Notas iniciais
– V –
Nico
Depois de salvar o amor do amor da sua vida e avisar Quíron dos riscos daquilo, Nico saiu da enfermaria. Ele havia sentido a morte de alguns companheiros, havia sentido a morte de sua irmã Hazel e não lhe restara mais dúvidas quando não a viu lá, junto com todos os outros.
Caminhava em direção ao chalé treze para pegar seja lá o que precisasse para partir. O filho de Hades não estava com a intenção de permanecer muito tempo ali no acampamento, ainda mais agora que...
– Ei! Nico! – era a conhecida voz de Jason chamando-o, Nico ignorou-o e continuou andando até que o loiro correu e o abordou de frente – Até quando vai... continuar... – Jason estava arfando – ignorando as pessoas?!
– Não é uma boa hora! – cortou Nico tentando contornar o maior e seguir em frente, mas Jason era teimoso.
– Eu... sinto muito pela Hazel e por tudo que aconteceu hoje, creio que Percy ter te procurado seja culpa da Piper. Ela acha que você ama a Annie e por isso poderia ajudar...
Ah sim... já ouvi isso antes... Nico estava estático, pensamentos remoíam dentro de si.
– Você está bem? Nico?! – perguntou Jason muito preocupado, mas a resposta de Nico foi um riso histérico, como se ele estivesse rindo da pior das dores. Nico pôde ver o espanto do filho de Júpiter estampado em sua face, mas não conseguia se controlar.
– Ele... ele achou que eu ia matá-la! – declarou Nico caindo de joelhos rindo ainda mais, uma profunda gargalhada de dor – Ah os deuses sabem que era o que eu deveria ter feito!
Jason ajoelhou-se ficando cara a cara com o filho de Hades e o abraçou. Dessa vez Nico não o impediu muito menos reclamou, simplesmente deixou as lágrimas caírem.
– Foi muito corajoso da sua parte tê-la salvo – murmurou Jason.
– Foi irresponsável! – rebateu Nico – Ela é orgulhosa demais... a essência do Mundo Inferior vai corrompê-la depressa! Mas sem a essência ela teria... – Nico foi interrompido por um soluço, mas logo continuou – Você viu... ele... ele... fui fraco Jason! Ele estava tão desesperado, temi que ele pudesse... pudesse... pudesse fazer uma loucura se... se ela morresse!
– Ele precisa saber Nico... Não é justo com você, não é justo com ele e... não é justo comigo... Por favor livre-me do meu juramento, deixe-me acabar com esse fardo...
– Não! Não, não! Eu lhe proíbo Jason! – exasperou Nico agora desvencilhando-se dos braços do loiro e retomando o juízo, ficando de pé – Por favor! Preciso ficar sozinho!
Nico correu para seu chalé agradecendo mentalmente à Jason por ter desistido de impedi-lo, sentia que desabaria logo, estava quase impossível lutar contra as lágrimas e manter a sanidade. Assim que o filho de Hades fechou a porta atrás de si ele deixou-se cair apoiando as costas na mesma.
Finalmente em paz, sozinho e nas sombras onde é o meu lugar!
Deixou as lágrimas saírem e gritou alto, gritou por Hazel, gritou por Bianca, gritou por Percy... Ninguém escutaria do lado de fora, todos os sons eram abafados.
Não devia ter falado tanto para Jason! Isso não é problema dele, por que não me deixa em paz simplesmente?!
Veio de súbito a Nico lembranças de suas conversas com Bob no palácio de seu pai. Estou fazendo o mesmo com Jason! Como posso me deixar levar tanto assim?!
O barulho de alguém batendo na porta interrompeu os devaneios do filho de Hades. Nico fez um movimento com as mãos desfazendo a barreira que impedia o som de dentro do chalé de ser ouvido do lado de fora para poder dizer:
– Jason, já disse que quero ficar sozinho, me deixa em paz! Pelo menos por hoje eu imploro!
A voz que respondeu entretanto não era a de Jason.
– Achei que o Rei Fantasma jamais implorasse por nada!
Percy...
– Realmente não é boa hora Jackson! – respondeu Nico ainda escorado na porta.
– Annabeth está descansando então posso ficar aqui por muito tempo batendo na porta, você que sabe!
Percy começou a bater incessantemente na porta, depois de dois minutos Nico já não aguentava mais. Respirou fundo, secou as lágrimas rezando para que seus olhos não estivessem muito vermelhos e que as sombras pudessem ajudar a disfarçá-los.
– Você tem dois minutos Jackson – declarou Nico cabisbaixo não querendo encarar Percy.
– Esta deve ser a primeira vez que entro aqui... – divagou Percy depois de entrar no chalé de Hades. Um candelabro no teto brilhava com pequenas chamas esverdeadas dando a pouca iluminação que deixava Nico sempre confortável, mas diante de Percy era impossível não se sentir estranho.
– Você tem um minuto – disse Nico tentando apressar o filho de Poseidon e acabar logo com aquele tormento.
– É verdade Nico? – inquiriu Percy ainda de costas para Nico que sentiu o chão fugir de seus pés.
– O que... o que é verdade? – perguntou tentando em vão manter a indiferença na voz.
– Sobre o que você sente... pela Annie... – Percy virou-se encarando Nico, sua expressão estava carregada.
– Esperava que soubesse que não Jackson... – respondeu Nico aliviado.
A carranca de Percy suavizou-se, mas através de seus olhos verdes que bruxuleavam na luz fraca do chalé Nico percebeu que ele estava agora muito confuso.
– Então por que Nico? Por que me odeia tanto? Me recuso a acreditar que ainda possa guardar algum rancor de mim esses anos todos pelo o que aconteceu com Bianca.
Lembrar da irmã sempre abria uma ferida no coração de Nico, mas depois de alguns anos era suportável.
– Não sei por que pensa assim, não o odeio Percy – Nico não encarava o mais velho, era doloroso demais falar de seus sentimentos com ele.
Quando percebeu Percy já estava muito perto erguendo os braços para abraçá-lo, Nico ficou sem reação. Percy era quente e tinha um cheiro bom que lembrava a Nico as poucas vezes que visitou o mar e sentiu o cheiro da maresia. O abraço singelo não demorou mais que dois segundos, mas Nico pode ouvir nesses dois segundo o som das batidas do coração do filho de Poseidon.
– Que bom Nico, eu queria agradecê-lo e muito por ter salvo Annabeth, nós pretendemos nos casar em Nova Roma assim que ela se recuperar e... gostaria de ter você como padrinho. Você aceita?
Teu amor cairá em prova e deves vencer sozinho – o conselho do oráculo veio de súbito a mente de Nico.
– Vocês não... não acham... que é cedo para casarem?
– Ella nos revelou uma nova grande profecia, não sabemos quanto tempo de paz ainda podemos desfrutar...
Paz... A jornada é longa... O preço de amar...
– Eu aceito o convite Percy, mas realmente preciso ficar sozinho agora... – declarou Nico já abrindo a porta para Percy sair. Ele parece feliz...
– Tudo bem, nos vemos então.
Nico fechou a porta, mas esqueceu de trancar. Era incrível como seu coração ainda podia ser partido dessa maneira. Agora mais do que nunca precisava sair do acampamento, talvez voltar para o Mundo Inferior. Separou algumas roupas e as colocou na mochila junto com um pequeno cantil de néctar, separou a espada e admirou um pouco o chalé antes de ir até os domínios de seu pai pelas sombras.
Fechou os olhos focalizando os jardins de sua madrasta, por algum motivo quando abriu os olhos ainda estava no chalé treze, tentou de novo, e de novo, e de novo. Qual é o problema?!
Foi quando sentiu uma mão quente segurando a sua tão fria. Era Percy de novo. Como pude esquecer de trancar a maldita porta?!
– O que...
– Sinto muito mesmo Nico, eu não fazia ideia – explicou Percy puxando Nico em um abraço apertado – Jason me contou tudo...
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