Notas iniciais
Primeiro do Nico, espero que gostem...

– III –

Nico

Para onde quer que Nico olhasse só via escuridão, sempre se sentiu à vontade nas sombras, mas estas... estas não eram as sombras da morte, tampouco as sombras comuns que o seguiam...

Onde estou...? – perguntava-se, não conseguia emitir som algum. Não sentia o chão sob seus pés (como filho de Hades, sentir o subterrâneo fazia parte de seu arsenal sobrenatural. Não era tão poderoso nesse quesito como Hazel, mas ainda sim conseguia sentir a energia do subterrâneo). Estaria flutuando? Onde?

– Estás nos meus domínios minha doce criança! – respondeu uma voz à sua pergunta, mas esta não parecia vir de lugar nenhum. Era uma voz feminina, mas parecia que soava atrasada como um eco dos mortos.

Uma névoa gélida surgiu de repente, e Nico identificou acima dele algo como troncos retorcidos que subiam sem fim para além das sombras, estavam espalhados pelo lugar quando percebeu que não eram troncos, mas sim raízes de algo muito maior. Ouviu o som do movimento de um rio, era como o som do Aqueronte e Nico sentiu um arrepio na espinha, algo que pensou ser impossível para ele que já viu tantas coisas... É tudo tão confuso...

– Só os velhos e doentes me são enviados, mas tu... – refletiu aquela mesma voz de novo.

E então paredes pareceram se erguer em volta dele, rostos de sofrimento estavam estampados por todas elas. Era como se o decorador tivesse usado o manto de seu pai como modelo para o lugar, um papel de parede que faria o Aegis de Thalia fugir de medo.

Algo moveu-se nas sombras do lugar, mas estas pareciam clarear-se, talvez Nico estivesse se acostumando com a escuridão... de novo...

– Quem é você? – a voz de Nico finalmente saiu. Uma mulher apareceu, seu cabelo era liso e longo e parecia ser metade preto e metade branco (talvez pela falta de luz Nico não estivesse vendo as coisas como elas eram). Quando ela se aproximou o filho de Hades viu que um dos lados do corpo da mulher estava em estado de decomposição, realmente o oposto do outro que era jovem e belo. Usava um manto escuro.

– Eu sou a face obscura da Deusa, sou a Emissária da Morte, sou a Juíza das Almas Aflitas, sou Hel, e este é meu palácio! — a voz da deusa estava perfeitamente clara agora, mas Nico ainda não sabia por que estava ali. Se estivesse morto não estaria então nos domínios de seu pai? A deusa parecia ler seus pensamentos – Não parece-me que estás morto minha doce criança. Faz incontáveis eras que não recebo um visitante tão intrigante... Há sangue divino em ti... – disse franzindo o cenho – quem... és... tu?

– Sou Nico Di Angelo, filho de Hades – disse Nico meio rouco, mas agora podendo sentir o frio chão do palácio da deusa – a senhora me disse seu nome, mas perdoe-me, não a conheço, não sei o que faço aqui.

– Entendo... – disse ela se aproximando mais e esticando o braço para tocar-lhe o rosto, sua mão era fria. Como as minhas também o são, pensou Nico.

A deusa fechou os olhos, e por um momento Nico pareceu ver sua imagem espelhada nela, uma cópia fantasmagórica de si mesmo chorando, seu rosto era solene e as lágrimas eram sangue.

– Pobrezinho... – sussurrou a deusa tão baixo que Nico quase não ouviu, tirou sua mão do rosto dele e o encarou por algum momento – Tu provavelmente não sabes filho de Hades, mas tens um destino muito pior do que a morte, mas grandes sacrifícios trazem grandes recompensas. Sou talvez a mais justa das deusas Nico, e prometo-te que dia chegará em que serás feliz, se – ela colocou bastante ênfase no se – conseguires entender e controlar o poder que cresce dentro de ti. Teu pai é um deus, tua mãe é uma mortal, e o sangue que em ti corre é nobre e antigo.

– Por que estou aqui? Eu estou... estou morto? Por que não estou nos domínios de meu pai?

Hel soltou um longo suspiro e virou-se pegando um cálice de algum lugar e tomando um gole de alguma coisa, Nico pôde ouvir um uivo ao longe.

– É incerto o motivo, até mesmo para mim. Sou a deusa do mundo dos mortos tal como teu pai. Não tente entender criança, nunca conseguirás. O fato de estares aqui significa que algo dentro de ti precisa renascer, para se tornar mais forte. O destino falou contigo pessoalmente, o que ele te disse?

– Não... não compreendo senhora...

Então a voz do oráculo sussurrou no salão:

Toda vitória tem um custo e a morte vêm a caminho

teu amor cairá em prova e deves vencer sozinho

A jornada é longa e entre mundos deves andar

saberás por completo o preço de amar

Uma escolha farás ante a fada de poderosa magia

em teu sangue também corre grande sabedoria

Esta missão fará teu amor feliz

deves de seguir o que o coração diz

Era a profecia que o oráculo murmurara para ele, mas não a compreendia. Nenhuma vitória parecia-lhe iminente, e a morte sempre esteve com ele. Como poderia seu amor ser testado se este, ele sabia, iria para o túmulo ou Jason o iria se contasse para alguém. Se deveria andar entre mundos, bom esta parte era coerente já que não fazia ideia de onde estava, nem se estava vivo. O preço de amar? Só podia ser alguma piada divina. Que escolha poderia fazer diante de uma fada? Nico acredita em muitas coisas, mas em fadas? Sério? A sabedoria era outra piada, ele era sábio o suficiente para saber que as parcas provavelmente esqueceram de acrescentar felicidade em seu destino. Mas se essa missão faria... faria... aquele que ama feliz... Então Nico a completaria e no final seguiria seu coração, se este ainda pulsasse em seu peito...

– Ora, ora, então é isso... – disse a deusa mais para si mesma do que para alguém mais – Teu destino foi traçado e está quase na hora de voltares, mas já que tua consciência trouxe-te até aqui aceite um conselho meu – Nico fez uma careta de desaprovação, os deuses nunca eram claros e seus conselhos sempre o confundiam ainda mais, complicando a missão. A deusa vendo sua expressão soltou um riso abafado – Pequeno, não sou como os outros.

O lugar voltou a escurecer, Hel estava sumindo e quando tudo pareceu sumir novamente ele ouviu a voz ecoada da deusa:

“...os deuses da morte são por vezes gentis criança, mas desconfie dos deuses do amor. A Morte embala-te como uma mãe e orienta-te a um novo começo, mas o Amor, ah... ele corrompe a alma das mais variadas formas, é a força e a fraqueza dos vivos, é tirano e cruel, um anjo de asas sangrentas que consome tudo o que toca e constrói sem querer em meio ao caos... Lembrai! Não há força igual, não confie nos deuses do amor...”

Nico estava em paz, até ouvir o desagradável barulho de alguém batendo numa porta. Ele demorou alguns segundos para identificar onde estava, era escuro mas essas sombras ele conhecia. Estava no chalé treze, estava no acampamento.

Como... Como vim parar aqui? – A última coisa da qual Nico se lembrava antes de sua “reunião” com Hel era ter se sentido extremamente exausto e ter sido conduzido até a enfermaria apoiando-se nos ombros de Reyna.

A pessoa que batia na porta devia estar desesperada, Nico achou que a quebraria. Caminhou pesadamente até ela e abriu, por um momento seu coração parou, era Percy, e ele estava com os olhos marejados.

– Nico! Graças aos Deuses! – Percy o abraçou com força, parecia que ia desabar em prantos, estava um pouco sujo e machucado – Preciso de você!

Preciso de você... Nico corou de imediato, mas foi Percy que desvincilhou-se do abraço apertando os ombros do menor com força encarando-o fixamente.

– Annabeth... ela está... está... está morrendo, só você pode fazer alguma coisa.

O coração de Nico poderia ter trincado até quebrar-se naquela hora, mas diante do sofrimento de Percy o que... o que faria?

A morte vêm a caminho, pensou Nico, de súbito, na sua profecia...

Notas finais
Até.