Percy Jackson - O guerreiro da escuridão
13 Capitulo 13
Notas iniciais
Pov. Desconhecida
O barulho dos meus passos ecoa pela floresta. Posso dizer que ouço até o meu medo no barulho do vento. Meu coração bate tão rápido que tenho a impressão de que está nos meus ouvidos. Não sei exatamente para onde estou indo. Está escuro, e não conheço a floresta, mas corro como se fosse a única coisa a se fazer no mundo. Os galhos arranham minhas pernas e braços, meus pés estão cansados. O que exatamente está acontecendo? Por que estou sendo perseguida? Quem são essas pessoas? Não consigo chegar a uma conclusão, porque minha mente roda, meu corpo está cansado, faz muitas horas que não como, o que me deixou com uma fome tão grande que eu seria capaz de morrer. Não durmo há três dias, três dias desde que começou essa perseguição. Só consegui parar alguns minutos para comer quando pensei que os tinha despistado, mas isso se provou errado depois de um tempo. E que criaturas são essas que estão me perseguindo? São todos monstros? De onde saíram? Estou sozinha, totalmente perdida. Saio da floresta e começo a correr para uma cidade, onde penso que posso me livrar deles. Mais uma vez, estou errada. Ao me avistarem de longe, um grupo de homens bêbados vem para cima de mim, com luxúria nos olhos. Eu sabia que queriam me estuprar, e a única coisa que eu podia fazer era correr, mas já estava cansada, não aguentava mais, e tropeço. Vejo que tanto os homens quanto os monstros estão se aproximando; talvez os monstros cheguem primeiro e me matem antes que os humanos me estuprem, mas talvez eu não tenha tanta sorte, e eles me estuprem primeiro, antes de eu ser morta. Só uma coisa é certa, seja como for que aconteça: morrerei sozinha, como fui em parte da minha vida. Mas nem sempre foi assim. Nunca fui cercada de gente ou amigos, mas sempre tive duas pessoas em quem podia confiar, e isso me bastava. E, nesses últimos instantes da minha vida, lembrei-me dessas duas pessoas, da época em que vivia com eles, da época em que eu era feliz, mesmo que tenha começado triste:
Flashback On
Naquela noite, estava escuro e sombrio, e quase não se via nada. Eu já tinha três anos, e muitas coisas me assustavam, assim como meu padrasto, que estava uma fera, gritando com a mamãe depois de chegar bêbado em casa. O cheiro dele já se sentia de longe, e isso me deixava assustada, tanto que meu irmão Lucas estava me abraçando para me proteger, até que, do nada, o idiota gritou:
— Já me cansei de você e desses seus filhos idiotas, vou resolver tudo de uma vez por todas.
Quando levantei os olhos, vi-o jogando minha mãe para o lado e pegando uma faca, vindo para cima de mim e do meu irmão. Fiquei congelada de medo, mas, antes que ele pudesse fazer algo, alguém saiu das sombras e atacou o meu padrasto, jogando-o contra a parede e desarmando-o. Chegou perto de mim, abaixou-se e disse:
— Vocês estão bem? Esse porco fez algo de ruim com vocês? — Quem é você? — meu irmão perguntou, colocando-se na minha frente para me proteger. — Vejo que é bem valente, e protegeria a sua irmã de tudo isso. Bem, eu sou... — mas ele foi interrompido quando minha mãe disse: — Oculto, o que você faz aqui? — Sara, tudo bem? — ele perguntou à minha mãe, e foi ajudá-la. — Eu não podia deixar a situação do jeito que estava, e nem me importo se isso vai contra a minha missão ou não. Você é minha amiga, e não permitirei que ele te machuque, e muito menos aos seus filhos. — Eu sei disso, e não diga que é contra a sua missão, pois, querendo ou não, você fez de proteger os meus filhos a sua missão — respondeu minha mãe. — A eles e a você, Sara — ele respondeu. — Não a mim, eu já te disse, a minha vida está traçada para outro destino, mas eu quero que você os proteja, mesmo se algo de ruim me acontecer. Mas isso não impedirá as suas escolhas nem o seu destino, e irá pará-los se algo de ruim acontecer. — Eu te juro, Sara, que farei tudo isso por você, minha amiga, mas agora precisamos sair daqui, antes que algo aconteça. — Eu não vou deixar — disse meu padrasto, tirando da bota um canivete com o qual iria acertar o homem misterioso, que empurrou a minha mãe e segurou a lâmina do canivete, empurrando o meu padrasto para trás, para nos proteger, até que minha mãe partiu para cima dele, gritando: — Não vou permitir que machuque os meus filhos.
O que aconteceu a seguir foi muito rápido. O homem correu na direção da minha mãe e do meu padrasto, mas, antes de chegar, ouviu-se o grito de dor da minha mãe, que tinha sido esfaqueada pelo meu padrasto e caiu no chão sangrando, e meu padrasto, com uma cara demoníaca, dizia:
— Eu vou matar todos vocês, e não permitirei que ninguém saia daqui. — Eu não permitirei que isso continue — disse o homem sombrio. — Não permitirei que você saia dessa sem punição.
Nisso, ele partiu para cima do meu padrasto, desarmando-o e batendo nele até que caísse sangrando e desmaiado. Poderia até dizer que ele estava morto, se não fosse pelo peito que ainda subia e descia, provando que ainda respirava. Depois disso, ele correu até a minha mãe e disse:
— Sara, aguente firme, falarei com Tânatos e Hades, eles vão entender, e não permitirão que você morra. Se não entenderem, enfrento os dois, para que você continue aqui com os seus filhos. — Não faça isso, Oculto, pois a minha hora já chegou — respondeu minha mãe. — Eu já sabia que iria morrer, e sei que você também sabia, e por isso está tentando me salvar. Mas eu te peço, como um último pedido, deixe-me ir e cuide dos meus filhos, assim como você me jurou, só isso me basta. — Eu lhe juro, Sara, que farei isso, e farei com que esse cara pague, aqui na terra e depois de sua morte, pelo que fez. Eu não vou matá-lo, pois os seus filhos não precisam ver isso, mas, quando chegar a hora dele, ele pagará nos Campos de Punição, enquanto você estará no Elísio. Está ouvindo, Tânatos?
Ao dizer isso, ele olhou da minha mãe para o lado, de onde aparecia outro homem vindo das sombras — um que, depois, percebi ser um anjo, mais especificamente um anjo da morte, que tinha vindo levar a minha mãe. Ele se virou para o homem que segurava minha mãe no colo e disse:
— Não se preocupe, tudo será feito como você disse, pois Hades não vai questioná-lo, nem os seus motivos, assim que sair daqui com ela. Nem será preciso passar pelos três juízes, ela irá direto para o paraíso. Já o outro, quando eu vier buscá-lo, já estará preparada uma punição especial para ele — e, virando-se para a minha mãe, disse: — Vamos, Sara, já é a sua hora. — Espere um pouco — minha mãe pediu a ele. — Deixe que eu converse uma última vez com os meus filhos, e deixe que o Oculto me solte, para que eu não morra nos braços dele. — Se eu dissesse não, Oculto me arrebentaria todo, para que você pudesse falar com eles, então pode falar — disse o anjo. — Lucas, Clara — chamou minha mãe — venham aqui, meus amores.
Chegamos perto dela e a abraçamos forte, mesmo com ela no colo do tal Oculto. Depois disso, ela se virou para nós e disse:
— Este é o Oculto, um grande amigo meu. Nos conhecemos quando éramos crianças, e ele sempre me protegeu, sempre que estava por perto, fazendo praticamente o impossível para me proteger, e faria de novo se eu não tivesse pedido que me deixasse ir. Ele irá proteger vocês dois, mas deixará que sigam os seus próprios caminhos, mesmo que ele não goste, pois foi isso que ele fez comigo quando conheci o pai de vocês: ele me aconselhou, me disse o seu lado, mas não me impediu de ficar com ele. E, desde que vocês nasceram, tem protegido os dois pelas sombras, sempre oculto, para que ninguém o visse, e assim ele pudesse salvar a todos. E ele tem evitado que vocês se machuquem, pois, querendo ou não, vocês dois, por serem gêmeos, têm uma ligação um pouco diferente, já que, se um se machucar, o outro também sentirá, e ele vem evitando isso. Não se preocupem, mesmo que não pareça, ele estará com vocês, oculto, mas sempre os protegendo.
Depois de ela dizer isso, senti que ela acreditava nele, e também senti essa confiança, tanto que o abracei, assustando-o, assim como ao meu irmão, mas, ao ver nos meus olhos a confiança que eu tinha, ele também o abraçou, e ele devolveu o abraço. Senti-me protegida, pela primeira vez, por outra pessoa além da minha mãe, e soube que podia confiar nele.
— Então se afastem, meninos, creio que tenho que ir agora — disse minha mãe, fazendo com que nos afastássemos, exceto o Oculto. Então ela disse: — Você também, Oculto, não quero morrer em seus braços.
Ele puxou minha mãe mais para perto, segurou-a nos braços e disse:
— Esse é um desejo que não poderei realizar, pois quero que, no final, eu esteja ao seu lado, quando tudo terminar para você. — Você sempre foi fiel assim — respondeu a minha mãe. — Então não poderei fazer nada. Tânatos, podemos ir, creio que já passou da minha hora. — Isso não importa — respondeu o anjo. — Pelo Oculto, você continuaria a viver, então passar um tempo além da sua hora não é nada de mais.
Nisso, o anjo se abaixou, como se fosse pegar a minha mãe no colo, e, ao levantá-la, estava com ela em seu colo, mas, ao mesmo tempo, ela continuava nos braços do Oculto, e percebi que a parte que estava no colo do anjo era o seu espírito. Nisso, o anjo começou a voar e a levou embora, deixando-nos a sós com o corpo dela, com o Oculto e com o meu padrasto inconsciente.
No dia seguinte, a polícia chegou, levou o meu padrasto preso, acusado de assassinar a minha mãe, e fomos ao velório dela naquela tarde, onde estávamos acompanhados pelo Oculto, e parecia que éramos os únicos que podiam vê-lo. Depois disso, fomos levados para um orfanato, onde o Oculto cuidou de nós até que crescêssemos, e sempre cuidou para que não acontecesse nada de ruim conosco, sempre nos consolando quando acontecia algo ruim, sempre ficando ao nosso lado.
Um dia, Lucas o questionou sobre a sua lealdade, e se realmente nos protegeria de tudo. Ele afirmou plenamente que sim, então Lucas disse:
— Então gostaria de te pedir algo: me ensine a lutar, para que eu possa proteger a minha irmã ao seu lado, e quero que você jure que, se tiver que escolher entre mim e a Clara, protegerá a ela, pois ela pode ser a mais independente de nós dois, mas ainda é minha irmã, e eu quero protegê-la. — Bem, se quer protegê-la — ele respondeu — eu vou te ensinar a lutar, e também juro fazer o que você pediu, pois você é igual à sua mãe, e, como jurei a ela, também juro a você.
Depois desse dia, eles começaram a treinar, e eu me aproximei mais do Oculto. Percebi que ele não envelhecia, e, quando o questionei sobre isso, ele me disse:
— Isso é por causa de uma missão que recebi, a missão que eu estava fazendo quando conheci a sua mãe. E, para completá-la, a pessoa a quem sirvo me fez viver por muito tempo. Eu envelheço, sim, mas o meu envelhecimento é mais demorado que o de outras pessoas, mas, assim como vocês, um dia irei envelhecer e morrer. — Quer dizer que você não é humano? — perguntei, inocentemente, e, depois de rir um pouco, o que me contagiou e me fez rir também, ele disse: — Sim, eu sou humano, mas sou um dos poucos humanos um pouco diferentes que existem, pois não existem humanos iguais, mesmo que, às vezes, muitos tomem a mesma atitude. Mas, mesmo entre esses diferentes, existem aqueles que são um pouco mais diferentes ainda. Não que isso seja ruim, pois, no caso de você e do seu irmão, isso até que é uma coisa boa, pois torna vocês ainda mais únicos do que já são, e o que poderia fazer isso mudar são só vocês mesmos. Então não se preocupe com isso, só viva cada dia como se fosse o último e esteja sempre feliz, pois, afinal, querendo ou não, você parece uma coruja, ou melhor, um filhote de coruja: curiosa e inteligente. Fique assim, que, no final, será uma grande pessoa.
Fiquei com raiva do que ele disse, pois não sou filhote de coruja, mas, para me irritar, ele começou a me chamar de corujinha, tanto que me acostumei com isso e nem estava mais me importando.
Foram ótimos dias os que passei com ele e com meu irmão, ainda mais por causa da ligação que eu tinha com ele — o que um sentia, o outro também sentia. Passaram-se doze anos depois dos acontecimentos que fizeram com que eu e meu irmão conhecêssemos o Oculto, e havia mais ou menos dois anos que meu irmão tinha ficado um pouco estranho, e tenho certeza de que ele conseguia bloquear a nossa ligação, pelo menos sentimentalmente, já que eu não sentia mais os seus sentimentos. Ele disse que era para não me machucar sem querer, mas eu não acreditava nisso; fisicamente continuava igual, continuávamos a sentir o que o outro sentia, mas era só isso. Um dia, Lucas chegou e disse:
— Oculto, o que você me disse há alguns anos atrás ainda é verdade? A parte de proteger a Clara e não interferir nos nossos caminhos? — Sim, sempre foi verdade, e sempre continuará sendo — respondeu Oculto. — Então vou sair e buscar o meu caminho. Cuide da Clara, e não tente me impedir — dizendo isso, ele saiu pela estrada, e nunca mais o vi por um tempo.
Virei-me para Oculto, desesperada, e perguntei:
— Vai deixar ele ir assim? — Eu prometi à sua mãe que não iria interferir nos seus caminhos, nem em suas decisões — ele me respondeu, e, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, continuou: — mas nunca disse que deixaria que ele se machucasse. — Então eu te peço, vá atrás dele e o proteja — pedi ao Oculto. — Eu irei, como você me pediu — ele me disse, beijando a minha testa — mas, quando você mais precisar, estarei lá, e irei te proteger, mesmo que chegue no último minuto. Só não aparecerei se houver outro que estará te ajudando, em quem você confiará, mas tenha certeza de que estarei lá. — Não existe outra pessoa assim, somente você e o meu irmão — digo, respondendo ao que ele disse. — Acredite, há sim — ele me disse. — Ele é uma pessoa que você reconhecerá rapidamente e em quem confiará instantaneamente, e, acredite, será tão confiável quanto eu ou o seu irmão. — Como você pode saber disso? — perguntei a ele. — Lembra quando eu disse que era um pouco mais diferente que os outros humanos? — ele me perguntou, e eu assenti — então isso faz parte daquilo. Sei que você encontrará alguém assim, e, nesse dia, estarei ao seu lado; você poderá sentir a minha presença, mas não me verá, pois estarei cuidando de você e do seu irmão — terminando de dizer isso, ele me abraçou com força e me beijou a testa, e, quando o soltei, ele foi atrás do meu irmão. Esse foi o último dia em que os vi. Sempre que precisava, sentia a presença do Oculto, mas, como ele mesmo disse, não o via, mas sabia que estava perto, cuidando de mim.
Havia mais de um ano que aquele dia tinha se passado, e eu já estava com dezesseis anos, e estava passando por uma cidade quando um bando de monstros mitológicos veio em meu encalço. Já se tinham passado três dias desde que não dormia, por causa dessa perseguição; havia algumas horas que não comia, tanto que nem me lembrava mais da última vez que achei tê-los despistado e consegui comer, só para provar que estava enganada e ter que fugir de novo. Acabei de sair de uma floresta e entrei numa cidade, onde alguns homens também começaram a me perseguir. Devido ao cansaço e à fome, acabei tropeçando e caindo, e me vi nessa situação...
Flashback Off
Lembrando disso, veio-me algo à cabeça: sempre estive envolvida com o mundo mitológico grego, pois só agora percebi que quem tinha levado minha mãe fora o deus menor da morte, e que, ao que parece, eu o veria em breve, pois, ao olhar para a frente, vejo o Minotauro, que já tinha passado pelos humanos e pelos monstros, e estava prestes a me matar com o seu machado. Ao ele abaixar o machado, fecho os olhos, esperando o golpe que nunca veio. Ao abri-los, percebo que o golpe foi aparado por um homem misterioso, um pouco parecido com o Oculto, e, ao mesmo tempo, diferente. Ele se vira para mim, e eu vejo os seus olhos — olhos de um cinza esverdeado, raiados de marrom, olhos únicos, que eu nunca tinha visto antes e certamente nunca voltaria a ver. Mas o que mais me impressionou foi que, quando ele se virou para mim e me olhou nos olhos, eu vi que eles mudaram para um verde-mar, tão calmo quanto o mar em seus melhores dias. Oculto estava certo, pois os olhos dele eram olhos de uma pessoa em quem eu podia confiar, assim como confiava no Oculto, como confiava no meu irmão... olhos iguais aos meus, olhos verde-mar...
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