vejam no que resultou! Vocês só destroem e destroem e destroem, e suas almas acumularam tamanho poder que suas crenças em um Deus Uno estão fazendo todas as personalidades divinas entrarem em conflito. Sabem qual será o resultado disso?

Por um momento Thalia testemunhou o brilho da loucura nos olhos de Atena que conservava a postura séria e ereta de uma autoridade. Tentava se levantar da cadeira, mas uma força invisível a mantinha presa ali.

– A resposta é o Caos! – continuou Atena – Mas se eu puder libertá-lo primeiro serei capaz de controlá-lo e assim criar a Nova Era!

– E você confia mesmo em Éris? Só pode estar louca! – disparou Percy se debatendo na tentativa de se levantar da cadeira, em vão. Nico parecia concentrado murmurando algum tipo de encantamento.

– Vocês julgam muito mal a discórdia! Não há outro meio de se alcançar a sabedoria senão por ela! Discordando do que se sabia antes, do que se sabe agora. Do que aprendeu, do que viveu! Éris sempre foi uma aliada minha, não uma inimiga!

– E você quer tanto o Caos que deu sua própria filha como casca para a alma de Éris se apoderar dela, tal qual a de Cronos se apoderou de Luke! Também a jogou no Estige para suportar a deusa? – ralhou Thalia amargurada, seus dois amigos, sua família, escolheram o mesmo destino.

– Para suportar Éris era preciso somente a essência do Mundo Inferior, já que a alma da deusa ficou presa no Tártaro e não é nada definitivo, só até pudermos libertar Érebo e reabrir o grande abismo. Dessa forma a alma e o corpo de Annabeth se tornaram apenas uma ponte para Éris atravessar – explicou Atena inacreditavelmente fria, como se aquilo não fosse nada.

– Então Annabeth não foi envenenada! – manifestou-se Nico – Foi tudo planejado!

– Sim, e como a essência vinda dessa sua espada – esclareceu Atena encarando e falando diretamente para Nico – não era o suficiente, pedimos à Apáte que convencesse Afrodite de que o que você sentia pelo filho de Poseidon podia ajudar a prevenir a morte dele, e ela o fez. Ah não sabe como fiquei tentada à fazer Percy trocar a própria vida para salvar Annabeth, mas de que me adiantaria? Precisava que a essência viesse diretamente de um filho do Mundo Inferior, e de livre e espontânea vontade...

– Você brincou com a gente, nos usou! – vociferou Percy de alguma forma conseguindo se levantar com muito esforço à despeito do poder da deusa, que não parecia espantada.

– Sabe Perseus, disse-lhe uma vez que não me agradava a sua amizade com minha filha, e também votei para que os deuses lhe matassem quando tive a chance. Você sempre foi um problema, mas nada podia fazer enquanto os deuses me observavam. Acontece que agora nem mesmo seu pai saberá se eu lhe matar...

A voz de Atena saiu rancorosa, ela faria alguma coisa. Nico murmurava alguma coisa repetidamente e Thalia sentiu se livrar do encantamento da deusa. Não hesitou, puxou uma flecha mirando o pescoço de Atena e soltou-a.

– Thalia, não! – tentou Nico.

Atena simplesmente parou a flecha no ar e a arremessou de volta perfurando a filha de Zeus entre os seios. Thalia cambaleou e caiu à base do trono quase inconsciente. Percy tentou ajudar, mas não estava totalmente livre do poder paralisante da deusa.

– Devia se preocupar consigo mesmo Perseus Jackson! – bradou Atena arremessando sua lança contra o peito do filho de Poseidon. Nico tentou impedir, mas Percy o empurrou para longe sendo acertado em cheio na omoplata esquerda sendo lançado até o trono e prendido nele. Thalia ainda podia ouvir seu urro de dor angustiante, Atena parecia se deleitar com a cena e caminhou vagarosamente até o trono, Nico se levantou e tentou ajudar Percy, mas foi lançado contra uma parede violentamente pelo poder da deusa, bateu a cabeça com força e pareceu desmaiar, sua testa sangrava. Percy estava bem próximo de Thalia, pendurado no trono pela lança. Atena segurou firme na haste e a aprofundou mais em Percy que gritava de dor, mas não podia fazer nada assim como Thalia.

– Eu poderia me demorar dizendo-lhe o quão prazeroso isso é para mim, mas não posso me dar ao luxo de esperar alguém aparecer para lhe salvar, sabe como é... Atrás desse trono está a Sala Sagrada, a água envolta do poço sagrado é um veneno excruciante para os que não tem o sangue das fadas, eu adoraria ver você, um filho de Poseidon, se afogando ali. Morra Perseus Jackson! Morra e não me atrapalhe nunca mais!

Com uma força sobre-humana Atena apertou a haste da lança contra o trono e junto com a parede ele cedeu, Percy perfurado foi levado junto com as pedras. Demorou alguns segundos até Thalia ouvir o som do corpo do filho de Poseidon se chocando contra aquela água envenenada, e isso foi a última coisa que Thalia pôde se lembrar antes de tudo ficar escuro...