Perdas e Ganhos: Como Noites de Verão

12 ...Pode ser mais profundo que o oceano?


Notas iniciais
Confesso que preparar a história estava se mostrando difícil, afinal eram tantos assuntos diferentes ocupando minha mente, que até pensei que perderia o fio da meada. Mas, comecei a escrever dentro de todas as anotações que fui juntando nos intervalos, rsrsss, e acabou que deu esse texto gordinho, rss. Sugestão de trilha: https://www.youtube.com/watch?v=zytE_x-fHFs Desejo uma ótima leitura! Muito obrigada por estar acompanhando, me faz muito feliz! :3

Definitivamente devia agradecer a Carlos depois. Ele havia sido muito gentil e ainda enviado Eduardo atrás de mim. Para esse segundo feito não sabia se poderia agradecer totalmente.

– Eu terei de agradecê-lo depois...

– Sim... e eu ainda mais... se ele não tivesse me dito umas poucas e boas, e me garantido que você estava correndo para um lugar tão perigoso sozinha, talvez eu tivesse deixado você sozinha... sabe... não queria te aborrecer mais... e...

Eu suspirei com a preocupação de Eduardo e de seu irmão. Pareciam mesmo boas pessoas.

– Isso me faz lembrar... que aqui é um lugar bem perigoso. Mais a frente... – ele apontou para a floresta distante – É mata fechada e ao lado dela o pomar do seu Jorge.

– Seu Jorge...?

– Ah... O dono do sítio.

– O tio do Marcos?

Ele me pareceu um pouco irritado. Seu cenho se contraiu no mesmo instante que falei sobre Marcos. E pior, seu olhar mostrava uma raiva contida.

– Eduardo?

– Pode me chamar de Edu, Taís. – agora ele estava mais calmo e puxando um sorriso pequeno, mas quase sem humor.

– Você... – não sabia se devia mesmo perguntar sobre isso – Você não gosta do Marcos?

Ele voltou a parecer irritado, virou de perfil para que eu não pudesse vê-lo fechando o semblante, mas sabia que a raiva estava lá.

–Digamos... – sua voz tinha um toque sombrio e irritado – Digamos que ele é um cara que tem tudo que quer e gosta de se desfazer do que tem como se não fosse nada.

– Hãn?

– Quero dizer... – ele passou a se acalmar para me explicar melhor – É que... eu e Marcos... nós nos conhecemos desde pequenos... eu achava ele um cara legal. Mas quando me zoavam ele ficava quieto, não fazia nada. Mesmo ele sendo popular na escola e podendo... sei lá... pelo menos, pedir pros caras pararem de implicar comigo.

Ele colocou as mãos sobre a cabeça e soltou uma respiração pesada, cansada.

– Ahh! Nem sei explicar, mas tudo parece vir fácil pra ele e ele nem dá a mínima... tem uma certa indiferença até com as amizades... trata tudo desse jeito...

Eu não podia acreditar que aquele era o mesmo Marcos que havia conhecido algumas horas antes. Não o Marcos que foi tão gentil comigo, que me ajudou com seus amigos, que me apresentou a eles e manteve um cuidado discreto comigo. Comecei a pensar se Eduardo não teria inveja de Marcos ou estaria com ciúmes.

– Você não está acreditando em mim, não é?

– B-Bem... Não é bem isso... acho só que... não o conheço tão bem para saber.

– Uff... Sim... eu sei! E tem gente que não concorda comigo, mas pra mim ele parece não dar valor pra nada. É só aparência...

– Como assim? – Eduardo não estava sendo muito claro e parecia cada vez mais irritado, mas, felizmente, não irritado comigo.

– Ah, Taís... é meio complicado te dizer sobre isso... porque parte é um segredo e eu não posso contar... mas... o Marcos é o tipo de pessoa que te encanta, mas não se importa de verdade... – ele colocou a mão a frente do rosto e soprou sua exasperação com o movimento dela.

– Eu não tô explicando direito, mas...

– Não, tudo bem! – eu resolvi acalma-lo, colocando uma mão em seu ombro.

– Eu... Taís... Eu não quero que ele magoe você. – ele olhou para mim com certa tristeza.

– Eu... eu vi como você olhava pra ele... – diante de meu enrubescer, ficou claro que ele observou bem – Vi como ficou quando conversavam... conseguia ver seu sorriso lá do lago. E estava olhando pra ele como uma mariposa na lâmpada...

Ele disse num tom cômico que me arrancou uma risada rápida. Mas a tristeza ainda estava lá. Estampada em seus traços, marcando com dor. Me impedindo de levar sua declaração como brincadeira.

– De uma hora pra outra ele parou de falar comigo e isso faz uns anos já... – ele olhava para a floresta aprofundando seu olhar para memórias perdidas naquela escuridão.

– Aí... Quando a Miranda me chamou pra uma das festas do vô dela... – ele abaixou a cabeça, ressentido – Lá estava ele... e ainda agiu como se não me conhecesse, depois... quando eu o confrontei... ele agiu como se eu não soubesse do que estava falando e deixou a...

Ele me olhou, se sentindo culpado por quase deixar escapar o segredo. Abaixou novamente o semblante e colocou as mãos sobre a cabeça, cansado. Depois dessas declarações, e seu visível acirramento, comecei a por minhas lembranças em ordem, e me lembrei que Marcos não havia mencionado como conheceu Eduardo. Bem, da verdade, me fez acreditar que o teria conhecido por uma apresentação de Miranda.

E em quem eu deveria acreditar?

Já não estava certa sobre Marcos. Mas não sabia se Eduardo poderia ser capaz de inventar algo assim. Algo em mim dizia que ele seria incapaz de uma atitude tão vil. Mas deveria mesmo confiar, sem ter certeza dos dois lados? Precisava de um denominador comum, que estivesse neutro para ambos e fosse uma fonte segura para me esclarecer essa história.

De qualquer modo, vi por melhor, mudar o assunto e tentar eliminar a tensão que se formou. Então, decidi conversar sobre outra coisa que me inquietava.

– Edu?

– Sim... – ele estava suspirando, mas conformado.

– Eu também nunca o vi antes.

– Pois é! As festas do Seu Horácio são sempre muito cheias e eu fico mais com a galera, mas tenho certeza que me lembraria de você... – outro sorriso sedutor.

Minhas entranhas estavam se revirando diante disso.

– Mas, talvez, só não tenha prestado atenção na mesa certa...

– Bem... eu... Bom eu não vim em todas as festas. Geralmente em uma ou outra muita importantes. Na maioria das vezes, vinha mais os meus pais. E eu ficava em casa com meu irmão e minha vó ou...

– Ou...?

– Ou íamos à casa de alguns parentes, enquanto meus pais iam às festas. Até porque muitas festas eram mais para os adultos.

– Entendo! – ele roçou sua cabeça novamente.

– Han... Mesmo assim acho que me lembraria de uma princesinha de olhos de gato. – ele sorriu e me deu uma piscadela.

– N-Não seja bobo. E ainda... eu sempre vestia vestidos mais compridos e largos, e amarrava o cabelo numa trança que me deixava mais estranha. Nem sei porque deixei minha mãe me arrumar hoje... – neste momento comecei a entrar em devaneios e sem perceber comentava alto – Talvez porque tenho estado cansada de tudo e nem queria ter o trabalho de arrumar minha roupa.

– Humm... então você é mesmo uma princesa. – sua risada foi de puro deboche – Fazendo sua mãe de serva...

Eu olhei para ele com falsa irritação e lhe dei uma batidinha no ombro, que ele segurou e utilizou para me trazer mais próximo.

– Ah... Melhor voltarmos, Edu. Está ficando tarde! – eu o informei tentando desviar de seu olhar pedinte.

Acabou por me soltar. Mas momentos depois, ele se virou para o meu lado e esfregou a cabeça no meu ombro, me fazendo um pouco de cocegas, mesmo com o casaco de nylon. Acabei rindo com todos os dentes e ele levantou um pouco para me fitar.

– Humm... finalmente um sorriso digno, senhorita Taís! Deveria sorrir mais assim. Fica ainda mais linda!

Oh, Deus! Por que ele tem que dizer essas coisas! E corava com estes pensamentos, procurando esconder meu rosto.

– E ainda mais quando está corando. – ele riu e terminou num sorriso sedutor – Fico imaginando que cor ficaria se te beijasse.

Eu engoli a respiração num susto, que cheguei até a ficar sem ar. Virei-me ainda mais constrangida. Preferindo encarar o nada à aqueles olhos que hipnotizariam meu frágil ser já suscetível a seus encantos.

– Estou brincando! – soltou um suspiro designado e voltou a pendurar sua cabeça sobre mim.

Mas agora podia sentir a pele de seu rosto próximo a minha jugular, já que com seu movimento acabou por puxar a gola do casaco que eu vestia. Senti-o se aninhar mais em mim e quase o ouvi ronronar como um gato, enquanto mexia sua cabeça mais vezes.

– Humm... Você é macia! – foi um sussurro fino, mas eu pude ouvir.

Fiquei estática e ele também parou. Não sei o que se passou em sua mente, mas acredito que ele não desejava ter expressado aquele pensamento, pois logo foi tentando mudar o clima com outro assunto. Sua voz estava um pouco trêmulo, parecia envergonhada.

– Mas ainda não me respondeu sobre as vezes que veio as festas. Qual sua explicação, senhorita?

– Hãn... bem... eu ficava mais com os meus pais ou com meu irmão.

– Mas... todas as vezes? – levantou sua cabeça e me encarou.

– Sim...

– Você tem medo do que as pessoas podem pensar se você se soltar?

De onde veio isso? Mas, ele não estava tão distante assim da raiz do problema, afinal. Seu comportamento me fazia pensar em um grande autor, mas agora não me lembro bem seu nome, acho que o primeiro era Victor, mas do sobrenome não me lembro bem. Bem, ele uma vez escreveu: "Alguns sujeitos parecem poças d'água, mas ninguém sabe o quanto podem ser profundos como oceanos"*. E essa frase se aplicava muito bem a Eduardo.

– Na maioria das vezes... temo o que podem pensar de mim, o que vão falar e do que podem me fazer.

(O quanto perdemos?)

Eu disse sincera, sem medir muito bem o significado. Como se estivesse recitando a dor da minha alma. Com os olhos na escuridão da noite.

– Sei o que quer dizer! Tem medo de não ser aceita...

– Ou humilhada, magoada, rejeit...

Seus braços me rodearam lentamente até me abraçar e me fazer calar.

– Eu sei... – me beijou a nuca e eu arrepiei com tremores sucintos – Quando eu era mais novo era muito magrelo. Tinha gente que me chamava de tripinha...

Tive de segurar o riso de imediato, quando ele disse ‘tripinha’. Fiquei imaginando uma tripa de carneiro com quase dois metros, bronzeada e com um longo cabelo preto.

– Não ria! – ele me deu uma apertadinha e sacudida com seu abraço.

– Está bem...! – eu tentei ao máximo, mas só consegui quando segurei a respiração – Pode continuar!

– Rãn... assim espero! – ele disse irônico e com um tom divertido. Mas depois sua voz embargou em melancolia.

– Implicavam sempre comigo e um garoto repetente, que era o dobro do meu tamanho, vinha me bater quase sempre. Eu chegava em casa chorando, todo roxo!

Bateu-me uma compaixão. Seu apelido era de longe muito pior do que o meu. E as lembranças de quando chegava em casa me sentindo uma tola e chorava debaixo das cobertas, voltaram a minha mente. Comecei a sentir cumplicidade naquele momento.

– Eu não tinha nem nove anos, e as crianças resolveram tirar sarro de mim até os onze. Eu comia como um louco. Comia muito só pra ganhar algum peso e engordar. Mas não adiantava.

Era estranho ouvir, mesmo de um homem, que para acabar com as humilhações e as surras, comeria até estourar. Que queria muito engordar, mesmo que a sociedade pressionasse com a ditadura da magreza. Então a primeira barreira em mim se quebrou. Comecei a enxergar vaidades que pensava não existirem em mim. Também sofri com o fato de ser muito magra e não ter muitos dos atrativos que os homens desejavam nas mulheres. Alias, esse foi o preconceito que ruiu: Pensava que todos os homens davam mais importância a estes atributos. Assim, estava destruindo padrões pré-fabricados que haviam me influenciado sem que eu percebesse. E como era bom constatar que apesar de me considerar comum ou feia, fora dos padrões e esquisita; aos olhos deste gentil homem, eu era Linda.

– Carlos até ia me defender algumas vezes... mas só piorava a situação. – ele continuou.

– Por quê?

Embora tenham até brincado comigo como se eu fosse uma boneca e me depreciado diante de toda escola, não se comparava ao que ele me disse depois.

– Eles vinham descontar em mim o que ele fazia neles. Começaram a me ameaçar mais. Estragar meus materiais, me bater até na rua, me jogar na lixeira da escola ou me segurar no vaso até eu desmaiar.

Nesse momento meu coração doía por ele, havia raiva por todas as pessoas que lhe fizeram mal, compaixão por seu estado, satisfação por ele estar bem diante de mim e sem maiores sequelas – a primeira vista.

– E mesmo depois, quando eu comecei a crescer e ultrapassar meu irmão mais velho, muitos ainda me zoavam. Só pararam com as agressões físicas...

Ele parecia um pouco nervoso e já estava com os braços soltos e um tanto distante de mim agora. Falava com certa veemência.

– Agora as implicâncias eram só verbais, mas também machucavam. Passaram a me chamar de cotonete de gigante, de espanador de Titã, de escadaria do Empire State, de torre de Tóquio, de...

Senti-o me abraçar mais forte e cheirar meu pescoço. Mas nem por isso pude evitar as risadas.

– Você está rindo? – sua voz estava alegre, apesar de vê-lo fazer uma careta ofendida.

– N-Na-Não... – tentei miseravelmente esconder as risadas que queriam pular de mim.

– Humm... tenho uma coisa pra te fazer rir, sem precisar de 'cosquinhas'.

– Eh? E o que seria, meu senhor? – disse com um humor de zombaria que só uso com Miguel.

O que esse rapaz estava fazendo comigo? Como ele conseguia me deixar tão descontraída, assim tão rápido? Eu simplesmente não entendia. Nem meus primos conseguiam esse feito.

– Humm, gostei desse cumprimento! – ele ria e me apertava mais em seus braços.

– Vamos... – eu estava ficando envergonhada agora que percebia a pressão que seus braços fortes faziam sobre os meus seios – Me diga!

– Ok! – ele afrouxou o abraço – Já percebeu como algumas expressões transformam uma ação para uma coisa diferente do fato.

Eu não imaginava como ele conseguia isso. Em um momento sua fala era tão debochada, em outro, tão séria. E nesses momentos sérios tinha um vislumbre do acadêmico que era tão apaixonado por seu curso, que as informações fluíam dele como se fossem simples crendices do senso comum.

– Bem... Como assim?

– Hãn... por exemplo. A expressão ‘em plena luz do dia’, gera um contexto ilícito ou amoral... – sua feição foi exagerada na palavra amoral, para marcar a ironia de sua fala – Em qualquer coisa.

– Eh?

– Sim... por exemplo... Ele estava comendo coxinha... em plena luz do dia. – ele gesticulou de uma forma tão esquisita e engraçada.

Depois riu e me cutucou.

– Não parece que ele estava fazendo outra coisa?

– Não... Que bobeira!

Mas não aguentei mesmo e acabei rindo. Tive de colocar as mãos sobre a boca para não deixar escapar tão grosseiramente.

– Está rindo de mim ou da piada?

Como eu não respondia e ria ainda mais com suas expressões divertidas, ele tomou a primeira opção como resposta e fingiu uma careta ofendida.

– Está sim! E não deveria rir de mim... – ele me apertou mais, fez algumas cocegas sem jeito e, para finalizar, beijou com vontade minha clavícula.

O arrepio que me correu foi tão forte que cheguei a tremer, abalando nós dois. Ele me soltou rapidamente como se eu estivesse pegando fogo e ficou ao meu lado.

Olhando de soslaio percebi o quanto ele parecia divertido. Olhava para o chão medindo os pensamentos com um sorriso torpe nos lábios. Depois de alguns minutos assim, começou a rir fitando o chão como se olhasse para o fundo de um poço. Ria entre arfadas e parecia incrédulo com alguma coisa. Até que parou seus risos para me encarar sério e preocupado.

– Taís?

– S-Sim...?

– Você nunca... sabe... nunca namorou? Nunca ficou? Nunca beijou, mesmo?

E alguma parte do meu comportamento sugeriu o contrário? Pensei aturdida e perplexa. Mas, talvez, por ter quase cedido ao seu beijo momentos atrás, ele determinasse que eu não fosse tão inocente assim.

– Não! Por... Por quê?

– Bem... é que... nunca estive com uma garota que... sabe... que fosse BV.

As coisas não estavam seguindo da forma mais agradável possível. Estávamos retornando ao assunto beijo e eu já não estava tão disposta como no começo. Naquele momento, até o ambiente pareceu pesar sobre mim.

– Não que isso seja ruim. – ele logo tentou explicar, e gesticulava como um louco, tentando me mostrar com gestos que não deveria me preocupar – Não é nada para se ter medo.

(Eu precisava mostrar coragem, ;P )

– Não estou com medo!

– Não? Então...

– Eu prefiro mudar de assunto, Eduardo, se não se importar.

Ele parecia chateado com meu pedido e ficou cabisbaixo pensando um pouquinho, mas depois se voltou para mim e sorriu com sinceridade.

– Tudo bem, quem sabe em outro momento... – e me deu uma piscadela.

Eu me virei para a paisagem a minha direita, enquanto ele ria mais um pouco e se aproximava de mim. Então me lembrei de nosso assunto anterior. Aquele que me fez sentir tão ligada a ele. Que me fez partilhar de suas dores.

– Eduardo?

– Te disse... pode me chamar de Edu. – senti seu ombro encostar-se ao meu e dar uma escovadinha.

Virei-me e ele me olhava de uma forma tão profunda. Parecia... Admirado. Mas admirado por que?

– Sim, Edu! Eu queria saber... – ele meneou a cabeça para que eu continuasse – Como fez para que parassem de implicar com você?

Seu sorriso se abriu completamente e seu carinho era palpável.

– Na verdade nunca param de implicar... Sempre vai ter alguém que quer descontar suas debilidades em alguém que seja uma presa fácil.

– Hãn, tá!

– Sério... tem pesquisas que falam que quem pratica bullying, está descontando em alguém alguma dor, algum sofrimento que passa ou problema que tem... que quer tanto arrancar a força, que usa a violência em alguém que tenha um problema como ou maior que o seu.

– Hmm... entendo. — na verdade, ainda estava processando a informação.

– O que ajuda mesmo a lidar com isso, é mudar a forma de pensar diante dessas pessoas. É se concentrar mais nas suas qualidades e não deixar que os defeitos que esses idiotas apontam em você, sejam a única coisa que você vê. O que você acredita é que determina quem você será.

É... ele era mesmo um oceano profundo. E estava me deixando admirada.

– Mas... ter amigos verdadeiros e pessoas que te amam e cuidam de falar de suas qualidades ajuda muito, também. No meu caso... minha mãe sempre foi essa pessoa. E... Meu irmão Carlos, também. Ajudava elogiando minha coragem de ir pra escola mesmo sabendo o que eu teria que enfrentar e... ainda tirando boas notas.

– E seu outro irmão?

– O Bernardo? Ah! Ele é tão avoado pra se poder pedir uma ajuda... não dá muito pra contar com ele... mas ele é boa pessoa. Quem sabe um dia você não vai lá pra casa e conhece minha família toda.

Outra piscadela dele e outro enrubescer meu, que me forçava a distanciar a fala e a face.

– Hmm... e você... – antes que eu pudesse continuar meu interrogatório, ele me apertou mais.

– Não... agora eu tenho direito de fazer várias perguntas e você tem de responder... – ele ria.

– Mas...

– Não... sem mas! Você prometeu! – ele me falava ao pé do ouvido e isso só me deixava com mais vontade de voltar ao casulo que formamos enquanto eu chorava.

– Está bem...! – eu sorria como uma criança tímida.

Então o senti me puxar contra si e me virar, me trazendo ao seu colo novamente. Mas agora estava totalmente apertado a mim. Seus olhos me cativando com os sentimentos mudos que transmitíamos um para o outro. Tão intensamente me fitava como eu cedia à força de seu ser persistente.

– Então... senhorita, Taís...? Posso ou não posso beija-la?

(Poderia?)

Só tive tempo de pensar: Mas essas eram as suas perguntas?

– Taís! – ouvimos um grito distante, mas firme.

Na hora o feitiço que nos enlaçava se quebrou, ele desfez nosso casulo e eu quase caí do balanço.

Ele me manteve firme e suspirei aliviada, voltando a ficar corada com seu olhar que não parecia perturbado com o os gritos. Apenas atento ao que eu faria.

– Taís onde você está? – nunca fiquei tão frustrada e aliviada em reconhecer a voz de meu irmão.

– Taís! Cadê você? – meu irmãozinho berrava junto com algumas outras vozes infantis que deveriam ser seus amigos ajudando-o.

–Desculpe... – eu olhei para Eduardo procurando qualquer sinal em seus olhos de decepção ou escarnio.

Não sabia se ficava feliz ou triste com o que vi. Ele estava, claramente, triste. Via já uma languida saudade em seu olhar. Seus braços se firmaram mais em mim, me mostrando que não desejava me deixar partir.

– Desculpe, Eduardo... – consegui finalmente dizer, mesmo que timidamente – Eu preciso ir!

Como sua expressão se aprofundou em tristeza resignada, senti que lhe devia uma explicação.

– Eu não posso deixar minha família preocupada. Acho que meu irmão trouxe uma multidão com ele para me encontrar. – ele parecia estar mais conformado.

– Eh! Acho que eles devem estar te procurando a um bom tempo.

Ele liberou minha cintura com a mesma resistência apaixonada de antes. Olhou-me reunindo coragem para tirar o nó que se prendeu a sua garganta, para me perguntar:

– Se eu pedir seu telefone... – ele começou a cavar em seus bolsos atrás de papel e caneta — ...Você me passaria seu número?

Eu não conseguia acreditar que aquele rapaz tão bonito e certamente sincero, estava pedindo meu telefone. Estava claro que ele não pretendia que terminasse tudo ali. Que gostaria de me ver de novo. Talvez até de conversar e, quem sabe, de me ter em seus braços mais uma vez.

Só o pensamento já me arrepiara, e nessas horas minha razão pessimista estava amarrada e amordaçada no fundo da minha mente. Mas antes que eu pudesse responder, um grito assustou qualquer resposta para o esquecimento.

– Agui, Inguel!

A voz aguda veio de uma menininha, de cabelos castanhos totalmente despenteados e com parte do vestido de joaninhas manchado. Ela gritava aos pulos, na grama a frente da varanda.

No exato momento, Eduardo ficou paralisado com suas mãos nos bolsos. Seus olhos arregalados como os meus. Eu então me virei para a menina, que não deveria ter mais de quatro anos, e que sorria como se vencesse no “pega-pega”.

Ouvimos vários passinhos em direção à varanda, até que avistei a figura familiar de meu irmão. Os cabelos castanhos cacheados como de um anjo. Os olhos verdes como os meus, num tom mais escuro – como diziam meus tios. A expressão inteligente na face, demonstrando que ele sabia bem o que poderia ter acontecido comigo na companhia de um rapaz num local tão afastado.

– Então você estava aí! – ele parecia divertido.

– Olá, Miguel... – foi à única coisa que pensei em dizer.

Vi a menininha ser puxada e repreendida por uma adolescente de feições e cabelo parecidos ao dela. Provavelmente sua irmã mais velha. E, ao meu lado, percebi que Eduardo se levantou, um pouco sem jeito, esticando e desamassando-se discretamente.

Assim que estava totalmente em sua altura, vi vários olhinhos arregalados e algumas boquinhas abertas em grandes “Os” de espanto. Imaginei o quão intimidante a figura dele poderia parecer a essas crianças. E mesmo sentindo por seus “corações assustados”, uma pontinha de vaidade me cutucou com o conhecimento de um rapaz tão alto e forte, mas principalmente, tão autêntico e honesto, gostando de mim.

Notas finais
E... é Edu, não vai ser hoje, rsss, o destino (lê-se: a autora, Muahahuahuaha) está sendo cruel, kkkkkkkk!!! Mas vocês acham que a Taís deveria entregar seus lábios? O que estão achando de Marcos agora? *Aahh, querido Victor, não podia deixar de homenageá-lo em minha obra.Principalmente depois de todo apoio que tem me dado, todo carinho. Infelizmente não podia inventar um sobrenome, neh, mas minha mão coçou pra escrever Miyazaki, rsrss. Muito obrigada por não me deixar desistir, querido! Agradeço também por sua amizade, é muito importante pra mim!