Perdidos.

4 Um longo final de semana


Notas iniciais
Obrigada a todas que comentaram, amei de mais ! *-* ' Espero que curtam esse capitulo, beijos. :33

'' Estamos perdidos '' — A garota não acreditava naquela frase, mas olhou nos fundos olhos sombrios do rapaz. — Não Daniel, não é possível. — Estava nervosa, até tentou se levantar para correr e encontrar o caminho, mas a dor no pé só a fez gemer. — Isso não pode ficar pior... — Sussurrou.

– É, eu poderia estar perdido com qualquer outra pessoa... Mas foi justo com você. — Daniel revidou, achando que o que tinha escutado da garota era alguma grosseria.

Ela suspirou. — Estou dizendo que não existe outra coisa pior do que estar perdido no meio do nada.

– Existe. — Ele balançou a cabeça, depois de observar as nuvens. — Vai chover. — Ela acompanhou o olhar e encarou as nuvens grossas e escuras que se formavam no céu.

Os dois não escondiam a preocupação. — Seu celular! — Disse Daniel, já esperançoso.

– Está na minha mochila. — Os dois suspiraram, a mochila da menina estava com o Martim.

Ficaram calados, apenas olhando para o rosto um do outro. '' Vai ser um longo final de semana... '' — Julie pensava, afinal, sabia que não seria nada fácil passar horas e horas perdida com o Daniel, os dois não se suportavam. Fechou os olhos ali. A preocupação e o cansaço começava a consumir a garota.

Abriu seus olhos assim que sentiu ser levantada. Daniel já a carregava novamente. Ela escondeu o sorriso, agarrando sua nuca. '' Como ele é forte... '' — Tentava ignorar seus próprios pensamentos.

– Para onde vamos? — Perguntou a morena.

Daniel não sabia muito o que dizer. — Vou procurar um abrigo. Eu não quero me molhar nessa chuva. — Respondeu. Mas no fundo, ele se preocupava apenas com ela, não queria que Julie se molhasse.

– Vamos ficar ali. — Juliana apontou para umas das poucas árvores ''gordinhas'' da mata, poderia protege-los da futura chuva.

– Se quiser eu te deixo ai. — Disse ainda caminhando. — Vou procurar um abrigo melhor para mim.

'' Só pensa em você?! '' — A menina tentou se acalmar, não queria discutir com ele. Na verdade, Juliana queria agradece-lo por ter salvo sua vida. Mas Daniel era tão fechado com ela que era difícil dizer.

– Droga... — Sentiu os primeiros pingos de chuva, pingos grossos e frios. Correu, tentando se abrigar. Julie escondia seu rosto no peito dele.

Depois de quinze minutos caçando um bom abrigo, os dois finalmente encontraram um tipo de caverna. Era grande e parecia servir. Daniel entrou com ela, colocou-a delicadamente no chão. Ela estava encharcada. Olhava para o rapaz, que estava quase seco. — Porque não se molhou tanto quanto eu?

– S-somos diferentes. — Apenas respondeu.

'' Você é... Mais sólida. '' — Pensou ele.

Juliana entendeu sua resposta, ficou calada, porém, mau sabia ela que Daniel sentia um grande remoço por ser diferente, por ser um fantasma... Ela soltou seus cabelos presos, estavam molhados, os apertou com a mão, retirando o excesso de água. Se tremia. — E-estou com frio. — Disse. Encarando o rapaz que ainda estava na sua frente. Olhou para seu paletó quente e sequinho. Daniel não respondeu, ainda estava profundamente chateado por tudo que aconteceu ou deixou de acontecer entre eles. Estava mais chateado ainda pelo que ouviu do Nicolas.

Ele se sentou ao lado dela, observando a caverna. Via as gostas de água caíam sobre o teto, e respingar no chão. Julie se virou para ele, fitou o rapaz calado e suspirou. — Desde quando estava ouvindo nossa conversa? — Quebrou o gelo.

– Desde o inicio.

Julie mordeu os lábios, sua resposta foi bem rápida e fria. '' Desde o inicio '' significa que ele ouviu tudo.

Ela logo pensou na parte em que Nicolas conta suas verdadeiras intensões, mas não queria tocar naquele assunto. — Está chateado porque eu contei o segredo da banda?

Daniel estava chateado com isso também, mas sua raiva se resumia em outras coisas... — Anos 80... — Suspirou. — Saudades dessa época, sabe? — Se virou para ela, Julie não entendeu. — Quando as bandas de rock não eram coloridas... E sexo era só depois do casamento.

Ela engoliu em seco, sentindo a indireta. — Então está chateado por causa disso?

– Chateado não. Estou até... Feliz. Ele vai terminar com você depois e você vai ter tempo para a banda.

– Porque acha que vamos terminar?

– Porque é assim que funciona hoje em dia. Depois que se consegue o que quer... Joga o resto no lixo. — Estava irritado, não pensava muito bem nas palavras.

– Acha que eu sou resto?

– Não, só lixo.

– Lixo?! Eu sou lixo! Se eu sou lixo então porque me salvou?! — Gritou.

Daniel não sabia muito bem o que responder. Ele estava mentindo sobre tudo, jamais acharia a garota um lixo. Mas não daria o braço à torcer. — Porque você ia cair no lago e poluir a água. — Sorriu cinicamente.

Julie bateu sua cabeça na parede, as lágrimas caiam sobre seu rosto. Daniel não sabia, mas suas palavras a machucavam de mais. Ninguém jamais a feriu tanto quanto ele. Para Julie, aquilo não era apenas briguinhas... Ela se doía cada vez mais, pois pensava que Daniel a detestava infinitamente. As vezes ela queria que fosse o contrário. — Porque me trata assim? — Perguntou com um fio de voz.

– Foi você que começou com as perguntas, agora aguenta. — Respondeu com indiferença.

– Se você não estivesse invisível escutando a minha conversa e invadindo a minha privacidade não estaríamos aqui.

– Você que quis me seguir. Eu não mandei você vir atrás de mim.

– Eu não queria que você fizesse nenhuma besteira. — Retrucou.

– Eu sei me cuidar sozinho.

– Sabe muito, sabe tanto que está perdido em uma caverna cheia de bicho e infiltração. — Um relâmpago os calou, Julie estava na beirinha da caverna, sentia as gotas da chuva caindo em seu corpo, pois o vento as jogava para dentro do abrigo. — E-estou com frio. — Estremeceu, sentia um frio incomum.

– Você é uma garota muito irresponsável. Porque não trouxe um casaco? Ou colocou o seu celular no bolso?! — Juliana estava com tanto frio que nem revidou. Ele segurou o braço da viva, viu que ela tremia, passou sua mão pelo pescoço da garota. — Parece febre... — Disse a soltando e tirando seu paletó. Com certeza aquela forte chuva a deixou assim. — Pronto, conseguiu a minha roupa. — Envolveu seu paletó preto na garota.

– Mas e você? — Perguntou sabendo que o cetim da sua blusa de baixo não era tão quente.

Os dois não percebiam o quanto eram preocupados um com o outro.

– Não sinto frio, não sinto calor... Não sinto nada.

Ainda estava com frio, e por iniciativa própria se aproximou dele, se deitando sobre seu peito. Daniel ergueu fracamente seu corpo, tentando sair daquele ''abraço''. Mas a queria por perto mais do que qualquer outra coisa. Ele não retribuía, mas deixava Julie se deitar sobre ele.

Os dois tinham pensamentos distintos. Julie pensava na resposta de Daniel. Queria saber mais como ele se sentia, como era ser um fantasma. — Sempre teve essa curiosidade — E Daniel pensava no que Juliana havia dito ao Nicolas, hoje. Que era impossível, que Nicolas não conhecia o Daniel como ela... E que ele jamais sentiria nada pois nunca demonstrou.

''Talvez se eu demonstrasse... '' — Pensava, angustiado. Mas rapidamente mudou de ideia, ele não poderia... Se demonstrasse e não fosse correspondido não conseguiria olhar em seus olhos hipnotizantes novamente. — Daniel, quais são os seus poderes? — Julie quebrou o silêncio levantando a cabeça e o encarando.

Ele abaixou o rosto para fita-lá também, ambos estavam próximos mas não haviam percebido. — Além de atravessar paredes, ficar invisível... Tem mais algum?

– Consigo ver no escuro. — Respondeu, e ela o encarou sem entender. — Consigo enxergar na escuridão total.

– Sério?

– É claro, é uma vantagem nossa... Por isso sempre assombramos ou assustamos algum humano à noite. Quando se está escuro. — Explicou.

Julie sorriu, ainda se encarando. — Que incrível...

– Porque acha isso? Porque acha incrível? É terrível... Ser... O que eu sou. Não tenho mais uma vida... Não posso mais fazer sucesso... Não posso nem fazer as pessoas me enxergarem.

– Eu... — Juliana se ajeitou, deixando seus rostos na altura um do outro. — Eu te enxergo.

Seus olhos brilharam com a afirmação da garota, porém, Daniel desviou seu rosto. Olhando para o lado oposto, não queria mostrar que estava emocionado com aquilo. Seu orgulho e sua imagem de rockeiro revoltado não deixava...

'' Me enxergar não é o bastante. '' — Pensou, ele queria muito mais que isso. Queria seu amor.

– Daniel. — Ela o chamou carinhosamente, ele ouviu, mas se limitou a apenas balançar a cabeça, ainda olhando para o outro lado. — Não sei por quanto tempo vamos ficar presos aqui. — Disse com sinceridade. — Eu acho que o tempo vai passar muito mais rápido se a gente parar de discutir um com o outro e sermos amigos.

– Não sou seu amigo. — Rosnou.

– Pelo menos finja. — Pausou. — Não quero passar meu final de semana gritando e xingando você.

– Tudo bem. — Dessa vez virou o rosto para ela. — Vamos as regras: Primeiro, não quero que suje o meu paletó de lama. Segundo, nada de provocar brigas comigo.

– Como é? — Interrompeu. — Então sou eu que provoco briga? Tudo para você é motivo de briga! Pelo menos comigo é!

– Viu, você já começou a provocar uma briga.

– Só estou me defendendo. — Se calou antes que virasse uma briga de verdade. — Qual é a terceira regra?

– Nada de falar do Nicolas, Nada de falar do Nicolas comigo e nada de pensar no Nicolas.

Julie cruzou os braços, sorrindo: '' Então é ciúmes mesmo. '' — Pensou a humana, encarando o lindo fantasma à sua frente. — Tudo bem. — Continuava sorrindo. — Vou tentar não falar do Nicolas para você. Só não garanto conseguir fazer isso... — Sussurrou, agora olhando fixamente para frente, lembrava dos momentos que passou com o Nicolas. — Gosto muito dele. — Falou um pouco mais alto.

– Bom. M-muito bom para vocês. — Ele disse, tentando sorrir, mas não conseguia. Porém, suas palavras foram sinceras. Ele preferia vê-lá feliz... Mesmo com outro. A felicidade de Juliana era o que mais importava para ele.

Ela virou seu rosto e sorriu para o fantasma, que agora olhou cabisbaixo para o chão. Ela abraçou seu braço, deitando e encaixando sua cabeça no ombro dele.

Era quase três horas da tarde, Julie estava com fome e um pouco de sede. A fome a deixou fraca, ela acabou dormindo ali. Dormiu por duas horas, deixando o braço de Daniel dormente. Ele apenas via a hora passar, as vezes virava seu rosto para ela, a via tão calma e serena que se sentia bem.

Viu que estava começando a escurecer, e a chuva estiava.

Sabia que estava faltando muitas coisas para o conforto dos dois naquele lugar, mas tinha algo que faltava, mas que não poderia... Que era essencial.

'' Uma fogueira. '' — Pensou, sabendo que o calor aqueceria a garota e espantaria os pernilongos que o irritavam.

Lentamente, puxou seu braço, deixando Juliana apoiada na parede, ela estava tão fraca e cansada que nem acordou.

Ele se levantou, deu uma última olhada na humana e sumiu.

Andava pela mata, encontrava lenha em praticamente toda a parte. Pegava os troncos e colocava embaixo do braço.

Enquanto isso, os mosquitos começaram à picar Juliana, que se sentia incomodada com aquilo. Acabou acordando quando um dos mosquitos quase entrou em seu nariz. Abriu os olhos pouco a pouco. Havia tido um pesadelo muito estranho: Que Nicolas terminava com ela assim que conseguia o que queria.

Mas achou que não era nada, afinal, Daniel tinha incutido essa besteira na sua cabeça, e por isso acabou sonhando. — Hum, Dan? — Esfregou os olhos. — Daniel. Cadê você? Aparece. Está invisível? Ainda está chateado? — Perguntava para o nada. Ainda pensando que ele estava ali. — Não está chateado não é? — Suspirou. — Como é orgulhoso. — Pausou balançando a cabeça. — Sabe, eu tive um sonho doido. — Passou os dedos entre seus cabelos. Os jogando para trás. — Que... O Nicolas só me usava. Eu sei que você não queria que eu falasse sobre ele... Mas... Acho que você gostou do sonho não é... — Riu. Agora pensava seriamente sobre o fato de Daniel sentir ciúmes do seu namorado. — Quando você resolver falar comigo me avise, porque... Eu quero te perguntar uma coisa. — Um longo silêncio se formou por alguns minutos, ela não aguentava mais escutar apenas os respingos da água. — Daniel? — Resolveu falar logo. — Me responde, sente... Ciúmes do Nicolas?

'' Sente algo por mim? '' — Queria tanto perguntar, sentia uma grande necessidade. Mas não conseguia juntar essas palavras. — Aparece. — Disse fraca, olhando para os lados. — Você está ai? — Se encolheu, com medo. — Daniel? — Chamou por ele por longos minutos, até que chegou a conclusão de que ele não estava aqui.

Ficou desesperada. '' Será que ele me deixou? Será que aconteceu algo?! '' — Pensava enquanto gritava, gritava e gritava por seu nome.

Chorava. Se preocupava mais com o sumiço dele do que com si própria. Com o fato de estar perdida em uma caverna, ela só pensava nele.

Notas finais
Esses dois hein, rsrs.