Perdas e Ganhos: Como Noites de Verão
2 Como Âmbar.
Notas iniciais
Bem, por onde começo... penso em começar com um fundamento simples, relatando algumas das experiências pelas quais passei e que me deixaram: apreensiva, angustiada, ansiosa e sei lá o que mais... com um aperto no coração e tremular no corpo... um redemoinho no estomago e um branco momentâneo na mente. Sim... quero contar sobre o momento da minha primeira paixão. Não a paixonite de escola ou admiração por alguém que é como um herói a olhos infantis. Não. Mas tudo o que esteve em torno dessa paixão que se tornou um amor profundamente enraizado em mim e que mudou minha perspectiva da vida, me fazendo enxergar quem sou com honestidade. Fazendo-me adquirir uma visão mais contemplativa da vida, numa dedicação de me fazer feliz a cada dia e beneficiar todos ao meu redor com essa felicidade. Pois não há como levar uma pessoa a ser feliz se a mesma não se empenhar nisso. Tudo é parte de nossas escolhas e em como lidamos com suas consequências. Aquela velha filosofia do que fazer com os limões que a vida te dá e como ver o copo: cheio ou vazio?
Além da paixão, os amores que vim a conhecer por esta experiência. Eles modificaram-me, moldaram-me, me fizeram mergulhar nas minhas profundezas e encarar meu verdadeiro eu. Não foi um mero rapaz que com suas doces palavras me ajudou, mas todos aqueles que se ligaram a mim ou aprofundaram as ligações já existentes, por causa dele. Todos aqueles que me fizeram entender que o esforço é a roda motriz da vida. E que tudo adquirido com muita dedicação sempre traz uma recompensa muito maior do que o esperado. A recompensa é sempre o próprio amadurecer.
E embora eu fosse já maior de idade, não havia experimentado nada além do platônico. Sem contar que quando era criança e via meus pais se beijarem, eu dizia “Eca”, alegando que era muito nojento e não queria nada como aquilo. Até a questão física era estranha para mim. Meus pais riam e minha mãe dizia que eu ainda não podia compreender a sensação das carícias para demonstrar afeto a alguém especial, por ser muito nova.
Pois é... minha mãe era assim, explicava tudo dessa forma esquisita, mas confesso que gostava. Ela era bem direta e procurara sempre ser honesta conosco, respeitando nossas idades. Percebia isso quando a via explicando coisas escabrosas da realidade para meu irmãozinho. A maioria dos adultos inventa tanta asneira para falar sobre bebês, sexo, drogas, política, corrupção e etc. Ela explicava tudo de uma maneira bem simples, mesmo que inusitada. E se ele fizesse alguma pergunta de questões mais profundas cuja explicação necessária fosse mais complexa, ela dizia que quando percebesse que ele amadureceu o suficiente para receber a resposta; responderia prontamente. E ela, nenhuma vez, saiu desta regra.
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Para um exemplo escabroso:
Um dia me assustou perguntando se eu ainda tinha dúvidas sobre sexo, eu fiquei boquiaberta e falei assustada:
– Q-Quê? Como assim mãe?
Ela percebeu meu espanto e comentou com uma calma sonolenta:
– Ora, Taís... – ela riu baixinho – você me perguntou isso quando tinha uns onze anos... eu devo ter ficado com essa mesma cara que você – ela sorriu carinhosa para mim, mas minha vergonha me mantinha vermelha e as palavras não saiam.
– Fique tranquila, filha... – ela continuou – se você não quer falar agora tudo bem... mas gostaria que você tirasse suas dúvidas comigo antes de aprender em sites impróprios ou com colegas com muita experiência na vida, mas, talvez, pouca sensatez...
Eu fiquei um pouco chateada por ela pensar que eu poderia querer entrar em sites por... bem... sites impróprios ou conversar com qualquer outra pessoa sobre isso (na época nunca achei que poderia a vir a ter uma conversa tão honesta com outrem que não ela ou meu pai – eu tinha apenas quatorze anos).
Sem contar que das minhas amigas na época (que eram apenas umas três), só Helena tinha um namorado, e mesmo assim, eles só andavam de mãos dadas. Nós éramos todas muito tímidas e talvez por isso nos dávamos tão bem.
Bem... para encurtar, a curiosidade me bateu a porta e eu abri... Sem jeito pedi que minha mãe me contasse tudo sobre o assunto, fiquei chocada, envergonhada, enojada em alguns momentos, mesmo minha mãe romantizando e dando eufemismos. Só pensar num homem se aproximando da minha “feminilidade”, naquele tempo, me dava mal estar.
Ela me explicou tudo, me disse que se não há amor de ambas as partes eu não me sentiria segura e poderia ser ruim por mais que o rapaz soubesse o que fazer e que mesmo usando álcool ou drogas para relaxar, eu poderia me sentir muito mal no outro dia, com receio e insegura. Talvez até magoada. Ela me disse tantas coisas e me fez lembrar que o melhor era esperar por alguém com quem eu tivesse cumplicidade e intimidade. Alguém que me conhecesse bem para não ferir, não só o meu corpo, mas minha mente também. Alguém que respeitasse meus nãos e não me pressionasse. Para que fosse uma troca agradável para os dois; não apenas a satisfação de um. Mas mal eu sabia que não seria assim tão simples de guardar estes preciosos conselhos.
Então ela falou muito mais, mas não dá para por tudo aqui... Senão não acabo mais.
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Bem... vou começar com a história dos meus “suplícios” aos dezoito anos. Para isso tenho que falar sobre o aniversário do chefe do meu pai. Meu pai já trabalhava em um alto cargo de uma empresa com serviços logísticos. Ele era o diretor de três departamentos – não imaginam o orgulho da família quando nos levou para ver sua sala nova e na placa estava escrito: Diretor de Finanças Dr. Fernando Amarillo da Costa.
Retomando ao acontecimento... nós tivemos de ir a um sítio que ficava no mesmo bairro onde eu morava, umas três quadras da minha casa , perto da instituição onde aprendia flauta. Fomos para um churrasco em uma das muitas chácaras imensas do local. Estou exagerando um pouquinho, eram apenas quatro chácaras, mas muito grandes. Uma parecia um celeiro reformado e o dono disse ao meu pai que faziam casamentos ali, e realmente era um lugar lindo para isso.

Sem querer perder muito tempo com pormenores, tenho de dizer que o interior foi reformado para ter uma área para os banheiros, uma para a cozinha; as lâmpadas eram lindas, de metal e vidro num estilo requintado bem “vintage”, toda a madeira e alvenaria do local eram muito bem cuidadas, sem perder sua aparência rústica. Havia um local, muito a frente, para um altar com um arco feito de galhos esculpidos (uma beleza de se ver) e uma espécie de sacada num segundo andar aberto para o primeiro. Foi aumentado, para que as pessoas pudessem circular com tranquilidade, enquanto observavam de cima todo o salão.

Depois que passamos pela primeira casa (que funcionava como recepção e pousada do local), passado também o celeiro que já descrevi; fomos encaminhados para uma chácara charmosa ao fundo, que não era nem a última. Ainda havia uma mais distante, depois do grande lago da propriedade. Podíamos sentir o cheiro de churrasco de longe, e mal entramos já havia uma grande massa de pessoas – conversando, dançando, bebendo, comendo – como foliões no carnaval... só um pouco mais contidos.
Viemos na hora quente da festa, porque tivemos de esperar mamãe sair do trabalho para irmos todos juntos, e até ela se arrumar... bem... ela era uma ótima mãe... mas também bem demorada em se "aprontar"... talvez por isso acordasse tão cedo. Papai ficava bravo no começo, mas quando ela descia linda e glamourosa, toda perfumada e deslumbrante em seus vestidos delicados, papai só suspirava e dizia:
– Meu Deus, amor! Você fica cada dia mais linda! – eles eram dois românticos bobos, mas eu amava isso neles.
No entanto, mais tarde soube que não estávamos tão atrasados assim, muitos dos presentes da festa eram familiares do patrão de meu pai e ficariam uma semana no sítio, por isso o local já estava tão lotado. Pois Seu Horário, o chefe do meu pai, decidiu utilizar o feriado para comemorar seu aniversário e estender alguns dias de folga, querendo aproveitar o tempo com a família e alguns amigos íntimos. Que pela quantidade, parecia-me uma centena, um batalhão de pessoas. Devo ter contado mais de trezentas cabeças naquela festa, sem somar as crianças, que corriam tanto que não tinha como contar.
Conforme caminhávamos, passando entre a 'multidão', um ou outro colega do meu pai parava para cumprimenta-lo, apresentava mais alguém e daí... Tristemente... Nós eramos apresentados. Eu fui abraçada, beliscada, recebi vários elogios de:
– Awn! Que menina mais linda a sua filha, Muhammad! (chamavam meu pai assim, porque ele tem uma barba densa e traços árabes)
– Eh! Ela parece uma bonequinha, neste vestido...
Esse "elogio" é consequência da boa costura de minha mãe. Ela faz vestidos muito bonitos, mas confesso que alguns são delicados demais, apesar de serem bem discretos e com pouquíssimos “frufrus”. Mas o vestido não era o única característica que chamava a atenção...
– E que olhos lindos ela tem... São azuis ou verdes?
Um homem gordo de cavanhaque, perguntou ao meu pai, me fitando com uma cara muito maliciosa, olhando entre mim e minha mãe... muito desagradável.
Depois de cumprimentar todos os adultos, minha mãe me falou para me comunicar com “pessoas da minha idade”. O que muitas vezes era uma complicação, já que mesmo sendo maior de idade eu ainda tinha a aparência de uma adolescente de quatorze anos, e quando tinha quatorze parecia uma criança. E não ajudava saber que minha mãe achava necessário me pressionar a fazer amigos para não me ver solitária. Eu mal conseguia trocar duas ou três palavras, até aquele dia eu ainda era muito tímida. Tinha mesmo facilidade em falar com crianças, o que me atribuía uma característica ainda mais infantil.
Afinal, eu tinha a estatura mediana da maioria das brasileiras, mas era muito magrinha, sem grandes atributos femininos (era o que eu pensava do meu corpo na época — com exceção do meu quadril que estava aumentando e me dava vergonha de usar legging). Também tinha olhos grandes e redondos, e uma boca pequena... E por todas estas características, muitos não só me tratavam como uma adolescente, como também – como no caso de festas como essas, onde vou de vestido – uma boneca.
E o pior é que como era muito tímida, às vezes não conseguia dizer não... Um mal habito que me colocava em algumas “furadas”. E naquele ano decide que enfrentaria o que fosse, mas me faria respeitar. Até tinha treinado como negar convites, em frente ao espelho.
Mas... Mesmo contrariada e depois de ponderar em meus pensamentos tudo o que relatei acima, constatei que a melhor maneira de atingir meu objetivo de me fazer respeitar seria seguindo o conselho (ordem) de minha mãe e fui em direção à mesa dos jovens. Cada passo que dava minha mente queria fazer o corpo voltar, quanto mais me aproximava, percebia que eles pareciam mais velhos do que eu. Estava a ponto de desistir e retornar. Fiz um movimento de meia volta quando me choquei com algo muito duro. Quase cai; mas dois braços monstruosos me seguraram firme no lugar.
Sentindo-me mais estável e menos assustada, analisei as mãos em meus ombros: grossas e grandes; mãos de homem. Resolvi erguer a cabeça para encontrar com a figura que me segurava e foi então... que o vi... O rapaz mais lindo e intimidante que meus sonhos e pesadelos poderiam me trazer... Ele era muito alto, com certeza muito mais alto que meu pai, e embora não parecesse muito mais velho do que eu, eu comecei a imaginar que mesmo que ele tivesse uns trinta anos, ainda teria os mesmos traços, sem envelhecer um dia sequer.
Ele abaixou um pouco a cabeça, segurando meus ombros e me perguntou:
– Tudo bem, menina? Eu te machuquei?
Meu Deus, me leva! Foi tudo o que pude pensar. Ele tinha uma voz forte – jovial e animada – mas grave, como a voz de um homem deve ser (embora minhas referências sejam a voz do meu pai e de alguns dubladores e artistas de filmes e série).
Eu comecei a notar e gravar os detalhes dele, como se o desenhando em minha mente. Seus cabelos escuros como a noite, compridos até os ombros, o nariz pontudo e grosso, mas refinado como o de um inglês; os olhos amarelados pela luz do dia – provavelmente, eram de um castanho bem claro que tende ao bege e amarelo, como âmbar – a boca larga e fina, e uma mandíbula forte como de um bárbaro. Seus traços eram parecidos com o novo superman, Henry Cavill.

Demorei tanto em minha observação que esferas de mel me fitavam transmitindo preocupação.
– Eu te machuquei? – eu balancei a cabeça em negação – Você é muda? – ele falou com tamanha gentileza, que não teve nenhum tom de ofensa, apenas dúvida.
– N-n-não... – acabei gaguejando, tão pateticamente – Des-s-culpe... você me assustou!
Quando finalmente firmei a voz ela não passava de um sussurro. No entanto, ele estava perto o suficiente e ouviu. Abriu um sorriso envergonhado, com um olhar de estar sem graça.
– Me desculpe... realmente foi um choque e tanto.
Ele deu uma risada tão grossa que parecia um ronco grave, me deu vontade de rir. Eu devo ter expressado minha diversão, porque ele logo sorriu. E que sorriso lindo ele tinha, charmoso, abrindo pequenos parênteses em suas bochechas. Pude perceber seus dentes amarelados, mas lindos... cada um em seu lugar.
– Você é tão pequena que eu quase te fiz voar...
Ele riu um pouquinho, enquanto me olhava dos pés a cabeça, e riu mais ainda quando eu senti minhas bochechas queimando.
Oh, não! Mal conheço alguém... a primeira vez que acho um rapaz realmente bonito... e já fico corada, com uma simples frase. Era o redemoinho de meus pensamentos. Ele percebeu minha vergonha e foi tão gentil, que a sensação “encontrei meu príncipe encantado”, não saia da minha mente. Tive que lançar um batalhão de argumentos realistas para coibir qualquer ilusão, mas, com ele, estava se provando uma tarefa difícil.
Ele estendeu a mão e apontou para mesa do “buffet” caseiro.
– Que tal comermos alguma coisa? Aposto que vai fazer você se sentir melhor.
Eu lhe entreguei a minha mão, torcendo para não suar. Mas assim que senti o contato com sua pele, percebi os calos e cortes em suas mãos, grossas e ásperas. Com certeza ele trabalhava muito com elas, e até chegarmos à mesa eu fiquei imaginando qual seria seu ofício. Ele também era muito quente... digo pelo calor de suas mãos e o que eu sentia toda vez que o corpo dele se aproximava do meu, quando nos espremíamos entre as pessoas amontoadas no salão. Era tão reconfortante, senti um desejo estranho que ele me abraça-se, mas consegui reprimi imediatamente.
– Você é bem calada, menina. – disse me analisando de novo, o que me fez corar – Tem certeza que não é muda?! – ele riu levemente, me olhando divertido e curioso.
– Não! – falei em sussurros, totalmente envergonhada – Não... só falo pouco mesmo.
– Ora, não fique assim... – ele colocou a mão na minha cabeça como se eu fosse uma criança e me deu um leve cafune, o que me irritou um pouco – Ninguém gosta de tagarelas... – e me deu um sorriso amigável que me aqueceu o coração.
– Mas... Qual o seu nome? Sabe...
Ele sentou na cadeira de plástico branca em uma das mesas vazias perto do “buffet” e me fitou intrigado.
– ...não posso ficar te chamando sempre de menina, não é mesmo?!
Ele era simpático e natural, estava se mostrando agradável conversar com ele. Embora, na época, me senti ofendida por ele pensar em mim como uma criancinha.
– Desculpe, eu não me apresentei...
Neste momento, as borboletas na minha barriga deram uma volta com meu nervosismo e timidez e trouxeram a loucura da postura das “ladys” dos filmes épicos, que eu amo, para os meus modos. Sem tomar total consciência das palavras despejadas por minha mente em turbulência, respondi com uma leve reverência de cabeça.
– Me chamam Taís, meu senhor!
Assim que as palavras saíram, minha expressão caiu em vergonha e desespero. Me senti muito idiota por falar de forma tão erudita e obsoleta... e ali me decidi a diminuir a quantidade de filmes de época que assistia.
Ele ficou alguns segundos me fitando meio assustado, depois intrigado, para finalmente cair numa gargalhada rouca escandalosa, que como consequência aprofundou o tom de vermelho em meu rosto. Sentia-me fervendo de vergonha.
– Não me apresen... me chamam... meu...sen... – ele ria ainda mais e eu me encolhia querendo ser engolida pela terra.
Olhava para os lados com vergonha de que alguém visse a situação e se juntasse a ele para rir de mim. No entanto, meus pais e irmão estavam longe de vista. As pessoas próximas estavam ensurdecidas pela música alta e conversas gritadas... apenas eu, provavelmente, podia escutar sua risada completamente. Para os outros não deveria passar de um toque de sino.
Ainda assim, fiquei tão envergonhada... e estava pronta para sair de perto dele antes que começasse a caçoar de mim. Comecei a me virar e levei outro susto quando seu aperto firme me segurou pelo pulso.
– Calma... calma... meni... Taís! – ele parava de rir lentamente e começava a falar com muita amabilidade – Desculpe! Não fique magoada! Eu só ri por que...
Ele ficou mais sério e trouxe o braço livre a nuca, coçando com exasperação.
– Pra dizer a verdade... eu ri porque nunca ouvi ninguém falar assim antes. Sério mesmo! Ninguém!
– Não tem problema... tudo bem... eu sei que é paté... – eu comecei sem jeito soltando minhas desculpas.
Antes que eu pudesse concluir, ele abriu seu sorriso maravilhoso novamente e me disse com olhos vibrantes.
– Eu gosto! Gosto como fala! – eu devo ter ficado vermelha de novo, porque ele riu divertido.
Voltou a me fitar e disse com carinho.
– Você parece de outra época... como uma princesinha perdida.
Me olhou inteira e agitou a cabeça como se quisesse afastar o que acabará de pensar. Depois se levantou, abriu um meio sorriso sincero.
– Vem! Vamos pegar alguma coisa pra comer antes que acabe tudo. – e terminou com uma risada abafada.
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