Percy Jackson e os Olimpianos A Vingança da Víbora
8 Planos de Viagem
Acordei algumas vezes naquela madrugada, eu jurava ter ouvido Annabeth dizer meu nome umas duas vezes. Eu sorri, então voltei a dormir. Quando acordei novamente, já era de manhã bem cedo.
O sol entrava pela porta de vidro da varanda, que haviamos deixado aberta. A luz matinal deixava o quarto ainda mais bonito, Annabeth ainda dormia, eu sorri. Levantei-me, arrumei os cabelos e escovei os dentes, depois fui até a varanda. Eu estava fascinado pela vistada da cidade. Um casal de idosos passeava na margem do Central Park, um cachorro corria na grama com uma coleira e a corrente balançando com seu movimento, um rapaz de cabelos louros corria atrás do cão, rindo. Uma menina de uns nove anos e sua mãe andavam em direção do Empire Building State, a menina puxava a saia lápis da mãe sempre que via algo legal.
– Bom dia. — disse Annabeth, assustando-me ao me tirar do transe de adimiração da paisagem. Ela já devia ter acordado há algum tempo, seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo, ela já havia trocado de roupa, um short jeans azul escuro e camiseta roxa e amarela dos Lakers e tênis All Star pretos. Eu sorri.
– Bom dia.
Ela veio para o meu lado, e observou a paisagem.
– É lindo. — ela suspirou.
– Sei que sou. — eu disse, sarcástico e ela me deu um tapa de leve na cabeça.
– Cabeça de Alga.
Eu sorri.
– E aí, Sabidinha, o que faremos agora?
– Hmmm... Devemos pegar a Ponte Manhattan ou ir pelo mar, acho que quanto mais tempo passarmos próximos ao litoral, melhor. Mas teremos que pegar o caminho mais curto possível, porque quanto mais demorarmos mais seremos atacados.
Foi só aí que me lembrei do sonho que tive antes de ontem. Contei a Annabeth.
– Calírroe é uma Oceânide, filha de Oceano.
– E você tem alguma ideia do que Anfitrite quis dizer com "prima"?
– Esse é o problema, tenho muitas ideias. As linhagens titãs são extremamente grandes, Nereu é filho de Ponto e Gaia, entao estes são avós de Anfitrite. Criasor se uniu a Calírroe e tiveram Geríon.
– O cara de três cabeças que vimos no Rancho Triplo G? — perguntei, pego de surpreso pela memória.
Annabeth assentiu e riu.
– Hoje essas memórias parecem até divertidas, mas na hora foi assustador.
– É verdade. Lembro de encharcar os estábulos com água salgada. — nós rimos.
– Eu me lembro de ficar com os pulsos e os tornozelos amarrados, amordaçada e assistir você brincando de arco e flecha com Geríon.
Rimos de novo, eu gostava dessas lembranças, na hora fora mesmo assustador, eu nunca fui bom em arco e flecha, mas daquela vez implorei por uma ajuda de Artémis e Apolo, e consegui perfurar os três troncos de Geríon, todos de uma vez.
– Vou trocar de roupa. — eu disse. Coloquei uma calça preta, camiseta do Nirvana e All Star pretos também. O anel de Atlântida ainda brilhava no meu dedo da mão esquerda. Sai do banheiro, Annabeth estava sentada na cama, usava o notebook que estava no hack.
– Percy, vamos ter que pegar um avião. Acho bom você entrar em um acordo com Zeus. — ela levantou os olhos do notebook — Está bonito.
– Você também. — eu sorri, mas depois meu sorriso se desfez — Hã... não acho que seja uma boa ideia, Zeus pode não ser nossa única ameaça.
– Você tem razão. — não me lembrava da última vez que Annabeth dissera isso — Se monstros nos atacarem dentro de um avião, qual é a chance de evitarmos uma queda? — ela perguntou, retórica.
Me sentei do seu lado, ela examinava o Google Maps, a distância de Nova York para Washington era gigante. Bufei.
– Isso vai ser mesmo complicado. É melhor partimos logo, e... leve o notebook.
Ela não se queixou.
Levantei e coloquei todas as minhas coisas de volta na mochila, então percebi a corrente de tridente na pia do banheiro. Coloquei em meu bolso da mochila.
Trancamos o apartamento, e descemos até o piso térreo. A mulher da recepção era diferente, seus olhos eram cor de âmbar, a pele morena clara e os cabelos marrom. Ela usava um óculos de armação verde, camiseta com a frase: "Dinossauros são legais." e era sorridente, parecia uma pessoa comum. Quando pegou a chave, fez uma expressão de reprovação, então Annabeth disse:
– O número 42 é um quarto legal, obrigada. — então eu entendi o que ela havia feito, na verdade, o número 420 era um quarto mágico, ou seja... não existia! Não precisamos utilizar névoa com a mulher, que só guardou a chave e continuou a sorrir.
Quando saímos, percebemos uma gritaria histérica na cafeteria do lado. Peguei contracorrente, mas não a destampei. Andamos furtivamente até a cafeteria Pígalle, então paralisei ao assistir a cena. Toalhas de mesa espalhadas nos cantos, copos, talheres e bancos derrubados, um garçom armado com uma bandeija, cozinheiros com colheres de pau e rolos de massa, pessoas gritando e saindo desesperadas do restaurante, e um pégaso preto roubando torrões de açúcar e outras comidas das mesas.
– Blackjack! — exclamei. Guardei a caneta no bolso e corri para dentro antes que tentassem ferir meu pégaso guloso. — Eh... podem guardar essas armas e voltar a seu trabalho, esse cavalo é meu! Todos começaram a murmurar nervosos e tentar me acertar com copos, colheres, eu e Annabeth montamos em Blackjack, que correu para fora da cafeteria e decolou.
– O que você estava pensando?
Oras, eu vim buscar vocês como prometido, então fiquei com fome, aqueles torrões de açúcar estavam muito bons, chefe! Você devia ter experimentado!
– Ah, Blackjack! Torrões de açúcar não vão me ajudar na missão, a névoa pode cobrir suas asas, mas não o fato de você ser um cavalo.
Ele ficou quieto. Quando estavamos num cruzamento para a rua 48 oeste, passavamos por um prédio vermelho, uma lanchonete: Brazil Grill. Comida brasileira.
– Pare aqui, Blackjack, precisamos comer alguma coisa.
A parte térrea do prédio tinha a cor tabaco, tendas verdes com bandeiras do Brasil pintadas pendiam na entrada, havia uma bandeira do Brasil pendurada na lateral do prédio, e a placa da lanchonete era nas cores branco, verde e amarelo. O interior era simples, da mesma cor de tabaco, com janelas redondas e grades brancas entrançadas. Havia um balcão de vidro e madeira no centro, e mesas e cadeiras espalhadas pelo salão.
Um rapaz de cabelos castanho-avermelhados, olhos azuis, magro, e, provavelmente, da mesma idade que nós veio nos atender. Colocou dois cardápios na mesa e disse.
– Quando estiverem decididos, podem me chamar, meu nome é Ryan, vou estar ali no balcão.
Dentro da lanchonete só havia um casal idoso, um garoto e uma mulher, Ryan e um velho com um avental, que deveria ser o dono do lugar. Dentro da cozinha deveria haver cozinheiros, é claro.
Arroz-de-carreteiro, salame de porco... tortas de maçã, feijoada, bolo de fubá... goiabada com queijo, pasteis, pão de queijo...
– Que tal bolo de fubá? — eu disse, indeciso.
– Pode ser — disse Annabeth. — Café para beber.
Chamamos Ryan e ele anotou o pedido.
Fiquei observando a rua pela janela, do outro lado havia um restaurante mexicano, Sombrero, uma floricultura Green Emporium e estudantes caminhando, adultos apressados, e um trânsito controlado. Lembrei-me da Goode High School, dois meses de uma vida quase normal, e aparece mais uma missão para salvar o mundo. Ótimo.
Espiei Annabeth pelo canto do olho, ela olhava para a rua também, e parecia pensativa. Blackjack nos esperava de pé na calçada, parecia interessado nas flores. É díficil viajar discretamente com um pégaso maluco.
Ryan chegou com nossos pedidos e nos desejou um: "Bom apetite.", disse ele, em português brasileiro. Sorrimos e agradecemos, comemos em silêncio, pagamos a conta e depois saímos. Montamos em Blackjack e continuamos a viagem, Blackjack teve que voar mais alto, de forma que não enroscasse as patas em copas de árvores ou fios de telefone.
Viramos na rua 47 oeste, eu observava as ruas passarem abaixo de nós. Passavamos por prédios de salões de beleza, bibliotecas, cafeterias, hoteis... Starbucks, Hell's Kitchen... Blackjack nos deixou no final da rua Canal, próximo ao Túnel Holland, tudo o que precisávamos era de uma carona em um veículo. Ficamos olhando em volta, tentando pensar em algo. Avistamos um táxi, e corremos feito loucos, quando uma mulher saía dele.
– Vamos para a Estação HBLR Harsimus Cove. — dissemos em uníssono.
O motorista deu a partida. A viagem iria custar caro, se não morressemos antes de ter que pagar. Annabeth tirou o notebook da mochila, tinha um programa de GPS instalado, ela analisava um caminho até Kansas, no centro do país.
Colocou o notebook de volta na mochila. Observavamos a cidade passar com impaciência. Entramos no túnel de Holland. Era dia 25 de Novembro, oito horas da manhã. Eu tentava prestar atenção a esses pequenos detalhes, porque raramente eu sabia dizer que dia ou que horas eram, eu tentava me acostumar com o cotidiano de pessoas normais, mas isso sempre foi extremamente complicado para mim. Chegamos a Estação de trem. A viagem custou cinco dracmas, achei estranho o taxista cobrar dinheiro divino, mas eu tinha muito mais coisas estranhas pela frente, então só entreguei os dracmas e viramos as costas.
Chegamos as oito e trinta e seis a estação, um trêm acabara de partir. Agendamos o trem HBLR Tonelle para as oito e cinquenta. Esperamos dez minutos e entramos no trêm que não estava tão cheio assim. A temperatura do lugar estava mais fria, tirei uma jaqueta de moletom da mochila e a vesti, Annabeth fez o mesmo. Eu segurava sua mão, e ela colocou a cabeça em meu ombro.
POV. ANNABETH
Estávamos tranquilos no trem que não estava movimentado, estávamos na estação Grove Street, quando duas mulheres atraentes entraram no trêm, uma de cada lado, Percy pareceu não notar. Elas eram estranhas, me fuzilavam com os olhos, e eram... bonitas demais. A primeira tinha uma pele pálida, usava um vestido curto e vermelho, seus cabelos eram louros platinados, os olhos tinham um brilho vermelho e cruel. A segunda mulher tinha pele morena, mas pálida também, o cabelo era castanho-avermelhado, usava um vestido curto e preto, seus olhos brilhavam da mesma forma que os da outra. Elas permaneceram de pé, nos fuzilando com o olhar. Eu puxava o braço de Percy, sem tirar a atenção das mulheres.
– O que foi? — sussurrou Percy, então notou as mulheres nos encarando — Ah, estamos muito encrencados! — disse ele, meio sarcástico. Tive vontade de estrangulá-lo quando disse, porque as mulheres avançaram, contorcendo a boca ao exibir presas enormes, os olhos estavam totalmente vermelhos, a pele empalideceu tanto que ficou quase branca, uma das pernas tomou forma de perna de bode. Empousas.
Percy e eu nos levantamos, velozmente, Percy destampou sua caneta/espada, eu peguei minhas facas e ele colou as costas as minhas, como costumavamos fazer quando estávamos cercados, eu segurava as facas na frente do peito, as lâminas viradas na direção da segunda empousa. Percy erguia contracorrente bem na frente da primeira, se ela se movesse, viraria pó. Elas sorriram, crueis. A segunda correu em minha direção, mas eu me esquivei e puxei Percy para baixo. A empousa que pulou sobre Percy e eu caíra em cima da outra, com força, as duas levantaram-se, tontas. Os passageiros agitavam-se, corriam, desesperados, e sempre que o trem parava, corriam para fora, apavorados. Não havia como escaparmos, o trem não tinha largura suficiente para uma batalha. Então Percy me surpreendeu. Segurou minha mão, com força, e, com a mesma mão, tirou o Amuleto dos Destinos do bolso, as empousas paralisaram, quero dizer... movimentavam-se muito lentamente, eu não fui afetada, provavelmente porque Percy segurava minha mão. Com a outra mão, mergulhou a espada na empousa loira, eu espetei a outra com força, as duas desmancharam-se em pó.
A névoa verde formou-se dentro do trem. Eu fui arrastada para longe, esbarrando em uma mesa com vidro que perfurou minha pele. Então senti algo rasgar minha perna esquerda. Gritei de dor.
– Annie! — gritou Percy, desesperado. Depois de um tempo sem enxergar nada, senti Percy me carregando, com cuidado. — Ah, deuses! Annabeth?
Só consegui dar um gemido fraco. Eu ainda não conseguia enxergar, meus olhos ardiam muito. Percy me colocou em um banco, virada de lado, com o cuidado de não encostar minhas costas com vidro no banco. Senti ele colocando um pedaço de ambrosia em minha boca, depois um gole de néctar. Acho que ele pegou a caixa de primeiros-socorros que Will mandara, porque ouvi ele com as mãos na massa, senti uma espetada e de repente apaguei.
Quando acordei, já eram duas horas da tarde, eu estava deitada no banco, a cabeça no colo de Percy. Ele me informara que estávamos na Harrison Reach, atravessando o rio Passaic, em direção a Newark, Nova Jersey. Minha perna estava enfaixada, de um jeito desajeitado, minhas costas haviam sido cuidadas também. Eu sorri.
– Obrigada, Percy. — eu afaguei sua mão.
– Você faria o mesmo por mim. — ele disse, era verdade. Ele sorria, mas sua expressão indicava que ele estava preocupado. — Sente dor? — perguntou ele, confirmando meus pensamentos.
– Estou bem — respondi, sem dar detalhes.
– E você... está ferido?
– Não. — respondeu ele, e me mostrou a mão esquerda, com o anel de Anfitrite. — O anel e o colar são barreiras de proteção, contra... sei lá... a névoa, que nos atacou.
Olhei para meu pescoço, o colar estava lá.
– Você esqueceu no banheiro do apartamento no Hilton Garden Inn. Eu o guardei na mochila.
– Ah! — eu disse, envergonhada. — Desculpe.
– Sem problemas.
Entramos em Newark, eu e Percy decidimos sair na Estação Ferroviária de Military Park Light. Procuramos no GPS do Notebook por algum hotel, mas, ao contrário de em Manhattan, era difícil encontrar hotéis na cidade, haviam mais universidades e restaurantes que tudo. Até que encontramos um hotel, Coutyard Neward Downtown, na rua Broad. Pegamos um ônibus até lá.
O hotel dessa vez era normal, tinha uma única cama, mas era grande o bastante. Planejamos que pegariamos um avião e iriamos até algum estado mais a sul e oeste , como New Mexico, Las Vegas, Arizona...
Agendamos um voo para Phoenix, no Arizona, quando chegássemos lá, arrumariamos uma forma de fazer o restante do caminho até San Francisco em terra. Depois pegaríamos algum transporte aquático, com esperanças de que amenizassemos a quantidade de ataques ( há mais monstros em San Francisco).
– Estou vendo que isso vai ser bem complicado. — disse Percy, do meu lado, enquanto análisavamos o mapa. Fechei o notebook e o olhei.
– Acha que vai dar certo? — perguntei, levantando-me, sem conseguir conter as lágrimas.
Ele não respondeu. Se levantou e me empurrou, delicadamente, até a parede.
Percy ajeitou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha e me abraçou, eu respondi seu abraço carinhoso. Seu cheiro de brisa do mar me tranquilizava, era bom... Eu gostava do conforto de estar em seus braços.
Pensei em como seria minha vida se eu perdesse o Cabeça de Alga. Então suspirei, com uma forte dor no peito, afundando o rosto em seu ombro. Eu podia ouvir sua respiração tranquila e seus batimentos cardiacos, eu gostava. Passamos um longo tempo daquele jeito.
– Cabeça de Alga... — sussurrei em seu ouvido.
Ele riu baixinho, em meu ouvido, provocando-me arrepios, como se uma carga elétrica fosse enviada para meu corpo. Seus olhos verde-mar ( de tirar o fôlego) estavam focados nos meus, sua expressão era fascinada. Era como se eu pudesse ver sua alma através de seus olhos, por um momento, quase me esqueço de respirar. Seus braços em minha cintura, me puxaram para mais perto, colando nossos corpos. Eu acariciei seus cabelos e depois contornei seu rosto com os dedos; os olhos, o nariz, as maçãs do rosto, e, por último, seus lábios. Então o puxei para ainda mais perto, por sua camisa, e nossos lábios se tocaram, foi como uma explosão dos sentimentos que eu mantia reprimidos. Nos abraçavamos, forte, como se pudessemos desmoronar se soltássemos, eu acariciava sua nuca. Paramos para respirar algumas vezes, e então voltavamos a nos beijar. Quando paramos, eu o olhava com uma enorme cobiça, eu queria beijá-lo mais e mais, mas não poderíamos nos beijar para sempre.
Ele se deitou na cama, me levando junto, minha cabeça em seu peito, e seu rosto em meus cabelos.
Fale com o autor