Perdidos No Desejo.
1 Prólogo.
Notas iniciais
Eu olhava pela janela mais um dia monótono surgir no horizonte. Via os primeiros raios iluminarem a copa das casas ao longe. Mais uma noite sem dormir, droga, ‘’essa é a ultima’’ jurei a mim mesma, se me lembro bem, fiz esse juramento na manhã passada... Pouco importa dessa vez cumprirei. Sorri.
Levantei da cama e procurei pelo meu celular. ‘’5:18’’, joguei-me de volta na cama, apesar de acordada, não estava disposta a mais um dia. Pensei em enviar uma mensagem a David, mas conhecendo sua indisposição matinal, iria se afogar no travesseiro ao ouvir aquele maldito toque de mensagens. Apesar de em paz por fora, por dentro travava uma luta entre a vontade de correr até sua casa e correr o mais longe dele.
''I need true love, do you know what you mean to me...''
Deixei que o despertador continuasse a tocar, era minha música preferida, era o meu som como minha mãe costumava me dizer ao me ouvir dando play nela pela milésima vez. Sinto que minha mãe sabe; instinto de mãe talvez, pois apesar de nunca ter sido tão ligada a mim essa noite sentou-se ao meu lado e me abraçou, fiquei surpresa, confesso, mas me entreguei aos seus braços em silêncio. Mas ela então se levantou e foi para o seu quarto, era isso, minha mãe não sabia colocar fim em nada, ela apenas se levantava e partia, e não posso dizer que eu seja diferente.
Desliguei o alarme e com a velha preguiça matinal levantei-me e fui ao banheiro.
Tranquei a porta e joguei de lado o pijama que usava, liguei o chuveiro e me olhei no espelho. Destruída. Entrei no banho e deixei que a único som naquele espaço fosse o dá agua caindo em meu corpo, fechei meus olhos e apoiei-me na parede. Passava a noite inteira revirando-me de um lado para outro procurando pelo sono até irritar-me e me levantar de uma vez, mas então o sol começava a brilhar e quando eu deveria estar disposta o sono me dominava por completo.
‘’Preciso me lembrar de tirar um dia para repor meu sono.’’ Pensei comigo, mais um afazer na minha lista que já estava ficando lotada.
Desliguei o chuveiro e deixei que o silêncio reinasse por alguns instantes. Enrolei-me na toalha e fui ao meu quarto deixando rastros de agua pelo chão.
Busquei por alguma roupa que me deixasse ao menos apresentável, já estava cansada de aparecer com as mesmas roupas largadas de sempre, não podia deixar que meus sentimentos interferissem no meu dia.
Tirei do fundo de minha gaveta uma blusa rendada vermelha que não usava a bastante tempo, uma calça jeans justa e escura e uma sapatilha preta que usara uma única vez em uma formatura.
Soltei meus cabelos, que me caiam sobre os ombros. Castanhos claros, assim como os de minha mãe. Cogitei em pegar o rímel que mofava sobre minha cômoda ‘’não, já é exagero’’ repreendi-me, desnecessário.
— Está acordada Ariane? – minha mãe perguntava passando em frente ao meu quarto.
— Sim. – balbuciei.
‘’5:46’’ marcava o relógio. Peguei meu velho mp3 e minha bolsa e desci.
O cheiro de café fresco preenchia a cozinha irritando meu nariz. Sempre odiei café.
Enchi um copo com leite e virei-o puro enquanto pegava algumas torradas no armário.
— Não voltarei para o jantar. – avisou minha mãe. – Na volta compre algo pra você e sua irmã.
— Vai aonde? – perguntei sem realmente dar importância.
— Sair com velhos amigos. – respondeu olhando-me torto como advertência, não gostava de ninguém espreitando seus passos.
Sorri. – Divirta-se.
Fui até a sala e me joguei no sofá ligando a televisão, não que tivesse algo de interessante passando, só queria algo que preenchesse aquele silêncio que gritava em meus ouvidos.
— Droga. – ouvi alguém reclamar após tropeçar na cadeira.
Olhei para trás já sabendo do que se tratava. Vivianne xingava sozinha com sua rotineira cara de sono.
— Bom dia. – ouvi minha mãe falar entre risos.
— Argh. – reclamou.
Normal, Vivianne tinha um dos piores humores matinais que eu já vi, não tinha possibilidade de dialogo até as 8 horas, quando já conformara-se que não voltará a dormir. Tinha quinze anos, dois a menos que eu, que já estava no auge dos meus dezessete, e para minha felicidade, no ultimo ano escolar. Seus cabelos eram compridos e pretos, assim como seus olhos.
Puxou uma tigela de biscoitos e se jogou do meu lado sem parecer notar que eu estava ali. Pegou o controle e começou a rodar os canais. Se eu realmente estivesse assistindo algo já seria o estopim para uma discussão familiar as 6 da manhã.
Levantei-me e deixei o copo na bancada.
Fui até o banheiro e terminei de me arrumar em pouco tempo.
— Bom dia pra vocês. – falei sem esperar resposta, peguei minhas chaves e abri a porta.
Parei por um momento sentindo a leve brisa bater no meu rosto, respirei fundo buscando coragem para ir ao ponto de ônibus.
Fui caminhando lentamente pela calçada de pedras de minha rua. Era estreita, daquelas que seu terceiro amigo fica para trás implorando por atenção, geralmente eu era esse terceiro amigo.
O ponto de ônibus já estava lotado. Várias pessoas esperavam pelo ônibus que as levassem para seu trabalho ou escola, quando na verdade queriam dar meia volta e voltar as suas camas. Percebia-se o quanto estavam alienadas, desligadas do que acontecia em volta, muitas com fones de ouvidos bloqueando todo e qualquer barulho que pudesse atrapalhar o transe em que se encontravam. Aumentei o volume de meu mp3 no máximo e deixei que fizesse parte dessa massa alienada que aguardavam paradas sob o ponto.
Meu ônibus logo apontou ao fim da rua, desapontando-me, já que acabaria chegando cedo ao colégio.
Como de costume, uma fila se formou diante à porta do ônibus, lotada de pessoas que buscavam seus passes dentro de bolsas lotadas de tralhas.
Subi espremida e me enfiando em cada buraco que encontrava na tentativa de chegar a catraca. Ouvia murmúrios irritados ás minhas costas enquanto era empurrada e socada entre as muitas pessoas.
Enfiei-me o mais próximo da porta que pude já que não esvaziaria tão logo.
Com as mãos espremidas no corpo tateei meus bolsos em busca do meu celular e puxei-o para ver as horas. ‘’6:21’’, realmente iria chegar mais cedo do que previra.
Soltei um suspiro de alivio quando vi a habitual rua de meu colégio. Dei sinal e tentei avançar à porta, sem sucesso.
A porta se abriu e eu tentava desesperadamente descer daquele maldito inferno sobre rodas.
- LICENÇA! EU VOU DESCER, COM LICENÇA! – eu gritava enquanto olhares raivosos me fuzilavam. Empurrava já irritada as pessoas que estavam à minha frente, e quase rolei escada abaixo quando não percebi o degrau á minha frente.
Mal havia descido e o ônibus já dera partida deixando para trás mais uma passageira estressada.
Vi de longe Heloísa, e estranhei seu adiantamento. Geralmente chegava mais atrasada que eu.
Segui atrás dela sem chama-la até chegarmos a porta do colégio ainda vazio.
— Está cedo, não acha?! – comentei cutucando-a.
Helô quase pareceu irritada, até constatar que era eu e um sorriso desabrochar em seu rosto. – Sim. – riu. – Até demais, eu realmente gostaria de estar em minha cama.
— E por que chegou tão cedo? – indaguei-a.
— A diretora esteve falando com minha mãe, comentou que eu chegava atrasada todos os dias e que meu rendimento estava decaindo. Foi o suficiente para minha mãe acordar-me umas duas horas mais cedo. – respondeu cabisbaixa.
— Meus pêsames. – comentei divertida.
— Estou de luto pelo meu sono. – reclamou sorridente.
Ficamos em silêncio enquanto analisava-a. Era ruiva dos olhos pretos, cabelos curtos e estilo um tanto, extravagante. Realmente linda, e eu não podia negar àquela atração que tinha por ela desde que a conheci. Eu nunca me relacionei com mulheres, mas era difícil ignorar os efeitos que Helô me causava.
— Para de me olhar. – advertiu-me brincalhona.
— Como sabe que te olho? Está na minha frente. – perguntei curiosa.
— Sinto seu olhar quase queimar minhas costas. – virou dando-me uma piscadela.
Além de tudo ela parecia saber o que me causava e provocava-me ainda mais.
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