Perfect
1 Capítulo 1 - O começo.
Notas iniciais
- Mel Valdez
BARBARA
O mundo está sendo atacado. Cronos se reerguerá, trazendo a velha forma de Luke Castellan, que não tivera tempo de chegar ao Elísio antes de o Titã o atacar. Ele está mais forte. Luke é apenas um garoto morto, que não terá forças para conter Cronos novamente. Nós, filhos de Hermes, nunca o esquecemos, mas fizemos questão de esquecer o que ele fez. Menos eu. E agora quero vingança. Do Olimpo. Por Luke. Por Cronos.
MALU
“É só um dia normal” pensei. “Um dia normal para uma garota normal”. Transpus o portão da escola. Todos os dias eu tinha o mesmo pensamento na esperança de que alguém realmente acreditasse. Eu sabia a verdade. Eu nunca poderia ser normal, nunca poderia fingir que tomo sorvete com a família no parque aos domingos.
Alguns dizem que quanto menos soubermos sobre a nossa origem divina, menos ELES saberão. É mentira. Os monstros sempre virão atrás de pessoas como nós. Assim como o nosso passado.
Eu morava com meus avós em um velho apartamento na periferia da cidade. Gostava de ir a pé para a escola, na maioria das vezes cortava caminho correndo pelos becos dos prédios. Pela manhã o lugar era cheio de trombadinhas, mas eu sabia que eles nunca mexeriam comigo. É uma das poucas vantagens de ser filha de quem eu sou. A maioria das pessoas sente medo de você.
Minha mãe vivia viajando por causa do seu trabalho idiota na embaixada. Dando a volta ao mundo com seu namorado babaca. Algumas vezes eu recebia um cartão com a foto deles em algum lugar famoso e um “Oi! Estamos nos divertindo!” quando tinha sorte. Meus avós não eram nenhum exemplo de pessoa. A verdade é que eles me odiavam. Odiavam lembrar do passado, e eu era a lembrança ambulante de tudo o que havia acontecido com a família naquele passado. Mas me deixavam em paz se eu saísse do caminho. Era o que eu fazia na maioria das vezes.
Joguei meu material na carteira e saí rápido. Aprendi muito cedo que era ruim ficar em lugares desertos, e naquele dia eu não estava com nenhuma paciência para explicar porque a sala de aula tinha ficado semidestruída. Fui caminhando pelos corredores e verifiquei novamente o pequeno canivete que eu sempre trazia no bolso. Além do pingente no meu pescoço que virava uma espada, minha mochila carregava um pequeno arsenal que eu levava apenas por precaução. A verdade é que eu tinha alguns amigos pelos quais valia a pena não correr riscos.
Eu sempre sabia aonde meus amigos estavam. Mesmo antes de verificar qualquer coisa, eu sabia. As conhecia muito bem para errar alguns palpites. Clara estaria copiando o dever de casa que ela não fez do caderno de alguém e Anna estaria no pátio ouvindo música. Entrei na sala da 8ª série, ela estava quase vazia. A única sombra que se movia era a da minha melhor amiga. Dormindo. Em cima do dever.
Cheguei perto dela silenciosamente e coloquei a ponta do lápis de escrever dentro do seu ouvido. Era a melhor maneira de acordá-la. Também era a mais engraçada. Clara deu um salto na carteira arregalando seus olhos verdes da cor do mar.
- Ei! – Ela olhou para mim por um minuto ou dois. – Ah, é você. Você não devia estar aqui, eu estava estudando!
- Claro... Eu vi a sua dedicação nos estudos. – Falei enquanto ela limpava o filete de baba que escorria de seu queixo.
- Calada! – disse, rindo. – O que você quer?
Me sentei ao seu lado.
- Você têm recebido alguma notícia do acampamento?
- Não... Ninguém dá sinal de vida à quase duas semanas – Só então ela viu minha cara de preocupação. – Não esquenta, você sabe que às vezes eles fazem isso.
- Mas e se tiver acontecido alguma coisa?
- Alguém já teria vindo atrás de nós. – Ela disse simplesmente, e voltou-se para o caderno.
Clara era filha de Poseidon, o deus dos mares, meu padrinho. Nós duas atraíamos mais monstros do que a liquidação anual de quadrinhos da loja da esquina atraía nerd’s. Se tivesse acontecido alguma coisa nós já teríamos percebido. Além disso, a gente sabia se virar em alguma emergência. Não havia motivo para se preocupar.
Estava perdida em pensamentos quando notei que já haviam outros alunos na sala. O sinal já devia estar quase batendo e eu ainda não tinha falado com Anna. Me despedi rapidamente de Clara e saí da sala. Fora dos corredores o sol se erguia forte. Apesar de estar com muito calor, puxei o capuz da jaqueta para a cabeça. Não gostava quando o sol batia no meu rosto, pois a luz sempre me cegava.
Lá estava ela. Sentada aos pés de uma das maiores árvores do pátio. Anna estava com os olhos fechados e fones nos ouvidos. Apesar de ser totalmente silenciosa eu sabia que ela não ia se assustar comigo. Anna era uma das poucas pessoas que sempre notava minha presença. Mesmo assim tomei o cuidado de manter minha sombra atrás do corpo. Quando fiquei a cerca de um metro dela, Anna sorriu e abriu os olhos. O tipo de sorriso que alegrava o meu dia.
- Oi. – Disse, sentando-me ao seu lado.
- Olá... – Respondeu, puxou o meu capuz deixando meu rosto à mostra e rindo com minha reação – Ser da escuridão...
- Pare com isso! – Falei abraçando-a e sorrindo um pouco. – Está tudo bem?
- Sim... O que foi?
- O quê? – Só então percebi que estava com a cara fechada. – Ah... Não, nada.
- Fala – Anna me encarou, séria. Olhei bem fundo nos seus olhos castanho claros, e tudo o que eu mais queria naquele momento era mantê-la segura. Longe do meu passado e de todo o risco que o mundo divino representava. Queria poder contar tudo isso à ela. Mas não queria assustá-la a toa. Precisava acreditar que as barreiras mágicas entre o mundo mortal e o olimpiano manteriam Anna à salvo.
- Não é nada. Mesmo. Eu vou ficar bem. – Retirei uma mecha de cabelo da frente dos olhos e me levantei – O sinal já vai bater.
Estendi a mão para ajudá-la a se levantar e fomos conversando pelos corredores. Anna e eu estudávamos na mesma sala à quase dois anos, o maior tempo em que eu e Clara permanecemos em uma escola. Fora alguns incidentes isolados, nada muito sério havia acontecido nesse mesmo tempo. Claro que com todo o meu histórico de ataques sofridos e acidentes eu devia esperar que alguma tragédia ocorresse à qualquer momento. Eu só não esperava uma tragédia tão grande.
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