Notas iniciais
Espero que gostem

Pov. Lucas/Percy

Hoje já fazia quase seis semanas que eu estava na faculdade, e, mesmo assim, não arrumei nenhum amigo, por um lado porque eu realmente não queria isso — chamava muito menos atenção, já que não precisava dar desculpas para eles do porquê de não os chamar para ir lá em casa e explicar o porquê dos mordomos invisíveis ou sobre a Pandora, o que, por falar nisso, me dava uma baita dor de cabeça, ainda mais com essa mania de me chamar de kawaii, que ela sabe que eu odeio. Bem, tirando isso, a minha vida estava sendo quase normal, eu disse quase, tirando duas imortais que, por algum motivo, estavam querendo a minha atenção e quase me matavam de tantos olhares que me lançavam, sem contar os que lançavam uma para a outra. Odiava aquilo, não que fosse desinteressante ser o objeto de disputa das duas mulheres mais cobiçadas da escola, mas o problema em si residia no fato de elas poderem descobrir quem eu realmente sou. Não que eu não acreditasse em Caos e em Nix, que estavam ocultando a minha aura e assim mascarando a minha presença, mas Estige era filha de Nix, e bem que ela poderia me descobrir, ainda mais que a mãe dela estava me protegendo, além de poder revelar a Quione quem eu sou. O meu azar era grande o suficiente para que em todas as minhas aulas estivessem as duas, ou quem sabe isso, na verdade, fosse um pouco de sorte? Quem sabe o que aconteceria se eu tivesse aula só com uma delas? O que elas tentariam fazer? Bruuuuuu, nem quero saber, prefiro os campos de punição do submundo a saber disso.

Bem, hoje meu horário não era tão ruim assim, já que tinha duas aulas de biologia marinha, uma de mitologia (é sério que em faculdade ainda tem isso, Caos?) e duas de natação, que hoje seriam diferentes, já que iríamos ao tanque de animais marinhos que havia no campus para nadar com os peixes. E bem, nem precisa dizer que era o meu dia preferido. Em biologia marinha eu era o melhor, já que sabia muito sobre os animais que viviam no reino de Poseidon — pelo menos foi uma das poucas coisas úteis que herdei dele. Em mitologia, eu ficava entre os três melhores, e bem, nem é preciso dizer quem eram as outras duas que também se destacavam. E, querendo ou não, isso fazia com que eu chamasse a atenção delas, pois, além de saber muito sobre as criaturas marinhas, também sabia muito de mitologia, como se, por acaso, eu a vivesse, como elas vivem — o que é verdade, mas elas não sabem disso. Mas o que mais me trazia problemas, e a desconfiança delas, era a minha aula preferida, a de natação, já que eu era o melhor sem precedentes, e, como não precisava respirar, podia ficar quanto tempo quisesse debaixo d'água. Mas, nesse ponto, eu não era burro, sempre voltava, a intervalos regulares, à superfície para poder respirar. E todos ficavam impressionados com a facilidade que eu tinha com os animais aquáticos — se eles soubessem que eu podia me comunicar com eles mentalmente...

Ao sair da aula de natação, peguei aquelas duas conversando amigavelmente, ou o mais amigável possível entre elas, o que me surpreendeu, já que não tinham se dado bem o dia todo. Aí ouvi a conversa e percebi o porquê de elas não estarem brigando, e, devo admitir, isso fez meu sangue gelar, pois ouvi Quione dizendo:

— Ele parece perfeito demais, sabe tudo sobre vida marinha, fala da mitologia como se vivesse nela, e ainda tem um fôlego enorme debaixo d'água, parecendo que nem precisa respirar lá, além de parecer falar com os animais marinhos. E bem, não acredito em perfeição, ele até me parece um pouco parecido com Poseidon, eu até diria que é um dos seus filhos, ou, quem sabe, até mesmo um deus menor dos mares.

Nisso, Estige respondeu:

— Já pensei nisso também, e não descartei essa hipótese, mas um semideus, por mais que não saiba quem ele é, não conseguiria esconder a sua aura de uma deusa como você, ainda mais de uma primordial como eu, sem contar que ele já teria sido atacado por monstros, pois os filhos dos Três Grandes emitem uma aura muito forte. E, além do mais, só existem dois filhos de Poseidon atualmente: um deles é aquele idiota do Mark, que vive no acampamento, e o outro é Perseu Jackson, que está no Tártaro. E, mesmo que ele tivesse conseguido, de algum modo, sair de lá, mesmo assim não conseguiria esconder a sua aura de mim. Minha ideia, realmente, seria de um deus menor, mas mesmo eles não conseguem esconder a sua aura de mim. Por mim, ele seria um primordial, mas eu conheço todos os primordiais dos mares e oceanos, e os seus disfarces, e te afirmo: ele não é nenhum deles. Para mim, ele é, na verdade, um grande mistério, um mistério que eu quero desvendar. — Para mim também, e pode ter certeza de que eu vou desvendá-lo primeiro — respondeu Quione.

Depois disso, elas começaram a se encarar feio, de novo, como sempre, mas nem isso me deixou mais aliviado, pois elas quase descobriram quem eu era, e isso me deixou bastante nervoso — tão nervoso que nem percebi que praticamente todos tinham saído da piscina, e só restava eu e uma garota da minha turma, chamada Larissa. Bem, resolvi me apressar e pegar o resto das minhas coisas, e já estava para sair quando encontrei um grupo de meninos que vinha em direção aos tanques. Achei aquilo esquisito, pois a aula já havia terminado, e os instrutores já tinham acabado de tratar dos animais, e bem, meu instinto disse que aquilo não ia dar em coisa boa, então voltei e os vi cercando a Larissa, até que o que parecia ser o líder deles disse:

— Olha o que achamos aqui, uma linda sereia. Que tal eu e você sairmos agora, sereia? — Me solta, Caspian, você sabe que eu te odeio e nunca sairia com você — respondeu Larissa. — Ah, vamos parar com isso, minha sereia — disse Caspian em resposta. — Você sabe que quer.

Ao falar isso, ele pegou o braço dela, puxando-a com força, como se fosse violentá-la. Isso me fez perder a cabeça, e me vi, sem pensar, dizendo:

— Acho que ela disse que não quer que você encoste nela, seu idiota. — Quem você pensa que é para falar comigo assim? — respondeu Caspian. — É melhor dar o fora, se não quiser apanhar agora. — Não vou a lugar nenhum sem antes você soltá-la — respondo. — Foi você que pediu — respondeu Caspian, e se virou para os seus companheiros e disse: — Peguem ele e deem-lhe uma lição que ele nunca mais esquecerá.

Depois disso, os seus comparsas vieram para cima de mim, e bem, não pensei, só agi, indo para cima deles e dando-lhes uma surra. Não estou nem aí se não quero arrumar confusão e se não quero ficar perto de ninguém, não vou aceitar que uma mulher seja agredida ou violentada na minha frente. Bati em todos eles até deixá-los inconscientes, e depois cheguei perto de Caspian.

— Pare aí mesmo — ele disse. — Se eu não posso tê-la só para mim, ninguém a terá.

Dizendo isso, ele a jogou no tanque dos tubarões, e, depois disso, sinceramente, não pensei duas vezes antes de me jogar atrás dela. Ao mergulhar, vi que os tubarões já se aproximavam, e ela já estava inconsciente. Então, imediatamente, usei meus poderes telepáticos, mandando-os se afastarem dela, enquanto criava uma bolha de ar em volta de nós dois. Peguei-a e a levei para a superfície. Ao chegar lá, percebi que Caspian já tinha desaparecido, e pensei que devia ter sido quando pulei para salvar a Larissa, mas deixei de pensar nisso quando ouvi duas pessoas correndo em minha direção, e gelei ao perceber que eram Estige e Quione. Elas chegaram, e Quione perguntou:

— Você está bem? Vimos quando Caspian saiu correndo dos tanques e vimos que você não tinha saído, então viemos correndo ver o que tinha acontecido. — Sim — respondeu Estige — e, quando chegamos aqui, você já estava fora do tanque dos tubarões, junto com ela.

Ao ela falar isso, lembrei-me de Larissa e de que ela tinha bebido muita água, então comecei a fazer os primeiros socorros que devemos fazer quando a pessoa se afoga, enquanto dizia:

— Eu estou bem, mas ela não. Ela engoliu muita água e desmaiou, e, se eu não tivesse tido a sorte de chegar perto dela e conseguir tirá-la do tanque rápido, talvez os tubarões estivessem se banqueteando conosco agora. — Mas por que você pulou? — perguntou-me Quione. — Sim, você poderia ter morrido só porque quis salvar uma pessoa desconhecida — disse Estige. — Os únicos que são burros ou corajosos assim são os heróis. — Não sou nenhum herói — respondo, mais tranquilo, mesmo com o que elas disseram, já que Larissa estava fora de perigo. — Posso ser burro o suficiente para isso, mas não sou um herói, só odeio ver pessoas se machucando na minha frente e não poder fazer nada, e, acima de tudo, odeio quem fere uma mulher na minha frente.

Dizendo isso, viro-me para sair dos tanques e pergunto:

— Para que lado vocês viram o Caspian correr? Eu ainda tenho contas a acertar com ele. — Ele estava correndo para a saída da faculdade — disse Quione — e não acho que você consiga alcançá-lo. — Pode ter certeza de que eu conseguirei — respondi — e deixo a Larissa sob seus cuidados, por favor, levem-na para a enfermaria.

Digo, já correndo em direção à saída, pois iria fazer o Caspian pagar pelo que fez, mesmo que eu tivesse que ser expulso, e só diminuí a velocidade para olhar para trás e ver três pares de olhos olhando para mim, já que, pelo jeito, Larissa tinha acordado. Depois disso, disparei pelos corredores, correndo ao máximo que era possível para um humano, ou até um pouco mais, para não chamar muito a atenção sobre mim, e o vi de longe, saindo pela porta. Não permitiria que ele saísse impune, então corri até a porta e pulei do início da escada, aterrissando em cima das costas de Caspian e rolando para o lado.

— Mas como é possível? Eu vi você pulando no tanque de tubarões — ele disse, espantado. — Algumas pessoas têm sorte o suficiente para sobreviver ao tanque de tubarões — digo em resposta. — E agora farei você pagar pelo que tentou fazer com a Larissa.

Parti para cima dele com fúria, e o acertava a todo instante, além de escapar de qualquer tentativa dele de revidar o ataque, e o tinha deixado todo sangrando, quase desmaiando, quando chegou o diretor e perguntou:

— O que está acontecendo aqui? — Esse louco começou a me atacar do nada e parece querer me matar — respondeu Caspian.

E, antes que eu pudesse falar algo, ouviu-se alguém dizer:

— É mentira, diretor — disse Larissa, que estava envolta numa toalha e sendo observada por Estige, Quione e a enfermeira da escola, que insistia que ela voltasse para a enfermaria. — Ele tentou me estuprar, mas o Lucas não deixou, e, quando viu que não conseguiria, e que levaria uma lição, ele me jogou no tanque de tubarões, e, se não fosse o Lucas ter pulado para me resgatar, eu estaria morta agora.

Todos estavam impressionados com o que ela tinha acabado de dizer, pois era surreal demais, e, pela cara do diretor, parecia que ele não tinha acreditado nem um pouco, mas, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Estige se adiantou e disse:

— É a verdade, diretor, eu e Quione vimos tudo — e, após dizer isso, ela estalou os dedos, controlando a névoa, o que me surpreendeu, mas não reagi. Eu sabia que todos tinham sido afetados por ela, menos eu, a Quione e a própria Estige, mas não diria nada, para que elas não percebessem. E, bem, o que elas estavam dizendo era a verdade, exceto a parte de que ela e Quione tinham visto tudo. — E ele disse que viria acertar as contas com o Caspian, não só por ter tentado violentar a nossa colega de turma, mas também por tê-la jogado no tanque dos tubarões. — Isso é uma acusação gravíssima — disse o diretor — e as medidas serão tomadas imediatamente. Mas, mesmo com todo esse seu heroísmo, senhor Lucas, creio que também receberá uma punição, pois devia ter vindo a mim, e não resolvido com as próprias mãos. Então, um mês ficando uma hora a mais depois das aulas deve bastar. Já você, senhor Caspian, nos veremos na minha sala com os policiais, para resolvermos a sua parte.

Com isso, ele saiu carregando Caspian para a sua sala, enquanto todos olhavam espantados para eles, exceto três: Larissa, Quione e Estige, que olhavam para mim — a primeira com ar de gratidão, e as outras duas com ar de desconfiança, pois perceberam que o que eu tinha feito com Caspian não era possível para um humano, e sim para um semideus. Mas, quando tentei me mexer e sair dali, senti o meu corpo pesado, como se tivesse acabado de perder todo o meu ser. Olhei para as minhas mãos e as vi tremendo, e então caí de joelhos. Ao perceber, as três já estavam ao meu lado, até que Estige disse:

— Parece que a adrenalina que estava no seu corpo, e que te ajudou a bater no Caspian, está se esvaindo. Bem, isso até que é compreensível, pelo estado em que ele ficou. Muitas pessoas têm esses surtos de adrenalina, que as deixam mais ágeis, velozes e fortes. Dizem que alguns semideuses tinham isso quando lutavam, antigamente. — Bem, se isso é verdade, eu não sei — respondo, surpreso, pois já tinha ouvido falar disso na Cidade do Caos, mas nunca tinha visto acontecer, ainda mais comigo. — Pelo menos a parte dos semideuses, pois hoje em dia essas histórias chegam como lendas, e, como eu mesmo já disse, geralmente as lendas vêm de fundo de verdade. Provavelmente a história dos semideuses veio a partir disso, desses surtos de adrenalina que, por algum motivo, deviam ser mais frequentes na era da Grécia antiga e de Roma. Mas, bem, me considerar um semideus herói seria arrogância, pois heróis vivem para salvar as pessoas, e não para machucar os outros, e é por isso que não creio que alguns dos ditos heróis da mitologia mereçam esses títulos. — Mas você deveria, sim, se considerar um herói — disse-me Larissa. — Você me salvou dele e só bateu nele para me proteger, e bem, sou grata por isso, e não sei como agradecer tal coisa, pois, até de castigo, você ficou para me proteger, e não sei se alguém faria o que você fez... — O que recebi é o resultado das minhas ações — respondo, rispidamente, cortando-a. — E fiz isso porque era o certo a fazer, e não para ser considerado herói, então seria melhor que você nem ousasse falar isso de mim. Na verdade, seria melhor você nem falar comigo, pois não quero amigos.

Depois de dizer isso, me levanto, já que sinto meus movimentos retornando, e saio de volta para a minha casa, deixando as três garotas olhando para mim, espantadas, e pensando por que um garoto como eu não gostaria de ser reconhecido como herói, já que fazia coisas ousadas para salvar as pessoas e nem esperava por recompensas. Bem, isso é fácil de afirmar, pois eu já fui um herói na vida, e nada na vida do herói é bom; tudo o que ele pensa, faz, sua felicidade e outras coisas que conquista sempre vão depender do sofrimento dos outros, e é isso que eu não quero mais para mim: ver os outros sofrerem enquanto eu vivo feliz. Neste caso, prefiro a solidão e o meu próprio sofrimento ao dos outros, e bem, isso, de certo modo, ainda faz parte de mim, pois, no final, querendo ou não, eu ainda sou um filho de Hades.

Pov. Larissa

Não entendi o que ele quis dizer com aquilo. Ele me salvou e ainda não quer ser chamado de herói? E como assim, não quer amigos? Enquanto ele ia embora, como se nada tivesse acontecido, eu me decidi: viraria amiga dele e faria com que os outros também virassem, e, se ele não quisesse, bem, que se acostumasse, pois eu faria da vida dele um inferno.

Pov. Lucas/Percy

Depois daquele fatídico dia, meus dias na faculdade foram normais, ou o mais normal possível para mim. Já tinham se passado dois anos desde que eu tinha começado, e estava tranquilo — claro, tirando as brigas de Estige e Quione, e bem, agora também a Larissa, que estava me enchendo a paciência, dizendo que queria ser minha amiga. Bem, até então eu tinha aguentado, mas não aguentava mais. Um dia, viro para ela e falo:

— O que você quer de mim? Não está vendo que eu não quero nada com você nem com ninguém? — Quero ser sua amiga — ela responde — e não vou desistir disso, já que você me salvou, e, se não quiser, vou transformar a sua vida num inferno. — Você não sabe o que é o verdadeiro inferno, mas eu sei, já que vivi nele — respondo, saindo dali. — O que você quer dizer com isso? — ela me pergunta, enquanto vem atrás de mim.

Não a respondi e a deixei para trás, saindo, pois pensei que não dava para o meu dia ficar pior — e bem, já disse que eu sou o cara mais azarado do universo? Bem, quando saí, vi uma cena que me encheu de medo, não porque era um monstro enorme, e sim porque eram as minhas imortais que estavam se enfrentando por minha causa. Bem, eu sabia que o clima não estava bom durante todo o dia, e que Estige e Quione se fuzilavam mais do que nos outros dias, sem contar a tensão palpável, mas nunca pensei que elas usariam os seus poderes. Só que ali estavam elas, se encarando e se xingando uma à outra, sem contar que estavam tão nervosas que os seus poderes estavam saindo do controle. Sombras e trevas eram vistas por ali como se tivessem vida própria, o tormento dos outros aparecia como mágica — o que realmente era —, e o frio e a neve cobriam boa parte da faculdade. Quando vi aquilo, percebi que a minha vida já era. Poxa vida, será que elas esqueceram que os deuses poderiam estar observando aquele confronto de poderes? Mas não, elas tinham que lutar usando os seus poderes, ainda por cima por minha causa. Quando os deuses aparecessem, eu estaria ferrado, e, sem pensar em mais nada, soquei a parede da faculdade com toda a minha fúria... Como sempre, fiz besteira, já que também liberei o meu poder sem perceber, e o que se viu foi um grande terremoto que poderia ser confundido com um do próprio Poseidon. A única coisa boa foi que Quione e Estige tomaram um susto e pararam de usar os seus poderes, pois a escola toda começou a desmoronar. Foi uma confusão geral, e saí correndo para fora, como todos os outros. Vi os professores perguntando se todos tinham saído, e um monte de alunos concordando, e fiquei aliviado, até que um dos amigos da Larissa falou:

— Alguém viu a Larissa? Não a vi saindo, e não consigo encontrá-la.

Depois de ele dizer isso, corri para dentro da faculdade, que ainda estava caindo, pois tinha certeza de que ela não tinha conseguido sair, e a vi no meio do corredor da saída, presa com uma viga na perna, que parecia machucada. Na mesma hora, choquei-me contra a viga, usando a minha força para tirá-la da perna da Larissa, e a peguei no colo. Ela olhou assustada para mim e disse:

— Como... — Não diga nada, nós vamos sair daqui — interrompo-a. — É impossível sair daqui — ela respondeu. — Está tudo desmoronando, e não há como sair sem que isso nos atinja. Agradeço por ter vindo me ajudar, mas vamos morrer aqui.

Era verdade o que ela estava dizendo, não havia como sair dali sem sermos atingidos, a não ser que eu usasse os meus poderes, só que, se eu usasse, seria descoberto, mas não poderia deixar que ela morresse ali, ainda mais que a culpa era minha. Que os deuses soubessem, então, que eu estava vivo, que viessem atrás de mim. Então, com esse pensamento, disse para ela:

— Feche os olhos e confie em mim, pois vou nos tirar daqui. — Claro que confio em você, afinal, você já me salvou uma vez, e tenho certeza de que vai me salvar de novo, pois você é o meu herói — ela respondeu, fechando os olhos. — Não diria isso — respondo, começando a correr e desviar dos destroços, mas, quando estava chegando à porta, uma grande parte do piso superior caiu sobre nós, e não havia como esquivar. Só dava para fazer uma única coisa, e, quando ele chegou bem perto, fazendo uma grande sombra, pulei para dentro dela e saí do outro lado, ainda pulando para fora, dando uma cambalhota e caindo sobre os meus joelhos, ainda segurando a Larissa no colo, pensando que todos tinham nos visto saindo das sombras, até que ouvi os gritos, e tive certeza disso, até que continuei ouvindo:

— Não pode ser. — Eles não conseguiram. — Não acredito, aquele idiota voltou pela Larissa, e nenhum dos dois saiu. — Não acredito mesmo que ele fez isso, mesmo com aquele terremoto.

Fiquei de cara com aquilo, pois quem disse essas duas frases foram Quione e Estige, exatamente. Quer dizer, então, que elas não me viram?

— Acho que é melhor irmos lá na frente e falar com todos que estamos vivos — Larissa me disse, abrindo os olhos. — Não sei o que aconteceu ali no último minuto, mas senti uma adrenalina maior do que o normal, e bem, se você não quiser me contar, tudo bem, eu sei que é alguma coisa que é melhor eu não saber, para não me assustar, e não se preocupe, isso será o nosso segredo. — É, vamos, sim — respondi, colocando-a no chão — e te agradeço por não me questionar, pois, nisso, você tem razão, isso te assustaria muito.

Fomos para a frente da escola e fomos recebidos com exclamações de surpresa e alegria. No final de toda a confusão, descobrimos que só o prédio principal tinha caído, e o resto estava intacto, como, por exemplo, os tanques dos peixes, que seriam realocados, e que todos na escola iriam para uma escola reserva que, por acaso, tinha sido construída havia pouco para evitar algo assim (quem será que a construiu, né, Caos?), e que as aulas continuariam normalmente.

Já na outra escola, tive uma surpresa, pois Estige e Quione não estavam lá; chegou para a turma que elas tinham sido transferidas para outra escola. Mas, quando cheguei em casa, recebi uma carta de Caos, dizendo que tinha conseguido convencer Nix a levantar o castigo, e que tinha feito com que os Olímpicos tivessem a ideia de parar de perseguir Quione, para que ela pudesse voltar para casa tranquila. Depois disso, Larissa começou a se aproximar mais, e, depois de um tempo, viramos amigos; depois de mais um tempo, virei amigo dos amigos dela, e não tive nenhuma aventura fora do normal. Minha vida estava boa, tranquila, nada de monstros, deuses, titãs, primordiais nem meios-sangues, nada da mitologia para me atrapalhar. E foi assim até o final, até o dia em que finalmente nos formamos, um dia que eu nunca esqueceria, não só porque nos formamos, mas pelo que aconteceu a seguir.

Estávamos indo para casa, e os meninos estavam me enchendo para irmos a uma festa comemorar a nossa formatura, e eu já estava até pensando em ir, mas ouço a palavra que me deu arrepios na minha coluna, uma palavra que me confirmou que eu não tenho sorte, que me confirmou que as Parcas me odeiam, que me confirmou que o meu mundo acabou de cair, que o meu passado voltou para me atormentar. Eu ouço alguém me chamar pelo meu verdadeiro nome.

— Perseu...


Flashback Off


Ao terminar de me lembrar dessas más recordações, que eu pensava estarem perdidas, além de mortas, fico atordoado, e, ao perceber isso, Hades pergunta:

— Meu filho, você está bem? — Sim, só me lembrei de coisas que não queria ter lembrado — digo, e ele compreende de que lembranças estou falando e não insiste no assunto.

Nosso lanche chegou e comemos sem falar mais nada, até que eu digo:

— Você ainda não respondeu à minha pergunta: por que você acha que esse herói sou eu? Que eu saiba, ainda deveria estar no Tártaro depois do julgamento por aquele incidente.

Hades toma o seu refrigerante antes de responder:

— Porque a profecia fala do maior herói da história e o mais poderoso, aquele que foi esquecido, aquele que foi traído, aquele que foi punido injustamente — ele termina, me olhando intensamente.

Depois de um tempo em silêncio, digo:

— Muitas coisas se parecem comigo, mas há duas coisas que não se encaixam. — E o que seria? — perguntou o meu Hades. — A parte do "maior herói da história e o mais poderoso." — respondo a ele. — Perseus, você é o maior herói da história e o mais poderoso — me diz Hades. — Mesmo você não acreditando, você realizou feitos que nenhum outro herói realizou antes, e, além do mais, você nasceu de Poseidon, querendo ou não, é meu filho adotivo e de Hera, recebeu as bênçãos de Hestia e Deméter, ou seja, você está ligado a cinco dos seis deuses mais velhos, além de ter as bênçãos de Atena, Apolo e Hermes, e ser considerado por Ártemis o único homem digno de acompanhá-la, a ela e às caçadoras, na caçada, sem correr o risco de ser transformado num daqueles cruzamentos de bichos que ela gosta de fazer. Você só não percebe isso por ser muito humilde. — Desculpe discordar, pai, mas não sou esse herói, só sobrevivi até hoje porque minha aura de semideus foi encoberta por Caos e Nix, porque, se não fosse assim, eu não estaria mais vivo — respondi. — Pelos deuses, Perseus, quando você deixará de ser, pelo menos, um pouco menos humilde e aceitará um elogio? — perguntou-me Hades. — Pai, eu aceito elogios quando são merecidos, mas esses, de ser o maior e mais poderoso semideus existente, não são nada merecidos — disse ao meu pai. — Esses elogios eu ganhei em cima das mortes dos meus amigos, que morreram bravamente protegendo o que achavam certo. Eles, sim, é que deveriam ser chamados de heróis, e não eu, e, além do mais, são eles os mais poderosos e os maiores entre os semideuses, não eu. — Chega, Perseus, não vou mais discutir com você. A profecia fala claramente sobre você, e, sem você, não poderemos vencer esta guerra — disse-me meu pai. — Não vou te obrigar a fazer nada, mas é você que decide a sua vida. — Você sabe que eu não quero voltar para lá, por não conseguir ficar no acampamento... — começo a dizer, mas sou cortado pelo meu pai, quando ele disse: — Nunca te mandaria para o acampamento se não fosse necessário, e, neste momento, não é. Mas você é necessário em outro lugar, e era para esse lugar que eu o mandaria, se você quisesse. — E qual seria esse lugar? — perguntei, pois tinha ficado curioso. — Eu o mandaria para proteger uma deusa que age fora do Olimpo e é mais desvinculada das leis antigas do que o resto de nós, deuses olímpicos — quando ele disse aquilo, eu já temi, pois já sabia a que deusa ele se referia. — Eu te mandaria para um lugar onde terias algo para proteger, eu te mandaria para o Acampamento das Caçadoras, para ser o seu guardião. — Mas as caçadoras sabem se cuidar, assim como Ártemis, e não precisam de um guardião — respondi ao que ele disse, mas ele me respondeu, dizendo: — Eu sei disso, e é por isso que o inimigo as atacaria primeiro, com os mais poderosos servos que tem, e, como eu sei que você não gostaria de ver a Thalia machucada, por considerá-la uma irmã, eu te mandaria para protegê-la, para que pudesses ter a certeza de que ela estará segura, e não ousaria colocar outro semideus lá, pois você é o único que tem chance de sobreviver.

Vi que o que ele falava era verdade, mas temi vê-la mais cedo do que pensávamos, pois, quando Thalia descobrisse que eu estava fora do Tártaro havia um tempo e não a avisei, ela me mataria imediatamente. Mas, como, infelizmente, o meu defeito mortal era a lealdade, e Ártemis votara para que eu continuasse vivo, eu não poderia deixar de protegê-la, mesmo sabendo que ela não precisaria. Então selei o meu destino quando falei:

— Vamos para casa, pai.

Com um sorriso que não fez questão de esconder, Hades nos transportou para o seu palácio no submundo, a minha casa.

Notas finais
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