– o que irei fazer sem você? – Alice era muito dramática, mais dessa vez Morian sentia-se do mesmo modo. Ajeitou os ombros e olhou para os profundos olhos de Alice.

– também vou sentir sua falta – ela odiava despedida, de todas as outras vezes tinha sido fácil, pois não tinha nenhum amigo, mais dessa era diferente, ela tinha Alice. Alice sua melhor amiga e única também, que tinha divididos seus segredos de adolescente rebelde, suas fugas noturnas para se encontrar com sua gangue barra pesada. E mesmo sabendo que Morian participava de uma gangue ela sempre esteve do seu lado.

– é serio. Quem vai me defender dos “brancos idiotas”? – Alice puxou a barrinha mal feita de sua blusa e olhou para longe. – Mori você vai me ligar né?

– vou sim, todos os dias, palavra de escoteiro! – disse ela fazendo continência e com um largo sorriso no rosto. Mas ela mesma não se sentia assim, feliz, pelo contrario estava arrasada com a mudança com sua vida, com tudo. Retirou um canivete que comprara pra si quando fazia seu décimo segundo aniversario, ela o amava. Estendeu a mão com o canivete e entregou para sua amiga.

– pega é seu.

– mas, você o adora, eu sei, lembra aquela vez que quebrou meu braço quando eu o tomei de ti e joguei no lixo? – disse com uma voz de surpresa e ansiedade.

Morian riu, é claro que ela lembrava. Isso acontecera logo quando se mudara. Nesse dia Alice encheu seu saco para jogar-lo fora, dizia que era perigoso andar com isso em uma bolsa. Mal ela sabia que Morian tinha uma bomba em seu quarto. Foi quando Alice o arrancou de sua mão e tentou jogar no lixo, mas Morian foi rápida e o tomou em um só golpe com as mãos. Depois só escutou Alice gritando por uma ambulância.

Ela agarrou sua mala, olhou para Alice e suspirou.

– é por isso que você vai cuidar muito bem dele – empurrou gentilmente o ombro da amiga que nesse momento chorava. – hey, pare com isso.

Alice enxugou suas lagrimas e apertou fortemente o cabo do canivete. Ela gostava muito de Morian e seria a pior coisa para ela quando a mesma fosse embora. Mesmo morando desde criança ela nunca terá uma amiga, pelo fato de ser negra em um bairro de “brancos idiotas” era assim que Morian chamava as pessoas de seu bairro.

Morian daria tudo para não estar fazendo isso agora, ela se sentia estúpida e queria chorar, mas nunca iria chorar na frente de ninguém, nem de seus pais, mas a despedida era necessária então que fosse breve. Pensou Morian.

– Mori, querida temos que ir! – sua mãe gritava de dentro do caminhão de mudanças com seus óculos da Dafne Dear acompanhada de seu pai que estava com um litro de coca diet., ele odiava coca diet., mas fora proibido tomar outro tipo de refrigerante, pelo seu medico após o primeiro enfarto.

– tenho que ir – ela não queria chorar, não mesmo. Abaixou pegou sua segunda mala e virou as costas, caminhou todo o percurso com os olhos ardendo. Entrou no caminhão que começou a se mover, levou um susto pelo grito de sua amiga.

– hey, Mori!

– sim Alice?

– você nunca foi escoteira! – Alice sorriu e acenou com tristeza. Morian acenou de volta.

– tem razão! – respondeu.