Perdas e Ganhos: Como Noites de Verão
6 Momentos de Conhecimento
Notas iniciais
Depois de seu olhar duro para o rapaz de tranças, Marcos saiu em direção a mesa de buffet para pegar mais bebidas. Alguns instantes depois ouvi Fábio sussurrar ao meu lado.
– Ele é um maldito ciumento! – falou com uma risada abafada em um suspiro profundo.
Claro que a forma como Fábio falou dava margem a poucas interpretações. Mas não queria entender aquela declaração com o que meu coração deseja acreditar até este dia. Ainda assim, aquelas palavras mexeram muito comigo, mesmo meus neurônios gritando: ELE SÓ ESTÁ BRINCANDO! MARCOS NÃO ESTÁ INTERESSADO EM VOCÊ! ACORDA TAÍS! Ainda assim, as borboletas davam piruetas e eu já não precisava comer mais... Nunca mais! Pensava.
– Você ficaria chateada se falasse que você parece uma bonequinha? – ele me tirou de meus devaneios com sua pergunta, demonstrando um sorriso estranho que não pude identificar.
– Na verdade... – eu não queria ser desagradável, mas também não iria mentir – Bem... Na verdade sim. Ficaria chateada. Não gosto de ser vista como uma boneca.
– Mas saiba que no mundo da propaganda você poderia fazer muito sucesso! – se estava tentando me animar com essa informação Fábio só alcançou o contrário.
– Não vejo o porque disso... – eu não fui rude, quase sussurrei aquela resposta, mas ele me olhou duro.
– Se me permite falar... você está perdendo muito com sua falta de confiança. Você é uma jovem muito bonita Taís, tem traços delicados. Conheço muitas empresas que desejam uma imagem como a sua para suas propagandas.
Não sabia o que era pior. Ter de ouvi-lo bancar o agente e me forçar a ser educada ou a proposta que se seguiu.
– Se quiser posso te apresentar a algumas agências ou até à empresas. Conheço até lojas que gostariam de tê-la estampando seus pôsteres.
Falava animado fitando o vazio, com a palma aberta correndo por uma parede invisível como se pudesse ver os tais pôsteres. Concerteza não estava vendo a cara desconfiada que eu fazia.
– Bem, Fábio. – minha garganta estava secando — Sua proposta é muito interessante, mas sinto que devo declina-la. Não creio que me sentiria bem num ambiente assim, eu...
Ele riu um pouco quando usei o termo ‘declinar’, mas depois seu semblante ficou muito sério.
– E por que não? É mô fácil! – Ele parecia um pouco frustrado com minha recusa.
– Porque eu mal gosto de tirar fotos e fazer vídeos. Imagine participar de uma campanha! – não sei de onde me saiu tanta coragem para ser tão direta.
Felizmente, ele pareceu se conformar, tomou um gole da sua bebida e me olhou pensativo.
– Se mudar de ideia... – ele tirou um pequeno cartão do bolso da calça jeans – É só ligar pra um destes números. Posso te mostrar bons lugares pra trabalhar. E farei sem cobrar nada. – ele me deu uma piscadinha e abriu seu sorriso radiante.
Procurei ignorar seu comportamento, mirando o cartão antes que um rubor aparecesse em minhas bochechas. Com aquele pequeno retângulo de papel em mãos, grunhi uma resposta afirmativa. No cartão havia uma foto vertical dele sem camisa encostado em uma parede de chapiscos azul, só com uma calça jeans surrada e rasgada nas coxas e joelhos — uma visão de mexer com o imaginário de qualquer garota.
(Só para dar uma ideia de como imaginei Fábio)
Senti meu rosto aquecer e achei melhor virar logo para o verso do cartão. Me deparei com o nome: Fábio Maranga. Em letras elegantes deitadas e em caixa alta. Preenchidas em azul escuro em contraste com o branco do verso do cartão. Também encontrei seu e-mail, um link de um provável site que funcionaria como seu book, quatro números de telefone celular e a seguinte frase: “A Beleza só é elegante, quando Exótico e Familiar são unânimes”; de uma tal de MariChia. Enquanto repousava o cartão sobre a mesa, já que meu vestido não tinha bolsos, ele resolveu retomar a conversa, mas, para meu alivio, determinou que era melhor mudar um pouco o assunto.
– Você já está na faculdade ou trabalhando? – Fábio me perguntou curioso, com seu sorriso galante.
– Eu estou fazendo faculdade à distância e alguns cursos. No momento não trabalho.
– Desculpe a pergunta, mas... Porque à distância? Temos dois campus de grandes universidades aqui. Eu até estudo em um deles: o campus da USP.
Ele parecia bem orgulhoso quando citou a USP. Não à toa, é uma universidade de renome no país. Mas como meu pai dizia; o mais importante é o aluno se dedicar não importa onde esteja estudando. Que a meta seja sempre dar o seu melhor, sem se preocupar com comparações – algo, muitas vezes, difícil de realizar.
Fiquei curiosa para saber qual curso atrairia um rapaz que era modelo e pelo seu relógio aprova d’água da Mondaine imaginei que ganhasse bem. Ainda assim precisava me concentrar primeiramente em responder sua pergunta.
Como ele ficou em silêncio por um bom tempo, comecei a prestar atenção as músicas tocadas.
(Clique aqui para ouvir a Trilha)
E depois de mais alguns minutos curtindo algumas, que já estavam entre Pops, olhei-o numa pergunta muda se eu já poderia responder. Assentiu, como se dissesse “Vá em frente”, então, tomei folego para diminuir o nervosismo e responder claramente.
– Eu estava no final do curso de inglês e meus pais me aconselharam a optar por uma faculdade à distância, para não perder todo o investimento. Então... achei que era uma boa opção. Até por que, eu queria fazer alguns outros cursos...
Ele nem me deixou terminar e começou:
– Mas ai você perde muito! – percebendo que eu fiquei mais retraída, ele resolveu se retratar – Quero dizer... Você acaba perdendo o contato com pessoas da sua idade e perde a experiência do contato direto com diversas outras realidades conhecendo pessoas bem diferentes de você, sabe...
– Demorei muito?
Antes que Fábio pudesse concluir, Marcos sentou ao meu lado e trouxe um copo, ainda maior do que eu havia pego antes, com mais suco de abacaxi. Fiquei feliz pensando que ele teria percebido a bebida em meu copo e resolveu pela mesma opção para me agradar. Eu sorri e agradeci, achando melhor tomar um gole para matar a ‘sede constrangida’ que aquela conversa toda com Fábio trouxe a minha garganta. Percebi que Érica e Isabela se juntaram aos irmãos morenos e ao rapaz negro careca com seu violão, enquanto rodeado por outros jovens e o ‘trio morenos bronzeados’. Miranda e Tales estavam se acariciando num canto próximo a mesa, e provavelmente eram o tipo de casal “gato e rato”.
– Eu até tinha me esquecido que você tinha saído! – Fábio retrucou querendo provocar Marcos.
– Você devia ter voltado a um tempão, Marcos! – uma das loiras disse com certa aflição – Fábio só fica de papo com essa menina.
Senti o desprezo inflamado quando ela disse menina, mas fiquei na minha, querendo ficar invisível no momento. Marcos parecia chateado. Só não dava para saber exatamente por que parte da declaração da loira.
– Ouça aqui, Rebeca... – Marcos parecia que queria arrancar a boca da loira irritada.
– Calma, todo mundo! – a outra loira interveio, levantando as mãos para apaziguar os dois nervosos.
Parecia mais sensata, embora não sentia nenhuma empatia da parte dela comigo. Enquanto aquela discussão de começava, comecei a reparar as gêmeas, magras e altas, como modelos de passarela. Mas as observando de perto notei que suas maquiagens eram muito carregadas, e elas tinham mandíbulas pesadas e duras, rostos quadrados que não eram muito femininos, sua beleza poderia ser descrita como exótica e andrógena.
Uma usava coque no alto da cabeça e outra usava um coque caído para a nuca. Eram bem estilosas, pareciam se vestir com roupas de revista, a última moda se via em sua indumentária. Tinham uma quantidade imensa de anéis e pulseiras em estilo “it girl”.
Anéis com carinhas de bichinhos, mustaches em estampas e acessórios, uma usava saia com sneakere a outra short com sandálias grossas tipo Anabela. E embora não as considerasse muito bonitas – juro que não digo isso pela antipatia que na época me transmitiam – elas tinham uma presença muito marcante, numa passarela seriam o foco de todos.
Enquanto analisava-as por inteiro, a gêmea de short continuou sua fala.
– Beca só queria dizer... – olhou séria para irmã e voltou a fitar nós três – Que o Fábio nos deixou de lado e nem nos deu abertura para conversar também...
De longe parecia uma desculpa insubstancial, mas Marcos se sentou parecendo conformado com a afirmação da loira. Rebeca parecia contrariada, mas deu o braço a torcer e confirmou a desculpa da irmã. Fábio achou por melhor voltar sua atenção para elas e me deixou como se eu fosse um brinquedo com quem ele se cansou de brincar. Nem mais um de seus sorrisos luminosos ele me deu. Apenas encarou Marcos por um tempo e voltou-se para as gêmeas. Logo depois, Marcos finalmente resolveu me dar atenção.
– Espero que ele não tenha te incomodado.
– Não! Ele não me incomodou.
– Sério, é?! – ele me fitou com curiosidade, levantando sua sobrancelha direita – De lá eu podia ver o esforço que você estava fazendo pra lidar com ele.
Ele deu uma leve risada debochada, depois de ter apontado para a mesa do buffet. Achei melhor tomar outro gole até o assunto morrer e ele decidir me perguntar outra coisa ou voltar a comer. Estava tão intrigada com o fato de ele declarar que esteve me observando, que não me imaginava concentrada o suficiente para qualquer assunto. Infelizmente ele retomou a questão.
– Eu sei que ele pode ser bem chato... – ele disse quase num sussurro, e tão próximo do meu ouvido que eu cheguei a me arrepiar.
Falei sem jeito me afastando dos lábios fantasmas que roçavam meus ouvidos.
– Não se preocupe! Seus amigos estão me tratando bem.
Ele abriu seu largo sorriso novamente.
– Isso me deixa tranquilo! E posso dizer... que você agora faz parte da turma.
Eu sorri, mas pensava que era muito exagero da parte dele. Devo ter feito uma cara muito cética, por que Marcos foi tentando me convencer com uma enxurrada de argumentos. Entre eles; o fato de que quando os conheceu, alguns foram muito agressivos e outros indiferentes. Contou como Miranda foi seu ‘bilhete de entrada’ na turma. Sendo a mais extrovertida e mais sensível, ela o apresentou a todos, o cobriu de elogios e o convidou para várias atividades do grupo. E o grupo sendo ela, Tales, os três irmãos bronzeados, as gêmeas loiras, Filipe e Wallison — os dois últimos que eu ainda não havia conhecido. Eu não me convenci de fato, mas ri das suas observações e confidências, e a cada risada minha ele ficava mais animado e só parou quando cometeu o perjúrio de dizer:
– E o Tales... – Marcos gargalhava – o Tales... ele é o cara mais sem vergonha que eu já conheci e...
Bastou ele dizer isso e o loiro baixinho mandou Miranda ao chão de seu colo, avançando enfurecido contra Marcos, num pulo. Depois dos dois brigando um pouquinho, atirando algumas ofensas bobas – com as garotas tentando para-los inutilmente – tudo virou uma bagunça chamando a atenção dos jovens cantando na grama e alguns que estavam em pé. A confusão só se resolveu quando Miranda acabou confirmando alguns dos acontecimentos de desinibição do Tales e todos terminamos em gargalhadas.
Todos os amigos na mesa riam. Eu ria contagiada pela situação e de nervosismo. Alguns rapazes riam na grama, enquanto as pessoas em pé voltavam para suas conversas. Marcos voltou a conversar comigo me relatando suas experiências de vida. Também me falou de seu sonho de se formar como agrônomo – foi ai que descobri que ele estava para terminar seu curso de agronomia e que já tinha vinte e um anos. E ainda me contou que desejava lidar com as terras do pai e que o seu tio era o dono daquele local.
Paramos alguns minutos para um “parabéns” abrupto que se iniciou, com todos aplaudindo e cantando, entre sorrisos alegres, debochados e bem amarelos.
(Parabéns pra Você — Clássic Show)
Tudo destacando mais um ano de vida pelo qual Seu Horácio (o chefe de meu pai) vivera, enquanto um senhor bonachão gritou de uma das mesas: MAIS UM ANO QUE SOBREVIVEU!!! E as risadas estouraram junto às bombas de confete.
Depois que todos se calaram para um breve discurso do aniversariante, o bolo de chocolate foi cortado e seria servido por algumas das convidadas. Marcos voltou a se sentar, assim como a maioria das pessoas que haviam levantado para cantar. Ele segurou o copo para mais um gole de coca e olhou de soslaio para mim. Pelo seu olhar imaginei que queria saber se eu ainda desejava continuar nossa conversa. Assim que ele desceu o copo sobre a superfície da mesa eu tomei a iniciativa.
– Marcos, você estava dizendo...
Eu comecei esperando que ele retomasse o assunto.
Seu sorriso fez cocegas até na minha alma e ele retornou ao seu estado de espirito animado e falador. Então descobri que sempre que podia voltava às chácaras para ajudar nos negócios do tio, aplicar seus conhecimentos nas terras do lugar e relaxar no ambiente que mais amava: os campos.
Que para minha alegria, era um ambiente que também me trazia paz, e me via vivendo em um sítio sem problemas... mas pensando assim, minha imaginação percorreu um caminho perigoso; me idealizei adulta casada com Marcos, vivendo em um pequeno sítio, cuidando de nossos animais e mini réplicas nossas, que corriam por toda parte.
O que era muita hipocrisia da minha mente, já que a umas duas semana havia discutido com Camila (minha melhor amiga de sempre) que esse tipo de pensamento romântico era estupido. Como acreditar em contos de fadas e Papai Noel.
Mas a verdade é que eu era uma romântica. Uma romântica incurável. Mas como a maioria das pessoas em minha época perdiam a fé no amor verdadeiro e incondicional, não acreditavam e mal queriam saber de finais felizes, até em filmes; eu acreditei – por um bom tempo – que deveria negar todo romantismo em mim, pois assim poderia ser unicamente realista.

Mas o que é a vida sem romantismo e a honesta demonstração dele? Só uma fria e miserável existência, não? Hoje me assumo como uma romântica, e nem por isso minha sensatez se desfaz.
Apenas encontro felicidade em cada dia, tendo uma visão mais contemplativa da vida. E antes de perder alguém ou algo, procuro dar o devido valor. Empenhando minha paixão com o conhecimento que nem sempre se tem o retorno que se espera. Procuro concentrar-me em manter minha consciência tranquila em saber que o que podia fazer... eu fiz.
E assim tenho seguido mais tranquila. Mas não aprendi a agir assim de uma hora para outra e contei com a especial ajuda de um rapaz extraordinário – mas isso já é um outro ponto que mais a frente contarei.
Quando estava imaginando como seriam nossos momentos como casal, percebi um rápido movimento invadir meu campo de visão e quando me concentrei, vi que Marcos estava acenando a fim de me acordar.
Fiquei constrangida e me recriminava por meus pensamentos tolos. Mas o sorriso gentil que ele me deu ameaçava fazer os sonhos voltarem. Então decidi perguntar mais sobre o que ele gostava e acabamos conversando ao ponto daquela tarde quente e ensolarada começar a mandar o sol para seu descanso.
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