Pernico - Love is a Long Road
39 Epílogo
Notas iniciais
PERCY FALA...
A última coisa da qual eu consigo me lembrar daquele dia foi me sentir vencido pela exaustão. A luta contra Érebo me esgotou de uma forma como nunca havia acontecido antes. Eu vi Nico, tenho certeza que era ele, voando com grandes asas brancas translúcidas e empunhando uma foice que eu nunca havia visto antes.
Lembro-me também das mulheres aladas que apareceram de repente e investiram contra ele. Eu queria ajudá-lo, eu precisava ajudá-lo! Mas meu corpo não respondia às minhas vontades. Annabeth forçou-me a fugir com os outros, fugir...
Eu fiquei desacordado por um longo tempo. Quando acordei eu disse para mim mesmo que tudo não passara de um triste pesadelo. Procurei por Nico em todo o acampamento até que Rachel me encontrou perambulando perto dos campos de morangos. Ela me conduziu até o pátio da Nova Grécia, contou-me que fiquei dois dias desacordado; que Leo, Jason e Thalia continuavam inconscientes, porém fora de perigo, aparentemente; que Annabeth estava em prisão domiciliar esperando a chegada de Reyna, novamente; e... me deu a pior notícia de todas... Nico di Angelo ainda não havia retornado...
Podia sentir o chão desaparecendo sob os meus pés só de pensar na possibilidade de eu tê-lo perdido para a morte. Nunca me recuperaria dessa perda!
Leo acordou depois de três dias, dois dias antes de Thalia. Reyna chegou na semana seguinte. Sua demora era devida a problemas em encontrar alguém para substituí-la em Nova Roma até o seu retorno, Octavian estava afastado desde a guerra civil que instigou contra o acampamento grego.
Nós todos nos reunimos no grande salão da Nova Grécia, todos menos Jason que continuava inconsciente, ele bateu a cabeça com força e era tecnicamente mais velho que todos nós, uma vez que Annabeth e eu nos rejuvenescemos dez anos por razões que ainda não entendi, e Leo quase não envelheceu já que o tempo passa diferente em Ogígia onde ficou com Calipso todo o tempo posterior à guerra contra Gaia...
Todos nós falávamos em defesa da Annie, mas Reyna era imbatível! Ela ainda queria a morte dela assim que ela desse à luz, é claro. Os ânimos estavam ficando tensos, estávamos em um embate que poderia acabar em outra guerra! Eis que uma filha de Apolo, toda vestida de branco com uma touca de enfermeira na cabeça irrompeu pela porta. Ela desculpou-se por ter interrompido nossa pacífica reunião assim tão abruptamente e então sua voz doce apunhalou todos os nossos corações:
– Jason Grace não resistiu aos seus ferimentos, ele acordou vinte minutos atrás e... – ela remexeu em seus bolsos procurando alguma coisa até que tirou um pedaço de papel e o entregou para mim, já que eu era o que estava mais perto – Sinto muito...
Eu desdobrava o papel enquanto a garota saía. Era uma carta de despedida improvisada e escrita rapidamente, era a caligrafia de Jason bastante trêmula. Estava escrito:
“Não pude continuar, sinto muito. Peço que não chorem por mim, nem pelo Nico, ele tem me visitado. Percy, ele me pediu para dizer que quer que você viva cada dia da sua vida como se fosse o último, não atreva-se a fazer alguma besteira! E Reyna, se estiver aqui, ele pediu para que se lembre de que vocês têm um pacto, chega de mortes. Leo, meu amigo, foi bom ter te reencontrado!”
Era a confirmação final, a menos que Jason estivesse delirando Nico estava morto. Não pude permanecer ali nem por mais um instante, andei até Reyna e entreguei-lhe a carta, então saí. Corri para o lago, tudo o que eu queria era ficar sozinho, mas nem mesmo a água podia curar essa ferida feita dentro do meu coração.
No crepúsculo foi anunciado que Annabeth recebera o Perdão Imperial, estava livre das acusações uma vez que sua ajuda foi vital na guerra contra Éris. E também preparam a mortalha de Jason para o funeral...
***
Seis meses se passaram e a bolsa da Annabeth estourou. Ártemis, em pessoa, apareceu para realizar o parto. Nasceram gêmeos, não idênticos, uma menininha de cabelos negros como os meus e de olhos cinzentos, e um garotinho de cabelos loiros como os da Annie e de olhos verdes-mar.
– Como vão chamar? – perguntou Rachel esgueirando-se pela enfermaria.
Annabeth e eu nos encaramos, havíamos combinado de que eu batizaria o bebê se fosse menino, e ela batizaria se o bebê fosse menina.
– Bianca – respondeu Annabeth. Não poderia ter escolhido nome melhor!
– E o garotão? – perguntou Leo aparecendo do nada.
– Jason, – respondi – o garotão se chamará Jason...
Percebi uma lágrima escorrendo no rosto alvo de Thália ali perto ao lado da deusa. Leo desferiu-me um soco brincalhão e agradecido pela homenagem. Ártemis despediu-se e, junto da filha de Zeus, desapareceu em um relâmpago prateado.
Annie e eu não voltamos, mas nos tornamos grandes amigos. Ela deu continuidade a sua carreira de arquiteta e apaixonou-se por um colega de trabalho, eles viviam felizes juntos. Leo e Calipso se casaram oficialmente, uma bela cerimônia grega. Os deuses raramente falavam com alguém, eles se fecharam num silêncio melancólico e eterno. Felizmente os monstros também aderiram à quietude, em sessenta anos nenhuma aparição ou ataques foram relatados, assim como nenhum sinal de semideuses. O acampamento tornou-se uma simples casa de verão onde as novas gerações passavam as férias ouvindo as belas histórias dos mais velhos.
Eu tentei, tentei encontrar alguém, mas não pude esquecê-lo. Todos os casos que tive depois daquilo tudo foram vazios, insignificantes e breves. Assim passei os meus anos, ensinando os mais novos e cuidando do acampamento. Bianca se tornou uma escritora de sucesso, Jason um médico.
Sempre achei que morreria em batalha como cabe a um verdadeiro herói, mas não. Depois da guerra contra Éris nada mais aconteceu, de todos que restaram ninguém morreu em batalha. Leo morreu com setenta e nove anos devido à um infarte depois de rir de uma piada que ele mesmo estava contando num verão no acampamento. Calipso que permanecia jovem surtou, vestia roupas extremamente coloridas e floridas, chapéus e parafernálias de todo o tipo, ela vivia no banker 9 e raramente era vista. Annie morreu aos oitenta e dois, um ano depois de seu marido. Ela acumulou uma grande fortuna e estava aproveitando a vida muito bem. Pegou um resfriado em Buenos Aires que logo transformou-se numa pneumonia, e pela idade avançada ela não resistiu. E eu... Eu estou com oitenta e cinco anos, meu corpo já não responde às minhas vontades, uma simples corrida é capaz de acabar comigo. Estava doente também, ninguém conseguia descobrir o que estava me matando, mas algo estava. Ou talvez era só chegada a hora de fazer a passagem...
Bianca estava ali com o marido Jeff, um violonista famoso. Eles se encontraram num museu e se apaixonaram à primeira vista, ela trouxe meus dois netos, Luke e Piper, eles eram muito energéticos!
Vieram também se despedir de mim: Clarisse, que não havia deixado de treinar um só dia, corria pelo acampamento cinco quilômetros diariamente antes do sol nascer, e Rachel apoiada em sua bengala de carvalho, ambas estavam com os cabelos grisalhos e a pele cheia de rugas, assim como eu...
Meu filho Jason não apareceu, ele nunca gostou das histórias ou do acampamento, ele sempre foi racional demais, correto demais... Provavelmente puxou só o lado ruim da Annie, que ela esteja em um bom lugar...
Uma crise de tosse me afligiu, quando recuperei os sentidos vi uma figura encapuzada parada na porta, ninguém mais parecia ver. Soube que a hora havia chegado.
– Percy... – chamou Rachel aproximando-se à passos lentos – Descanse em paz meu amigo... – desejou ela beijando minha testa.
Clarisse acenou com a cabeça. Bianca chorava no ombro do marido, assim como fazia Piper nos ombros do irmão Luke. Eles já eram adultos, mas para mim sempre seriam meus netinhos para quem eu contava sobre minhas aventuras...
A figura encapuzada se aproximou, me estendeu uma mão e eu a peguei. Todas as minhas dores e preocupações haviam desaparecido. Caminhávamos na fila de almas no Mundo Inferior, eu já podia ver Cérberos ao longe.
– Tânatos se aposentou? – perguntei já que não foi o deus da morte quem me buscou. O encapuzado limitou-se à balançar a cabeça numa negativa.
Finalmente chegamos ao cão gigante de três cabeças. Eu continuava na fila que ia em direção à Morte Rápida, não morri de forma heroica então sabia que não podia ir para os Elíseos. Contudo, a figura encapuzada me puxou para a fila dos que aguardavam audiência com os Juízes.
– Ei, não quero um julgamento! – protestei. Mas o encapuzado continuava a me arrastar.
Montanhas espelhadas cresciam pelo lugar, vi meu reflexo nas pedras roxas e eu estava jovem, muito jovem, com dezoito ou dezenove anos talvez.
Chegamos a um salão em meio as rochas, haviam três tronos acima de nós, no da esquerda havia um homem loiro e de olhos violeta, usava uma túnica roxa. No trono da direita havia um homem de longos cabelos negros e de barba escorrida, mantinha os olhos fechados como se estivesse dormindo. O trono do centro estava vazio. A figura encapuzada caminhou até ele, pegou um martelo e bateu na pedra polida três vezes. O da direita abriu os olhos, eram brancos como se fosse cego. Ambos se levantaram. O loiro da esquerda disse com uma voz forte:
– Eu, Radamanthys, Juíz de Hades responsável pelo julgamento das almas do Oriente, não posso julgar uma alma ocidental. Por esta razão retiro-me deste tribunal, por hora.
Radamanthys esperou um aceno positivo da figura encapuzada, quando recebeu a devida permissão ele saiu do local. O homem da direita então assumiu o discurso com uma voz serena:
– Eu, Aiacos, Juíz de Hades responsável pelo julgamento das almas do Ocidente, abdico do meu julgamento para essa alma, deixando-a à cargo do Terceiro Juíz.
Aiacos saiu com uma reverência, restavam ali agora somente a figura encapuzada e eu. A figura andou até mim devagar. Eu estava tenso, devo admitir. Ele desprendeu o manto que cobria-lhe o corpo e o puxou lentamente por cima, revelando primeiramente um par de All Stars preto, depois uma calça jeans escura, depois uma camisa preta com uma caveira prateada no centro, por baixo de uma jaqueta de aviador, e agora sem o manto eu podia ver o garoto de cabelos negros e olhos como ônix, ele falou:
– Pois eu, Nico di Angelo, Juíz Principal do Conselho de Hades, proclamo você, Percy Jackson, filho de Poseidon, culpado de roubar o meu coração e, como condenação máxima para esse crime, sentencio-lhe à passar o resto da eternidade ao meu lado nos Elíseos, onde estão todos os nossos amigos!
– Estou confuso Senhor Juíz, está me condenando ou está me pedindo em casamento? – perguntei alegremente bobo e surpreso.
– Ora, – Nico riu – não sabe que são a mesma coisa?
– Nesse caso, – disse eu puxando-o para perto de mim e beijando-o intensamente – eu, Percy Jackson, prometo ser o seu eterno namorado Nico di Angelo!
Nico respondeu aprofundando o beijo, quando o ar nos faltou eu abri os olhos, estávamos na sacada de um grande palácio rodeado de toda a sorte de flores das mais coloridas e variadas formas e aromas, um arco-íris cortava o céu caindo num rio cristalino que percorria toda aquela planície. Lá embaixo eu reconheci Piper e Jason abraçados, também vi Leo jogando vôlei com Annabeth numa quadra natural e mecanicamente equipada, todos jovens!
– Estão todos aqui? – perguntei.
Nico acenou positivamente. Virei-me e contemplei o quarto em que estávamos, uma cama colossal ocupava o centro, cortinas estendiam-se do teto até ela, haviam armários e... eu acho que havia algo de familiar ali...
– Nico... esse quarto...
– É o nosso quarto, – respondeu ele vermelho e encarando os próprios pés, cabisbaixo – idêntico àquele em que... em que tivemos a nossa primeira noite...
Vê-lo tímido e envergonhado daquela forma fazia-me rir de um jeito inocente.
– Bom, – falei beijando-o e conduzindo-o para a cama – ainda não tivemos uma primeira noite aqui...
– Ainda é dia Percy... – protestou ele.
– Você me entendeu...
– Ah... – Nico ficou ainda mais vermelho e eu adorava vê-lo daquela forma – Sendo assim... – ele me empurrou e em seguida sentou-se em cima de mim, beijando-me.
E assim demos início ao nosso “felizes para sempre”...
~FIM~
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