Perfect
4 O Alicerce
Notas iniciais
A história da profecia sobre mim não saía da minha cabeça, mas também não exercia nenhuma vontade de suicídio. Troquei de assunto com Tony, sobre suas engenhocas mecânicas super-malucas.
Lembrei como nos conhecemos.
FLASHBACK ON
Ele estava na floresta, o único lugar silencioso, perigoso e espaçoso que semideuses podem pensar. Recostou-se na árvore que eu tinha tirado uma soneca (sim, eu estava dormindo em uma árvore) e tirou caderno e caneta da mochila, folheou a agenda.
Ouvimos um barulho ao longe. Ele se assustou e eu quase caí da árvore, aos berros. Respirei fundo, controlando minha respiração. Meus batimentos cardíacos diminuíram. Olhei para baixo e o vi desenhando.
Desci o galho de cabeça pra baixo.
– MANEIRO!
Tony deu um pulo e a caneta voou longe. Soltei um arquejo alto e desci da árvore rapidamente.
— DESCULPA!
Corri até a caneta e voltei com ela nas mãos.
— Shhhh — ele sibilou — Quem é você?
— Barbara Voncöuver, filha de Hermes, a seu dispor, senhor.
Falei, batendo continência, o que o fez rir um pouco.
— Sou Tony.
— Tony do quê?
— Só Tony.
Dei uma risadinha.
— O.K.
FLASHBACK OFF
— Barbie, me passe a chave inglesa dali de cima do balcão, por favor.
Corri até lá com o instrumento nas mãos.
— Obrigado, senhorita “Vancouver”.
Nossa, pensei, como odeio isso.
— De nada, Só Tony.
Ele mostrou a língua e continuou trabalhando.
— Que é isso?
Ele corou e falou sem jeito:
— Um monitor de pensamentos.
— Pra quê? Como funciona esse treco?
— É que — ele começou e riu, como se a ideia fosse absurda até pra ele —... Você é muito difícil de decifrar.
Okay, quem ficou corada agora fui eu. Ele sorriu e apertou uns parafusos. Olhei a hora em seu relógio: É TARDE, TARDE, MUITO TARDE.
Suspirei, o olhando. Ele parecia concentrado, mas eu nunca me enganava. Ele sorriu.
— Sei que tem que ir. Mas dou um jeito de ir te ver amanhã.
— Sou tão importante assim, pra uma destruidora de lares?
Ele arregalou os olhos e me fitou, aturdido.
— Brincadeira! — falei rindo, vendo-o se levantar com uma expressão séria.
— Não faça isso de novo. — ordenou.
Eu assenti.
— Desculpa.
Ele sorriu e se aproximou.
— Não precisa se desculpar. Nunca me decepcionarei com você, Barbie.
E selou nossos lábios com um beijo rápido.
Ele se afastou e eu saí, cambaleando nervosa, porta afora como uma boba.
Ótimo, pensei. Como vou decepciona-lo agora?
Caminhei, murmurando comigo mesma, até um grupo de semideuses novatos. Dúzias deles se aglomeravam perto do Chalé de Hermes, treinando desengonçados com espadas em punho.
Ah, não. Avancei, dando um sorrisinho falso para uma garota de aparência simpática, jeans modernos, camiseta nova do Acampamento. Estava um pouco folgada, por ser tão magrinha. Devia ter minha idade, mas tinha um ar mais travesso que o meu. Olhava pra todos os lados em silêncio, com um sorriso tentado, como se estivesse pensando “qual dessas casas eu queimo primeiro?”.
— Olá. — falei. — Nova por aqui?
— Sim. — ela respondeu. — Você é semideusa?
— Todos nós aqui somos. A não ser é claro, as ninfas, a dríades, a náiades, os centauros, os sátiros, os monstros, os espíritos e os eventuais deuses que passam pra dar um oi.
Ela ficou tonta.
— Você fala rápido.
— Obrigada.
Sorrimos. “Argh” pensei. “Como é difícil ser falsa com gente como eu”.
— Seu nome?
— Ahn… Maria, mas, me chama de Malu.
— Malu. O.K. Eu sou Barbara. Você já sabe de quem é filha?
— Hã… — ela se encolheu. — Eu não... — o símbolo do caduceu pairou sobre sua cabeça e todos soltaram um “uaaaaaaaau” coletivo.
— Bem-vinda irmã. — Falei, e sorri. Outra irmã? Só pode ser piada. Ela me abraçou, sorrindo também.
Ela é perfeita. Servirá-nos como alicerce. Investigue, Voncöuver.
“Sim, mi lorde”.
Fale com o autor