Perdas E Danos
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Expiação
Kanon tinha decidido encarar o irmão.
Doía só de pensar em ver seu irmão de novo. As memórias do que acontecera lhe assombravam desde que acordou naquele hospital.
Mas precisava vê-lo. Apesar de tudo, o amava. Muito. Não foi culpa dele... Fora Ares. O demônio que tomava o corpo de seu irmão. Mas seu subconsciente não queria colaborar.
Achava que Saga estaria com vergonha, triste, devastado como ele. Talvez por isso ele não o fora ver no hospital, ou depois, em seu retorno. Porém eventualmente teriam que se encontrar.
Mas não. Saga era um assunto tabu. E não estava em lugar nenhum.
O que estava acontecendo?
Passara a noite em claro na casa de Gêmeos. E muito cedo resolveu acordar Ikki, que depois de muita insistência lhe dissera que Saga estava na enfermaria, cuidado por Shion. Mas Ikki não lhe dizia mais nada... Assim como ninguém mais.
O sonho, ou delírio, enfim, aquilo que teve com Atena martelava em sua cabeça.
Sem você não consigo salvá-lo, Kanon... E ele está se perdendo...
***
“Oh, não...”
A voz de Shura ecoava pela enfermaria, logo pela manhã. Saga tinha sumido. Shaka e Mu tentavam localizá-lo, mas não havia como. Seu cosmo não se manifestava, fora isolado de si pela técnica de Shion.
Procuravam, desesperados, e nada. Saga não deixara pistas.
Shion foi até lá, temendo o pior. E nem ele conseguia encontrar Saga.
Procuravam como loucos por ele. Tinham medo do que ele, no seu estado mental corrente, poderia fazer. Temores plenamente justificados, aliás.
Foram interrompidos por Kanon, que entrava na enfermaria. Foi com um fio de voz que perguntou.
“Shion... Onde está Saga?”
Shion e Shura olhavam para ele, sem saber o que dizer.
Kanon sentiu um arrepio na espinha. Repetiu a pergunta.
“Onde está Saga?”
“Ele sumiu.”
Kanon olhou o quarto onde disseram que seu irmão estava. Um quarto com a cama presa ao chão, sem móveis, as paredes acolchoadas. E uma camisa de força na beira da cama.
Fechou os olhos. Entendeu o que Ares fizera...
O atacara, para tirar de Saga não apenas sua ilusão de amor fraternal, mas sua sanidade.
Saga enlouquecera.
Sentou-se na cama, com muito esforço conseguia segurar as lágrimas. Mas tremia a despeito de seu autocontrole.
“Kanon, calma, vamos encontrá-lo e...”
Levantou-se. Sabia onde ele estava. Mas...
“Quanto tempo tem que ele fugiu?”
“Não sabemos, mas provavelmente foi na madrugada...”
Kanon saiu dali em disparada, com Shura em seu encalço. Ainda não estava plenamente recuperado, seu corpo reclamava do esforço que teria de fazer, mas ele não se importava.
Corria e corria, até chegar em seu destino. A prisão do Cabo Sunion, já quase submersa pela maré especialmente revolta. Lançou-se na água e nadou com dificuldade até a prisão.
Ele estava lá.
“Saga!”
Olhou para Shura, que já corria desembestado em busca de Atena Tinham que abrir a cela, ou Saga morreria afogado.
Assustou-se quando pôs os olhos no irmão. Sabia que ele próprio estava magro pelos dias de hospital, mas Saga era uma mera sombra de si. Não respondia, não se mexia, quase submerso pela água.
“Saga!!!”
Saga não o olhava nos olhos.
“Vá, Kanon... Me deixe...”
“O diabo que vou!!! Onde está a chave?”
“Não tem mais chave. Vá...”
Kanon tentou segurá-lo, mas Saga afastou-se, indo mais adentro da prisão.
Sabia que não o tiraria dali sozinho, precisava ganhar tempo. Respirou fundo e tentou se acalmar.
“Saga, se ficar aí vai morrer. Venha para cá, que é mais alto. Agora.”
“Eu não quero.”
“Quer morrer, é? Desistir de tudo e morrer, é isso? Dar de bandeja para aquele filho da puta o que ele mais queria?” — Kanon gritava, seu autocontrole feito em pedaços. Desesperou-se.-“Saga, volte aqui!”
Saga baixou a cabeça, as ondas dentro da cela já o puxavam para o fundo.
“Volta aqui, Saga! Apesar de tudo o que aconteceu, de toda a dor, da vergonha, da raiva, eu estou aqui... E ninguém gostaria tanto de ter morrido quanto eu, te garanto! Eu estava morrendo, eu cheguei a ver a morte... E voltei por sua causa! EU VOLTEI POR VOCÊ, SEU IMBECIL!”
“Você não entende, Kanon... Não me faça dizer...”
“Dizer o quê, seu estúpido, que me ama? Que me deseja? Que me queria como se quer a um homem? Ora vamos, você acha que ele perderia a oportunidade de esfregar isso na minha cara?”
“Então não vê...”- Saga chorava, enquanto se encolhia ainda mais, quase sumindo em meio às águas. -“Não vê porque tenho que morrer?”
“E eu?”- Kanon gritava entre os dentes.- “Acha que eu estou aqui por quê? Porque te perdoo, e estou disposto a esquecer tudo por amor de irmão? Eu amo você, sempre amei, mais do que você me ama, desejei você mais do que você me deseja, até quando eu tentei te odiar pelo que me fez eu te amava! Se planejei tudo aquilo pelo que você me prendeu aqui é porque morria de medo de te perder, de me separarem de você... Nunca fui capaz de admitir isso nem para mim mesmo, tamanha a vergonha, mas era assim, não me adianta mais negar... Que os deuses me perdoem, mas sou tão culpado disso quanto você!!!”
Saga afundava com a força das águas, que o puxavam para o fundo. A essa altura, Kanon já se agarrava nos barrotes para evitar que a força da maré o tirasse dali.
“Não, Kanon... Isso é errado, eu sou errado, veja o que aconteceu com você, o que eu te fiz... Eu não consigo, não consigo...”
“SAGA!”
“Me deixa! Me deixa ir! EU NÃO CONSIGO VIVER COM ISSO!”
“Se eu tenho que conseguir, você vai ter que conseguir também! NÃO OUSE me deixar aqui sozinho, está me entendendo?”
Sentiram ambos um cosmo vibrar ao redor da prisão, e os barrotes onde Kanon se segurava desapareceram.
Atena..
Saga já estava sendo puxado para o fundo da prisão pela maré, e a correnteza estava forte demais para ambos. Ainda assim, Kanon conseguiu entrar e segurar-se no irmão como quem se segura a um bote salva-vidas. O cosmo o envolveu, e deu-lhe forças para nadar para fora da prisão levando Saga consigo.
Kanon chegou, ainda assim com dificuldade, à beira da praia, junto com um Saga semiconsciente Estava tão cansado... fisicamente e emocionalmente. Seu corpo estava dolorido, ainda não recuperado de tudo. Mas Saga estava a salvo.
Permaneceu ali, resfolegando junto a seu irmão, até que outros cavaleiros chegaram e os ajudaram a voltar ao santuário.
***
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