Perdidos

4 Encontrados


Notas iniciais
Mais um povo lindo!

O sol aquecia de um jeito bom a minha pele. Abri os olhos devagar, eu dormi de verdade ontem. Mesmo com medo, me senti confortável. Jeredy ao meu lado ainda tinha um dos braços em volta do meu pescoço. O empurrei devagar. Ele ainda parecia estar dormindo. Olhei de cima da arvore para ver se estava tudo certo lá em baixo. Não havia sinais de algo ruim por perto. O bom de estar em cima daquela arvore, naquela hora da manhã, é que você tinha visão de todas as aves que tinha por ali. Comida. Eu estava realmente com fome. Comeria um pássaro cru. Senti remorso de não ter aceitado o esquilo mesmo com nojo. Armei o arco com uma flecha. Elas estavam acabando, e eu deveria guarda-las para emergências, mas eu tinha que acertar alguma coisa para comer também. Comecei a vasculhar com os olhos as arvores ao lado, tinha pássaros pequenos, e alguns médio, mas eu queria um grande. Continuei olhando para os lados. Uma garça branca. Incrível! Devia ser por que estava perto da encosta. Mirei e puxei a flecha com força. Em cheio! O animal que caminhava nos galhos que estavam a minha esquerda já estava no chão. Comecei a descer a arvore com calma. Lá em baixo peguei a ave satisfeita por estar prestes a comer. Olhei em volta atenta. Olhei para o alto da arvore e Jeredy parecia ainda estar dormindo. Peguei uma pedra qualquer no chão e atirei lá em cima com toda a força.

– Clair! – Ele ficou assustado e parecia me procurar.

– Aqui princesa adormecida. – Revirei os olhos. – Desce.

Ele desceu muito mais rápido do que eu. Olhou para a ave e deu meio sorriso.

– Por favor! Vamos tentar fazer uma pequena fogueira. – Pedi.

– É arriscado demais. – Ele olhou para os lados.

– Só vou conseguir caminhar se comer. E não vai ser legal comer isso cru. – Ele pegou a mochila das costas e começou a procurar algo dentro dela.

– Não tem nada inflamável aqui? – Perguntou.

– Não. – Disse. Espera! – Tem mercúrio ai.

– Mercúrio não é inflamável. – Ele me encarou.

– Ah Claro! Me desculpa por esta faltando as aulas de química. – Sorri falto. Ele revirou os olhos.

Não dá para fazer fogueira. Era como se mandasse o sinal de que estamos prontos para sermos comidos.

– Deixa Jeredy. Estou com muita fome para ficar de frescuras. Pode cortar isso para mim? – Ele começou a tirar as penas e a cortar a carne.

Tentei não me ligar no gosto, e só pensar que estava com fome. Não era tão ruim, só não era lá aquela coisa super saborosa. Depois de comer a ave quase toda, eu e Jeredy enterramos o que restou dela. Começamos a caminhar. Eu esperava mesmo achar um riacho.

Caminhamos tanto que senti minhas pernas ficarem fracas. O dia passou rápido, por incrível que pareça. Nenhum grito, nenhum sinal de Infectados, nada. A medida em que andávamos, a aparência da floresta mudava. Bem pouco, mas eu notava. Tinham poucas arvores, em comparação as gigantescas que havia perto do acampamento. O terreno que pisava tinha mais pedras.

– Acho que estamos mais distantes ainda do muro. – Falei parando no caminho.

– Eu não sei em que caminho seguir. Me desculpa. – Ele me encarou e me abraçou como se quisesse me confortar.

– Tudo bem. – Afastei ele. – Não é legal essa história de me abraçar toda vez que acha que eu estou com medo.

– Eu... – Ele parecia um pouco envergonhado. – Faço isso com Jeny, quando não sei usar palavras.

– Não sou sua irmã Jeredy. Comigo você usa o tapa, lembra? – Comecei a caminhar.

– Qual é Clarisse? Eu já pedi desculpas. – EPA! Não pediu não.

– Você só se explicou, não pediu desculpas. – Ele tentou rebater. – Deixa isso para lá. Já passou... Vamos morrer mesmo. – Sussurrei e continuei caminhando.

– Para onde está indo? – Parei e me virei.

– Para a Disney, não tá vendo? – Ele deu meio sorriso.

– Posso ir com você? – Agora deu um sorriso largo.

Os dentes perfeitamente brancos chegaram a brilhar. Um sorriso com covinhas fundas dos dois lados, os olhos quase se fechavam. Aquilo me trouxe paz. Ele era lindo. Não lembrava bem do modelo de homem perfeito que o mundo mostrava, mas tenho certeza que Jeredy se encaixa nele. Forte, com músculos bem definidos, olhos castanhos, cabelos meio dourados, um pouco cheios, cílios longos, e lábios na medida certa, não eram muito grossos nem muito finos. Perfeito para se beijar. Não que eu tenha beijado alguma vez na vida. Eu só tinha treze anos quando o mundo começou a acabar, não tive muito tempo para perder o BV. Mas já tinha lido em livros, e visto em filmes. Devia ser bom. O que? O que estou pensando? “Está desidratada Clarisse”!

– É... A cinderela vai gostar de ver você. – Ele deu uma gargalhada dessa vez. Discreta, mas foi o suficiente para fazer eu perder a respiração por segundo. Até o som da gargalhada era atraente. Deus! Que inferno!

– Clair... – Falou se aproximando de mim. – Me desculpe por aquilo.

– Tudo bem. Vamos andar! Quero morrer caminhando. – Me virei e comecei a andar.

Foram mais ou menos duas horas de caminhada até chegar a um riacho. Era cheio de pedras, mas a agua era limpa, e boa. Enchi o cântio. Tirei o casaco, e a blusa de frio. Limpei os braços e o rosto. Queria tomar um banho, mas era impossível. Olhei para o meu lado e notei Jeredy atento. Ele tirou a jaqueta preta, e depois a blusa, ficando a mostra seu peitoral. Virei e direcionei meu olhar para o riacho. “Pelo amor de Deus, Clarisse James Buckram, o mundo Cheio de zumbis, pessoas morrendo, você prestes a morrer também e ainda tem tempo para ficar olhando para homens bonitos, e super atraentes? FOCO!”

– Devíamos descansar, já vai anoitecer. – Ele falou.

– Sabe... Não tem sentido continuarmos caminhando se não tenho onde chegar. – Falei com a voz pesada. Tentava fechar a mochila que sempre dava problemas no fecho.

– Nada no mundo agora tem sentido. – Ele se aproximou, e ainda sem camisa, pegou a mochila de minhas mãos. – Então precisamos encontrar um, para continuar caminhando. Um que vala a pena. – Me encarou. Ele estava a menos de um metro de distancia de mim. Dei um passo, e outro, e outro... E só eram centímetros.

– Se tocar em mim mato você. – Ele estendeu a mão e passou em meu cabelo.

– Era só um inseto. – Eu olhei em sua mão e era um grilo.

Seu olhar era confuso. Ele pareci querer entender o que eu estava pensando.

– Vamos. – Me virei envergonhada, e comecei a caminhar, seguindo o riacho.

– O que pensou que eu iria fazer? – Ele perguntou.

Um barulho. Me aproximei dele rapidamente, pegando meu arco no chão e uma flecha na mochila. Olhei para os lados, todos os lados. Os infectados costumam fazer barulho, eles gritam, sempre gritam. O barulho de passos não era de um infectado. Gente! Tenho certeza. Não era um passo apressado e descontrolado. Era passos cauteloso. Jeredy pegou a faca na mochila e nós dois encostamos um no outro, cada um olhando para um lado. É estranho sentir que você está prestes a morrer. No meu caso, eu me sentia aliviada.

Do nada, foram saindo do meio do mata, vários homens e mulheres. Jovens e velhos. Foram nos cercando e não havia como sair dali, nem se um milagre acontecesse. Os homens se tornaram mais perigosos depois da guerra de bombas químicas, depois da infecção. Eles se tornaram mais famintos, mais violentos, mais sanguinários. Não iria ficar surpresa se soubesse que os homens matam mais pessoas que os infectados. Jeredy segurou minha mão e a apertou com toda a força. Eu também apertei a dele. Ele me olhou como se fosse uma despedida.

– É raro encontrarmos humanos. Faz uns três meses que isso não acontece. – Uma mulher baixinha, com cabelos curtos, lisos e negros se aproximou sorridente. – Qual o nome de vocês?

– Ele é Jeredy. – Eu falei depois de alguns segundos de silêncio. – Eu Clarisse.

– Ele é Jeredy...? – Apontou para Jeredy.

– Jeredy Foster. – Ele disse.

– E você é Clarisse...? — Ela perguntou.

– Clarisse Buckram. Clarisse James Buckram. – Ela sorriu gentil.

– Meu nome é Elisabeth Morgan. E nós somos a resistência. – Ela apontou para todos a nossa volta. – É incrível estarem vivos. Passaram a noite na floresta?

– Duas noites. – Ela arregalou os olhos.

– Deus estava com vocês. – Os outros estavam surpresos.

Eu estava com medo. Todas aquelas armas, e facões...

– Onde estamos? – Ela olhou para mim.

– Estão na cidade. – Muito longe do acampamento. – Bem... Ainda falta dois quilômetros, mas aqui já começa a cidade. Pode largar o arco Clarisse. Não machucamos os humanos. Só os Cromuns! – Todos gritaram levantando suas armas.

– Cromuns? – Jeredy perguntou.

– Sim, os zumbis, os infectados. – Ela suspirou olhou para os lados e pediu algo a um dos homens.

– Devem estar com fome. Ainda tem aquele arroz na caminhonete? – Ela perguntou para um deles. Caminhonete? Arroz? Olhei para Jeredy.

– Não senhora. – Um homem loiro respondeu.

– Então vocês vem com a gente. – Ela sorriu.

– Senhora, já tem gente demais nós carros. – o homem com o fuzil disse.

– A gente arruma mais dois lugares. – Ela disse.

– Não precisa. A gente vai achar outro lugar. – Ela gargalhou.

– Vocês vão é morrer. Vamos lá. Se não gostarem nós trazemos vocês de volta para cá. Dou minha palavra. – Ela cruzou os dedos.

Bem, não tínhamos muitas escolhas. Jeredy colocou a blusa e a jaqueta, pôs a mochila nas costas, e antes de começarmos a caminhar, me encarou olhando em meus olhos. Sua mão ainda apertava a minha.

– Sempre atenta. – Ele disse.

– ok. – sussurrei.

Depois de muito tempo dentro da caminhonete, ela parou. Descemos de mãos dadas, eu e Jeredy. Todos correram na frente, escorregando em um buraco, depois de passarmos por portões de ferro. Só Elisabeth que ficou ao nosso lado, caminhando lentamente. Poderíamos mata-la ali, e ninguém a ajudaria.

– Meu avô acho esse lugar, assim que a doença se espalhou em nova iorque. – Ela começou a contar.

O lugar parecia ser uma antiga fabrica de tecidos abandonada.

– Ele trouxe mais de duzentos e sessenta e cinco pessoas para cá a seis anos atrás. Alguns morreram de doenças, outro tiveram bebes, novas pessoas chegaram. Agora somos quatrocentos e dois ao todo. Quer dizer, quatrocentos e quatro. Se vocês quiserem ficar. – Ela deu um sorriso largo. – É por aqui.

– Não são canibais não é? – Jeredy perguntou.

– Mesmo se fossemos, não te contaria. – Ela deu um sorriso aberto.

Apontou para um bueiro perto do imenso galpão. Ela entrou primeiro e escorregou ate la em baixo.

– Jeredy? – Ele me deu a mochila.

– Eu vou primeiro, e logo depois você vem. – Ele alisou meu rosto antes de descer. Ouvi seus pés baterem no chão e antes de entrar alguém me chamou.

– Ei! – O grito de um homem. Me virei devagar. – Quem é você?

– Clair... Clarisse. – Eu estava nervosa. – Elisabeth me trouxe.

O homem era alto, olhos verdes, e cabelos negros. Extremamente forte. Eu não estava com a faca em minhas mãos.

– Elisa sempre tem a sorte de achar alguém por ai. Minha irmã já salvou muita gente assim. – Irmã? Ele se aproximou e estendeu a mão. – Emmet Foster.

Eu apertei alerta.

– Clair!! – O grito de Jeredy me chamou a atenção.

– Desça. – Emmet apontou para o bueiro. Eu não queria dar as costas para ele, mesmo com medo, eu o fiz.

Escorreguei até lá em baixo, e Jeredy estava a minha espera. Me agarrou com força quando me levantei.

– Tudo bem? – Me perguntou, apenas balancei a cabeça. Logo o homem estava conosco também.

– Emmet... – Elisa sorriu. – Perdidos na floresta e não morreram. Deus existe, eu sei que ele ainda está nos olhando.

– Esse Deus poderia nós da uma força, e matar todos esse Cromuns. – Começaram a caminhar. O esgoto em que estávamos, era limpo, e todo iluminados. Nós caminhávamos atrás deles atentos.

– Não foi culpa dele, esses monstros terem nascido. – Ele sorriu.

– Mesmo assim, ele é responsável. Por que deu inteligência a aquela anta que criou a tal bomba? Esse bicho deveria ter morrido quando criança. – Ela riu.

– Não converso mais sobre isso com você. – Ele deu um leve empurrãozinho na mulher, que quase caiu. – Idiota. – Os dois riram.

Olhei para Jeredy e ele parecia confuso.

Passamos dos tunes, para um local aberto e muito grande. Era realmente enorme. E tinha pessoas para todos os lados. Levando caixas para lá e para cá.

– Todos os dias saímos para procurar coisas novas. – Elisa começou a explicar. – As vezes pegamos remédios em farmácias, comida enlatada nos mercados, armas, roupas, tudo de que precisamos.

– Vocês saem com todos esses Infectados por ai? – Perguntei.

– Temos nossas estratégias, e os grupos são sempre grandes e fortemente armados. Usamos técnicas para enganar aqueles malditos. – Fiquei surpresa.

– Vocês vieram da onde? – Ela perguntou caminhando no meio de toda aquela gente, nos guiando para algum lugar.

– De um acampamento em uma reserva florestal perto do mar. – Ela nos encarou.

– Conseguiram sobreviver quanto tempo lá? — Perguntou.

– Cinco anos. – Jeredy respondeu.

– Vocês são casados ou algo assim? – Devo ter corado.

– Somos amigos. – Jeredy respondeu.

– Amigos? Sei. – Não entendi.

Subimos alguns ressaltos e degraus e enfim a um corredor enorme de salas separadas.

– Vocês vão ficar em uma das salas do lado direito. – O lugar era todo bem trabalhando, com iluminação boa, e muitas separações de lugares. – Descansem.

– Isso é incrível. Esse lugar. Como criaram isso tudo, mesmo sabendo que o mundo não tem mais cura.? – Ela me encarou.

– Talvez você não acredite, mas eu acredito... Fé, esperança. Isso deixa o homem mais forte. Ter algo importante por que lutar. Sobreviver. Se regenerar. O ser humano tem muitas falhas, mas o mais incrível em todos nós e que depois de um erro, sempre nos recuperamos. Recomeçamos. – Eu fiquei calada. Só absorvi aquilo, pensando na grande verdade em suas palavras.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.