Perdão, Leonard Peacock - Epílogo
1 Trinta e nove - Epílogo
Notas iniciais

TRINTA E NOVE
Não, eu não tentei me matar de novo depois daquele dia no lago, onde dei o chapéu de Bogart para Walt, tentei dar um cheque a Baback para a Verdadeira Democracia do Irã, beijei Lauren, não consegui tirar a vida de Asher Beal, Herr Silverman me contou sobre suas tatuagens nos braços e Linda me deixou comer as panquecas de banana com gotas de chocolate sozinho.
É, resumindo as coisas, tudo isso aconteceu naquele dia.
Meu aniversário de 18 anos.
O que seria para ser também meu aniversário de morte.
Mas não foi.
Não sei se isso foi uma coisa boa. Não sei se o fato de eu continuar vivo contribuiu alguma coisa para a humanidade. Realmente não sei. Mas depois daquilo, as pessoas diriam que a minha vida melhorou.
Terminei meu último ano do colégio em grande estilo. Tirei as maiores notas da turma, superando nossa oradora oficial Trish MacArthur. Seus peitos grandes e seus métodos de sedução não foram suficientes para que melhorarem as notas dela a ponto de me superar. Foi maravilhosamente bom olhar a cara de idiota que ela ficou quando anunciaram o quadro de notas.
Herr Silverman, nosso professor do Holocausto, me enviou uma carta de recomendação para a faculdade, e por mais impossível que pareça, Srta. Giavotella, responsável pelo inglês avançado, também me escreveu uma carta de recomendação. Tenho quase certeza que teve alguma influência de Herr Silverman, mas deixei passar. Afinal, eu estava indo para a faculdade. Uma coisa que eu não esperava conseguir. Uma coisa que eu achava que nunca iria acontecer. Pelo simples fato de eu achar que me mataria antes de terminar aquele ano.
Linda não se deu ao trabalho de aparecer na minha formatura, pois ela preferiu transar com Jean-Luc mais uma vez do que presenciar um fato importante da vida de seu filho. Linda não foi, mas Walt sim. Ele resmungou a apresentação inteira, reclamando que o diretor não parava de falar, e que ele queria me abraçar logo. Eu não achei que Walt conseguiria vir, já que ele não faz muita coisa além de fumar, beber, ver filmes do Bogart e ir ao banheiro (ainda tenho dúvidas se ele realmente dorme).
Nunca mais falei com Lauren. Eu a vi o resto do ano, ainda vagando pela estação e entregando folhetos, falando “Jesus te ama”, para todos. Mas não troquei mais nenhuma palavra com ela. Tentei algumas vezes, mas Lauren sempre dava um jeito de se distanciar de mim. Mas, certa vez, vi que o pingente que dei para ela estava em seu pescoço. Isso me deixou feliz, de certa forma. Não da maneira como eu deveria ficar, pois eu disse que a amava. Mas isso era mentira. Eu acho que só me deslumbrei com o fato de uma garota bonita como ela se dar ao trabalho de falar comigo, mesmo que o assunto base sempre fosse Deus.
Não fui mais ao auditório, escutar Baback tocar. Sei que ele continuava usando aquele espaço para treinar, porque o vi entrando algumas vezes. Mas depois daquela cena caótica onde eu percebi que tentar socializar com alguém da sua idade nunca vai sair exatamente da maneira como você quer, desisti de tentar amizade com ele.
Asher Beal continuou sendo o mesmo superidiota que sempre foi. Mas depois do meu quase suicídio, notei que ele andava hesitante. Parecia que olhava para todo mundo desconfiado, como se esperasse alguma coisa. Claro, pensei, ele deve estar esperando por uma chantagem pela foto dele se masturbando. Mas para o meu desagrado, a foto foi simplesmente resumida eu um borrão branco, resultado do reflexo do flash na janela. Uma pena.
Pois então, vou cursar biologia marinha, para que, se algum dia um holocausto nuclear acontecer, e as calotas polares derretessem, submergindo um terço do planeta, eu poderia fazer amizade com um golfinho, e ele seria o melhor amigo da minha filha.
Há.
Quem eu quero enganar?
Qual a probabilidade de uma merda dessas acontecer?
Qual seriam as chances de uma
mulher se apaixonar por mim?
Qual a
oportunidade me
será dada para eu me
tornar alguém importante?
Ignorando esses fatos, eu estou pisando no gramado verde da universidade onde vou passar meus 4 anos de estudo. De certa forma, tenho que agradecer a Baback por não aceitar o cheque que eu iria dar para ele. Agora, pelo menos, o meu fundo para a faculdade vai ser usado do modo correto: para a faculdade, o motivo de ter sido criado.
Estou me sentindo estranho. Aperto as alças da minha mochila que repousa nas minhas costas. Solto o ar pelo nariz, de forma forte. Ando alguns metros, até ficar mais próximo da entrada do prédio. Olho para o lado, e vejo uma garota.
Ela está sentada em um banco.
Seus cabelos negros ondulados
descem até sua cintura.Os dedos
finos passam pela borda do livro que
está sobre suas coxas descobertas.
Ela lê Hamlet com os olhos de
quem já explorou aquelas mesmas
páginas uma dúzia de vezes.
Seus olhos maquiados com rímel e
lápis preto marcam bem seus traços,
deixando um ar de mistério pousar
sobre aquela figura bela que aprecia
uma boa leitura. Os lábios rosados
estão entreabertos, delegando sua concentração.
Fico ali, parado, observando-a. Me sinto um completo idiota por ficar encarando uma agarota dessa forma, pois isso parece meio tarado da minha parte. Mas não consigo evitar. Há algo nela que me prende a visão.
De repente, um garoto alto, muito alto, passa por mim, topando no meu ombro. Ele vira a cabeça por um breve instante, para me olhar. Sorri. Um superidiota. Tenho que me acostumar com fato de que superidiotas existem em todos os locais. Ele anda até a garota que está sentada no banco lendo, e para a sua frente, sorrindo debochado.
Fala alguma coisa, mantendo aquele ar de superioridade. Ela para de ler e ergue a cabeça, não muito satisfeita com a presença dele. Vi seus dedos pressionarem a borda do livro. O garoto coloca as mãos para dentro do bolso do moletom e parece futricar ali. Diz mais alguma coisa, e retira a mão do bolso.
Ele segura um pênis de borracha e aponta para a garota, que mostra repugnar aquela atitude supérflua.
O garoto começa a rir muito, soltando gargalhadas no ar, chegando até a se contorcer. “Nossa, você tinha que ver a sua cara!” ele grita em meio as risadas. A garota parece constrangida com aquilo, o que não é de menos. De súbito, ele parou de rir, e tomou o livro das mãos dela, que se levantou no mesmo instante.
— Me devolva! — grita.
— Ah, por quê? Esse livrinho é tão importante assim? Que pena! — ele abre o livro, segurando cada lado com uma das mãos.
E o rasga ao meio.
A garota arregala os olhos, levando uma das mãos a boca. Ele ri mais uma vez, e balança as partes que segurava em cada uma das mãos deixando algumas páginas caírem. Ela dá alguns paços apara trás, encarando o estrago. O garoto não retira os olhos dela, e de repente agarra seu braço, puxando-a para perto. Ela se debate, tentando se livrar.
É como Bogart diria.
“Nunca resista a um impulso, Sabrina, especialmente se ele for terrível”
— EI! SOLTA ELA!
No mesmo segundo, o garoto me encarou.
Eu havia andado até mais perto dos dois, e gritado feito um aloprado — basicamente — no ouvido dele.
Minhas pernas começam a tremer, e eu suo frio. Minha barriga embola, e engulo em seco. Aquele cara pode muito bem me dar uma surra sem o mínimo esforço.
Mas as palavras simplesmente saíram da minha boca, eu não consegui evitar.
Traído pelo próprio corpo. Lindo, Leonard.
A garota me encara com uma expressão preocupada e surpresa ao mesmo tempo, enquanto o cara à solta rudemente, e ela quase cai.
Ele inicia uma caminhada até mim, batendo os pés com força no chão.
— O que merda você disse?
Não respondo.
Ele ergue a sobrancelha.
— Não sabe falar?
Não respondo.
Ele perde a paciência.
— Diz, porra!
Não respondo.
Agora, ele perde a cabeça.
A única coisa que dá tempo de ver é o punho dele vindo em direção a minha cara.
Caio no chão, ralando a mão que usei de apoio. Sinto minha boca arder, e algo líquido e quente escorrer pelo meu lábio inferior. Levo a mão ao local, e ela fica vermelha.
— Otário.
Ele dá as costas e sai andando, como se nada tivesse acontecido. A garota corre até mim, se ajoelhando na minha frente, preocupada. Encara o meu rosto, que provavelmente está avermelhado e arroxeado pelo soco. Ela morde os lábios, e move a mão até seu bolso, e tira dali um paninho branco, com algo bordado em azul na ponta, mas não consigo ler.
— Você é maluco garoto? Você acabou de se meter com o cara mais idiota e violento dessa universidade, é loucura! — Fala, encostando o tecido no meu rosto. Eu esperava que ela dissesse qualquer coisa, menos isso. Soou mal-agradecida. Ergo uma sobrancelha, insatisfeito. Ela me encara, e depois bufa. — Quer dizer... desculpa. Te devo um agradecimento. — Olha para o chão, mas logo me encara novamente — Obrigado. Obrigado por intervir.
Ela me olha bem nos olhos, e só aí noto que suas orbes são em um tom esverdeado, que eu nunca tinha visto antes.
Lauren poderia ser bonita com seus cabelos loiros e sua cara de Lauren Bacall. Mas aquela garota era linda. Muito linda. Não era nenhuma beleza natural, como Lauren, era surreal. Os traços finos do seu rosto lembravam algo doce, puro, mas ao mesmo tempo perigoso, misterioso. Magnifica.
— E-Eh... v-você está bem? — suas bochechas estavam levemente avermelhadas, e ela parecia envergonhada. Eu provavelmente estava fazendo uma careta estranha ao encara-la.
Apenas nego com a cabeça, desviando o olhar.
— Quer ajuda para se levantar?
Nego novamente.
A encaro por um tempo, até me levantar sozinho e começar a catar as folhas espalhadas pelo chão. Ela me acompanha, parecendo hesitante.
Terminamos de juntar todas as folhas, ainda agachados no chão, e a garota olha para uma das partes da capa, acariciando com as pontas dos dedos, delicada. Perece triste, o que é de se esperar. Fecha os olhos e os aperta, como se mandasse pensamentos ruins embora. Depois os abre, e fixa eles nos meus, que ainda a encaro, de modo constrangedor.
Ela fica sem graça, e desvia o olhar para outro local.
Então eu falo:
— Leonard. — a garota volta a me encarar — Leonard Peacock.
— Como?
— O meu nome.
— Ah... — coça a cabeça, parecendo nervosa. — É um nome muito bonito. Leonard Peacock.
Sinto as batidas do meu coração acelerarem.
— E o seu? — pergunto.
— Oi?
— Seu nome.
— Eh, não... não é um nome muito bonito.
— Como é? — insisto.
— April. — aperta as mãos sobre as coxas — April Thompson.
April
April
April
April.
A
— Falei que não era um nome muito bonito. — Diz, me olhando tímida.
— Não. Na verdade, é lindo.
Ela fica surpresa, e suas bochechas ficam mais vermelhas do que estavam antes.
Meu coração começa a me trair novamente, acelerando suas batidas. Mais uma vez, eu suava e tremia por dentro.
— Hamlet. — April me encara — Você gosta de Shakespeare.
— Ato I. Cena I. Esplanada do castelo de Elsinore. Francisco de sentinela. Bernardo entra. “Quem está aí?” — entoou perfeitamente, em um tom alegre, mostrando-me sua paixão pelo que lia.
— Não, responde-me: pare, e diga o nome. — falei, e ela me encarou surpresa. De repente sorriu.
— Vida longa ao rei! — continuou.
— Bernardo?
— Ele mesmo.
— Vindes exatamente na vossa hora.
Ela sorri mais uma vez, ainda com as bochechas roseadas. Morde os lábios, e parece não saber mais o que falar.
— Pena que aquele otário estragou o livro. — digo, quebrando o gelo.
— Eu tenho uma outra cópia. — a encarei, sem entender. — Basicamente, tenho dois exemplares dos livros mais importantes para mim. Acho que é um tipo de mania que que peguei do meu pai. Ele é militar, gosta de tudo organizado e se previne para tudo.
Meu peito pareceu, por um momento, uma escola de samba, ecoando batidas apreçadas e sem controle.
— S-Seu pai é militar? — acenou. — Então... você vai cortar o cabelo estilo “Joãozinho” algum dia? Tipo... militar?
April me encara, e logo depois ri.
— Não sei. Talvez, mas só se eu tiver vontade.
Sorri mais uma vez, achando a pergunta engraçada.
Já eu... bem, meu peito parece que vai explodir a qualquer momento.
— Você já assistiu algum filme do Bogie? — digo.
Ela me encara, provavelmente confusa pela mudança radical de assunto.
— Humphrey Bogart? O ator? Já ouvi falar. Nunca vi, mas até poderia. Você curte?
— A humanidade está sempre três uísques atrasada. — falo, citando Bogie. April me olha um tanto surpresa. — Eu gosto muito. Sou fã.
Mordo os lábios, inseguro se pergunto ou não o que me vem em mente. Aparentemente eu estou apenas puxando assunto, mas a próxima questão é um pouco pessoal.
— Posso perguntar uma coisa? — falo.
— Bem, já que estamos em um interrogatório... mande. — sorriu mais uma vez, parecendo mais iluminada do que nas outras vezes.
— Você... s-se... se você tivesse uma filha, qual seria o nome dela?
Ela me encara, desfazendo o sorriso, esboçando sua surpresa com a pergunta. Comecei a suar mais ainda. Achei por um segundo que a cena no café com aquela mulher iria se repetir, só que pior. Achei que ela me daria um tapa na cara e gritaria: Tarado!
Mas ela tomou seu sorriso de volta e respondeu:
— Seria Sophia.
Sophia
Sophia
Sophia
Sophia
S
Senti como se um soco fosse disparado na minha barriga, e quase tive uma crise de tosse, e eu garanto, seria histérica e demoraria para parar. Engoli a seco, e voltei a perguntar, com a voz tremula.
— Por quê?
— Hi. — soltou uma risadinha única, que foi extremamente fofa. — Pois há uma antiga crença cristã e judaica que dizia que Deus não possuía apenas uma face masculina. Ele teria também um lado feminino, ou uma “natureza materna”. Em grego essa palavra para o lado feminino de Deus é Sophia, que também significa sabedoria. — passa a língua sobre os lábios — Quando li isso, achei lindo. Além disso, gosto do modo como se pronuncia e como se escreve o nome Sophia (com “ph”).
Flash backs começaram a se passar pela minha cabeça.
— Você crê em Deus? — pergunto, mais uma vez inseguro com a resposta.
Riu, pela enésima vez, divertida. Parecia que ela estava gostando daquele jogo de perguntas.
— Depende. — arqueei a sobrancelha. — Para mim, o que comanda o universo são as forças maiores, leis que agem sobre tudo e sobre todos, absolutas. Se você considerar isso um Deus, ou vários Deuses, aí sim, eu acredito.
— Quer dizer que igrejas, nem pensar?
April balança a mão, como se afastasse a ideia.
— Não, não. Só em casamentos e olhe lá. — fecha os olhos e sorri.
Há muito tempo meu coração já batia descompassado, mas agora, vendo o seu sorriso mais uma vez, tendo diversas perguntas respondidas quase que de uma vez só, parecia que iria enfartar a qualquer momento. Mas eu não poderia me dar ao luxo de desperdiçar essa chance. Nunca. Jamais.
Então, pergunto:
— Posso leva-la para jantar algum dia?
Ela abre os olhos na hora, surpresa, mas desvia logo em seguida. Comprime os lábios, pensativa no que fazer. Suas maçãs do rosto estão vividas, em um tom de vermelho marcante, mas que a deixa mais bela que qualquer garota que já vi na minha vida inteira. Ela é, sem dúvida alguma, a mulher mais linda que qualquer ser existente nessa terra. O que só prova que eu me apaixonei no momento em que pus meus olhos nela, sentada naquele banco, lendo.
— Você gosta de café? — pergunta, sem me olhar nos olhos.
Aceno, mesmo não sabendo se ela vai ver, ou qual seria sua intenção.
Só que de repente ela mira em mim aquelas orbes esverdeadas pelo canto do olho, e indaga:
— Você se contentaria, por enquanto, me levando na cafeteria aqui perto?
É minha vez de ficar surpreso.
Mas não deixo com que isso me afete.
Então,
eu sorrio
e aceno para ela,
afirmando.
Minhas bochechas estão quentes, assim como o resto do meu corpo. Ela se levanta, arruma sua roupa amarrotada e estende a mão para mim. Eu a seguro, e sinto como elas são macias e delicadas, como ela em si. Finalmente devolvo as páginas soltas do livro, e ela as une, colocando entre as duas partes da capa.
April dá um paço em frente, andando.
Fico parado, olhando-a de costas, enquanto seus longos fios negros se movem com seus movimentos.
Eu posso ver, daqui a anos, em 2032, nós dois no topo daquele farol, ligando e desligando o feixe de luz. Posso nos ver sentados lá, trocando beijos a cada estrela cadente, e ela vencendo. Posso nos ver trocando beijos em outros diversos lugares. Posso ver eu e meu sogro comemorando sua gravidez. Posso ver a nossa reação ao ver Sophia pela primeira vez. Posso ver April segurando a mão de Sophia, enquanto ela tenta dar seu primeiro paço em minha direção. Posso nos ver brincando com Horácio, o golfinho. Posso nos ver brincando de Quem morou aqui? Posso ver eu e April arrumando tudo para comemorar o aniversário de Sophia.
Parece que eu te conheci antes, meu amor.
Parece que vamos ter mais tempo juntos.
Será?
De repente April para, já que percebe que eu não estou a seguindo. Ela me encara por poucos segundo, até estender a mão para mim e sorrir.
— Vamos, Leonard?
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